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sábado, 27 de agosto de 2011

Nomes

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Agosto, 2011


Andei lendo sobre nomes curiosos ou repetitivos que os pais costumam dar aos filhos. A gente sabe que no Brasil existem “preferências regionais” por certos nomes, ao ponto de poder-se presumir a origem da pessoa no ato da apresentação.

Dificilmente um José Ribamar deixará de ser maranhense, um Geraldo Magela não será mineiro ou um Severino terá nascido fora do nordeste – onde comparecem ainda alguns Raimundos Nonatos. É o Brasil com suas versões domésticas, regionais, dos Joaquins e Manuéis de Portugal. Com farto registro, aliás, em nosso anedotário e no cancioneiro popular.  

Brincam muito, por exemplo, com a cidade de Campos, no norte do Estado do Rio de Janeiro, por sua pretensa inclinação saxônica nos batizados. Pode não ter amplo fundamento, mas é certo que o município já teve um prefeito chamado Rockfeller e outro chamado Antony...

Há não muito tempo a TV Globo parodiou, em novela do horário nobre, essa desenvoltura bizarra com que o brasileiro importa nomes a torto e a direito. No folhetim havia a mocinha, Carolaine... Um barato o personagem de Ary Fontoura, sempre caprichando na pronúncia para referir-se à Quer-o-laine!

Talvez pior que importar nomes seja inventá-los. Nem é bom entrar pelos exemplos.
Nomes bem ou mal escolhidos me lembram o tempo, quando ainda moço, vivi em Goiás. Mais exatamente no sudoeste goiano, cidades de Rio Verde, Santa Helena, Jataí, Mineiros, Quirinópolis e imediações.  

Foi em Goiás que conheci o arroz com pequi e o licor de pequi (delícias!), a galinhada com palmito gabiroba (portento!), o cajuzinho do campo (aquele prodígio da natureza!) e, sobretudo, conheci muitos Jerônimos e muitos Lázaros. No masculino e no feminino. Sendo que, Jerônimo, costuma aparecer em sua versão top de linha, com G inicial.

– O meu, é Gerônimo dos bão; escreve aí com G, por favor.

Mas a história que desejo contar ocorreu no Cartório de Registro Civil de uma daquelas cidades importantes da terra do Anhanguera.
Entrou na repartição uma distinta senhora  ¬ que depois soube tratar-se de nova médica do lugar ¬ com uma criança recém-nascida ao colo, desejando registrá-la. A atendente, mocinha de uns trinta anos com ares de domínio sobre seu ofício e vestígios de acne na face, indagou:

– Qual o nome da criança, minha senhora?
– Ingeborg ¬ retrucou a orgulhosa mamãe.
– Ingeborg! ¬ intrometeu-se a serventuária. A senhora gosta desse nome?
– Acho lindo, é o nome da avó dela ¬ explicou a mãe.
– Huumm! Para mim, um horror ¬ insistiu a servidora. Mas não tem importância, né, quando ela atingir a maioridade poderá pedir ao um juiz alteração do registro para troca do nome... Se ela quiser, claro.
– Você não gostou, mesmo, do nome da minha filha, hem! A propósito, qual o seu nome, minha querida?
– Me chamam Lazinha, mas meu nome é Lázara.
– Ah, sim...
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(Publicado em 25.08.2011 em: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/ e no LEOPOLDINENSE de 30.04.2013)

Um comentário:

  1. Pois é, garanto que muito leitor de teu blog vai dizer que não gostar do nome do bebê era "inveja" da escrivã. Estamos tão colonizados culturalmente que achamos feios os nossos nomes mais tradicionais, mas inventamos de dar nomes estrangeiros aos nossos filhos.

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