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Jair de Almeida Lacerda ou, como os leopoldinenses carinhosamente preferem a ele se referir, Sr. Jair, verdadeira reserva moral da municipalidade, um homem sem mácula, de conduta reta e exemplar, nasceu no dia 1º de maio, do ano de 1929, em Aracati, distrito de Cataguases. É um dos nove filhos de Manoel de Almeida Lacerda e Da. Rosa de Almeida Lacerda.
Fez o curso primário no Grupo Escolar Ribeiro Junqueira, com a professora Aldemarina Fajardo e, posteriormente, estudou à noite com os professores Enoque Araújo Barbosa e Pedro Silva.
Aos 9 anos de idade foi engraxate nas praças da cidade. Aos 10 anos, jornaleiro do Sr. Antônio Geraldo Jorge. Aos 11 anos, por volta de 1940, tornou-se balconista da Padaria Lamarca, num depósito da Rua Barão de Cotegipe, 52, exatamente onde atualmente funciona a Telemar.
Posteriormente, trabalhou na “Farmácia Santa Rita”, como faxineiro, estabelecimento onde teve a oportunidade de “praticar” no ramo da venda de remédios até 1948. Naquele ano, tornou-se sucessor de José de Paula Netto em sua farmácia da Praça da Bandeira, já então com o nome de “Farmácia São José”.
Em 1949, vendeu a “Farmácia São José” para Juamiro Moura Mendonça, que trocou-lhe a designação para “Farmácia Nossa Senhora Aparecida”. Abriu então na Rua Tiradentes, nº214 a “Farmácia São José” que passou a funcionar - e há 51 anos vem funcionando - na Rua Tiradentes, nº 253, endereço onde os Sr. Jair trabalhou por meio século, ou seja, até o ano de 1999.
Jair de Almeida Lacerda casou-se no dia 05 de outubro de 1953, em Leopoldina, com Da. Celina de Oliveira Nogueira. Teve três filhos: Eduardo Nogueira Lacerda, residente em Belo Horizonte, casado com Heloísa Junqueira Lacerda, que lhe deu os netos Rafael e Felipe; Fernando Nogueira Lacerda, residente em Leopoldina; e Jacqueline Nogueira Lacerda, casada com Clóvis José Fajardo Vasconcelos, residente em Leopoldina.
Ingressou na carreira política em outubro de 1962, quando eleito Vereador pela primeira vez. Em 1976, elegeu-se Vereador pela segunda vez. Destaca o Sr.Jair que, por essa época, o cargo de vereador não era remunerado.
No ano de 1982 foi eleito Vice-Prefeito de Leopoldina por seis anos, compondo com o Prefeito, Sr. Osmar Lacerda Franca, o Sr. Liliu. No decorrer do mandato, assumiu como Prefeito interino, durante 15 dias, na ausência do titular que se ausentou para casar-se. Voltou à cadeira de Prefeito no final do mandato de Liliu, cabendo-lhe fazer a transferência do cargo o novo titular eleito, o médico Márcio Freire.
O Sr. Jair, depois de tantos anos de trabalho em sua Farmácia, de tantos serviços prestados à população leopoldinense mercê de suas qualidades de profissional e homem público atuante e generoso, sempre à disposição dos menos favorecidos pela sorte, tornou-se agora um tranqüilo agropecuarista.
É a sua segunda profissão – como alega - desde 1968, ocasião da compra de sua “Fazenda Santa Maria”, no distrito de Piacatuba.
Pleno de disposição e saúde, auferindo os louros de uma trajetória edificante, pode sempre ser visto pelo centro de Leopoldina, passeando entre nós seu exemplo de homem bom e vitorioso.
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domingo, 14 de março de 2010
sexta-feira, 12 de março de 2010
Judith Lintz Guedes Machado

Foto: Da. Judith, década de 1950.
A professora Judith Lintz Guedes Machado inscreve-se entre as mais célebres figuras do magistério leopoldinense. Professora de português, no Colégio São José e no antigo Gymnásio (hoje Escola Estadual Professor Botelho Reis) por longos anos, tornou-se, pela seriedade de seu trabalho, pelo seu inegável talento e carinho com os alunos, uma mestra inesquecível.
Provinha de uma família de educadores. As irmãs, Alaíde e Calíope foram também professoras e, com Judith, fundadoras do tradicional Colégio São José, hoje extinto, que sempre funcionou no prédio da família, à Rua Barão de Cotegipe, 101, em Leopoldina. Não obstante, todos os sete irmãos de Da. Judith estiveram, de alguma maneira, ligados a atividades culturais em Leopoldina.
Judith Lintz, a “Da. Judith”, como era conhecida por seus alunos, nasceu na cidade de Aiuruoca, Minas Gerais, aos 19 de abril de 1897, tendo falecido em Leopoldina no dia 09 de março de 1990. Cumpriu, portanto, quase um século de dedicação à família e à educação.
Era filha do Dr. José Martiniano Barroso, que fora diretor do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira, até o ano de 1923, quando teve morte prematura, e de Da. Ignácia de Souza Lintz.
Em sua vida docente, lecionou, além de Língua Portuguesa, Moral e Cívica e História.
Casou-se em Leopoldina, aos 19 de janeiro de 1939, com seu colega de magistério, o professor Joaquim Guedes Machado, em segundas núpcias deste.
Machado enviuvara-se de Laura Barroso Machado (Laura Lambert, nome de solteira), com quem tivera cinco filhos: Luís Fernando, Joaquim, José, Cecília e Aristides.
Da. Judith esteve casada com o Prof. Machado por 35 anos, até o falecimento deste em 28 de maio de 1974. Dessa união são as filhas, Therezinha Lintz Guedes Machado, professora de matemática, e ex-funcionária da ONU em Genebra, Suiça; e Maria Aparecida Lintz Machado Silva, professora de português - ambas aposentadas e residentes em Leopoldina.
Foi, Da. Judith Lintz, uma mulher ativa e estudiosa. Gostava de piano e de leitura. Costumava dizer que "para se afastar da solidão bastava ter Deus no coração, pessoas sinceras ao lado e um bom livro nas mãos”. Tinha como suas marcas mais evidentes a simplicidade nos gestos, a bondade e um ostensivo carinho por seus alunos.
Pela importância e expressão de seu nome na história do magistério leopoldinense, ele é hoje designação de um importante educandário inaugurado em dezembro de 1997, na Av. dos Expedicionários, Bairro Bela Vista, em Leopoldina. É a “Escola Municipal Judith Lintz Guedes Machado”.
Tive a felicidade de ser aluno de Da. Judith, entre 1950 e 1957, na cadeira de Português, do Colégio Leopoldinense. Suas aulas eram sempre ministradas na Sala-3. Impossível não recordar a ênfase que Da. Judith dava ao estudo da análise sintática. Os alunos tinham que aprender, ainda que a custo de muita repetição, a dissecar corretamente os termos essenciais de uma oração, os termos integrantes, acessórios, vocativo – tudo na ponta da língua.
Por isto e por muito mais, Da. Judith sempre esteve entre aqueles mestres “que fazem a diferença”. Se o Colégio Leopoldinense desfrutou de prestígio e fama nos meios educacionais do Estado e do País, foi por obra criativa, conjunta, de professores bem preparados e dedicados, como Da. Judith Lintz. Ninguém aprende a escrever ou a interpretar textos, sem boas noções de análise sintática.
Da. Judith, a par da meiguice e do cuidado quase que maternal com seus alunos, sabia ensinar e sabia, principalmente, priorizar o que era mais importante para a educação deles.
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Nota: Agradecemos os dados utilizados nesta pesquisa às filhas do Professor Machado, Therezinha Lintz Guedes Machado, professora de matemática, e ex-funcionária da ONU em Genebra, Suiça; e Maria Aparecida Lintz Machado Silva, professora de português - ambas aposentadas e residentes em Leopoldina.
Agradecemos ainda à amiga e Acadêmica da ALLA – Academia Leopoldinense de Letras, professora Natânia Nogueira, os dados a nós confiados em sua página: www.historiadoensino.blogspot.com
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quinta-feira, 11 de março de 2010
Professor Machado (Crônica)
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(Publicada no jornalzinho REENCONTRO, dos alunos do Colégio Leopoldinense)
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Não vou contar aqui nenhuma daquelas repassadas anedotas atribuídas ao nosso querido professor Joaquim Guedes Machado, do Colégio Leopoldinense, daquelas em que o mestre aparece sempre qual iracundo preceptor a assombrar seus assustados discípulos.
O professor Machado, com sua personalidade ímpar, transformou-se num mito, num ícone dessa universidade que foi o Colégio Leopoldinense. E, como personagem mitológico, um alvo constante das brincadeiras e das simplificações do imaginário saudoso-piadista de seus ex-alunos, nostálgicos carinhosos da falsa iracúndia do mestre. Fez-se um folclore em torno das tiradas do Machado.
Machado foi professor sensível e justo. Superdotado da ciência matemática e superdotado das melhores qualidades humanas, tinha um coração tão largo e azul quanto esse mar atlântico que pela maior parte da vida o separou de sua pátria portuguesa.
Seus xingamentos não conduziam insultos. Simples bordões, marcas registradas do apurado humor guedemachadiano. Humor a seu modo, original e sutil, que as crianças nem sempre entendiam.
Se você, meu bom colega de Colégio Leopoldinense, já foi obrigado a jurar com as mãos sobre uma Bíblia imaginária, que iria dedicar-se um pouco mais à matemática no ano seguinte, não deve ter percebido o quanto rolava de finória comédia naquelas práticas.
O problema é que mesmo o critino que percebesse a sutileza do mestre, certamente não teria coragem de rir. Só passei a desconfiar de chiste muito depois. Nada me tira da cabeça que o Machado, pelo menos algumas vezes, se divertia consigo mesmo.
- Fala vurdade, não se divertia? Ele repetindo én, én vezes, aquela história do menino burrinho, burrinho, que a orelha foi crescendo, crescendo até chegar ao teto...
Lembro-me do dia em que ele confessou, humildemente, em classe, sua dificuldade para pronunciar a letra “n”, com acento brasileiro:“êni”. Ele, por mais que tentasse – dizia – só conseguia dizer én, én... E sorria.
Todo ex-aluno tem um boa história do Machado para contar. Eu também.
Minhas aulas com ele começaram na segunda série ginasial. Contava, então, onze anos. Habituado, o Machado, até os anos 50, a lecionar para rapazes bem mais crescidos, do internato do Colégio, parece que não gostou muito daquela criançada na faixa dos dez anos que a reforma do ensino jogou no secundário. Lembro-me perfeitamente que a juventude excessiva da nossa turma o incomodava.
- Já avisei pra ó Diretor. Quem não conseguir acompanhar bai repetir ó ano...
Eu, particularmente, exibia todas as ferramentas do fedelho imaturo, pois vinha da escola rural, de uma infância pouco comunicativa na roça, sem traquejo urbano, meio fora do meu elemento. Além do mais, desatento e avesso a números. Mesmo assim jamais me senti – digamos – amedrontado pelo Machado. Ao contrário, cumulava-me ele de atenções, muito provavelmente por haver percebido minhas desvantagens em relação aos colegas.
Para mim uma evidência clara de que no verso daquele estilo pedagógico personalíssimo, militava um coração extremamente atento, doce e solidário.
Bem lá na frente, no primeiro ano do colegial, precisei lições de reforço. Até as colunas dóricas do Colégio sabiam que o Prof. Machado abominava dar aulas particulares. Naquele ano, no entanto, aceitara lecionar em sua casa para uns cinco ou seis recalcitrantes. Claro, uma forma de lidar com as dificuldades dos muito jovens.
Deu-se então que em certa manhã de chuva torrencial fui pego na estrada, a cavalo, vindo de minha casa na roça à cidade, exatamente para aula de recuperação em matemática. Cheguei à casa do Prof. Machado em estado lastimável. Roupas e sapatos encharcados, tossindo, cabelos escorrendo. E ele:
-Meu Deus, é a pneumonia! Judith, vamos secar a camisa dele! Vou buscar-lhe um binho.
Da. Judith socorreu-me com uma toalha de banho enquanto, lá dentro, a empregada da família secava a ferro minha camisa. Machado serviu-me uma taça de vinho tinto, delicioso, que a custo tomei, com o queixo tremendo, telegrafando de frio. Confuso com a linda taça, não atinava se devia beber de um só gole ou, com educação, aos pouquinhos...
-“Beba tudo de uma vez” - acudiu-me ele com inefável ternura.
Guardo até hoje, e guardarei para sempre em meu coração, a suavidade daquele vinho.
É assim que, decompondo e diferenciando gratas recordações do mestre, chego a um teste de três questões que Machado nos aplicou, se não me engano, na quarta série ginasial.
Prova surpreendentemente fácil. Como de hábito, os problemas amanheceram caprichosamente dispostos à lousa, com a ponta fina do giz.
Sala na penumbra, janelas hermeticamente cerradas (para que ninguém visse, antecipadamente, as questões), curiosos enxotados da varanda fronteiriça. À porta o Machado, meio mestre de cerimônias meio lanterninha de cinema, apontava com o apagador a carteira que cada um deveria ocupar. Nada de mau aluno atrás de bom aluno, para “colar”...
De um banco dianteiro, ponderava eu as questões na pedra enquanto as mãos trêmulas iam destacando as folhas da prova, na dobra interna do caderno. Sussurrei comigo:
- Meu Deus, que barbada! Vou tirar dez! Machado converteu-se ao cristianismo! Fácil demais.
Dada a largada, caprichei nas contas com desvelos de relojoeiro. Meu primeiro dez em matemática não podia escapar. O tempo fluía em suave encadenamento algébrico. Suavemente ia também o Machado, de mãos unidas às costas, progredindo silencioso entre as carteiras. O rabo de olho nos raciocínios cabisbaixos, concentrados. Ninguém arriscava virar a cabeça.
Súbito, dou fé que ele se aproxima, pisando leve, parecendo deter-se bem atrás de mim. Cadê coragem para virar o pescoço e conferir. Não havia dúvida, ele respirava sobre minha cabeça. Um fio de cabelo despegado do Gumex palpitou um titilo bem no olho do meu redemoinho. Ih, não devo coçar agora. Vai parecer que o enxoto. Está conferindo meus cálculos. Resvalei um olho pelo chão e um bico de sapato preto, bem ali atrás, me energizou um fluído na medula. Ele percebeu o arrepio, retomou os passos discretamente. Parece que seguiu sem bronca.
Pensei comigo: ele conferiu, estou acertando. Vai ser dez!
Na aula seguinte, as notas. Tirei sete. Das três, duas questões corretas.
Na terceira questão, a resposta era dois. Encontrei raiz de quatro que, para mim, seria a mesma coisa. Para o Machado, não. Teria que apurar. Errado!
Bom, nota sete para um avoado do meu calibre era troço pra chuchu. Mesmo assim, coube-me receber aquela prova da mão do Machado ao som de exasperados superlativos. Merecidos, claro. Não tenho dúvida de que ele gostaria de ter-me dado dez. Mas, critério é critério.
De fato, minha exponencial inequação à disciplina dos números sempre foi um tormento. No segundo ano do Clássico, fiquei para exame de segunda época em matemática. Ou seja, recuperação. Fui à prova oral precisando de nota altíssima para passar. Nove e meio! Algo impensável de se obter com o Machado. Verdadeiro desastre. Minha amizade com os colegas de turma era grande e iria perdê-los, para o ano seguinte. O Machado jamais me daria nove e meio numa prova oral.
Arrasado, desmotivado, decidi brincar o carnaval em vez de estudar para a prova. Durante o dia, ia para a sinuca do bar do Sô Orlando, na Cotegipe. Estudar pra quê? Estava reprovado!
Veio a prova oral e lá fui eu para o sacrifício final. Na janela da sala, a presença de alguns colegas curiosos era mais opressão que apoio. Seriam, todos, meus ex-colegas de turma em poucos minutos...
Minha vez de ir ao quadro. Machado me oferece uma sacolinha preta:
- O senhor tire o ponto! Quanto o senhor precisa para passar?
Nove e meio, Professor.
-Jesus, nove e meio! (De mãos unidas, o mestre acelera dois passos na direção do crucifixo na parede de frente. Retorna ao rubro)
-Só acredito vendo. O senhor faça o cálculo aí à lousa.
Escrevi minhas notas. Demonstrei: precisava, realmente, de nove e meio para passar.
-O senhor sabe que já está reprovado, não é? Eu não tenho culpa, não estudou, vai ser reprovado... Eu não tenho culpa!
Vamos lá, primeira questão: Binômio de Newton. (Desenvolvi o problema. Machado o conferiu com cuidado)
-É, o senhor acertou.
Segunda questão: Progressão geométrica. (Estava com sorte, acertei de novo.)
Terceira questão: Nem me lembro o que foi. Mas acertei também... e era a última! Vou passar, pensei! É incrível! Vou passar de ano!
Só que, ao concluir o problema, vi que o professor estava estático, de costas para mim. Acompanhara o correto desenvolvimento da questão mas, temendo que algum cochilo final meu pusesse tudo a perder, preferiu não ver a conclusão. Se erro ele estaria obrigado a me anunciar a “sentença bruta” da reprovação. Gritou:
-O senhor terminou?
Sim professor, terminei. (E ele, ainda de costas)
-A resposta está certa?
Está certa, professor.
-Então apaga. Eu não quero ver! Apaga!
Meio decepcionado (eu queria que ele visse que acertei) apaguei tudo.
Calmamente, Machado aparelhou-se comigo, ergueu na palma da mão esquerda o livro de notas, bem à altura do meu nariz, e escreveu nele o nove e meio da minha redenção. Escreveu arrastado, com força, quase furando o papel com a caneta.
Foi mais que uma prova. Foi uma lição inesquecível. Daquelas para aluno criar vergonha e estudar mais no ano seguinte.
Assim era o meu inesquecível mestre, Professor Joaquim Guedes Machado. Meu e de muita, mas muita gente mais.
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(Publicada no jornalzinho REENCONTRO, dos alunos do Colégio Leopoldinense)
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Não vou contar aqui nenhuma daquelas repassadas anedotas atribuídas ao nosso querido professor Joaquim Guedes Machado, do Colégio Leopoldinense, daquelas em que o mestre aparece sempre qual iracundo preceptor a assombrar seus assustados discípulos.
O professor Machado, com sua personalidade ímpar, transformou-se num mito, num ícone dessa universidade que foi o Colégio Leopoldinense. E, como personagem mitológico, um alvo constante das brincadeiras e das simplificações do imaginário saudoso-piadista de seus ex-alunos, nostálgicos carinhosos da falsa iracúndia do mestre. Fez-se um folclore em torno das tiradas do Machado.
Machado foi professor sensível e justo. Superdotado da ciência matemática e superdotado das melhores qualidades humanas, tinha um coração tão largo e azul quanto esse mar atlântico que pela maior parte da vida o separou de sua pátria portuguesa.
Seus xingamentos não conduziam insultos. Simples bordões, marcas registradas do apurado humor guedemachadiano. Humor a seu modo, original e sutil, que as crianças nem sempre entendiam.
Se você, meu bom colega de Colégio Leopoldinense, já foi obrigado a jurar com as mãos sobre uma Bíblia imaginária, que iria dedicar-se um pouco mais à matemática no ano seguinte, não deve ter percebido o quanto rolava de finória comédia naquelas práticas.
O problema é que mesmo o critino que percebesse a sutileza do mestre, certamente não teria coragem de rir. Só passei a desconfiar de chiste muito depois. Nada me tira da cabeça que o Machado, pelo menos algumas vezes, se divertia consigo mesmo.
- Fala vurdade, não se divertia? Ele repetindo én, én vezes, aquela história do menino burrinho, burrinho, que a orelha foi crescendo, crescendo até chegar ao teto...
Lembro-me do dia em que ele confessou, humildemente, em classe, sua dificuldade para pronunciar a letra “n”, com acento brasileiro:“êni”. Ele, por mais que tentasse – dizia – só conseguia dizer én, én... E sorria.
Todo ex-aluno tem um boa história do Machado para contar. Eu também.
Minhas aulas com ele começaram na segunda série ginasial. Contava, então, onze anos. Habituado, o Machado, até os anos 50, a lecionar para rapazes bem mais crescidos, do internato do Colégio, parece que não gostou muito daquela criançada na faixa dos dez anos que a reforma do ensino jogou no secundário. Lembro-me perfeitamente que a juventude excessiva da nossa turma o incomodava.
- Já avisei pra ó Diretor. Quem não conseguir acompanhar bai repetir ó ano...
Eu, particularmente, exibia todas as ferramentas do fedelho imaturo, pois vinha da escola rural, de uma infância pouco comunicativa na roça, sem traquejo urbano, meio fora do meu elemento. Além do mais, desatento e avesso a números. Mesmo assim jamais me senti – digamos – amedrontado pelo Machado. Ao contrário, cumulava-me ele de atenções, muito provavelmente por haver percebido minhas desvantagens em relação aos colegas.
Para mim uma evidência clara de que no verso daquele estilo pedagógico personalíssimo, militava um coração extremamente atento, doce e solidário.
Bem lá na frente, no primeiro ano do colegial, precisei lições de reforço. Até as colunas dóricas do Colégio sabiam que o Prof. Machado abominava dar aulas particulares. Naquele ano, no entanto, aceitara lecionar em sua casa para uns cinco ou seis recalcitrantes. Claro, uma forma de lidar com as dificuldades dos muito jovens.
Deu-se então que em certa manhã de chuva torrencial fui pego na estrada, a cavalo, vindo de minha casa na roça à cidade, exatamente para aula de recuperação em matemática. Cheguei à casa do Prof. Machado em estado lastimável. Roupas e sapatos encharcados, tossindo, cabelos escorrendo. E ele:
-Meu Deus, é a pneumonia! Judith, vamos secar a camisa dele! Vou buscar-lhe um binho.
Da. Judith socorreu-me com uma toalha de banho enquanto, lá dentro, a empregada da família secava a ferro minha camisa. Machado serviu-me uma taça de vinho tinto, delicioso, que a custo tomei, com o queixo tremendo, telegrafando de frio. Confuso com a linda taça, não atinava se devia beber de um só gole ou, com educação, aos pouquinhos...
-“Beba tudo de uma vez” - acudiu-me ele com inefável ternura.
Guardo até hoje, e guardarei para sempre em meu coração, a suavidade daquele vinho.
É assim que, decompondo e diferenciando gratas recordações do mestre, chego a um teste de três questões que Machado nos aplicou, se não me engano, na quarta série ginasial.
Prova surpreendentemente fácil. Como de hábito, os problemas amanheceram caprichosamente dispostos à lousa, com a ponta fina do giz.
Sala na penumbra, janelas hermeticamente cerradas (para que ninguém visse, antecipadamente, as questões), curiosos enxotados da varanda fronteiriça. À porta o Machado, meio mestre de cerimônias meio lanterninha de cinema, apontava com o apagador a carteira que cada um deveria ocupar. Nada de mau aluno atrás de bom aluno, para “colar”...
De um banco dianteiro, ponderava eu as questões na pedra enquanto as mãos trêmulas iam destacando as folhas da prova, na dobra interna do caderno. Sussurrei comigo:
- Meu Deus, que barbada! Vou tirar dez! Machado converteu-se ao cristianismo! Fácil demais.
Dada a largada, caprichei nas contas com desvelos de relojoeiro. Meu primeiro dez em matemática não podia escapar. O tempo fluía em suave encadenamento algébrico. Suavemente ia também o Machado, de mãos unidas às costas, progredindo silencioso entre as carteiras. O rabo de olho nos raciocínios cabisbaixos, concentrados. Ninguém arriscava virar a cabeça.
Súbito, dou fé que ele se aproxima, pisando leve, parecendo deter-se bem atrás de mim. Cadê coragem para virar o pescoço e conferir. Não havia dúvida, ele respirava sobre minha cabeça. Um fio de cabelo despegado do Gumex palpitou um titilo bem no olho do meu redemoinho. Ih, não devo coçar agora. Vai parecer que o enxoto. Está conferindo meus cálculos. Resvalei um olho pelo chão e um bico de sapato preto, bem ali atrás, me energizou um fluído na medula. Ele percebeu o arrepio, retomou os passos discretamente. Parece que seguiu sem bronca.
Pensei comigo: ele conferiu, estou acertando. Vai ser dez!
Na aula seguinte, as notas. Tirei sete. Das três, duas questões corretas.
Na terceira questão, a resposta era dois. Encontrei raiz de quatro que, para mim, seria a mesma coisa. Para o Machado, não. Teria que apurar. Errado!
Bom, nota sete para um avoado do meu calibre era troço pra chuchu. Mesmo assim, coube-me receber aquela prova da mão do Machado ao som de exasperados superlativos. Merecidos, claro. Não tenho dúvida de que ele gostaria de ter-me dado dez. Mas, critério é critério.
De fato, minha exponencial inequação à disciplina dos números sempre foi um tormento. No segundo ano do Clássico, fiquei para exame de segunda época em matemática. Ou seja, recuperação. Fui à prova oral precisando de nota altíssima para passar. Nove e meio! Algo impensável de se obter com o Machado. Verdadeiro desastre. Minha amizade com os colegas de turma era grande e iria perdê-los, para o ano seguinte. O Machado jamais me daria nove e meio numa prova oral.
Arrasado, desmotivado, decidi brincar o carnaval em vez de estudar para a prova. Durante o dia, ia para a sinuca do bar do Sô Orlando, na Cotegipe. Estudar pra quê? Estava reprovado!
Veio a prova oral e lá fui eu para o sacrifício final. Na janela da sala, a presença de alguns colegas curiosos era mais opressão que apoio. Seriam, todos, meus ex-colegas de turma em poucos minutos...
Minha vez de ir ao quadro. Machado me oferece uma sacolinha preta:
- O senhor tire o ponto! Quanto o senhor precisa para passar?
Nove e meio, Professor.
-Jesus, nove e meio! (De mãos unidas, o mestre acelera dois passos na direção do crucifixo na parede de frente. Retorna ao rubro)
-Só acredito vendo. O senhor faça o cálculo aí à lousa.
Escrevi minhas notas. Demonstrei: precisava, realmente, de nove e meio para passar.
-O senhor sabe que já está reprovado, não é? Eu não tenho culpa, não estudou, vai ser reprovado... Eu não tenho culpa!
Vamos lá, primeira questão: Binômio de Newton. (Desenvolvi o problema. Machado o conferiu com cuidado)
-É, o senhor acertou.
Segunda questão: Progressão geométrica. (Estava com sorte, acertei de novo.)
Terceira questão: Nem me lembro o que foi. Mas acertei também... e era a última! Vou passar, pensei! É incrível! Vou passar de ano!
Só que, ao concluir o problema, vi que o professor estava estático, de costas para mim. Acompanhara o correto desenvolvimento da questão mas, temendo que algum cochilo final meu pusesse tudo a perder, preferiu não ver a conclusão. Se erro ele estaria obrigado a me anunciar a “sentença bruta” da reprovação. Gritou:
-O senhor terminou?
Sim professor, terminei. (E ele, ainda de costas)
-A resposta está certa?
Está certa, professor.
-Então apaga. Eu não quero ver! Apaga!
Meio decepcionado (eu queria que ele visse que acertei) apaguei tudo.
Calmamente, Machado aparelhou-se comigo, ergueu na palma da mão esquerda o livro de notas, bem à altura do meu nariz, e escreveu nele o nove e meio da minha redenção. Escreveu arrastado, com força, quase furando o papel com a caneta.
Foi mais que uma prova. Foi uma lição inesquecível. Daquelas para aluno criar vergonha e estudar mais no ano seguinte.
Assim era o meu inesquecível mestre, Professor Joaquim Guedes Machado. Meu e de muita, mas muita gente mais.
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Joaquim Guedes Machado

Foto: Professor Machado - Cerimônia de Graduação, Universidade do Porto.
(Publicada no jornal LEOPOLDINENSE, nº054 - Edição de 15 de março de 2006, Página 8 – Revista e atualizada em 28.02.2010)
O Prof. Joaquim Guedes Machado foi o mais célebre professor do Colégio Leopoldinense, em todos os tempos, e, por longos anos, titular absoluto da cadeira de matemática. Nasceu na cidade do Porto, Portugal, a 14 de setembro de 1891.
Fez seus estudos iniciais no Porto e Penafiel e o curso secundário no Liceu Central de Braga. Cursou engenharia, graduando-se Engenheiro Geógrafo pela Universidade do Porto.
De família da aristocracia portuguesa, descendia do Visconde de Balsemão, Conde de Almoster, Duque de Marguerite e da Duquesa de Sintra, prima de sua mãe. Seus pais eram Luis de Souza Pinto Cardoso Machado e Maria José de Souza Guedes Cardoso Machado. Sua mãe, cantora lírica amadora – famílias ilustres nem sempre prestigiavam a profissionalização artística de seus filhos.
Em 1910, tendo sido proclamada a República em Portugal, os membros da monarquia cederam seus lugares aos republicanos. Foi a ocasião em que o cadete do Regimento de Cavalaria Real, sediado no Porto, Joaquim Guedes Machado, deixou Portugal a 30 de setembro de 1913, chegando de navio ao Rio de Janeiro no dia 17 de outubro de 1913. Como recordação da família trouxe algumas jóias, a quais guardava com muito desvelo, inclusive um colar de pedras azuis que havia pertencido à sua mãe.
No Brasil cursou Direito pela Faculdade de Niterói (RJ). Seu primeiro trabalho, todavia, foi como auxiliar de outro engenheiro numa Usina de Tombos do Carangola, em Minas Gerais. Interessado, no entanto, prioritariamente na cultura, tornou-se logo proprietário e diretor do Ginásio Carangolense e fundador da Escola Normal daquela cidade, no período de 1916 a 1918.
Casou-se com D. Laura Barroso Machado (em solteira, Laura Lambert), com quem teve os filhos: Luís Fernando, Joaquim, José, Cecília e Aristides.
Em 28 de abril de 1919, a convite do Prof. José Botelho Reis, diretor do “Gymnásio Leopoldinense” e com quem Machado era muito identificado, transferiu-se para Leopoldina. Enviuvando-se, veio a casar-se em segundas núpcias com a Profa. Judith Lintz, aos 19 de janeiro de 1939. Deste casamento teve as filhas: Therezinha Lintz Guedes Machado e Maria Aparecida Lintz Machado Silva.
Seu magistério em Leopoldina estendeu-se por 44 anos ininterruptos. No “Gymnásio Leopoldinense”, depois Colégio Leopoldinense (hoje Escola Estadual Professor Botelho Reis) e no Colégio Imaculada Conceição, ministrou aulas de Matemática, Inglês, Português e Estatística.
Matemática veio a ser, sem a menor dúvida, a disciplina que o tornaria famoso, um mestre legendário.
Homem metódico e rígido, foi cumpridor intransigente de seus deveres e exigente, inflexível mesmo, em relação à atenção e à dedicação ao estudo por parte de seus alunos. Um vocacionado para o magistério. De múltiplas culturas, versava também o Francês e o Espanhol. Aposentou-se, compulsoriamente, em setembro de 1961, ao completar 70 anos de idade.
Já ao fim da vida assim se manifestou em relação aos inúmeros discípulos seus, àquela altura espalhados por todo o país:
"Recordo-me sempre dos alunos que, por seu devotamento aos estudos e por sua conduta edificante, tornaram suave e profícua minha missão de mestre, constituindo-se credores de minha imorredoura amizade e saudade".
Afeito à fé cristã, acreditava na eternidade da alma:
"A alma, sendo imortal, a morte é apenas o encerramento da vida, dos fenômenos vitais e o início de uma nova vida, que é eterna. A existência é uma viagem que tem por fim a vida, isto é, uma peregrinação através de áridos desertos, por caminhos íngremes e pontilhados de urzes, rumo ao reino de Deus, o qual só será atingido de acordo com as normas da doutrina cristã".
Machado, como foi dito acima, descendia de linhagem fidalga. Seu nome completo seria Joaquim de Souza Guedes Cardoso de Menezes Machado e Vasconcelos Paes Pinto de Ornelas. De tal particularidade, entretanto, seus alunos nunca souberam. Humilde e discreto, o Prof. Machado primava pela modéstia, mantendo absoluta reserva sobre sua vida familiar.
Destacadas personalidades da vida nacional, através dos anos, foram seus alunos e dele cultivam as melhores lembranças.
Suas filhas, as cultas e estimadas professoras, Terezinha e Cidinha, de cuja amizade temos orgulho de privar, nos contam um episódio emocionante da juventude do mestre.
Cursava ele o secundário como aluno interno no Liceu Central de Braga, em Portugal.
A destinação do jovem Joaquim a um “Colégio Interno” se explica pelo hábito da época: era comum, usual mesmo, os filhos das famílias mais distintas estudarem em internatos.
Em tal circunstância, como todos os alunos internos da instituição, o menino Joaquim ganhara seu número de referência ou chamada: Aluno “118”.
Naturalmente, como de praxe nos internatos escolares, por ocasião dos feriados mais longos e, principalmente no início das férias, os alunos internos eram apanhados no colégio por seus pais ou responsáveis.
No Liceu de Braga, assim que chegava o responsável por um aluno era este imediatamente convocado pelo anúncio tonitruante de seu número, através de um megafone. Devia, então, descer dos aposentos dos internos para ser liberado com o familiar que viera buscá-lo.
Da portaria do colégio, um auxiliar administrativo ou instrutor direcionando o amplificador de voz na direção dos dormitórios, anunciava: “Venha o número tal!”.
Fácil imaginar o júbilo dos rapazinhos quando seu número soava, trazendo a boa nova de que, lá embaixo, estaria seu pai ou sua mãe a esperá-lo...
Nesse passo, de um em um, todos desciam, dirigiam-se a seus lares, passeavam e voltavam, quando do reinício das aulas. Alegres e cheios de histórias para contar.
Um daqueles meninos, entretanto, durante longo período de tempo, não foi apanhado no colégio por nenhum parente: o aluno Joaquim Guedes Machado. Longos feriados ele os passou sozinho em seu exílio escolar. Alguma coisa aconteceu de muito importante na vida de seus pais, que os impediu de ir buscar o filho. Com todos os colegas em suas casas, o internato às moscas, o garoto permaneceu no colégio, recluso e só.
Seguidas vezes viu o último colega descer com o anúncio de um número e ele seguia na espera vã de que o número “118” viesse a ser anunciado lá de baixo. Nada!
Aquilo certamente não duraria a vida toda. Vieram as férias de fim de ano. Desce o primeiro aluno interno, desce outro, mais um, outro mais e... O megafone anuncia:
-Venha já o 118!
Aleluia! Vibrou a alma do garotinho apreensivo. Alguém, finalmente, viera buscá-lo! Já não estava só no mundo!
Desceu a escadaria com o coração aos saltos de felicidade... E aquele instante de júbilo ficaria marcado para sempre na vida de Joaquim Guedes Machado!
"Venha já o 118" ecoaria em sua memória para ao resto da vida.
-Venha já o 118!!!
Meu mestre muito estimado, meu professor de matemática na “Sala-5” do Colégio Leopoldinense, de 1951 a 1957, Joaquim Guedes Machado, faleceu de ataque cardíaco, em Leopoldina, na manhã de 28 de maio de 1974 (A Gazeta de Leopoldina daquele mês registrou o óbito como ocorrido no dia “27”, mas as filhas, Terezinha e Cidinha nos confirmam o dia 28 de maio). O então prefeito, Osmar Lacerda França (Sô Liliu), tão logo tomou conhecimento da morte do venerado educador decretou luto oficial no município por três dias.
Executivo e Legislativo municipal homenagearam o grande lente de nossa história municipal sediando as cerimônias fúnebres no salão nobre da Câmara Legislativa. Discursaram os lideres das bancadas da Arena e do MDB – os dois partidos da ditadura militar então vigente - a colunista Daura Rocha Barbosa de Rezende, o Prof. Geraldo de Vasconce1os Barcelos e o pintor Funchal Garcia - seu amigo de longos anos. Todos invocando a trajetória gloriosa e a contribuição destacada do professor exemplar à cultura leopoldinense - por longos anos referência educacional no Estado de Minas Gerais.
O sepultamento se deu às 16 horas, no cemitério de Leopoldina, com a presença de grande número de pessoas, em sua quase totalidade ex-alunos do Prof. Machado. Seu colega de magistério o professor, advogado e poeta, Prof. Geraldo de Vasconcelos Barcelos, diante da urna funerária, declamou este soneto de sua lavra:
Sol sem ocaso
Aqui, diante de ti, do teu corpo sem vida,
frente a este caixão, o teu berço final
- teu irmão pela Fé, aí a despedida
da amizade e do ensino, o teu grande ideal.
Junto dos teus está a urbs compungida,
a que tanto serviste, em sofrimento igual.
Deste torrão fizeste a cidade querida,
pedacinho do teu, do nosso Portugal.
Despede-se de ti o teu velho Colégio,
castelo onde brilhou teu talento de escol
de cujas colunatas foste o fulcro egrégio.
Teus ex-alunos, livros vivos... É o legado
que tu deixas por fim. Morto, fulges. És sol.
- Esta herança é perene. Adeus, Guedes Machado.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
Nota: Agradecemos os dados utilizados nesta pesquisa às filhas do Professor Machado, Therezinha Lintz Guedes Machado, professora de matemática, e ex-funcionária da ONU em Genebra, Suiça; e Maria Aparecida Lintz Machado Silva, professora de português - ambas aposentadas e residentes em Leopoldina. Inclusive o relato do emocionante episódio "Venha já o 118".
Valemo-nos, ainda, da matéria publicada na Gazeta de Leopoldina, edição de maio de 1974.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
Amor sem Ética #
***
Março, 2010
Hoje estou me sentindo uma pessoa deplorável. Imaginem vocês que por absoluta falta de assunto, estou apelando para uma inconfidência. Coisa de mau caráter, mesmo. De sujeito desleal que eu nunca pensei que fosse. Vou abrir para vocês e para a torcida do flamengo a vida íntima de dois amigos meus. Azar! A crônica urge. Segredo, que cada um guarde o seu.
A história é de uma banalidade que constrange. Mas ninguém escapa ao meio onde vive. Sou um despojado no ambiente social e na geografia.
Trata-se de uma quizumba sobre “ética no amor”. Isto existe? Estaria uma pessoa apaixonada moralmente obrigada a passar numa peneira ética as circunstâncias de sua escolha amorosa? Ou a vocação humana de buscar o prazer e fugir da dor justifica tudo, tendo a paixão a seu prol a prerrogativa da cegueira?
Meus personagens se enredaram nesse baralho. Não devia, mas vou contar o caso. Ele anda atravessado na minha garganta rabiscadora há muito tempo. Vinha relutando em colocar a boca no trombone para não parecer fofoqueiro ou até um impostor na área dos letristas de bolero. Mas vamos lá.
O casamento do Vilhena com a Julinha já tinha dado o que tinha pra dar. Chegara àquela fase penosa do “embora juntos cada qual tem seus caminhos”, das madrugadas de Dolores Duran no Beco das Garrafas, em Copacabana. (Olha o bolero aí!)
O problema da separação - dizia - estava nos dois filhos, ainda na pré-escola, em idade muito suscetível a traumas, a recomendar sacolinha de filó no gestual paterno. Só que isto desgasta, atormenta o espírito. Desabafar com um amigo, com um colega de trabalho, às vezes ajuda. Divide o peso.
E foi este o remédio catártico escolhido pelo Vilhena. Escancarou o coração e a alma para o Pedrosa, velho companheiro de bocha, solteirão convicto.
-Não tem jeito, Pedrosa. Com a Julinha não dá mais. Meu amor por ela acabou. É uma mulher e tanto, rara mesmo, bonita, culta, companheira e doce amante... Você não imagina a mulher maravilhosa que ela é. (E se multiplicava em mil elogios à esposa) Mas quando o amor acaba, meu velho... Problema são os filhos e aquelas contas mensais com código de barras, entende. Dois problemas e um ordenado! Já fiz os cálculos. Não dá pra sair em frente com a metade da minha indigência e a Julinha com a outra metade. Vai “sobrar” para as crianças! Sei não, cara.
Esses queixumes já iam pelo segundo ano consecutivo, quando o Vilhena entrou em órbita de vez. Uma paixão avassaladora pela nova secretária lancetou o tumor. Tomou, com a moça, um avião para a Serra Gaúcha e, de lá, despediu-se de Julinha por e-mail:
-Não dá mais, Julinha. Sobre as crianças, a gente decide depois. Estou dando uma “reiniciada” no meu PC. Tchau.
Claro que Julinha, mulher inteligente, já esperava por isto. O que a surpreendeu foi a pronta visita que recebeu, do Pedrosa. Já observara sinais do interesse dele por ela, mas nada que indicasse proximidade de insinuação mais afoita. Avaliou mal. O pretexto foi colocar-se ao inteiro dispor dela para o que fosse preciso, oferecer-lhe os telefones, blá, blá... Em poucas semanas estavam juntos.
Pedrosa realizava um sonho reprimido há anos. Sempre gostou de Julinha, mas apaixonara-se exatamente no caudal das revelações íntimas do Vilhena. Este, esquecido da contabilidade doméstica e dos carnês, brindava com vinhos generosos de Bento Gonçalves a entrada de uma nova e encantadora mulher em sua vida - a jambetíssima secretária, Helô.
Final feliz para todos. Mas a amizade entre os dois amigos ficou estremecida.
Vilhena jamais conseguiu perdoar o Pedrosa:
-Ele se valeu de informações privilegiadas sobre Julinha; não foi ético - dizia.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publ. em 11.03.2010, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)
Março, 2010
Hoje estou me sentindo uma pessoa deplorável. Imaginem vocês que por absoluta falta de assunto, estou apelando para uma inconfidência. Coisa de mau caráter, mesmo. De sujeito desleal que eu nunca pensei que fosse. Vou abrir para vocês e para a torcida do flamengo a vida íntima de dois amigos meus. Azar! A crônica urge. Segredo, que cada um guarde o seu.
A história é de uma banalidade que constrange. Mas ninguém escapa ao meio onde vive. Sou um despojado no ambiente social e na geografia.
Trata-se de uma quizumba sobre “ética no amor”. Isto existe? Estaria uma pessoa apaixonada moralmente obrigada a passar numa peneira ética as circunstâncias de sua escolha amorosa? Ou a vocação humana de buscar o prazer e fugir da dor justifica tudo, tendo a paixão a seu prol a prerrogativa da cegueira?
Meus personagens se enredaram nesse baralho. Não devia, mas vou contar o caso. Ele anda atravessado na minha garganta rabiscadora há muito tempo. Vinha relutando em colocar a boca no trombone para não parecer fofoqueiro ou até um impostor na área dos letristas de bolero. Mas vamos lá.
O casamento do Vilhena com a Julinha já tinha dado o que tinha pra dar. Chegara àquela fase penosa do “embora juntos cada qual tem seus caminhos”, das madrugadas de Dolores Duran no Beco das Garrafas, em Copacabana. (Olha o bolero aí!)
O problema da separação - dizia - estava nos dois filhos, ainda na pré-escola, em idade muito suscetível a traumas, a recomendar sacolinha de filó no gestual paterno. Só que isto desgasta, atormenta o espírito. Desabafar com um amigo, com um colega de trabalho, às vezes ajuda. Divide o peso.
E foi este o remédio catártico escolhido pelo Vilhena. Escancarou o coração e a alma para o Pedrosa, velho companheiro de bocha, solteirão convicto.
-Não tem jeito, Pedrosa. Com a Julinha não dá mais. Meu amor por ela acabou. É uma mulher e tanto, rara mesmo, bonita, culta, companheira e doce amante... Você não imagina a mulher maravilhosa que ela é. (E se multiplicava em mil elogios à esposa) Mas quando o amor acaba, meu velho... Problema são os filhos e aquelas contas mensais com código de barras, entende. Dois problemas e um ordenado! Já fiz os cálculos. Não dá pra sair em frente com a metade da minha indigência e a Julinha com a outra metade. Vai “sobrar” para as crianças! Sei não, cara.
Esses queixumes já iam pelo segundo ano consecutivo, quando o Vilhena entrou em órbita de vez. Uma paixão avassaladora pela nova secretária lancetou o tumor. Tomou, com a moça, um avião para a Serra Gaúcha e, de lá, despediu-se de Julinha por e-mail:
-Não dá mais, Julinha. Sobre as crianças, a gente decide depois. Estou dando uma “reiniciada” no meu PC. Tchau.
Claro que Julinha, mulher inteligente, já esperava por isto. O que a surpreendeu foi a pronta visita que recebeu, do Pedrosa. Já observara sinais do interesse dele por ela, mas nada que indicasse proximidade de insinuação mais afoita. Avaliou mal. O pretexto foi colocar-se ao inteiro dispor dela para o que fosse preciso, oferecer-lhe os telefones, blá, blá... Em poucas semanas estavam juntos.
Pedrosa realizava um sonho reprimido há anos. Sempre gostou de Julinha, mas apaixonara-se exatamente no caudal das revelações íntimas do Vilhena. Este, esquecido da contabilidade doméstica e dos carnês, brindava com vinhos generosos de Bento Gonçalves a entrada de uma nova e encantadora mulher em sua vida - a jambetíssima secretária, Helô.
Final feliz para todos. Mas a amizade entre os dois amigos ficou estremecida.
Vilhena jamais conseguiu perdoar o Pedrosa:
-Ele se valeu de informações privilegiadas sobre Julinha; não foi ético - dizia.
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(Publ. em 11.03.2010, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)
quinta-feira, 4 de março de 2010
Paulino Augusto Rodrigues

Foto: Paulino Augusto Rodrigues - Acervo de Nelito Barbosa Rodrigues
Nono filho de João Rodrigues da Silva e de Mariana de Moraes, nascido aos 14 de dezembro de 1870, Paulino Augusto Rodrigues é um dos patriarcas da família Rodrigues, de Leopoldina.
Nasceu no “Sítio Puris”, Bairro da Onça, de sua propriedade hereditária, histórica propriedade desmembrada da “Fazenda da Onça”, que veio a transferir, em 23 de abril de 1909, para seu irmão Antonio Augusto Rodrigues.
Casou-se, Paulino, aos 21 de fevereiro de 1891, com Umbelina Cândida Rodrigues, sua prima pelo lado materno, indo morar no “Sítio Cubu”, também parte da “Fazenda da Onça”. Umbelina era a filha mais velha de Maria Carolina de Moraes e de Luiz José Gonzaga de Gouvêa, nascida em 11 de novembro de 1871. O casal mudou-se, depois, aos 19 de janeiro de 1901, para a “Fazenda Bela Aurora”, também conhecida como “Fazenda do Banco”.
Documentos indicam que a “Bela Aurora” pertencia, quando para ela se transferiu Paulino, ao Comendador Tobias Figueira de Melo, que a arrematara em hasta pública. Figueira de Melo, homem público e de negócios, radicado no Rio de Janeiro – que, inclusive, dá nome a uma importante rua do bairro de São Cristóvão, no Rio - acabou por vender a “Bela Aurora” a seu administrador, Paulino.
O neto de Paulino Rodrigues, Nelito Barbosa Rodrigues, pesquisando essa aquisição de seu avô, descobriu que Figueira de Melo, grande conhecedor do mercado brasileiro e mundial de exportação, previu alta vindoura para o Café e – seja por não desejar seguir na propriedade de imóvel tão distante da capital, seja por estima especial a Paulino – orientou-o a plantar uma grande lavoura cafeeira com o resultado da qual - assegurava - Paulino poderia até comprar-lhe a Fazenda... Os anos imediatamente seguintes confirmaram as previsões do Comendador, Paulino se enriqueceu com o Café e, em 1909, registrou em suas anotações pessoais:
“Escritura da Fazenda Bela Aurora, foi passada em 23 de dezembro de 1909, por $40.000,000 e a escritura foi por $4.410,000, os registros por $3.190,000. Pelo Tabelião Constantino Thomas de Oliveira.” (Cópia literal)
Do livro “Machado e Rodrigues”, de José Luiz M. Rodrigues, pag. 33/34, extraímos o seguinte trecho:
“Durante toda a vida, Paulino foi sempre apoio e elo de integração da família Rodrigues. Hoje, tem seu nome homenageado em logradouro público em Leopoldina, no bairro do Rosário, rua que liga a rua Dr. Ormeo Junqueira Botelho à rua Paulo Afonso de Matos. Sobre sua fazenda “Bela Aurora”, é de se registrar a nota do jornal “Irradiação”, órgão do Partido Republicano de Leopoldina, de 14 de novembro de 1888, que talvez esclareça a origem do nome pelo qual passou a ser conhecida, como “Fazenda do Banco”. O texto dá notícia da existência de processo de autoria do Banco do Brasil, contra os réus, Venâncio José D’Almeida Costa e sua mulher, proprietários anteriores, e torna público o seqüesto judicial da ‘Fazenda Bela Aurora’, pertencente aos réus.”
Paulino Rodrigues era tido como “capitalista”, sendo esta a forma como a ele se refere Mário de Freitas em seu livro, “Leopoldina do Meu Tempo”. Possivelmente por possuir, além da fazenda, várias casas em Leopoldina, construídas por sua iniciativa, a grande maioria delas nas imediações da Igreja do Rosário. Consta ter ostentado comenda de “Capitão” da Guarda Nacional. Foi Juiz de Paz e Delegado de Polícia substituto.
Sua primeira esposa, Umbelina, faleceu aos 6 de julho de 1919, depois de dar-lhe 14 filhos, a saber: Nelsina Rodrigues Barbosa; Theodomiro Augusto Rodrigues; Theodolino Augusto Rodrigues; Leodwirge Augusta Rodrigues; Laudelina Augusta Rodrigues; Altemiro Augusto Rodrigues; Arlindo Augusto Rodrigues; Nestor Augusto Rodrigues; Maria Augusta Rodrigues; Deocleciano Augusto Rodrigues; Odette Rodrigues Pires; Manoel Augusto Rodrigues; Maria da Glória Rodrigues Junqueira e Luiz Augusto Rodrigues.
Em segundas núpcias Paulino casou-se com Maria José Lacerda Rodrigues (Zezeca), deste matrimônio nascendo mais dois filhos: Aparecida Rodrigues Lacerda e Geraldo Rodrigues Lacerda.
Zezeca era filha de José Romão Tavares de Lacerda e Luíza Augusta de Lacerda, neta, portanto, de Romão Pinheiro Corrêa de Lacerda, um dos fundadores de Leopoldina, segundo anotações do historiador Mauro de Almeida Pereira, em artigo para o Jornal Equipe, de 31 de dezembro de 1990.
“Tio Paulino”, assim chamado por seus inúmeros sobrinhos, segundo memória dos que o conheceram foi homem de alguns recursos mas que jamais ostentou riqueza. Adotava um padrão de vida simples e despojado que a todos cativava. Extremamente carinhoso e prestativo, estava sempre disponível para ajudar quem dele precisasse, numa doença ou numa circunstância menos favorável.
Cultivava amizades, era alegre e extrovertido, mantendo sua casa da cidade de portas abertas aos parentes vindos da roça, para tratamento de saúde ou mesmo a passeio. Esse dom da comunicabilidade, da simpatia e sua vocação prestimosa, Paulino Rodrigues a transmitiu aos filhos, sendo característica familiar que se confirma a cada nova geração de netos e bisnetos seus.
Paulino Augusto Rodrigues faleceu no dia 19 de setembro de 1947, aos 76 anos, deixando 411 descendentes diretos (não incluídos cônjuges), havendo constituído, sem dúvida, uma das maiores e das mais unidas famílias de Leopoldina.
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João de Andrade Machado
-
(Publicado no jornal EQUIPE, da Prefeitura de Leopoldina, em 24.04.1997,
sob o título "Biografia de um Homem Exemplar")
-
Ele tem 64 anos e trabalha na Prefeitura. É uma pessoa extremamente humilde, mas de riqueza interior elevada. Nasceu aqui mesmo, em Leopoldina, mais precisamente na Serra dos Puris. Foi aluno do Grupo Ribeiro Junqueira, Educandário Santa Terezinha e Colégio Botelho Reis.
É bastante religioso. Ainda criança, tornou-se o primeiro ajudante de missa de Dom Delfim Ribeiro Guedes. Depois foi Sacristão Mor da Catedral e saiu pelo mundo em busca do bom combate. Esperavam por ele as obras do Abrigo Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, onde viveu algum tempo e cursou a Escola da Ilha de Marambaia, fez Aprendizado Agrícola em Sacra Família e a Escola dos Lavradores, de Santa Cruz.
Em 1958 estava a serviço do Instituto Agrícola de Vitória, no Espírito Santo, trabalhando como catequista de menores infratores. Quando ali chegou o colégio era notável pela má fama e periculosidade de seus internos. Quando de lá saiu nosso biografado, a imagem se transformara. Os meninos passaram a ser referidos como “alunos”. Tal fato chegou a impressionar, na época, o então Governador Carlos Lindenberg e o Bispo de Vitória, D. João B. Albuquerque. Na fórmula, pouco mais que intuição cristã: tratar com desvelo perto de 600 crianças, preparar-lhes os cursos, dar-lhes batismo, crisma, primeira comunhão. Montar bibliotecas, salas de recreação, e até conduzir uma banda de música convidada a abrir um jogo internacional no Maracanã...
- O resultado? Entusiasmo e muita criança recuperada.
-Seria ele um homem estimado? Parece que sim. Nosso herói contabiliza, entre Rio de Janeiro e Vitória, perto de uma centenas de afilhados!
Foi ele quem fundou a Guarda Mirim de Leopoldina, na qual já estiveram sob seus cuidados cerca de 1.680 alunos. Hoje, alguns são militares, profissionais liberais, bancários, etc. Um deles veio certa vez a Leopoldina rever o mestre e adotou o hábito anual da visita, sempre acompanhado de esposa e filha: é oficial da Aeronáutica.
Fundou também a Escola de Samba Princesa Leopoldina, detentora de vários títulos, e, em Muriaé foi diretor do Patronato Dom Delfim Ribeiro Guedes, em 1954.
De novo, aqui em sua terra, nosso homem foi o fundador do coral Pequenos Cantores de Leopoldina e, com o grupo, transformou-se num incansável divulgador do Hino de Leopoldina, de autoria do saudoso Monsenhor Naves. Dizer que o Coral levou o nome de Leopoldina além do município não é tudo. Em verdade a repercussão pode ter chegado ao além-mar por conta de uma gloriosa apresentação no Orfeão Portugal, do Rio de Janeiro.
Contam-se às dezenas, as apresentações do Coral. Cidades houve em que a platéia chegou a 5.000 pessoas.
Já é quase dizer o nome do homenageado afirmar, por último, ser ele o fundador do MIL - Movimento Infantil Leopoldinense...
João de Andrade Machado - este o nome da generosa figura - vem de um tempo anterior ao Estatuto da Criança, quando as pessoas lutavam pela causa das crianças, cada um a seu modo. No ardor do engajamento pelo amparo às crianças ele já abordou publicamente um Governador de Minas, e, noutra oportunidade, ergueu pelo braço, de seu carro, o próprio Presidente Juscelino Kubstcheck.
João, mais conhecido como João Machado, dirige hoje o Coral do C.A.I.C. onde lida com 50 alunos. O apoio que recebe é pequeno. Mas, nele, é quase uma deformação da personalidade nada pedir, ser discreto e prestativo. Como se a vida do João saltasse um pouco das páginas do Diário de Anne Frank, onde ela diz, “... eu creio na bondade humana”.
Gente, se não damos vivas a um homem como este é porque, de fato, ninguém jamais será profeta em sua própria terra.
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(Publicado no jornal EQUIPE, da Prefeitura de Leopoldina, em 24.04.1997,
sob o título "Biografia de um Homem Exemplar")
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Ele tem 64 anos e trabalha na Prefeitura. É uma pessoa extremamente humilde, mas de riqueza interior elevada. Nasceu aqui mesmo, em Leopoldina, mais precisamente na Serra dos Puris. Foi aluno do Grupo Ribeiro Junqueira, Educandário Santa Terezinha e Colégio Botelho Reis.
É bastante religioso. Ainda criança, tornou-se o primeiro ajudante de missa de Dom Delfim Ribeiro Guedes. Depois foi Sacristão Mor da Catedral e saiu pelo mundo em busca do bom combate. Esperavam por ele as obras do Abrigo Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, onde viveu algum tempo e cursou a Escola da Ilha de Marambaia, fez Aprendizado Agrícola em Sacra Família e a Escola dos Lavradores, de Santa Cruz.
Em 1958 estava a serviço do Instituto Agrícola de Vitória, no Espírito Santo, trabalhando como catequista de menores infratores. Quando ali chegou o colégio era notável pela má fama e periculosidade de seus internos. Quando de lá saiu nosso biografado, a imagem se transformara. Os meninos passaram a ser referidos como “alunos”. Tal fato chegou a impressionar, na época, o então Governador Carlos Lindenberg e o Bispo de Vitória, D. João B. Albuquerque. Na fórmula, pouco mais que intuição cristã: tratar com desvelo perto de 600 crianças, preparar-lhes os cursos, dar-lhes batismo, crisma, primeira comunhão. Montar bibliotecas, salas de recreação, e até conduzir uma banda de música convidada a abrir um jogo internacional no Maracanã...
- O resultado? Entusiasmo e muita criança recuperada.
-Seria ele um homem estimado? Parece que sim. Nosso herói contabiliza, entre Rio de Janeiro e Vitória, perto de uma centenas de afilhados!
Foi ele quem fundou a Guarda Mirim de Leopoldina, na qual já estiveram sob seus cuidados cerca de 1.680 alunos. Hoje, alguns são militares, profissionais liberais, bancários, etc. Um deles veio certa vez a Leopoldina rever o mestre e adotou o hábito anual da visita, sempre acompanhado de esposa e filha: é oficial da Aeronáutica.
Fundou também a Escola de Samba Princesa Leopoldina, detentora de vários títulos, e, em Muriaé foi diretor do Patronato Dom Delfim Ribeiro Guedes, em 1954.
De novo, aqui em sua terra, nosso homem foi o fundador do coral Pequenos Cantores de Leopoldina e, com o grupo, transformou-se num incansável divulgador do Hino de Leopoldina, de autoria do saudoso Monsenhor Naves. Dizer que o Coral levou o nome de Leopoldina além do município não é tudo. Em verdade a repercussão pode ter chegado ao além-mar por conta de uma gloriosa apresentação no Orfeão Portugal, do Rio de Janeiro.
Contam-se às dezenas, as apresentações do Coral. Cidades houve em que a platéia chegou a 5.000 pessoas.
Já é quase dizer o nome do homenageado afirmar, por último, ser ele o fundador do MIL - Movimento Infantil Leopoldinense...
João de Andrade Machado - este o nome da generosa figura - vem de um tempo anterior ao Estatuto da Criança, quando as pessoas lutavam pela causa das crianças, cada um a seu modo. No ardor do engajamento pelo amparo às crianças ele já abordou publicamente um Governador de Minas, e, noutra oportunidade, ergueu pelo braço, de seu carro, o próprio Presidente Juscelino Kubstcheck.
João, mais conhecido como João Machado, dirige hoje o Coral do C.A.I.C. onde lida com 50 alunos. O apoio que recebe é pequeno. Mas, nele, é quase uma deformação da personalidade nada pedir, ser discreto e prestativo. Como se a vida do João saltasse um pouco das páginas do Diário de Anne Frank, onde ela diz, “... eu creio na bondade humana”.
Gente, se não damos vivas a um homem como este é porque, de fato, ninguém jamais será profeta em sua própria terra.
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