Total de visualizações de página

quinta-feira, 11 de março de 2010

Joaquim Guedes Machado


Foto: Professor Machado - Cerimônia de Graduação, Universidade do Porto.

(Publicada no jornal LEOPOLDINENSE, nº054 - Edição de 15 de março de 2006, Página 8 – Revista e atualizada em 28.02.2010)

O Prof. Joaquim Guedes Machado foi o mais célebre professor do Colégio Leopoldinense, em todos os tempos, e, por longos anos, titular absoluto da cadeira de matemática. Nasceu na cidade do Porto, Portugal, a 14 de setembro de 1891.

Fez seus estudos iniciais no Porto e Penafiel e o curso secundário no Liceu Central de Braga. Cursou engenharia, graduando-se Engenheiro Geógrafo pela Universidade do Porto.

De família da aristocracia portuguesa, descendia do Visconde de Balsemão, Conde de Almoster, Duque de Marguerite e da Duquesa de Sintra, prima de sua mãe. Seus pais eram Luis de Souza Pinto Cardoso Machado e Maria José de Souza Guedes Cardoso Machado. Sua mãe, cantora lírica amadora – famílias ilustres nem sempre prestigiavam a profissionalização artística de seus filhos.

Em 1910, tendo sido proclamada a República em Portugal, os membros da monarquia cederam seus lugares aos republicanos. Foi a ocasião em que o cadete do Regimento de Cavalaria Real, sediado no Porto, Joaquim Guedes Machado, deixou Portugal a 30 de setembro de 1913, chegando de navio ao Rio de Janeiro no dia 17 de outubro de 1913. Como recordação da família trouxe algumas jóias, a quais guardava com muito desvelo, inclusive um colar de pedras azuis que havia pertencido à sua mãe.

No Brasil cursou Direito pela Faculdade de Niterói (RJ). Seu primeiro trabalho, todavia, foi como auxiliar de outro engenheiro numa Usina de Tombos do Carangola, em Minas Gerais. Interessado, no entanto, prioritariamente na cultura, tornou-se logo proprietário e diretor do Ginásio Carangolense e fundador da Escola Normal daquela cidade, no período de 1916 a 1918.

Casou-se com D. Laura Barroso Machado (em solteira, Laura Lambert), com quem teve os filhos: Luís Fernando, Joaquim, José, Cecília e Aristides.

Em 28 de abril de 1919, a convite do Prof. José Botelho Reis, diretor do “Gymnásio Leopoldinense” e com quem Machado era muito identificado, transferiu-se para Leopoldina. Enviuvando-se, veio a casar-se em segundas núpcias com a Profa. Judith Lintz, aos 19 de janeiro de 1939. Deste casamento teve as filhas: Therezinha Lintz Guedes Machado e Maria Aparecida Lintz Machado Silva.

Seu magistério em Leopoldina estendeu-se por 44 anos ininterruptos. No “Gymnásio Leopoldinense”, depois Colégio Leopoldinense (hoje Escola Estadual Professor Botelho Reis) e no Colégio Imaculada Conceição, ministrou aulas de Matemática, Inglês, Português e Estatística.

Matemática veio a ser, sem a menor dúvida, a disciplina que o tornaria famoso, um mestre legendário.

Homem metódico e rígido, foi cumpridor intransigente de seus deveres e exigente, inflexível mesmo, em relação à atenção e à dedicação ao estudo por parte de seus alunos. Um vocacionado para o magistério. De múltiplas culturas, versava também o Francês e o Espanhol. Aposentou-se, compulsoriamente, em setembro de 1961, ao completar 70 anos de idade.

Já ao fim da vida assim se manifestou em relação aos inúmeros discípulos seus, àquela altura espalhados por todo o país:
"Recordo-me sempre dos alunos que, por seu devotamento aos estudos e por sua conduta edificante, tornaram suave e profícua minha missão de mestre, constituindo-se credores de minha imorredoura amizade e saudade".

Afeito à fé cristã, acreditava na eternidade da alma:
"A alma, sendo imortal, a morte é apenas o encerramento da vida, dos fenômenos vitais e o início de uma nova vida, que é eterna. A existência é uma viagem que tem por fim a vida, isto é, uma peregrinação através de áridos desertos, por caminhos íngremes e pontilhados de urzes, rumo ao reino de Deus, o qual só será atingido de acordo com as normas da doutrina cristã".

Machado, como foi dito acima, descendia de linhagem fidalga. Seu nome completo seria Joaquim de Souza Guedes Cardoso de Menezes Machado e Vasconcelos Paes Pinto de Ornelas. De tal particularidade, entretanto, seus alunos nunca souberam. Humilde e discreto, o Prof. Machado primava pela modéstia, mantendo absoluta reserva sobre sua vida familiar.

Destacadas personalidades da vida nacional, através dos anos, foram seus alunos e dele cultivam as melhores lembranças.

Suas filhas, as cultas e estimadas professoras, Terezinha e Cidinha, de cuja amizade temos orgulho de privar, nos contam um episódio emocionante da juventude do mestre.

Cursava ele o secundário como aluno interno no Liceu Central de Braga, em Portugal.
A destinação do jovem Joaquim a um “Colégio Interno” se explica pelo hábito da época: era comum, usual mesmo, os filhos das famílias mais distintas estudarem em internatos.

Em tal circunstância, como todos os alunos internos da instituição, o menino Joaquim ganhara seu número de referência ou chamada: Aluno “118”.

Naturalmente, como de praxe nos internatos escolares, por ocasião dos feriados mais longos e, principalmente no início das férias, os alunos internos eram apanhados no colégio por seus pais ou responsáveis.

No Liceu de Braga, assim que chegava o responsável por um aluno era este imediatamente convocado pelo anúncio tonitruante de seu número, através de um megafone. Devia, então, descer dos aposentos dos internos para ser liberado com o familiar que viera buscá-lo.
Da portaria do colégio, um auxiliar administrativo ou instrutor direcionando o amplificador de voz na direção dos dormitórios, anunciava: “Venha o número tal!”.

Fácil imaginar o júbilo dos rapazinhos quando seu número soava, trazendo a boa nova de que, lá embaixo, estaria seu pai ou sua mãe a esperá-lo...

Nesse passo, de um em um, todos desciam, dirigiam-se a seus lares, passeavam e voltavam, quando do reinício das aulas. Alegres e cheios de histórias para contar.

Um daqueles meninos, entretanto, durante longo período de tempo, não foi apanhado no colégio por nenhum parente: o aluno Joaquim Guedes Machado. Longos feriados ele os passou sozinho em seu exílio escolar. Alguma coisa aconteceu de muito importante na vida de seus pais, que os impediu de ir buscar o filho. Com todos os colegas em suas casas, o internato às moscas, o garoto permaneceu no colégio, recluso e só.

Seguidas vezes viu o último colega descer com o anúncio de um número e ele seguia na espera vã de que o número “118” viesse a ser anunciado lá de baixo. Nada!

Aquilo certamente não duraria a vida toda. Vieram as férias de fim de ano. Desce o primeiro aluno interno, desce outro, mais um, outro mais e... O megafone anuncia:
-Venha já o 118!

Aleluia! Vibrou a alma do garotinho apreensivo. Alguém, finalmente, viera buscá-lo! Já não estava só no mundo!
Desceu a escadaria com o coração aos saltos de felicidade... E aquele instante de júbilo ficaria marcado para sempre na vida de Joaquim Guedes Machado!
"Venha já o 118" ecoaria em sua memória para ao resto da vida.
-Venha já o 118!!!

Meu mestre muito estimado, meu professor de matemática na “Sala-5” do Colégio Leopoldinense, de 1951 a 1957, Joaquim Guedes Machado, faleceu de ataque cardíaco, em Leopoldina, na manhã de 28 de maio de 1974 (A Gazeta de Leopoldina daquele mês registrou o óbito como ocorrido no dia “27”, mas as filhas, Terezinha e Cidinha nos confirmam o dia 28 de maio). O então prefeito, Osmar Lacerda França (Sô Liliu), tão logo tomou conhecimento da morte do venerado educador decretou luto oficial no município por três dias.

Executivo e Legislativo municipal homenagearam o grande lente de nossa história municipal sediando as cerimônias fúnebres no salão nobre da Câmara Legislativa. Discursaram os lideres das bancadas da Arena e do MDB – os dois partidos da ditadura militar então vigente - a colunista Daura Rocha Barbosa de Rezende, o Prof. Geraldo de Vasconce1os Barcelos e o pintor Funchal Garcia - seu amigo de longos anos. Todos invocando a trajetória gloriosa e a contribuição destacada do professor exemplar à cultura leopoldinense - por longos anos referência educacional no Estado de Minas Gerais.

O sepultamento se deu às 16 horas, no cemitério de Leopoldina, com a presença de grande número de pessoas, em sua quase totalidade ex-alunos do Prof. Machado. Seu colega de magistério o professor, advogado e poeta, Prof. Geraldo de Vasconcelos Barcelos, diante da urna funerária, declamou este soneto de sua lavra:

Sol sem ocaso

Aqui, diante de ti, do teu corpo sem vida,
frente a este caixão, o teu berço final
- teu irmão pela Fé, aí a despedida
da amizade e do ensino, o teu grande ideal.

Junto dos teus está a urbs compungida,
a que tanto serviste, em sofrimento igual.
Deste torrão fizeste a cidade querida,
pedacinho do teu, do nosso Portugal.

Despede-se de ti o teu velho Colégio,
castelo onde brilhou teu talento de escol
de cujas colunatas foste o fulcro egrégio.

Teus ex-alunos, livros vivos... É o legado
que tu deixas por fim. Morto, fulges. És sol.
- Esta herança é perene. Adeus, Guedes Machado.

₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
Nota: Agradecemos os dados utilizados nesta pesquisa às filhas do Professor Machado, Therezinha Lintz Guedes Machado, professora de matemática, e ex-funcionária da ONU em Genebra, Suiça; e Maria Aparecida Lintz Machado Silva, professora de português - ambas aposentadas e residentes em Leopoldina. Inclusive o relato do emocionante episódio "Venha já o 118".
Valemo-nos, ainda, da matéria publicada na Gazeta de Leopoldina, edição de maio de 1974.

₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.