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quinta-feira, 11 de março de 2010

Amor sem Ética #

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Março, 2010

Hoje estou me sentindo uma pessoa deplorável. Imaginem vocês que por absoluta falta de assunto, estou apelando para uma inconfidência. Coisa de mau caráter, mesmo. De sujeito desleal que eu nunca pensei que fosse. Vou abrir para vocês e para a torcida do flamengo a vida íntima de dois amigos meus. Azar! A crônica urge. Segredo, que cada um guarde o seu.

A história é de uma banalidade que constrange. Mas ninguém escapa ao meio onde vive. Sou um despojado no ambiente social e na geografia.

Trata-se de uma quizumba sobre “ética no amor”. Isto existe? Estaria uma pessoa apaixonada moralmente obrigada a passar numa peneira ética as circunstâncias de sua escolha amorosa? Ou a vocação humana de buscar o prazer e fugir da dor justifica tudo, tendo a paixão a seu prol a prerrogativa da cegueira?

Meus personagens se enredaram nesse baralho. Não devia, mas vou contar o caso. Ele anda atravessado na minha garganta rabiscadora há muito tempo. Vinha relutando em colocar a boca no trombone para não parecer fofoqueiro ou até um impostor na área dos letristas de bolero. Mas vamos lá.

O casamento do Vilhena com a Julinha já tinha dado o que tinha pra dar. Chegara àquela fase penosa do “embora juntos cada qual tem seus caminhos”, das madrugadas de Dolores Duran no Beco das Garrafas, em Copacabana. (Olha o bolero aí!)

O problema da separação - dizia - estava nos dois filhos, ainda na pré-escola, em idade muito suscetível a traumas, a recomendar sacolinha de filó no gestual paterno. Só que isto desgasta, atormenta o espírito. Desabafar com um amigo, com um colega de trabalho, às vezes ajuda. Divide o peso.

E foi este o remédio catártico escolhido pelo Vilhena. Escancarou o coração e a alma para o Pedrosa, velho companheiro de bocha, solteirão convicto.

-Não tem jeito, Pedrosa. Com a Julinha não dá mais. Meu amor por ela acabou. É uma mulher e tanto, rara mesmo, bonita, culta, companheira e doce amante... Você não imagina a mulher maravilhosa que ela é. (E se multiplicava em mil elogios à esposa) Mas quando o amor acaba, meu velho... Problema são os filhos e aquelas contas mensais com código de barras, entende. Dois problemas e um ordenado! Já fiz os cálculos. Não dá pra sair em frente com a metade da minha indigência e a Julinha com a outra metade. Vai “sobrar” para as crianças! Sei não, cara.

Esses queixumes já iam pelo segundo ano consecutivo, quando o Vilhena entrou em órbita de vez. Uma paixão avassaladora pela nova secretária lancetou o tumor. Tomou, com a moça, um avião para a Serra Gaúcha e, de lá, despediu-se de Julinha por e-mail:
-Não dá mais, Julinha. Sobre as crianças, a gente decide depois. Estou dando uma “reiniciada” no meu PC. Tchau.

Claro que Julinha, mulher inteligente, já esperava por isto. O que a surpreendeu foi a pronta visita que recebeu, do Pedrosa. Já observara sinais do interesse dele por ela, mas nada que indicasse proximidade de insinuação mais afoita. Avaliou mal. O pretexto foi colocar-se ao inteiro dispor dela para o que fosse preciso, oferecer-lhe os telefones, blá, blá... Em poucas semanas estavam juntos.

Pedrosa realizava um sonho reprimido há anos. Sempre gostou de Julinha, mas apaixonara-se exatamente no caudal das revelações íntimas do Vilhena. Este, esquecido da contabilidade doméstica e dos carnês, brindava com vinhos generosos de Bento Gonçalves a entrada de uma nova e encantadora mulher em sua vida - a jambetíssima secretária, Helô.

Final feliz para todos. Mas a amizade entre os dois amigos ficou estremecida.
Vilhena jamais conseguiu perdoar o Pedrosa:

-Ele se valeu de informações privilegiadas sobre Julinha; não foi ético - dizia.
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(Publ. em 11.03.2010, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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