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quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Meu Nome é Caju

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Julho, 2003


O mínimo que se espera de um cronista é que ele saiba escolher assuntos que mereçam crônica. O problema é quando o assunto que não merece crônica embirra e não desocupa a moita. Não sei como agem cronistas sérios em tal situação. Eu, sem nome a zelar, pego o assunto que não merece crônica e faço uma crônica que não merece leitura. É o que acontece agora. Avisei, hem.

Olha, se não bebesse tanto, o carioca do Méier, nosso amigo Caju, ainda estaria vivo. Passava o dia e boa parte da noite num boteco do Catete, tranquilo, tranquilo, sentado num banquinho redondo, daqueles altos de balcão de lanchonete, bicando cerveja e esticando conversa.

Isto, lá pelos anos 60. Nós, estudantes da república “Solar do Outeiro”, na Glória, ao sairmos pela manhã, já topávamos o Caju no bar do Caçapa em pleno desjejum etílico. No fim do dia, quando a gente voltava, o homem continuava lá, firme, repetindo gestos, assuntando a rua. Mais ou menos os mesmos casos, as mesmas piadas e companhias que também variavam pouco.

Só tinha graça porque éramos jovens. São recordações da mocidade distante, revolvidas ontem num passeio, a pé, pelas ruas do Flamengo e da Glória.

Caju aparentava, então, uns quarenta anos, mal vividos. A tal altura da vida, não devia estar aposentado por idade. Por doença também não. Ninguém com problema de saúde suportaria meia hora naquele assento diminuto, sem encosto, com as pernas dependuradas. E ele se mostrava com gás para não sair dali.

Nunca o vimos inteiramente tonto − até porque cairia do banco. Algum alerta orgânico devia soar quando ele atingia o limite etílico. Caso raro de golo sob controle.

Uma coisa nos intrigava: sabido que o avaro Manoel Caçapa, dono do bar, um portuga pão-duro do tipo munheca paralítica, não vendia fiado, quem financiaria as pingas do Caju? De onde vinha a grana de manter na flauta um filósofo de boteco?

“A grande falha da criação − especulava − foi Deus não ter dotado o ser humano com dois cérebros. Com dois, talvez um aceitasse tratamento quando o outro começasse a bater pino.”

– Profundo, profundo! − a gente aderia. Afinal temos dois pulmões, dois rins, dois olhos... Somente no futebol teríamos um probleminha nas bolas divididas, não é Caju, com quatro cérebros administrando a trombada...

De hoje a gente conclui que, inconscientemente, ele buscava a fórmula da própria salvação, que seria um cérebro sadio dando socorro ao cérebro exigente de álcool.

Minimizava a importância da bebida. O apego ao Bar do Caçapa, por exemplo, estava no tempero do pernil assado.
– O pernil daqui, ó... Num tem!

Perguntaram se o pai dele era doido.

– Doido por quê?
– Ora, esse nome idiota que ele colocou em você.

– Ih, nem fala! Meu pai foi um irresponsável que resolveu brincar com o nome do filho. Colocou em mim o nome dele, invertido. Ele era Juvenal, vulgo Juca, entende? Me registrou com as sílabas do Juca, invertidas: Caju. Só que ele não bebia, eu bebo!... Rá-rá-rá...

– Bom, então já que você abriu o coração, Caju, aproveite e tire mais uma dúvida que a gente carrega há muito tempo. Quem paga suas biritas?

– A lógica não muda. Meu pai trabalhava e minha mãe ficava em casa de bobeira. Pra não contrariar o destino traçado pelo meu pai, faço o inverso: minha mulher trabalha, eu fico bebendo na rua.


– Humm! Aí fecha.

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(Publicada na Gazeta de Leopoldina de 05.07.2003 e em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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