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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Prevenção de Desastres

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Janeiro, 2001

"Grandes navegadores devem suas reputações
às grandes tempestades." (Epicuro)

Em post desta última terça-feira, Maria Helena Rodrigues Rubinato de Souza comentou com muita propriedade, em seu Blog do Globo Online, a falta de sistemas preventivos de acidentes no país:

“Parece que no Brasil o sistema de alarme sofisticado levará muitos anos para ser instalado. Pergunto: já que a tecnologia ainda é sonho distante, que tal usarmos celulares para avisar padres e prefeitos e eles voltarem a usar sinos para avisar os moradores do perigo iminente, ao receberem as mensagens, ainda que cifradas, dos operadores do novo radar?”

De fato, andamos ao sabor de improvisações. O exemplo mais marcante disto me pareceu o ocorrido na cidade de Areal, RJ, também fortemente atingida pela tromba d’água que assolou a região serrana do Rio. O prefeito de Areal teve a felicidade de ser informado que uma “cabeça d’água” vinha descendo, arrasando tudo, pelo extenso vale do Rio Preto. Gravou rapidamente um aviso aos moradores da beira do rio (no caso, significativa parte da população de Areal), colocou-o num carro de som, e, com isto, acabou por salvar dezenas de vidas. A inundação diluviana derrubou e arrastou muitas casas em Areal, mas não levou gente.

Sem dúvida, dispomos hoje de tecnologia suficiente para não dependermos tanto da sorte (no caso, sorte de receber e interpretar do modo adequado uma notícia) e de adotar com sucesso medidas heróicas como esta. Nada obstante, a providencial gravação de uma fita cassete a ser rodada pelas ruas de uma cidade em tempo crítico, se cotejada com o avanço tecnológico já alcançado pelo Brasil, soa como algo comparável aos românticos sinais de fumaça dos índios americanos nos filmes de John Wayne.

O Rio Preto desce das cercanias de Teresópolis correndo por vales muito estreitos e gargantas pedregosas, ao longo de uns bons quarenta quilômetros, entre a Br-116 (trecho Teresópolis/Além Paraíba) e a cidade de Areal. Trata-se de um vale paradisíaco, densamente habitado, com construções (indústrias, comércio e residências) perigosamente edificadas à beira do rio.

Foi foi dessa região, do município de São José do Vale do Rio Preto, RJ - cidade que se orgulha de possuir o nome mais extenso do Brasil - que partiu o aviso para o prefeito de Areal. Aviso que, felizmente, chegou na hora certa ao ouvido da pessoa certa e mereceu a improvisada, porém inteligente, providência do “grito” à população.

O mais desejável, no entanto - e de todo possível no atual estágio de civilização que, afortunadamente, vivemos - é que avisos dessa natureza sejam passados de maneira mais técnica, mais segura e mais profissional. É claro que podemos equipar nossa defesa civil com instrumental contemporâneo. O que tem faltado é governo no pedaço.

Trata-se de atribuição do Ministério da Integração Nacional, através do Sistema Nacional de Defesa Civil – SINDEC e da Secretaria Nacional de Defesa Civil – SEDEC. A missão estatutária desses organismos é reduzir desastres e efeitos dos mesmos, sobretudo mediante ações de prevenção e preparação para emergências, nos três níveis administrativos – federal, estadual e municipal.

O governo acaba de anunciar a criação um Centro Nacional de Prevenção de Desastres que deverá “mapear todas as ocorrências graves de chuvas nos últimos 20 anos, reformular o sistema de alerta em áreas de risco e aumentar a rede de radares que, junto com um supercomputador, irá prever mudanças climáticas com mais eficiência”.
Povo da minha terra! Será que esse “mapeamento” e essa “prevenção” de mudanças climáticas dependem mesmo da criação de um novo ente administrativo? Confesso que não me sinto confortável vendo municípios acenarem com mortes e prejuízos e o governo responder com mais uma possível sinecura... Claro que eu torço pra que não seja nada disto.

Não bastassem as dúvidas, o Ministério de Ciência e Tecnologia informa que o aparato só estará funcionando daqui a quatro anos! Antes tarde... Há outro dito, sempre repetido, segundo o qual o sol nasce para todos. Talvez não para os dorminhocos. Os encarregados de nossa segurança, no governo, precisam perder o hábito de dormir até mais tarde e só despertar nos momentos de dor e desespero.
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(Publicado aos 20.01.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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