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terça-feira, 15 de setembro de 2009

Tio Candim #

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Setembro, 2009

Na roça onde fui pequeno, eu, meus irmãos e os filhos dos ajudantes de meu pai formávamos, lá pelos anos 50, uma turminha feliz entre os sete e os doze anos de idade. Tínhamos, segundo os hábitos rurais da família, tarefas a cumprir, além da freqüência à escola pela manhã. Um cuidava do moinho de fubá, outros zelavam por bezerros e suínos, alguém de relho à mão mantinha o trote dos cavalos no engenho de cana, por aí. À noite, se não convinham os programas da Rádio Nacional ou da Rádio Tupi, do Rio de Janeiro (as que melhor alcançavam a Mata Mineira), era correria pelo terreiro e possíveis histórias do Tio Candim.

O velho Candim trabalhava com meu pai. Em algumas ocasiões como contratado, noutras como parceiro em lavouras. Solteirão, alto, magro, vivia só numa casinha de dois quartos. Não era tão idoso que compusesse a clássica figura do preto-velho, mas talvez gostasse de representar tal papel, sendo exatamente por aí que ele haveria de colorir nossa infância com suas caçoadas e lendas. Não tinha, aliás, a pele muito negra, sabendo mais ao café, que somada ao nariz mourisco, boleado, davam-lhe aspecto de Quixote nativo, sem montaria e sem Sancho.

No batente, Tio Candim plantava milho e feijão. Arroz não, porque a várzea, “nas águas”, ficava pesada demais para sua enxada sexagenária. Cumpria hábitos regulares: o trabalho desde cedo, no fim do dia o banho, o canivete no fumo de rolo, o baita cigarro de palha, a rede para cismar. Mas se a noite enluarava amena e propícia, podia se achegar “à roda da casa” e trazer pra gente sua prosa novidadeira e suas pilhérias, sempre balizadas ao final pela gargalhada larga: Uáar-cár-cár!... O que também nos fazia rir “feito bobos”...

Semi-alfabetizado, mas muito fino nos modos, Tio Candim era comunicativo, prestante, com todos repartindo a alegria de seu pequeno mundo. Falava rouco, como que arredando as sílabas na garganta.

Ah, sim, tinha talentos esotéricos. Não faltava quem o requisitasse para rezas poderosas ou benzeções. Receitava chás, dava conselhos e informações precisas sobre as fases da lua, suas influências sobre as pessoas, os animais e o tempo. Conhecia as tretas da natureza no plantio e na colheita, “ciências” que − dizia − vinham da leitura do Almanaque. O Almanaque Capivarol.
- Para conhecer a ciência das coisas tem que ler o Almanaque!

Pela veia artística, Tio Candim era ainda cantador de calangos, cateretês e tocador de berimbau. Com a voz afinada pelo eco do arame na cuia, cantava:


-Quando eu vim da minha terra / eu passei por Laranjá / pensei que fosse laranja / e era o nome do lugar!
-Na disputa do merguio / minha sogra é que ganhou / merguiô tem vinte ano / e até hoje num vortô!
-O meu pai foi home véio / tocador de berimbau / minha mãe, uma coruja / mora no oco do pau!
-Meu avô chama João Caco / minha avó, Cáca Maria / eu, no meio de tanto caco / eu sou fio da cacaria...

Não respondo pela originalidade dos versos de Tio Candim, apenas guardo na memória dezenas dessas redondilhas como produto pessoal de seu repentismo.

Por aquela época devia contar uns sessenta e poucos anos. Era, entretanto, lépido na marcha, empinado e cabelos apenas parcialmente grisalhos. Usava funda para a hérnia inguinal, de fabricação própria, com elástico de câmara de ar de automóvel. O “incômodo” não era perceptível; se ele não vivesse ajeitando aquilo a gente nem saberia.

Nas paredes de sua casinha de tijolos e telhas de bica, com sala, quarto e cozinha, pendurava miuçalhas como cuités, cipós medicinais, casca d’anta, cumbucas tortas, colares de escamas de cobra, sementes do cipó Santo Inácio, nozes de cotieira, raízes, amarrados de carqueja e... berimbaus. Sempre o berimbau.

À noite, a gente espreitava o outro lado do córrego quando cessava a música, ele apagava o lampião de querosene e descia pelo trilho em direção à sede da fazenda. Dava para adivinhar-lhe os passos pela brasa do cigarro, linhazinha vaga no escuro, tracejando na várzea um risco de vagalume. Assomando o terreiro ele mandava a senha, carregando nos graves:
- Macumbeiro véio! E a gargalhada redonda: Uáar-cár-cár....

-Molecada, qual é a arma mais perigosa do mundo – a garrucha ou a foice?
Claro, Tio Candim, a garrucha é mais perigosa.
- Nada disso. É a foice, seus moleques. Vou contar pra vocês um “causo sucedido”:

Um valentão do Corgo Santana, arto dos Caparaós, garrô de querer porfiar comigo. Só porque tinha fama de bom na garrucha, ele foi me atiçando, eu fui ficando mordido, mordido, até que um dia eu dei decisão nele.
- Pode vim de garrucha que a minha arma é a foice. Ah, ele topou! Na porta da minha cozinha, tinha uma pedra da altura dum cavalo. Eu montei em riba dela de tardinha e fiquei a noite toda amolando minha foice. Na manhã do dia seguinte a pedra gastou, que não dava um palmo de altura... Mas a foice tava amolada que nem uma navalha!

Foi quando o safado me apareceu de riba da porteira, já sacando a garrucha. No que ele mirou eu virei o gavião da foice de banda pra ele, que a bala bateu ali e aprumou, pra azar dum urubu que já desceu emborcado no chão. No que pipocou o segundo tiro eu já tinha arrolhado a saída do cano da garrucha dele com o cabo da foice, “modo que” a bala virou arrebite no toro da garapa.
Ai eu gritei pra ele:
- É a minha vez, vagabundo! Rodopiei a foice no vento e, no que ela desceu, a cabeça dele já vacilou fora do pescoço e ainda roncou na goela: - Ocê ganhôôô!..

Boa, Tio Candim, muito boa esta! Tem outra? Tem outra?
-Depois eu conto, depois eu conto, mas é conforme eu digo: tudo causo sucedido, eu não invento nada. Palavra de Cândido Nicolau Gonzaga, macumbeiro véio, natural do Corgo Santana, arto dos Caparaó, onde tem um moinho tocado a vento!

Tio Candim, e quando não tem vento, o moinho para de moer?
- Não, eles colocam os cavalos, uai!
Mas, Tio Candinho, moinho de vento não tem almanjarra pra cavalo puxar, só tem hélices!
- Ocês não entenderam, os cavalos é só pra levantar o rabo e “ventilar” no cata-vento...
Uáar, cár, cár!

Como finalizam, na TV, os apresentadores de talk shows, eu conversei aqui do meu querido Tio Candim, que andava a passos ligeiros pelos caminhos da Onça, distrito de Leopoldina, Minas, até os idos de 1951. Aparentava boa saúde quando veio a falecer silenciosamente, em sua casinha, surpreendido por um AVC.

Estas notas são absolutamente inúteis e sem sentido para ele. De qualquer forma, Tio Candim − você, aí de cima − tente aceitar com meio século de atraso o abraço emocionado deste moleque que ficou grande e sabe direitinho o quanto te deve.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicado originalmente na Gazeta de Leopoldina de 26.8.2002 e, a 01.09.2011, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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