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sábado, 8 de agosto de 2009

Acontece no Interior #

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Novembro, 2002

Em cidadezinha do interior a vida costuma ser meio “besta”, como disse o poeta itabirano.
Imaginem vocês que meu amigo Taveira, um carioca nascido no Meier, com nome e cacoetes de personagem do Nelson Rodrigues, depois de morar muitos anos na Gávea foi dar com os burros em Minas Gerais.

Tudo porque, enquanto a longa existência na zona sul do Rio lhe envernizava os hábitos, a favela da Rocinha ia subindo a encosta de São Conrado, descendo depois pelos costados da Rua Marquês de São Vicente, à razão de uns cinco barracos por semana. Assim, numa dessas manhãs de torcicolo, Taveira ponderando a tragédia urbana pelo basculante da cozinha do seu sala-três-quartos, pensou: “Talvez esteja chegando a hora de voltar pro Meier...”

Só que a infernização dos bairros cariocas já havia engolido o Meier há muito tempo e a opção de sossego mais viável para o nosso amigo passou a ser uma vila do interior mineiro, terra natal da patroa. Àquela altura, com os filhos criados e independentes, dava para encarar. Assim, acelerando rápido da conjectura à ação, um caminhão de mudanças descarregou os badulaques do Taveira numa cidadezinha bucólica de Minas, poucas semanas depois.

O dia da chegada até que ficou bem marcado porque na hora de pagar o caminhão, estando os terminais do Banco fora do ar (Acontece muito, no interior: comunicação depende um pouco de sorte), Taveira teve que apelar para as reservas em espécie de um cunhado. O motorista precisava abastecer o caminhão e não aceitou cheque.

Claro que Taveira não imaginava que esse socorro emergencial, em família, se desdobraria, rapidinho, num dever de temerária reciprocidade... (Ás vezes acontece, no interior: generosidade recebida pode convolar-se em pedido de aval bancário, dias depois).

Mas vida que segue e Taveira começou a observar que os esportes mais praticados pela gente interiorana eram piadinhas depreciativas em relação aos homens e patrulhamento sexual em relação às mulheres. Isto o incomodava tanto que, portador de conceitos menos frívolos, Taveira começou a isolar-se com seus jornais, a dispensar simpatias, a desistir de projetos. Acabou comprando um sítio (Acontece demais no interior: as pessoas que chegam acreditam que Sítio é um paraíso).

Pagou o dobro do que valia a propriedade porque, como de praxe, pessoas deslocadas e sem muita noção dos valores correntes na província, tornam-se presas fáceis de oportunistas. São “amigos” que não perdem a oportunidade de levar vantagem quando sentem que alguém está entrando num negócio que não conhece.

Muito cedo deu-se conta o Taveira de que, para ele, as coisas valiam sempre bem mais na hora de comprar e bem menos na hora de vender (Acontece sempre, no interior: o tédio do forasteiro de ficar, longamente, numa conversinha de “cerca Lourenço” discutindo preço, é interpretado como bobice).

Passou a morar num sítio. Só que, para tocá-lo, Taveira viu-se reduzido a um emitente compulsivo, de cheques: cheque pro milho das galinhas, pra ração do cachorro, pro complemento da vaca, pra ração dos porcos, das galinhas, dos pintos, dos perus, cheque do tratorista, do veterinário, do ferrador de cavalo. Cheques, ainda, para o sal das vacas, pra uréia, pro bernicida, pro carrapaticida, pro fungicida, pro larvicida, pro antibiótico, pro anti-diarréico, pro arame farpado, pro mourão, ripa, caibro, porteira, combustível, pra distribuidora de energia, pro mecânico gatilheiro e, claro, para os indispensáveis empregados de carteira assinada.

Bem pior que os desfalques intermináveis no saldo bancário era lidar com esse montão de coisas bizarras. Tanto assim que, passados três anos de purgatório astral, uma decisão fácil triunfou absoluta e irrevogável na cabeça do Taveira: vender aquela merda de sítio.

Liquidez de imóvel rural não é lá essas coisas, mas agora, com uma bela casa colonial, gramado amplo, piscina, curral reformado, rede elétrica nos padrões, açude e poço artesiano - tudo isto a custa do FGTS de um aposentado idiota - era bem capaz de se encontrar quem desse, no imóvel, a metade do que lhe custara na desastrada aventura. Mas olhe bem - alertou o corretor - comprador não aparece no ato. Tem que ter paciência!

Não, ponderou Taveira: vai aparecer rapidinho. Minha mulher é muito devota de Yemanjá. Fez uma promessa para aparecer um ótimo adquirente para este sítio e nós comprarmos, com o preço, um apartamento de 500m2, de frente para o mar, no Rio de Janeiro...

É engraçado como isto também acontece no interior: na extrema penúria as pessoas começam a delirar.
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(Publicada na Gazeta de Leopoldina de 27.11.2002)

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