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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Boa sorte, Dilma. Boa sorte, Serra.

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Outubro, 2010

Ando com muita pena dos dois candidatos à presidência da república. Dia 31 de outubro está chegando e eles cada vez mais inseguros em suas falas. Parecem “pisar em ovos”. A orientação que recebem dos assessores deve ser no sentido de que todo cuidado é pouco, nesta reta final. Se escorregar, pode cair e não levantar mais. Há perigo nas curvas, nas retas, nos gestos, na fotografia, nos temas. Há, sobretudo, muito perigo nas palavras.

Crateras abissais, devoradoras de reputações e projetos, se ocultam sob o terreno inconfiável do dito e do não dito. Câmeras e microfones implacáveis perscrutam semblantes e vocábulos. Há risco nas metáforas, nas elipses, nas silepses, nos eufemismos, nas hipérboles, na prosopopéia, nas metáforas, nas ambigüidades, nos neologismos, nos pleonasmos... É tudo areia movediça sob os sapatos presidenciáveis.

Há que pensar bem antes de abrir a boca, antes de calar, antes de sorrir, antes de ficar sério. “Tudo o que disseres será usado contra ti” neste processo, ó herético! E não contem mais com tempo para recolher sementes aladas dispersas ao vento. Ninguém traz de volta a palavra proferida. Falou, já era! Produzirá desdobramentos caóticos, desgarrados e agudos, pelos mais profundos rincões destes brasis sem porteiras.

Ontem, em Minas, conversando com dois trabalhadores rurais (suados ao sol, eles erguiam uma cerca com mourões e arame farpado), um deles me perguntou sobre a tal “bolinha de papel” dirigida à brunida calva do candidato José Serra. Queria saber se, de fato, outro “artefato” lhe fora endereçado à cachola, já que TV não mostrou com clareza.

Hoje, quarta-feira, 27, dia exato em que rabisco estas mal dispostas linhas, um taxista da zona sul do Rio de Janeiro também deu tratos à “bolinha de papel”. Foi o assunto preferido dele, comigo, entre o Leblon e o Flamengo. Só que, neste caso, com opinião formada sobre a muvuca, o homem estilava ódio por todos os poros.

Observei nestas duas manifestações, distantes na geografia, como um episódio de tão módica relevância tem hoje o condão de alastrar-se pelo país. Com informação não se brinca.

Vem aí, na próxima sexta, o derradeiro debate pela TV. É certo que os candidatos a ele deverão comparecer com ânimos opostos. Serra talvez venha a revelar-se mais incisivo. Enfrenta, como vem acontecendo, um sério complicador: não pode falar mal do Lula, com altíssimo índice de aprovação popular, circunstância que faz de Serra um quase “prisioneiro cultural”.

Como é sua última aparição, certamente será menos ambíguo. Deve considerar que vento forte em alto mar pode produzir ondas mortíferas, mas sem ele o náufrago jamais chegará à praia.

Dilma, com vantagem confortável nas pesquisas, torce contra o relógio. Tende a ficar “na sua”. O Brasil, do lado de cá do monitor, estará considerando cada monossílabo da dupla.

Gosto popular é algo sem muito padrão ou medida. Mas, nem pensar em factoides. Até hoje não houve um que desse certo. A falta de controle sobre a imprensa vem dando ensejo a que ela dissemine raciocínio lógico entre as pessoas e aí tudo fica imprevisível.

A melhor saída para os candidatos talvez seja um esforço para dizer a verdade. Até nisto, entretanto, toda moderação é recomendável. Verdade não rende votos. Ela é chocha e troncha como uma bucha vegetal. Não reverbera nem repercute. Não ajuda ninguém a ser melhor ou mais honesto que o outro. Principalmente porque verdade em boca de político é conceito tortuoso no lugar errado. Não cola.

Seja lá como for a decisão estará nas mãos do povo e será conhecida na próxima segunda-feira. Esse nosso povão criança que a tudo assiste e a tudo assimila pela metade. Vamos a ver. Pela ordem alfabética, boa sorte, Dilma, boa sorte, Serra!
E cuidado com o que vocês vão dizer na frente das crianças.
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(Publicado em 28.10.2009 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/ e no jornal LEOPOLDINENSE)

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