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sábado, 11 de maio de 2013

O Bananal do Magela


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Abril, 2013


Filho de ruralistas, Magela esteve perto de realizar um sonho. Deixar a vida de serventuário da justiça carioca, mudar-se para um sítio e cuidar da plantação de bananas.

Necas de levantar todas as manhãs, pegar ônibus, enfrentar engarrafamento e costurar processos. Às favas com advogados reclamando andamento dos feitos, da lerdeza na expedição de ofícios, delongas na conclusão dos autos ao juiz...  Ora, ora – pensou – são mais de doze milhões de habitantes, no Rio, ávidos de encontrar bananas, madurinhas, nas feiras e nas mercearias. O negócio é plantar banana.

Um sitiozinho na Serra do Mar, recentemente recebido por herança do sogro, vinha a calhar. Magela havia lido e deglutido que bananeiras plantadas com técnica são altamente rentáveis, já a partir do segundo ano. Aprendeu também que a Região Serrana, onde entrou a ser feliz proprietário do “Sítio Madre Ceres”, possui clima bastante apropriado ao cultivo da apreciada fruta.

Portanto, adeus prateleiras empoeiradas, dossiês mal enjambrados, soltando as folhas e as capas, adeus papelada, adeus carimbos, adeus tramitações melífluas! Vamos nessa! Ar puro, paisagem, canto de pássaros, arrulho de cachoeira e trabalho compensador nas atlânticas faldas serranas.  Demitiu-se na esteira do sonho.

Só que a realidade escapou um pouco aos cálculos do Magela. Faltou, por exemplo, programar a “colocação” do produto.  Quando veio a primeira safra de bananas nosso novel agricultor alugou caminhão, encheu-o até onde pode e desceu a serra na direção do Rio de Janeiro. Parou no Mercado São Sebastião onde pensava vender toda a carga de uma só vez... Deu zebra!

– Não negociamos de improviso, amigo, temos nossos fornecedores – disseram-lhe.

– Ih, por esta eu não esperava. Terei que vender estas bananas, direto, nos supermercados – pensou o Magela.

Mas o obstáculo continuou:

– Impossível a negociação, meu senhor. As compras deste supermercado são programadas pela sede, com antecipação e fornecedores tradicionais.

Putz! – lamentou. Vender pequenas quantidades, em quitandas, não dá. Não vai compensar o diesel do caminhão.
Já sei – decidiu. Vou com esta carga para a Central do Brasil vender bananas a granel para o público.

Em frente ao Panteão Duque de Caxias subiu na carroceria e começou a apregoar bananas “a preço de banana”. Juntou gente. Foi virando ôba-ôba! Em poucos minutos encostou o primeiro veículo policial de pisca-alerta ligado... O segundo... O terceiro já era um camburão...

– Documentos da viatura e a “autorização” para venda de produtos alimentícios em via pública.

– Não tenho autorização alguma – confessou o transgressor.

– Pois então puxe esse caminhão daqui senão o senhor será preso por comércio ambulante ilegal – bradou a autoridade.

Enfezado, o Magela se desesperou:

– Não posso vender, mas posso dar as bananas! Alô minha gente – passou a berrar:

– Bananas de graça! Bananas de graça! Bananas de graça!

E, de cima do caminhão, atirava bananas às pencas na cabeça dos atarantados populares da Central.

Encurtando conversa. O Inquérito Policial por “perturbação da paz pública” deu uma dor de cabeça danada ao agricultor/réu, mas veio a ser arquivado sem maiores consequências. Talvez a Promotoria tenha se sensibilizado com o drama do ex-serventuário.

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(Publicado a 19.05.13 em http://www.bloghetto.com.br/ )

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