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sábado, 14 de agosto de 2010

Seja Burro, Otto

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Março, 2005


Tenho quase certeza de que li isto no próprio Nelson Rodrigues. Certa feita teria ele, Nelson, comparecido a um sarau de granfinas levando consigo o amigo Otto Lara Resende. Nelson participava de uma mesa redonda na TV onde o assunto era futebol, falava do seu Fluminense, dizia coisas engraçadas, repetia bordões. Tornou-se personagem muito popular, teatrólogo, jornalista, articulista, largamente conhecido e festejado. Numa festa como aquela virava centro das atenções, ficava inteiramente à vontade.

Já para o Otto a coisa complicava um pouco. Embora comunicativo e simpático, era membro da Academia Brasileira de Letras, homem de cultura, escrevia crônicas de qualidade nos jornais, estava mais para intelectual do que para o jornalista. As pessoas talvez temessem não poder sustentar um papo como o Otto. Ficavam arredias. Principalmente os homens. Nelson, sentindo-o gauche no ambiente, fustigava: - “Seja burro, Otto! Tem paciência, seja burro!...”

A leitura desta frase, há uns 30 anos, tem mantido eriçadas minhas antenas para o constrangimento em que se veem pessoas portadoras de alguma luz, tendo que apagá-la para não “conspurcar” o ambiente.  Ou, como estaria na moda dizer, para agirem dentro do “socialmente correto.” No discurso político há fartura de casos. Mas há um exemplo bem mais acessível, todos os domingos, no comportamento do apresentador, Faustão, da TV Globo.

Quem tem o dom de perceber nas entrelinhas sente que Fausto Silva não é bobo. Sujeito inteligente, boa cultura geral, informadíssimo dos fatos da mídia, domina com folga o vernáculo e tem vocabulário rico. Mas passa o tempo todo fingindo que “nem tanto”, nivelando-se por baixo, como a melhor forma de sustentar nível adequado a seu programa popular de variedades. 

Não faz muito tempo, andou perdendo IBOPE para o Silvio Santos. Alguém deve tê-lo alertado:  – Seja um pouco mais burro, Faustão!...  Parece ter encontrado a medida. Quando é obrigado a dizer alguma palavra ou frase mais apurada ele baixa a voz, sorri meio matreiro, afasta o microfone ou vira-se de lado, como se não fosse “culpa dele”.

O próprio Silvio Santos, ali citado, demonstra conhecer esse “caminho das pedras”, de identificação com o público. Só que, no caso do Sílvio, dizem as más línguas que ele não precisa fingir tanto...

Agora que vocês estão avisados, comecem a observar a enxurrada de exemplos, entre artistas e políticos, dessa busca desesperada de identificação com o povão. Entrevistas são um maná. O entrevistado, quando é dos bons, contorna, gagueja, faz de tudo para não parecer afetado, ou seja, inteligente.

O Conde Afonso Celso – dizem − costumava frequentar a Confeitaria Colombo levando sob o braço um tomo alentado, escrito em alemão, e caçoava com os amigos dizendo que “aquilo” era apenas para impressionar as pessoas (“Conheço o meu povo”)... Ele, hoje, não estaria com nada.

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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de março de 2005)  

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