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Prezado conterrâneo e amigo, Lúcio Sampaio
A nota Candidatura, em sua deliciosa COLUNA SOCIAL da Gazeta de junho/95, na qual o amigo considera nossa possível candidatura à vereança nas próximas eleições, só persiste como fruto da enorme bondade e simpatia do Colunista. Certamente um destaque sobre o que, por hora, não se cogita.
Agradeço, todavia, a delicadeza.
Na verdade, amigo Lúcio, não passo de um advogado de empresas, um técnico, portanto, de origem modesta, mas sem lastro popular/eleitoral. Meu interesse pela política é apenas cultural, coisa de homem racional inserido no seu tempo.
Quanto ao mandato, propriamente dito, temos muita gente boa e amiga para concorrer, com chances efetivas. Para mim, cai melhor aquela primeira fila do teatro, a do gargarejo, donde eu possa aplaudir de pé valores como Nilo Ramos, Ely Rodrigues Neto, o ex-prefeito Márcio Freire, o atual prefeito José Roberto de Oliveira, todos juntos, muito breve, num mesmo palanque, construindo uma Leopoldina maior e mais bela.
Parodiando Martin Luter King, eu também tive um (este) sonho.
Acho que quem viver, verá.
Grande abraço,
José do Carmo
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Velho amigo e vereador, Nilo Ramos
É imprescindível dizer-lhe que muito me lisonjeou a amável nota, Volta às origens, publicada em sua atraente coluna informativa da edição de junho/95, da nossa Gazeta.
Tem significado muito especial para mim receber boas-vindas, na volta à minha terra, exatamente daquele amigo que, em novembro de 1957, tão jovem quanto eu, deslocou-se da Glória à Rodoviária Interestadual do Rio de Janeiro, na Praça Mauá, para receber um companheiro de 18 anos que chegava pela Tavil, de Leopoldina, com o equivalente a meio salário-mínimo costurado no bolso da calça, para arriscar a sorte na cidade grande.
- Deus foi muito bom para nós, não foi, meu caro Nilo?
Na Presidência da República, Juscelino Kubitscheck, mesmo envolvido na criação de Brasília, dispunha de tempo, engenho e arte para garantir oportunidades à nossa juventude. Fui para o Banco Nacional de Minas Gerais, você, o Nilo de Almeida Ramos, para o Banco Mineiro da Produção. Nilo estudou Direito na Faculdade do Catete; eu, na Praça XV de Novembro. Havia emprego, escola superior ao alcance dos jovens trabalhadores e até refeições a preço simbólico no indefectível Restaurante do Calabouço, da U.N.E. Uniâo Nacional dos Estudantes. (O atual Ministro José Serra, naquela época, passou por lá; o Senador Artur da Távola, também).
Éramos rapazes pobres - como disse o Belquior - sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes, mas vínhamos do interior com muitas canções do rádio na cabeça, a nos lembrar que tudo era divino, tudo era maravilhoso...
A gente estudava, trabalhava, fazia vestibular, fazia concursos e, só de vez em quando, se permitia alguma liberalidadezinha...
Neo-liberalismos, não. Não conhecemos isto, nem nada disto advindo, como desemprego, subemprego, camelotagem, sacolagem, recessão, demissões coletivas de pessoal concursado ... Nada disto. Fomos uma juventude feliz.
Quem primeiro mencionou Anos Dourados, deve ter se dourado no sol do Posto-2, em Copacabana, que também caiu de moda há muito tempo.
Muito obrigado, querido amigo Nilo Ramos, pela carinhosa acolhida.
É um privilégio estar em Leopoldina.
Abraço,
José do Carmo
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
( Gazeta de Leopoldina, julho de 1995)
domingo, 15 de maio de 2011
Gazeta de Leopoldina - Trivial Anotado
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Outubro, 1995
0 factotum Serjão
A periodicidade mensal da Gazeta tende a deixar a gente na mão quanto à atualidade dos fatos. No instante, porém, em que esta nota é redigida, o ministro das Comunicações, Sérgio Motta, homem em muitas frentes superdotado, presta-se ao ridículo papel de pugnar pela reeleição do presidente . Ora, todo mundo sabe que a aprovação da emenda é inviável e, sobretudo, inoportuna sua colocação agora, a quatro anos das eleições, porque interfere prejudicialmente no andamento das reformas, as quais a gente supunha que o governo julgasse importantes. Agora vemos que não é bem assim: importante é reeleição ...
Herança do Chalaça
Vem da República Velha esse grotesco servilismo palaciano. Mal um presidente é empossado, surge à boca de cena o cajoleur de plantão defendendo a permanência do chefinho. No caso do atual governo, um casuísmo totalmente injustificável, por envolver pessoas respeitáveis de um governo que se pretende sério. É claro que Fernando Henrique foi uma boa escolha do eleitorado e está popular. Mas não seria um gesto de irresponsabilidade pública submeter a Constituição à prova só para massagear-lhe o ego?
Imagine se depois de Fernando Henrique vem a mulher do Zé Rainha, encarcerada pelo desaviso de um Mandado Judicial que certamente fará dela deputada federal.
O espaço da província
Deixa pra lá. Foco na província. A história exige que órgãos como a Gazeta de Leopoldina assumam compromisso mínimo com fatos locais. Não fossem, por exemplo, os registros provincianos do antigo jornal "O Leopoldinense", minuciosamente levantados na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro pelo historiador, Wander José Neder, não teríamos hoje mapeamento e dados completos da viagem de Dom Pedro II a Leopoldina, no dia 30 de abril de 1881. Visita, aliás, que não teria sido a primeira, mas a segunda, de S.M. Imperial ao município. Quem tiver a curiosidade de conferir, tente encontrar o número-6, do jornalzinho "Reencontro", dos ex-alunos do Colégio Leopoldinense, com edições infelizmente suspensas por falta de patrocínio.
Aliás, o “Reencontro" anda à cata de Mecenas que o devolva às rotativas. Se aparecer ganha um afetuoso diminutivo. Sendo José, vira Zezinho, se for Antonio, vira Tunico.
Rico pródigo é assim: sempre exposto a diminutivos.
Vem mais, vem mais... Bateeeu!
Os oitis das ruas de Leopoldina, com poda retangular; tornaram-se marca registrada da cidade e, portanto, um padrão estético digno de especial atenção. É evidente que a composição retilínea do nosso arvoredo - independente de considerações quanto ao seu bom gosto - integrou-se, de forma indelével, à memória da cidade.
Em algumas ruas, compreensivelmente, o replantio anda meio preterido por obras mais urgentes, prioritárias. Em outras, no centro, os caminhões-baú, nas manobras de entrega ao comércio, agridem impiedosamente o tradicional ornamento. Há dias, um poderoso baú-mercedão-trucado, de conhecida loja de eletrodomésticos de Juiz de Fora, estraçalhava galhos na Cotegipe.
Veículo pesado em rua central é estorvo que danifica também calçamento e redes de serviços públicos.
Legislar sobre trânsito é competência da União, mas impor respeito ao patrimônio municipal, se for o caso, com espessura na multa, é por aqui mesmo, ô parente!
Tá barato, parente
Interessante esse uso do parente em Leopoldina, por algumas pessoas, principalmente no comércio. O hábito paroquial funciona como uma espécie de vocatico, igual ao chê dos gaúchos.
É um achado simpático e valeria a pena especular sobre a origem da coisa. Para mim, pode ter começado no antigo armazém do Joaquim de Oliveira, na esquina da Rua das Flores com Rua João Neto. Eu era criança e ficava intrigado quando o Joaquim e seus balconistas chamavam de parente a todos que entravam lá.
Shakespeare, e a tragédia tupiniquim
Para irritar nosso articulista José Geraldo Soares que tem lá um justo pé atrás com o Bacen, Gustavo Loyola, mui digno presidente da autarquia, acaba de dizer, em entrevista publicada n' O GLOBO de 10.11.95, que é obrigação do Governo socorrer (a fundo perdido) os bancos privados, para preservar a confiabilidade do sistema ...
A gente que é índio vestibulando nessa aldeia de caciques PHD, perde duas luas rasurando o cérebro no silogismo:
a) no caso, então, de banco privado falido estatiza-se o prejuízo (Isto é, o povo paga para os Calmons de Sá não desestabilizarem o sistema financeiro com suas remessas a paraísos fiscais);
b) já no caso da Vale do Rio Doce; Petrobrás, Belgo-Mineira, Banco do Brasil, etc., padrões gerenciais que dão lucro e detêm patrimônio de expressão planetária, privatiza-se o lucro (e todo o ativo) à guisa de gentil presente ao inquilinato do poder, e... na contrapartida de moedas podres! ...
- "Apesar de ser loucura, revela método" - diria Polônio, no Hamlet.
Os governos passam, o BB fica
Enquanto as bolsas brasileiras despencam na corda arrebentada dos bancos privados, o Banco do Brasil assina acordos de cooperação interbancária com a Rússia e países do Leste Europeu. A assinatura do documento pelo diretor da Área Internacional, aos 14.11.95, abre as portas do mercado financeiro russo - e de sua extensa área de influência - ao Banco do Brasil, provando ser esta uma instituição que se amolda e se supera. Sempre, aliás, se soube na administração do Banco do Brasil, que o fim da inflação mensal de dois dígitos prejudicaria mais a concorrência, porque o BB sempre preservou a tradição e o know how do investimento em atividades produtivas.
Todo o poder ao Bacen
Medida Provisória baixada pelo Governo em 17.11.95, permite ao Banco Central: a) intervir nos bancos em dificuldade; b) desapropriar as ações e transferir seu controle acionário a terceiros; c) afastar a diretoria e vender bens pessoais dos proprietários dos bancos; d) considerar os sócios controladores particularmente responsáveis (inclusive com bens pessoais) nas encrencas do banco.
Do ponto de vista dos depositantes e dos credores, é perfeito. Na idiossincrasia do banqueiro, entretanto, a tranqüilidade deles talvez venha a depender: a) de um divórcio, com todos os bens em nome dos filhos; b) de uma lobotomia que remove, nele, aquela parte do cérebro onde reside a noção do perigo e o medo de cadeia; c) de que todo o seu capital, aplicado no negócio, seja objeto de roubo ou furto...
À posteridade
Quem vier a ler esta Gazeta, daqui a uns duzentos anos saiba que outubro de 1995 tem sido de boas chuvas na região, de recuperação das pastagens após alguns meses de estio, e de bastante dificuldade no comércio, sobretudo pela escassez do crédito. O povo, entretanto, vai bem melhor do que sempre: o litro de leite vale dezoito centavos para o produtor (já esteve bem pior); um frango, ao consumidor, menos que um real; e os flanelinhas ganham até cinco reais para lavar um carro!
O compositor, Renato Russo, pergunta numa canção: - Que país é este?...
Realmente, não deve existir outro lugar neste mundo esférico onde alguém possa comer frango a semana toda só porque lavou um carro.
Teremos manga, em dezembro.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada na Gazeta de Leopoldina de outubro de 1995)
Outubro, 1995
0 factotum Serjão
A periodicidade mensal da Gazeta tende a deixar a gente na mão quanto à atualidade dos fatos. No instante, porém, em que esta nota é redigida, o ministro das Comunicações, Sérgio Motta, homem em muitas frentes superdotado, presta-se ao ridículo papel de pugnar pela reeleição do presidente . Ora, todo mundo sabe que a aprovação da emenda é inviável e, sobretudo, inoportuna sua colocação agora, a quatro anos das eleições, porque interfere prejudicialmente no andamento das reformas, as quais a gente supunha que o governo julgasse importantes. Agora vemos que não é bem assim: importante é reeleição ...
Herança do Chalaça
Vem da República Velha esse grotesco servilismo palaciano. Mal um presidente é empossado, surge à boca de cena o cajoleur de plantão defendendo a permanência do chefinho. No caso do atual governo, um casuísmo totalmente injustificável, por envolver pessoas respeitáveis de um governo que se pretende sério. É claro que Fernando Henrique foi uma boa escolha do eleitorado e está popular. Mas não seria um gesto de irresponsabilidade pública submeter a Constituição à prova só para massagear-lhe o ego?
Imagine se depois de Fernando Henrique vem a mulher do Zé Rainha, encarcerada pelo desaviso de um Mandado Judicial que certamente fará dela deputada federal.
O espaço da província
Deixa pra lá. Foco na província. A história exige que órgãos como a Gazeta de Leopoldina assumam compromisso mínimo com fatos locais. Não fossem, por exemplo, os registros provincianos do antigo jornal "O Leopoldinense", minuciosamente levantados na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro pelo historiador, Wander José Neder, não teríamos hoje mapeamento e dados completos da viagem de Dom Pedro II a Leopoldina, no dia 30 de abril de 1881. Visita, aliás, que não teria sido a primeira, mas a segunda, de S.M. Imperial ao município. Quem tiver a curiosidade de conferir, tente encontrar o número-6, do jornalzinho "Reencontro", dos ex-alunos do Colégio Leopoldinense, com edições infelizmente suspensas por falta de patrocínio.
Aliás, o “Reencontro" anda à cata de Mecenas que o devolva às rotativas. Se aparecer ganha um afetuoso diminutivo. Sendo José, vira Zezinho, se for Antonio, vira Tunico.
Rico pródigo é assim: sempre exposto a diminutivos.
Vem mais, vem mais... Bateeeu!
Os oitis das ruas de Leopoldina, com poda retangular; tornaram-se marca registrada da cidade e, portanto, um padrão estético digno de especial atenção. É evidente que a composição retilínea do nosso arvoredo - independente de considerações quanto ao seu bom gosto - integrou-se, de forma indelével, à memória da cidade.
Em algumas ruas, compreensivelmente, o replantio anda meio preterido por obras mais urgentes, prioritárias. Em outras, no centro, os caminhões-baú, nas manobras de entrega ao comércio, agridem impiedosamente o tradicional ornamento. Há dias, um poderoso baú-mercedão-trucado, de conhecida loja de eletrodomésticos de Juiz de Fora, estraçalhava galhos na Cotegipe.
Veículo pesado em rua central é estorvo que danifica também calçamento e redes de serviços públicos.
Legislar sobre trânsito é competência da União, mas impor respeito ao patrimônio municipal, se for o caso, com espessura na multa, é por aqui mesmo, ô parente!
Tá barato, parente
Interessante esse uso do parente em Leopoldina, por algumas pessoas, principalmente no comércio. O hábito paroquial funciona como uma espécie de vocatico, igual ao chê dos gaúchos.
É um achado simpático e valeria a pena especular sobre a origem da coisa. Para mim, pode ter começado no antigo armazém do Joaquim de Oliveira, na esquina da Rua das Flores com Rua João Neto. Eu era criança e ficava intrigado quando o Joaquim e seus balconistas chamavam de parente a todos que entravam lá.
Shakespeare, e a tragédia tupiniquim
Para irritar nosso articulista José Geraldo Soares que tem lá um justo pé atrás com o Bacen, Gustavo Loyola, mui digno presidente da autarquia, acaba de dizer, em entrevista publicada n' O GLOBO de 10.11.95, que é obrigação do Governo socorrer (a fundo perdido) os bancos privados, para preservar a confiabilidade do sistema ...
A gente que é índio vestibulando nessa aldeia de caciques PHD, perde duas luas rasurando o cérebro no silogismo:
a) no caso, então, de banco privado falido estatiza-se o prejuízo (Isto é, o povo paga para os Calmons de Sá não desestabilizarem o sistema financeiro com suas remessas a paraísos fiscais);
b) já no caso da Vale do Rio Doce; Petrobrás, Belgo-Mineira, Banco do Brasil, etc., padrões gerenciais que dão lucro e detêm patrimônio de expressão planetária, privatiza-se o lucro (e todo o ativo) à guisa de gentil presente ao inquilinato do poder, e... na contrapartida de moedas podres! ...
- "Apesar de ser loucura, revela método" - diria Polônio, no Hamlet.
Os governos passam, o BB fica
Enquanto as bolsas brasileiras despencam na corda arrebentada dos bancos privados, o Banco do Brasil assina acordos de cooperação interbancária com a Rússia e países do Leste Europeu. A assinatura do documento pelo diretor da Área Internacional, aos 14.11.95, abre as portas do mercado financeiro russo - e de sua extensa área de influência - ao Banco do Brasil, provando ser esta uma instituição que se amolda e se supera. Sempre, aliás, se soube na administração do Banco do Brasil, que o fim da inflação mensal de dois dígitos prejudicaria mais a concorrência, porque o BB sempre preservou a tradição e o know how do investimento em atividades produtivas.
Todo o poder ao Bacen
Medida Provisória baixada pelo Governo em 17.11.95, permite ao Banco Central: a) intervir nos bancos em dificuldade; b) desapropriar as ações e transferir seu controle acionário a terceiros; c) afastar a diretoria e vender bens pessoais dos proprietários dos bancos; d) considerar os sócios controladores particularmente responsáveis (inclusive com bens pessoais) nas encrencas do banco.
Do ponto de vista dos depositantes e dos credores, é perfeito. Na idiossincrasia do banqueiro, entretanto, a tranqüilidade deles talvez venha a depender: a) de um divórcio, com todos os bens em nome dos filhos; b) de uma lobotomia que remove, nele, aquela parte do cérebro onde reside a noção do perigo e o medo de cadeia; c) de que todo o seu capital, aplicado no negócio, seja objeto de roubo ou furto...
À posteridade
Quem vier a ler esta Gazeta, daqui a uns duzentos anos saiba que outubro de 1995 tem sido de boas chuvas na região, de recuperação das pastagens após alguns meses de estio, e de bastante dificuldade no comércio, sobretudo pela escassez do crédito. O povo, entretanto, vai bem melhor do que sempre: o litro de leite vale dezoito centavos para o produtor (já esteve bem pior); um frango, ao consumidor, menos que um real; e os flanelinhas ganham até cinco reais para lavar um carro!
O compositor, Renato Russo, pergunta numa canção: - Que país é este?...
Realmente, não deve existir outro lugar neste mundo esférico onde alguém possa comer frango a semana toda só porque lavou um carro.
Teremos manga, em dezembro.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada na Gazeta de Leopoldina de outubro de 1995)
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Ilusões
***
Maio, 2011
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada em 12.05.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)
Maio, 2011
Quem lhes denuncia virtudes na
ilusão não é sábio nem poeta. Apenas o que amanheceu confuso e talvez reclame compreensão
e piedade. Arranhei, sim, o tornozelo numa plantinha de espinhos contundentes,
conhecida como “sensitiva”, a qual maldizem possuir virtudes alucinógenas,
similares às de outra espécie, priminha dela, famosa por suas folhas
psicodélico-infratoras.
Para ajudar ainda menos,
Guimarães Rosa pelas encruzilhadas sinápticas do bestunto a recitar que “a vida
não é entendível”. O resultado, cá eu, do meu canto, a despertar manhãs sem
utopias. Daquelas em que o homem arrosta sua pequenez diante desse espasmo de onipresença
a que chamamos “nós mesmos”, frágeis interrogadores das inconsistências do
estar no mundo.
Meu alterego e guru, onipresente,
pondera nossa finitude – dele e minha – e proclama provas irrefutáveis de que
nesta vida tudo é ilusão. Difícil discordar, pelo menos no tocante à maior
parte das coisas. Diria que tudo o que a vida nos oferece, nessa embalagem para
presente que é o viver, seriam, sim, meras ilusões. Garranchos num quadro negro
que o apagador da morte absorverá sob forma de pó.
Duro o enigma de estar no mundo
por esta centelha a que chamamos vida, com seu sentido nebuloso e desfecho
aterrador.
Pisamos um universo que se
expande, os astros ganhando distância entre si qual manada de bodes que pondera
o desembesto da volta, na hecatombe definitiva em que tudo se reverterá ao nihil.
Passageiros da ilusão do ser,
seguimos irremediavelmente atrelados às galáxias no caminho do nãoser, quando
nada escapará ao pó e ao espaço. Nem o granito, nem o diamante, nem os cometas
com suas órbitas setuagenárias, nem os mais longínquos rochedos que os
aprisionam.
Temos, todos, encontro marcado em
novo estrondo epilogal que antecederá a quietude definitiva. Não soará um
lamento pelo Everest ou pelo David de Michelangelo!
Há prudência, pois, no cativar
ilusões. Elas nos servem à alma como o fígado ao corpo. Salvam-nos, a cada
instante, atenuando as toxinas da realidade trágica de que nascemos
protagonistas.
A quem me responde o espelho?
Apalpo-me e não me acho. Constato-me e não me creio. Descaindo do azul, lá
fora, um sol ingenuamente equívoco e sua luz provisória. Luz última a também
nãoser quando todos os sóis se apagarem.
(Publicada em 12.05.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)
terça-feira, 10 de maio de 2011
João Rodrigues
***
(Foto: Janeiro, 1968)
João Rodrigues foi um agricultor e pecuarista leopoldinense, nascido em 23 de agosto de 1911 na localidade rural denominada Sítio Puris, no Bairro da Onça, e falecido em Leopoldina aos 23.03.1974. Era filho do também agricultor Antonio Augusto Rodrigues (Totônio Rodrigues) e de sua esposa, Maria Antonia de Oliveira Rodrigues (Mariquinhas).
João e seu seis irmãos foram criados na propriedade de Totônio e Mariquinhas, na Boa Sorte, mais exatamente o lote nº22 da Colônia da Constança, adquirido pela família em 1924. Casou-se, em 1937, com a prima de segundo grau, Maria Pereira Machado Rodrigues (Pequetita), professora na escola pública da Vargem Linda e, nesse lugar, também conhecido por Lajinha, nasceram os quatro primeiros dos onze filhos que o casal veio a ter.
A residência era a própria Casa da Escola, construída por João – e que ainda hoje existe - onde a família residiu até o ano de 1945, ocasião em que Pequetita obteve transferência para a Escola do Bairro da Onça, que funcionava numa sala contígua à Capela de Santo Antonio. Por essa ocasião, a família passou a residir no Sítio Puris, onde João nascera.
Autodidata, inteligente e bem informado, João gostava de ler revistas, principalmente Seleções do Reader´s Digest, e também jornais que, naquela época, não chegavam com regularidade ao meio rural. Fazia pouco alarde de suas preferências políticas, mas era simpático ao PR de Artur Bernardes.
Por herança e por compra ou cessão de alguns irmãos, fixou-se no Sítio Puris, que era parte da antiga Fazenda Puri. Nessas terras, além do cultivo de cereais, construiu com suas próprias mãos, curral, paiol, tulha, engenho de cana para fabricação de rapadura e açúcar, olaria, serraria e um moinho de fubá movido a água. Chegou a conquistar, dentre muitos outros, o 1º prêmio, na Exposição Agropecuária de Leopoldina, pela qualidade do produto de seu moinho.
Muito habilidoso, trabalhava com couro, madeira, ferro, hidráulica, eletricidade, construção civil e na ordenha e manejo do gado. Seus empregados se ocupavam apenas da lavoura (plantio e colheita) e da roçagem dos pastos. Todas as demais tarefas João as realizava pessoalmente, com refinado “engenho e arte”.
Por volta de 1946, João dotou a sede da propriedade de água encanada e sanitários - o que, na década de 40, era bastante incomum nas fazendas. Em 1948, juntamente com o vizinho e cunhado, Odilon, eletrificou o Sítio Puris, trazendo posteamento e rede a partir da venda do Timbiras. Pouco tempo depois, tomou a si a tarefa de recuperar teto, paredes e pintura da Capelinha de Santo Antonio, da Onça. (Não é dele – ressalve-se – a desfiguradora reforma do teto que lá está, feita muitos anos depois)
Em 1955, para facilitar a educação dos filhos, muito sacrificados com idas e vindas, a cavalo, ao Colégio Leopoldinense, João e Pequetita adquiriram casa na cidade e se mudaram. Mas a partir daí, e até seu falecimento em março de 1974, foi João que passou a ir, todas as manhãs, tocar a vida do Sítio, que era o sustento de sua família.
Seu falecimento, em março de 1974, se deu em conseqüência de ferimentos em um desastre automobilístico. Após sua morte a família transferiu residência para o Rio de Janeiro (RJ).
João Rodrigues foi um homem muito comunicativo e popular no meio em que vivia. Sempre de bom humor, gostava de rir e fazer piadas com os amigos. Parecia viver algumas situações pelo simples prazer de fazer graça. Um exemplo disto foi o pequeno cavalo que possuiu, chamado Guarani, no qual costumava ir à cidade. Sem dúvida que ele poderia possuir – e muitas vezes possuiu – um animal maior e melhor. Guarani, além de muito pequeno, era ruim de marcha (trotão), o que tornava pouco agradável cavalgá-lo. Mas João gostava de usá-lo. Certa ocasião, o ex-expedicionário da FEB na Itália e primo de minha mãe, Derneval Vargas, comentou comigo em tom de pilhéria:
-Que coisa mais esquisita é aquela! Seu pai um homenzarrão de quase dois metros de altura cavalgando aquele minúsculo Pequira! Parece até que ele está com um cavalinho de brinquedo no meio das pernas...
Além dessa pessoa alegre, João era também extremamente solidário com os menos favorecidos. Estava sempre ajudando pessoas em dificuldade. Mas João foi, sobretudo, um forte, um bravo, um lutador incansável. Suportou a dura tragédia da perda de três filhos ainda jovens, dos onze que teve. Criou os outros oito com os dotes da terra, fecundada com suas próprias mãos. Ele fez jus aos versos de Homero, na Ilíada, pronunciados por Ulisses em tributo ao herói, Aquiles:
Se um dia contarem minha história, digam que andei entre gigantes.
Os homens nascem e morrem, como o trigo no campo.
Mas esses nomes jamais serão esquecidos.
Se um dia contarem a minha história,
digam que vivi no tempo de Heitor, o domador de cavalos...
Digam que vivi na época de Aquiles.
Quando de seu falecimento, a Câmara Municipal de Leopoldina consignou um voto de pesar à família, cujo agradecimento fizemos nos termos da correspondência abaixo:
Rio Verde (GO), 22 de abril de 1974.
Ao
Exmo. Sr. Vereador
Dr. Dalmo Pires Bastos
Amigo Dr. Dalmo,
Chega-nos hoje o conhecimento de que o Legislativo Municipal de Leopoldina, por moção partida de V. Exa., em sessão de dois do corrente, dignou-se dirigir a nossa família um voto de pesar pela morte de nosso inesquecível pai.
Com esta, vimos manifestar a V. Exa. a gratidão da família, ao mesmo tempo em que nos permitimos solicitar-lhe faça chegar à Mesa, e a cada um dos membros dessa Casa, sinceros agradecimentos.
-Nosso pai, João Rodrigues, não viveu muito. Mas aos 63 anos de sua fecunda existência, soube legar aos filhos o exemplo que foi de chefe de família, de cidadão honrado, de homem do trabalho e, sobretudo, de bondade.
-Consola-nos, hoje, saber que ele partiu deixando realizado todos os seu sonhos; posto que fossem de homem simples esses sonhos.
Mais chegado aos humildes, e essencialmente humilde, nunca almejou a fortuna ou a notoriedade mundana. Lutou não mais que pela educação e bem-estar dos seus, o que arrancou da sorte e da terra, com amor, perseverança e áspero sacrifício.
Tinha no modo simples de ser e na singeleza da vida que gostava de viver, sua maneira própria de ser feliz e de ser bom.
Deixou-nos cedo, mas tendo conhecido a glória, quase sempre rara, de ver-se realizado em si e, na realização dos filhos. Amigo de todos, foi homem de bem na mais completa inteligência da expressão.
-O conforto que – por seu passamento – nos traz essa Casa de Representação Pública, nós o recebemos como justa homenagem da terra querida à memória de seu filho exemplar.
E tal como a inscrição celebre, nós a colhemos no fundo do coração, pois “esta é a glória que fica, eleva, honra e consola...”
Cordialmente,
José do Carmo Rodrigues
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Dados desta biografia foram extraídos do livro “Os Rodrigues da Fazenda Puri”, de José Luiz Machado Rodrigues – Luar Artgraf Ltda. – Leopoldina, MG – 2006)
(Foto: Janeiro, 1968)
João Rodrigues foi um agricultor e pecuarista leopoldinense, nascido em 23 de agosto de 1911 na localidade rural denominada Sítio Puris, no Bairro da Onça, e falecido em Leopoldina aos 23.03.1974. Era filho do também agricultor Antonio Augusto Rodrigues (Totônio Rodrigues) e de sua esposa, Maria Antonia de Oliveira Rodrigues (Mariquinhas).
João e seu seis irmãos foram criados na propriedade de Totônio e Mariquinhas, na Boa Sorte, mais exatamente o lote nº22 da Colônia da Constança, adquirido pela família em 1924. Casou-se, em 1937, com a prima de segundo grau, Maria Pereira Machado Rodrigues (Pequetita), professora na escola pública da Vargem Linda e, nesse lugar, também conhecido por Lajinha, nasceram os quatro primeiros dos onze filhos que o casal veio a ter.
A residência era a própria Casa da Escola, construída por João – e que ainda hoje existe - onde a família residiu até o ano de 1945, ocasião em que Pequetita obteve transferência para a Escola do Bairro da Onça, que funcionava numa sala contígua à Capela de Santo Antonio. Por essa ocasião, a família passou a residir no Sítio Puris, onde João nascera.
Autodidata, inteligente e bem informado, João gostava de ler revistas, principalmente Seleções do Reader´s Digest, e também jornais que, naquela época, não chegavam com regularidade ao meio rural. Fazia pouco alarde de suas preferências políticas, mas era simpático ao PR de Artur Bernardes.
Por herança e por compra ou cessão de alguns irmãos, fixou-se no Sítio Puris, que era parte da antiga Fazenda Puri. Nessas terras, além do cultivo de cereais, construiu com suas próprias mãos, curral, paiol, tulha, engenho de cana para fabricação de rapadura e açúcar, olaria, serraria e um moinho de fubá movido a água. Chegou a conquistar, dentre muitos outros, o 1º prêmio, na Exposição Agropecuária de Leopoldina, pela qualidade do produto de seu moinho.
Muito habilidoso, trabalhava com couro, madeira, ferro, hidráulica, eletricidade, construção civil e na ordenha e manejo do gado. Seus empregados se ocupavam apenas da lavoura (plantio e colheita) e da roçagem dos pastos. Todas as demais tarefas João as realizava pessoalmente, com refinado “engenho e arte”.
Por volta de 1946, João dotou a sede da propriedade de água encanada e sanitários - o que, na década de 40, era bastante incomum nas fazendas. Em 1948, juntamente com o vizinho e cunhado, Odilon, eletrificou o Sítio Puris, trazendo posteamento e rede a partir da venda do Timbiras. Pouco tempo depois, tomou a si a tarefa de recuperar teto, paredes e pintura da Capelinha de Santo Antonio, da Onça. (Não é dele – ressalve-se – a desfiguradora reforma do teto que lá está, feita muitos anos depois)
Em 1955, para facilitar a educação dos filhos, muito sacrificados com idas e vindas, a cavalo, ao Colégio Leopoldinense, João e Pequetita adquiriram casa na cidade e se mudaram. Mas a partir daí, e até seu falecimento em março de 1974, foi João que passou a ir, todas as manhãs, tocar a vida do Sítio, que era o sustento de sua família.
Seu falecimento, em março de 1974, se deu em conseqüência de ferimentos em um desastre automobilístico. Após sua morte a família transferiu residência para o Rio de Janeiro (RJ).
João Rodrigues foi um homem muito comunicativo e popular no meio em que vivia. Sempre de bom humor, gostava de rir e fazer piadas com os amigos. Parecia viver algumas situações pelo simples prazer de fazer graça. Um exemplo disto foi o pequeno cavalo que possuiu, chamado Guarani, no qual costumava ir à cidade. Sem dúvida que ele poderia possuir – e muitas vezes possuiu – um animal maior e melhor. Guarani, além de muito pequeno, era ruim de marcha (trotão), o que tornava pouco agradável cavalgá-lo. Mas João gostava de usá-lo. Certa ocasião, o ex-expedicionário da FEB na Itália e primo de minha mãe, Derneval Vargas, comentou comigo em tom de pilhéria:
-Que coisa mais esquisita é aquela! Seu pai um homenzarrão de quase dois metros de altura cavalgando aquele minúsculo Pequira! Parece até que ele está com um cavalinho de brinquedo no meio das pernas...
Além dessa pessoa alegre, João era também extremamente solidário com os menos favorecidos. Estava sempre ajudando pessoas em dificuldade. Mas João foi, sobretudo, um forte, um bravo, um lutador incansável. Suportou a dura tragédia da perda de três filhos ainda jovens, dos onze que teve. Criou os outros oito com os dotes da terra, fecundada com suas próprias mãos. Ele fez jus aos versos de Homero, na Ilíada, pronunciados por Ulisses em tributo ao herói, Aquiles:
Se um dia contarem minha história, digam que andei entre gigantes.
Os homens nascem e morrem, como o trigo no campo.
Mas esses nomes jamais serão esquecidos.
Se um dia contarem a minha história,
digam que vivi no tempo de Heitor, o domador de cavalos...
Digam que vivi na época de Aquiles.
Quando de seu falecimento, a Câmara Municipal de Leopoldina consignou um voto de pesar à família, cujo agradecimento fizemos nos termos da correspondência abaixo:
Rio Verde (GO), 22 de abril de 1974.
Ao
Exmo. Sr. Vereador
Dr. Dalmo Pires Bastos
Amigo Dr. Dalmo,
Chega-nos hoje o conhecimento de que o Legislativo Municipal de Leopoldina, por moção partida de V. Exa., em sessão de dois do corrente, dignou-se dirigir a nossa família um voto de pesar pela morte de nosso inesquecível pai.
Com esta, vimos manifestar a V. Exa. a gratidão da família, ao mesmo tempo em que nos permitimos solicitar-lhe faça chegar à Mesa, e a cada um dos membros dessa Casa, sinceros agradecimentos.
-Nosso pai, João Rodrigues, não viveu muito. Mas aos 63 anos de sua fecunda existência, soube legar aos filhos o exemplo que foi de chefe de família, de cidadão honrado, de homem do trabalho e, sobretudo, de bondade.
-Consola-nos, hoje, saber que ele partiu deixando realizado todos os seu sonhos; posto que fossem de homem simples esses sonhos.
Mais chegado aos humildes, e essencialmente humilde, nunca almejou a fortuna ou a notoriedade mundana. Lutou não mais que pela educação e bem-estar dos seus, o que arrancou da sorte e da terra, com amor, perseverança e áspero sacrifício.
Tinha no modo simples de ser e na singeleza da vida que gostava de viver, sua maneira própria de ser feliz e de ser bom.
Deixou-nos cedo, mas tendo conhecido a glória, quase sempre rara, de ver-se realizado em si e, na realização dos filhos. Amigo de todos, foi homem de bem na mais completa inteligência da expressão.
-O conforto que – por seu passamento – nos traz essa Casa de Representação Pública, nós o recebemos como justa homenagem da terra querida à memória de seu filho exemplar.
E tal como a inscrição celebre, nós a colhemos no fundo do coração, pois “esta é a glória que fica, eleva, honra e consola...”
Cordialmente,
José do Carmo Rodrigues
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(Dados desta biografia foram extraídos do livro “Os Rodrigues da Fazenda Puri”, de José Luiz Machado Rodrigues – Luar Artgraf Ltda. – Leopoldina, MG – 2006)
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Morte do Bin Laden, o que pensar?
***
Maio, 2011
Abbottabad é cidade turística notável por seu clima aprazível, a 1.260 metros de altura (quatrocentos metros mais alta que Petrópolis, RJ), pelo alto padrão de suas instituições de ensino e estabelecimentos militares. Muito ao contrário da indigência e abandono em que se o supunha entocado, Bin Laden desfrutava de pouso privilegiado em local bastante compatível com os 300 milhões de dólares de sua propalada fortuna pessoal.
Os assassinatos por ele cometidos, tomando-se em conta apenas os do ataque de 11 de setembro de 2001, passaram de 3.200 vítimas: no World Trade Center, 3.045, entre mortos e desaparecidos; no ataque ao Pentágono, 125 mortos; no avião caído na Pensilvância, 44 mortos. Ao todo, 19 sequestradores e suas 3.195 vítimas inocentes.
Em operação de legalidade discutível – já que incluiu violação de espaço aéreo paquistanês – embora eticamente justificável, um comando militar americano, partindo de base próxima, no Afeganistão, apeou de helicópteros atiradores de elite bem no interior da mansão do terrorista, cujo corpo, minutos depois, já esfriava enrolado num lençol, a bordo.
John Brennan, autoridade em assuntos de terrorismo da Casa Branca, afirmou em entrevista à Fox News, que os militares poderiam não matar Bin Laden, aceitando sua rendição, sob certeza de que ele não carregasse explosivos junto ao corpo e não representasse qualquer perigo. Ou seja, Bin Laden teria que ficar nu, segundo interpretação de alguns jornais. Ignora-se a ocorrência de tal negociação.
Sem dúvida que a prisão do terrorista, com sua submissão a julgamento, tal como Israel procedeu com Adolf Eichmann, cairia melhor para os USA. Algo como anunciar: nosso império é o da lei e não nos nivelamos a terroristas...
Compreende-se, entretanto, que isto não tenha sido possível. No momento crítico da operação de guerra o soldado pode não ter mais que dois segundos para tomar uma decisão que pode lhe valer a vida ou a morte. Nenhuma censura, pois, ao militar que puxou o gatilho. Menos ainda se a ordem recebida era exatamente esta...
Mas há algo mais discutível nesta história: constava, até ontem, que a pista crucial para que Osama bin Laden fosse encontrado – no caso, o nome do mensageiro do líder, que passaria a ser seguido – foi obtida sob tortura. Segundo documentos revelados pelo site Wikileaks e publicados no britânico The Daily Telegraph, um dos responsáveis pelo atentado de 11 de setembro, Khalid Sheikh Mohammed, “soltou” o nome do homem, na prisão de Guantánamo, sob tormentos físicos.
Nosso ex-presidente Geisel afirmou em suas memórias que considerava a tortura justificável, em certas circunstâncias... Geisel, porém, jamais foi ou será uma unanimidade. Na verdade a tortura é sempre inaceitável. Ela tem raízes na vileza do indivíduo que a aplica. É o vazio da dignidade humana. O torturador é, invariavelmente, um ser iníquo.
Se a tortura estiver, pois, na base das informações que levaram os helicópteros americanos a Bin Laden, terá o assassino marcado um tento ao cair morto: o inimigo desmentiu a vantagem ética oponível à sua barbárie. O fundamentalismo professado pela Al-Qaeda não serve a outra causa que não seja a da contraposição obstinada aos valores da civilização ocidental.
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(Publicada em 05.05.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)
Maio, 2011
Osama Bin Laden deu trabalho e despesas. Dez anos de buscas e
milhares de dólares aplicados em sua procura. Para quem supunha que a fera
pudesse estar precariamente malocada numa caverna qualquer das montanhas do
nordeste do Afeganistão, foi surpresa encontrá-lo numa ampla mansão da cidade
turística de Abbottabad, a 50 km de Islamabad, a capital do Paquistão.
Abbottabad é cidade turística notável por seu clima aprazível, a 1.260 metros de altura (quatrocentos metros mais alta que Petrópolis, RJ), pelo alto padrão de suas instituições de ensino e estabelecimentos militares. Muito ao contrário da indigência e abandono em que se o supunha entocado, Bin Laden desfrutava de pouso privilegiado em local bastante compatível com os 300 milhões de dólares de sua propalada fortuna pessoal.
Os assassinatos por ele cometidos, tomando-se em conta apenas os do ataque de 11 de setembro de 2001, passaram de 3.200 vítimas: no World Trade Center, 3.045, entre mortos e desaparecidos; no ataque ao Pentágono, 125 mortos; no avião caído na Pensilvância, 44 mortos. Ao todo, 19 sequestradores e suas 3.195 vítimas inocentes.
Em operação de legalidade discutível – já que incluiu violação de espaço aéreo paquistanês – embora eticamente justificável, um comando militar americano, partindo de base próxima, no Afeganistão, apeou de helicópteros atiradores de elite bem no interior da mansão do terrorista, cujo corpo, minutos depois, já esfriava enrolado num lençol, a bordo.
John Brennan, autoridade em assuntos de terrorismo da Casa Branca, afirmou em entrevista à Fox News, que os militares poderiam não matar Bin Laden, aceitando sua rendição, sob certeza de que ele não carregasse explosivos junto ao corpo e não representasse qualquer perigo. Ou seja, Bin Laden teria que ficar nu, segundo interpretação de alguns jornais. Ignora-se a ocorrência de tal negociação.
Sem dúvida que a prisão do terrorista, com sua submissão a julgamento, tal como Israel procedeu com Adolf Eichmann, cairia melhor para os USA. Algo como anunciar: nosso império é o da lei e não nos nivelamos a terroristas...
Compreende-se, entretanto, que isto não tenha sido possível. No momento crítico da operação de guerra o soldado pode não ter mais que dois segundos para tomar uma decisão que pode lhe valer a vida ou a morte. Nenhuma censura, pois, ao militar que puxou o gatilho. Menos ainda se a ordem recebida era exatamente esta...
Mas há algo mais discutível nesta história: constava, até ontem, que a pista crucial para que Osama bin Laden fosse encontrado – no caso, o nome do mensageiro do líder, que passaria a ser seguido – foi obtida sob tortura. Segundo documentos revelados pelo site Wikileaks e publicados no britânico The Daily Telegraph, um dos responsáveis pelo atentado de 11 de setembro, Khalid Sheikh Mohammed, “soltou” o nome do homem, na prisão de Guantánamo, sob tormentos físicos.
Nesta quarta-feira, 4 de maio, foi o próprio diretor da CIA, Leon
Panetta, que revelou a prática de afogamento simulado para arrancar informações
ao terrorista preso.
O que é lamentável. É certo que o famigerado saudita, wanted dead or alive (inclusive com o indefectível valor da recompensa), pronunciou louvores a Alá pelo sucesso de sua hedionda implosão das Torres Gêmeas, confessando a autoria do morticínio. Eliminá-lo, a partir daí, tornou-se uma questão de honra nacional para os USA.
O que é lamentável. É certo que o famigerado saudita, wanted dead or alive (inclusive com o indefectível valor da recompensa), pronunciou louvores a Alá pelo sucesso de sua hedionda implosão das Torres Gêmeas, confessando a autoria do morticínio. Eliminá-lo, a partir daí, tornou-se uma questão de honra nacional para os USA.
Nosso ex-presidente Geisel afirmou em suas memórias que considerava a tortura justificável, em certas circunstâncias... Geisel, porém, jamais foi ou será uma unanimidade. Na verdade a tortura é sempre inaceitável. Ela tem raízes na vileza do indivíduo que a aplica. É o vazio da dignidade humana. O torturador é, invariavelmente, um ser iníquo.
Se a tortura estiver, pois, na base das informações que levaram os helicópteros americanos a Bin Laden, terá o assassino marcado um tento ao cair morto: o inimigo desmentiu a vantagem ética oponível à sua barbárie. O fundamentalismo professado pela Al-Qaeda não serve a outra causa que não seja a da contraposição obstinada aos valores da civilização ocidental.
E são esses os valores dos quais não podemos abrir mão.
(Publicada em 05.05.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)
domingo, 1 de maio de 2011
Maria Fumaça
***
Quem é mineiro vai
Quem é mineiro vem,
Eu saí de Minas,
Não avisei ninguém.
Fui virar o mundo,
Minha mãe chorou,
Embarquei no dia
Que meu pai calou.
Maria Fumaça,
Lá ficou meu bem,
Um trem rompedor
E eu naquele trem.
Pára pra por água,
Pra embarcar café,
Se não fosse a mala
Eu seguia a pé.
Foi no Arraial da Onça
Que eu peguei o trem,
Era muita lenha
E eu segui além.
Meu coração tá aqui
Mas ficou lá também,
Curva do Timbira,
Largo do Armazém.
*******
Quem por aqui me dá nova
***
Quem por aqui me dá nova
Dum amor que já foi meu,
O dono andava sumido,
Agora já apareceu.
Cabra que ´tiver com ela
Se for nego de opinião
Sabendo que eu tô de roda
Não larga mais o facão.
Mas se for um poeeeeta
Que não tenha medo da morte,
Nem de morrer faça conta,
Sabendo que de mim se trata
Não larga as facas de ponta.
*****
(Calango ouvido nos anos 60 numa festa de fazenda, no interior de Minas)
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