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sexta-feira, 17 de junho de 2011

A Calma do Padilha #

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Junho, 2011

Padilha sempre foi um sujeito tranquilo. Tranquilo até demais. A crônica de sua plácida existência, aliás, não registra um único dia ou instante de apreensão ante os habituais percalços do estar vivo. O que não tem solução, solucionado está - sua profissão de fé.

Nascido, criado e vivido numa vila do interior de Minas onde todas as ruas são curtas e convergem para o cemitério, Padilha – que jamais cumpriu horários combinados – cometeu a proeza de chegar atrasado ao enterro do próprio pai. Foram vinte minutos de contrita ansiedade familiar na hora de dar tampa ao esquife. O filho único não aparecia. - Viajou? - Adoeceu? Nada! Tá por aí mesmo. - Deus do céu! – exclamavam carpideiras – que excepcional embaraço estará subtraindo a um solteirão desocupado as exéquias de tão bondoso pai?...

Eu disse desocupado? Então fica. Padilha realmente nunca trabalhou. Não almejo fortuna mundana – justificava-se. Recebera por testamento de um tio e padrinho a próspera casa comercial que lhe renderia aluguel ao longo da vida. Era quanto lhe bastava à existência regrada. Suficiente também para ele apregoar que o cavalo dele já nascera arreado...

Vício, apenas os botecos. Não que fosse bebum. N’era não. Tava ali pra participar, ver gente, uma cervejinha compondo a mesa, um amigo ou uma amiga de passagem... Patota, não. Se aglomerasse o Padilha escorregava de fininho. Mas o sublinhadamente folclórico nele era mesmo aquele proverbial desligamento, seu absoluto desapego a compromisso. Só chegava em festas quando os últimos convidados já estavam saindo. No jogo de canastra ou buraco era um suplício esperá-lo na escolha da carta para descarte. – Joóóóga, Padilha!

Já as moças o tinham em boa conta. Cinquentão, solteiro, educado, alto, esguio, vestia-se com aprumo, sempre com aquele aspecto de banho tomado, cabelos sabendo à prata. Além do mais, pagava a cervejinha da mesa. Nunca tantas que parecesse “coronel”; duas ou três, podia deixar com ele.

Constava ter vivido um rápido relacionamento conjugal ali pelos trinta anos. Equívoco fugaz que não voltaria a cometer. Nascer homem – afirmava – é dádiva preciosa demais para se desperdiçar com amarrio a mulher e filhos.

Mas por que estaria eu aqui a falar de um sujeito falecido há dez anos? É que, no último sábado, numa roda de amigos, o cirurgião Dr. Motinha trouxe à baila os dias finais do Padilha.
Contou-nos ele que, na ocasião, Padilha o procurara com dificuldade respiratória. A verificação clínica sugeriu problema grave. Exames requeridos e feitos, na consulta de volta não pôde o médico sonegar ao doente a realidade terrível: teria que retirar um pulmão e, para o outro, o tratamento seria apenas paliativo.

Padilha era lúcido o bastante para entender o prognóstico sombrio. Motinha, entretanto, não captou nele qualquer sinal de pânico ou inquietude. Como seria natural pelo menos algum sofrimento interior, mediu-lhe a pressão para, vindo ao caso, ministrar-lhe calmantes, etc.
Qual nada! Mesmo diante do funesto diagnóstico, Padilha acusava batimentos normais e pressão doze por sete! Pena que coração não é tudo e, dentro do previsto, veio a falecer meses depois.

E Dr. Motinha concluiu sua fala: - Gente, o Padilha foi meu colega de ginásio, meu amigo, um cara legal. Mas eu considero que ser tranquilo ao ponto de ostentar ritmo cardíaco inalterado e pressão arterial doze por sete no momento em que recebe – aliás, impassivelmente – a notícia de estar liquidado por um câncer, não pode ser normal. É deboche, é negar sentimentos que nos igualam a todos, é diminuir o semelhante, é colocar-se acima do bem e do mal, é viver num mundo supraterreno onde nada o atinge... Um mundo criado só pra ele!

Querem saber de uma coisa, para mim o Padilha extrapolava. Aquilo não era calma, não era equilíbrio coisa nenhuma. Tinha outro nome. O Padilha era um bom filho da p...
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(Publicada em 16.06.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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