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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Cavacos da Crise

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Dezembro, 2005

O calcanhar de Aquiles da democracia brasileira sempre esteve em que as pessoas honestas, cultas e talentosas dispensam pouco apetite pelo poder, ao contrário dos medíocres - obstinados pela ocupação de espaços políticos em que se escudem e viabilizem velhacarias. Junte-se a isto a notável empatia das massas pela pândega dos segundos, chegamos à demeritocracia generalizada em que viemos parar.

O país precisa reforma política. O ideal seria se caminhássemos para uma modificação na Lei Eleitoral - talvez, até no texto constitucional - que tornasse a escolha pelo voto em algo menos aleatório, num molde de democracia mais zeloso da coisa pública e dos destinos da nacionalidade.

A propósito, o Senador Eduardo Suplicy imagina introduzir, urgentemente, na Constituição o instituto da Revogação Popular de mandatos eletivos - ou recall, como o denominam os norte-americanos.
Tal instituto, segundo ele, fortaleceria a soberania do povo, que passaria a poder apear do poder presidentes que não correspondessem às expectativas. Mas eu pergunto: quanto custaria aos cofres públicos semelhante plebiscito? Em duas oportunidades mais ou menos recentes o povo desavisado deste país recusou o Parlamentarismo. Foi pena. Penso que no dia em que o regime parlamentar vier a ser introduzido, como consequência natural da evolução cultural do nosso povo, metade dos nossos problemas político-eleitorais estarão postos a bom recado.

Expectador acima do poder, acima da oposição, acima da emoção, se me desfavorece o menor preparo, favorece-me o olho limpo e imparcial. Observo que a oposição ao governo Lula desconsidera o fundamental, quando pensa que ele se descapitaliza politicamente ao negociar com o PMDB e ao dar apoio às suas tristes figuras. O PT se desmoraliza, sim. Só que as credenciais de PSDB e PFL para capitalizar em praça pública as perdas petistas não são efetivas. Ao desmoralizar-se, o PT não cai abaixo de seus contendores: nivela-se a eles.

A imagem do homem público brasileiro continuará, por muito tempo, prejudicada pela ação do voto popular. O povão vota desastradamente porque é movido por prioridades pessoais bem mais próximas de seu estômago e bem mais agudas, que o (distante) interesse da comunidade.
Se voltássemos à Constituição do Império teríamos o voto permitido tão somente a quem detivesse algo de seu a perder. Ou seja, direito de voto somente para quem tem, para quem pagou uma certa soma em impostos. Infelizmente, isto não condiz com democracia na melhor acepção do vocábulo. Portanto, esquece.

Querem rir? Na CPI dos Correios, segundo está nos jornais, o advogado Walter dos Santos Neto - suspeito de ter intermediado o pagamento da Gtech a grupos ligados ao governo para renovação de contrato com a Caixa Econômica Federal - prestou depoimento em 2.12.05, explicando que sacou R$10 milhões de sua conta bancária “apenas para ver o dinheiro”... Conferir se ele estava lá direitinho, entende? Experiências com ratos deram nome à doença: Síndrome de voyerismo argentário...

E no país do Fome Zero e do Bolsa Família um debate dentro do próprio governo gira em torno de excesso no superavit primário - que é o quanto de receita o governo federal, os estados, os municípios e as empresas estatais conseguem economizar, após o pagamento de suas despesas, sem considerar os gastos com os juros da dívida.
Instigante paradoxo: lidar com a fome e, ao mesmo tempo, com dúvidas sobre o melhor destino a dar ao superavit...
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de 15.12.2005)

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