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sexta-feira, 9 de abril de 2010

A Opção do Medanha

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Abril, 2010


Sexo era a coisa mais importante na vida do Medanha. Acima de tudo o tema principal, senão único, de suas conversas. No trabalho, nas festas, no chopp diário do boteco do Sô Manoel, sua “pièce de résistance” era a conquista de mulheres e, consequência seguinte, seu vigoroso desempenho ao tálamo (Perdão amigos, por este “tálamo”. Não custava dizer “na cama”, mas desempenho ao tálamo não é um primor de retórica erótica?).

Medanha sempre se quis provar um grande “performer” de alcova. Inclusive em casa. Sim, porque se era para afirmar virilidade demolidora, a discrição devida pelo menos em relação à esposa, também ia pro brejo. Intimidade doméstica virava tira-gosto na mesa do boteco, para zoada geral dos pinguços. Um crianção o tal Medanha.

Pobre Jupira, a esposa! Mulher dedicada ao lar, aos filhos, religiosa − não diria bela, mas moçona sacudida − servindo de “escada” para piadinhas lascivas na boca de bebuns. Nisto, o Medanha, que Deus o tenha, era meio canalha.

Imaginem que um dia o sacana contou para nós que, na parede do quarto dele, bem sobre a cabeceira da cama de casal, dependurara um grande retrato oval, do sogro com a sogra, para que os velhos pudessem “testemunhar”, ali de cima, a cena conjugal da filha!
– Gosto que eles participem do desempenho da felina − exultava depravado.

Se alguém imagina que frivolidades do gênero enfadam com o passar do tempo, engana-se. O que é vulgar não perde interesse nem atualidade. Medanha envelheceria no ridículo. Mesmo, como era natural, tornando-se cada vez menos capaz do que propalava.
– Conta uma aí, Medanha. Será que você jogou a toalha, não pega mais ninguém? 

Deplorável o idoso que perde a noção do tempo. Avançado nos 70, é claro que a máquina do Medanha já devia estar conspirando. O olhar janota perdia frescor, a barba apresentava falhas esquecidas pelo aparelho de barbear em mãos trêmulas... Pois nem assim o danado parava de falar de mulher. Deixem estar que para os bons observadores os casos, ultimamente, vinha apresentando furos reveladores do declínio.

Ora, bêbado bebe, mas não é bobo. E boteco que se presa gosta muito mais de piada de brocha do que de garanhão. Começaram a encurralar o Medanha. A apertar para obrigá-lo a confessar. Cansou de se esquivar-se. Com a memória traindo cada vez mais, as contradições foram escapando até que o Medanha concluir que o melhor seria dizer a verdade.

– Bom, pessoal, vou ser sincero: o brinquedo não quebrou, mas passou a entortar o que dá no mesmo. Nem o tal comprimidinho azul resolve. A coisa vem lá do “mais profundo do meu psicológico”. Nunca na vida pensei que um dia olhar para mulher com o mesmo desinteresse que olho para homem. Pois ando assim. Mulher ficou monótono. Enjoativo quase seria a palavra.

Não sei se é compensação, que diabo seja, mas eu passei a me aborrecer com a presença de mulher. Virei apóstata da feminilidade. Para mim, mulher deixou de existir. Como disse John Lennon: o sonho acabou. Abjuro-as. Não olho para mulher, não falo com mulher. Que desça sobre todas elas o meteorito que proscreveu os dinossauros.
– Que discurso mais besta, Medanha. Se não servem pra ti, deixa pros outros, ô cara! Antes tu não gostavas delas?

– É que eu estou muito puto. Você tem uma ideia do que é, de repente, o sujeito deixar de ser homem? Se eu fosse gay, tudo bem; ia procurar minha turma. Mas, não, eu nasci homem. É como homem que a minha cabeça funciona.

– Aliás, vim aqui hoje pedir um favor a vocês. Ouçam. Vocês sempre foram meus amigos, companheiros diletos de copo e de papo. Por caridade, não me neguem o que lhes vou pedir. Juntem estas três mesas aqui, por favor. O boteco tá vazio, vamos improvisar um teatrinho. Aqui, bem no meio do bar, as três mesinhas, uma colada na outra. Agora, com licença. Vou me deitar em cima delas e ficar duro como um defunto. E vocês vão rezar. Vão carpir o morto. Aliás, os mortos. Explico:

– Rezem pela anemia morteira do meu glorioso instrumental libidinoso, que tão deleitoso me foi e se esvaiu qual fumaça de uma derradeira bagana de cigarro mata-rato. Por bondade, não riam, sejam bêbados piedosos. Orem pela alegria que lhes passei com minhas histórias eróticas, pelo feliz que fui com as mulheres que tive, e também com as que não tive, mas menti para que juntos pudéssemos transformar frouxidão etílica em sorrisos.

– Ergam uma prece à vitalidade estiolada de minhas mucosas sem viço, às minhas glândulas inativas! Pela felicidade que o sexo nos facultou com sua presença constante neste bar, em pensamentos, copos e palavras.

Dito isto, Medanha cumpriu sua parte na cena esticando-se sobre o tablado com a convicção dos obstinados e assumiu sua melhor postura defunta. O companheiro de golo, Lauro do Achado adiantou-se e, de mãos postas, pronunciou uma oração à sua divindade anídrica:

– Gibirita, gibiritoca, feita de uma cana torta e moída no “engenho de vorta” que o gambá arrodeou. O alambique é seu pai e o engenho é seu avô. Louvor ao capeta show que a cachaça batizou.
Contemplo no fundo da taça, cheia de amor e graça, a mulher que amei e hei de amar: CACHAÇA!

Ao que os ignaros retorquiram:
– Aaaméém! E riram, e brindaram com pinga, e fizeram reverências, mesuras e salamaleques aos muitos mortos do morto e, pouco depois, alguns já dormiam pelos cantos.

O elemento surpresa é da essência do teatro. Madrugada entrante, Sô Manoel vem lá de dentro interrompendo a pachorra da freguesia.
– Acabou a brincadeira, pessoal. Vou fechar o bar.

Ergueram-se lentamente, mas o “morto” continuou representando. Suspeitou-se rigidez. O bebum João Percata percebeu uma fragrância meio ácida provinda do féretro. Manezin Cabeleira opinou pelo cheiro de cianeto...
Ixe! É formicida sim, garantiu Abdias Catulé.

– Pois não foi que o pândego do Medanha desistiu mesmo de seguir vivendo sem sexo.

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(Publ. em 08.04.2010, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

Um comentário:

  1. Li seu causo no Site Lima Coelho:
    http://www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=3670

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