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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A Morte do Sô Gervásio

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Janeiro, 2011

Os irmãos, Sinval e Lazinho não tinham o direito de fazer com o pai o absurdo que fizeram. Imaginem! Levar o velho de 78 anos para uma noite de orgia numa Casa de Raparigas em Uberaba! Um homem do respeito e do conceito do Velho Gervásio! Que eles levem uma vida depravada e libidinosa de solteirões sem juízo, tudo bem, mas carregar o pai para a devassidão em que vivem! Convenhamos, era só o que faltava.

Santana da Cangalha inteirinha ficou sabendo! Expuseram à maledicência do povo a intimidade de uma pessoa de bem, de um cidadão respeitado e íntegro, levando também ao ridículo sua virtuosa esposa, Da. Miloca, mulher já entrada em anos, mãe infeliz desses dois irresponsáveis!

Justo o Velho Gervásio, exemplo que sempre foi de esposo e homem temente a Deus, membro fervoroso da Congregação do Santíssimo, penitente das procissões da Virgem da Abadia! Mácula indelével! Razão assiste a padre Antero quando verberou, do púlpito da Matriz, a ocorrência de indução sacrílega à fornicação. E foi o que houve.

Os safados negam a prática libertina que teria vitimado o pai, mas não explicam o fato de ter o mesmo chegado em casa já morto e enrijecido num banco de caminhonete empoeirada, por eles conduzida. Dr. Odivar, o delegado, foi categórico: o defunto veio de longe. De Uberaba, talvez. Só não abriu rigoroso inquérito para não atormentar, ainda mais, a vida da honrada viúva, também idosa, que já anunciava para o mês vindouro a Santa Missa pelas Bodas de Ouro do casal.

Vencido o luto, entretanto, alguma providência se impunha. Defuntos em Santana da Cangalha sempre foram sepultados na posição retilínea. Urna especial para enterrar finado torto, na vexatória postura de sentado, esta seria a primeira vez. E, prouvera aos céus, a última.

A verdade era uma só: Sinval e Lazinho, dentro da irresponsabilidade e dos valores devassos que cultivam, decidiram “dar uma alegria” ao pai. Por libertinos e levianos, a noção que possuem de alegria está vinculada a prostíbulos. Não entrava na cabeça do par de cafajestes que o pai fosse feliz levando uma vida regrada, obediente aos sagrados preceitos da fé, sem nunca ter dado um “pulinho fora”, preso por meio século a uma única mulher e a trabalhos rurais duríssimos. Enorme desperdício de vida para um pai tão bom – pensavam os depravados. Ele merecia alguns instantes de felicidade.

Mentiram à mãe que Velho Gervásio necessitava exames médicos, meteram-no na caminhonete da fazenda e viajaram para Uberaba, cidade grande onde o vício e o pecado imperam na madrugada boêmia.

Para espairecer o espírito, sempre a bebidinha. O local escolhido era acolhedor, suavemente iluminado, mulheres lindas e simpáticas, se desmanchando em gentilezas com o simplório Gervásio. Adredemente conversada pelos biltres, a lourinha, Marybel Tatoo, entrou a desincumbir-se de sua parte, tão logo os moços se ergueram da mesa:
-Té já, pai, fique à vontade com Bebel, ela é gente finíssima...

O velho era inexperiente, mas não era tolo. Entendeu o mimo. A moça o convidou para “subir”... e lá foi o respeitável cidadão cangalhense à vida. Burro velho não pega marcha? Pega, sim, depende muito de quem o maneja. O homem estava nas mãos da Bebel!..

Que só desceu na manhã seguinte, um tanto aflita, pedindo aos filhos que fossem lá em cima buscar o velho.
- Ele mudou de cor e não quer acordar – explicou ela.

Subiram os dois pândegos e - bom cabrito não berra - voltaram com Sô Gervásio dependurado pelas axilas:
-Valeu Bebel, ele vai ficar logo bom – acalmou-a Sinval. E, quebrando pro lado a cintura: Estou de mãos ocupadas, pegue “o seu” aqui no meu bolso. Oops! Eu falei “pegar o dinheiro”, sua sacana!... Arrastaram o estropiado para o estacionamento: Velho Gervásio estava mortinho da silva. Transitara direto dos carinhos da linda Marybel para o éter.

- Vamos dar o fora com ele, rápido, mano, antes que alguém veja, chame a polícia e isto vire reportagem de jornal e de TV. Vire escândalo. Pra todos os efeitos papai “vai morrer” em casa...
- Eu dirijo. Bota o chapéu na cabeça dele e o abrace firme. Temos estrada pela frente – decidiu Lazinho. Se mandaram com o extinto.

A chegada em Santana da Cangalha só se deu à tarde. Não faltou quem presenciasse os dois irresponsáveis descerem do carro e entrarem em casa, afobados, carregando o pai, duro e retorcido. O veículo empoeirado, de portas abertas, denunciava algum mal-feito. Logo, logo, toda a prestimosa vizinhança acorreu à casa enlutada.
- O Sô Gervásio morreu! Onde? Como? Ele sofria de algum “incômodo” grave?

Quem pergunta quer saber, e não foi difícil à sociedade cangalhense levantar toda a verdade, repisada nos botecos e nas esquinas:
-De fato, os dois safados levaram o pai para um puteiro! Imagine quantos comprimidinhos de excitação pecaminosa não enfiaram no coitado! Todo mundo sabe que aquilo mata. Com filhos assim ninguém precisa inimigos. Quem é capaz de coisa assim, é capaz de tudo! Sem falar na longa impiedade do sequestro de cadáver, ao ponto do velho grimpar as juntas na posição de sentado! Um tripúdio sobre o direito que toda pessoa tem de ir dignamente à cova, com o corpo na estendida fleugma da praxe mortuária!

E agora - sussurrou Lazinho ao irmão. Com toda essa zoeira na rua, que médico vai querer assinar o atestado de óbito do papai?
-O Dr. Magaref - acudiu Sinval. Não tem outro. Mesmo a gente sabendo que aquele turco ladino vai vender caro o laudo: uma boa grana pra assinar o atestado, outra grana preta pra não desmoralizar nosso pai dando, como causa mortis, “surra de xica”. Fazer o quê?
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