Total de visualizações de página

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A Moça Estrábica

***
Agosto, 2011


Isadora era ligeiramente estrábica. Muito ligeiramente. Nada que comprometesse seus encantos de menina luminosa, simpática que só ela. A rapaziada do meu tempo tinha por aquela moreninha os quatro pneus arriados e o estepe também. De feições delicadas e vivas, educação primorosa a insinuar-se em gestos comedidos, sutis, boa estatura e contornos harmoniosamente delineados pelo esporte – exatamente o vôlei, em que era presença destacada nas quadras do Colégio. Sobressaía-se ainda pelo sorriso gostoso, sempre cordial e seus dois olhinhos claros, inquietos.

Em classe, aluna aplicada, alvo de todos os elogios. Até o uniforme azul e branco parecia cair melhor nela, ser mais novo, mais limpinho, mais bem passado. Às amigas dizia-se apaixonada por Rafael, o mais novo da turma, rapazola meio dividido entre o pouco sociável e o nerd. Este, informado da inclinação de Isadora por ele, ansiava pelo momento de vencer a timidez infantil, que aos dezessete anos ainda o acossava, e aproximar-se daquela que dizia ver como “a criaturinha mais fascinante com que Deus enfeitara o planeta”. Outro cativo – confessava – exatamente dos olhinhos imprecisos de Isadora.

Ou seja, a única particularidade na moça cabível numa restrição estética – o olhar um pouquinho enviesado – só a tornava mais charmosa, na opinião geral. Rafael não via o momento de vencer o embaraço e declarar-se à amada.

Era costume, lá pelos anos sessenta, aniversários de jovens servirem de pretextos a festinhas dançantes, domiciliares, às quais davam o nome de “brincadeiras”. Pois bem, no convite para o niver de Isadora surgiu a oportunidade decisiva do claudicante eleito. Estive lá e acabei como testemunha casual do fortuito imprevisto que iria influir para sempre no destino de três pessoas.

Mal soou a primeira música, Isadora procurou reunir no peito a mais persuasiva mensagem de ternura que o coração pudesse mandar aos olhos e disparar na direção de Rafael. Seus dois olhinhos sinuosos, entretanto, imprimiram trajetória ligeiramente angular à mirada, que foi bater, como um pastelão de chanchada,  bem no semblante de Jota Sicrano, brasileiro, solteiro, marinheiro recruta, encostado na parede ao lado de Rafael. Surpreso, Sicrano entendeu que não seria delicado desconsiderar tão implícita convocação – ainda mais vindo de quem vinha! – e, solícito, convidou-a para dançar. Veio de lá: La Barca... El día que me quieras... Casaram-se.

Rafael jamais se resignaria por inteiro dessa falseta do destino. Não que chegasse à obsessão, mas certo vazio, enviesado, de Isadora ficaria para sempre. 


₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicado em 04.08.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

3 comentários:

  1. José do Carmo, em primeiro lugar parabéns, seu blog está muito bem elaborado,hoje é que vi o progresso. Em seguida, um favor: queria comentar lá no site do GLN (pede senha e eu não consigo mais guardar tanta senha) que o Centro de Treinamento dos Professores Rurais da campanha de 1958, que está lá no vídeo, hoje é uma prisão, funciona a Apac. Veja que ironia. E acrescentar que a construção da época encontra-se deteriorada, mas genuína. E o mais interessante, tem as pinturas na parte de cima da construção que, diz a Glória Barroso, foi obra do filho do arquiteto citado lá no vídeo. A pintura está relativamente intacta por ser no andar de cima e a escada para acesso foi destruída com o tempo. Eu fotografei e gostaria de enviar as fotos para vcs. Tudo isso porque, com a mudança de computador, perdi os meus contatos, por isso escrevo por aqui. Ah, e o link do Recomeço é http://jornalrecomeco.blogspot.com/. Obrigada.Abraços.

    ResponderExcluir
  2. Obrigado, Gueguê.
    Nem faço muito alarde do meu blog porque ele é, na verdade, um depósito de escritos meus. Ainda tenho muita matéria antiga para revisar e trazer para cá, mas, tenho priorizado o arquivo de Poesias. É que, algumas delas foram musicadas por meus "parceiros amigos", Roberto Souza, Dhaal e Pedro Paulo, o que, exige uma trabalhosa transformação das gravações (em fita e acetado) ao MP3. Devagarzinho o blog vai ganhando forma.
    Aceito, sim, as fotos. Pode mandar por e-mail.
    Já alterei, no Blogroll, o endereço do Recomeço. Muitíssimo agradecido.

    ResponderExcluir
  3. Otimo texto! Parabens!

    ResponderExcluir

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.