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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Morte do Bin Laden, o que pensar?

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Maio, 2011


Osama Bin Laden deu trabalho e despesas. Dez anos de buscas e milhares de dólares aplicados em sua procura. Para quem supunha que a fera pudesse estar precariamente malocada numa caverna qualquer das montanhas do nordeste do Afeganistão, foi surpresa encontrá-lo numa ampla mansão da cidade turística de Abbottabad, a 50 km de Islamabad, a capital do Paquistão.

Abbottabad é cidade turística notável por seu clima aprazível, a 1.260 metros de altura (quatrocentos metros mais alta que Petrópolis, RJ), pelo alto padrão de suas instituições de ensino e estabelecimentos militares. Muito ao contrário da indigência e abandono em que se o supunha entocado, Bin Laden desfrutava de pouso privilegiado em local bastante compatível com os 300 milhões de dólares de sua propalada fortuna pessoal.

Os assassinatos por ele cometidos, tomando-se em conta apenas os do ataque de 11 de setembro de 2001, passaram de 3.200 vítimas: no World Trade Center, 3.045, entre mortos e desaparecidos; no ataque ao Pentágono, 125 mortos; no avião caído na Pensilvância, 44 mortos. Ao todo, 19 sequestradores e suas 3.195 vítimas inocentes.

Em operação de legalidade discutível – já que incluiu violação de espaço aéreo paquistanês – embora eticamente justificável, um comando militar americano, partindo de base próxima, no Afeganistão, apeou de helicópteros atiradores de elite bem no interior da mansão do terrorista, cujo corpo, minutos depois, já esfriava enrolado num lençol, a bordo.

John Brennan, autoridade em assuntos de terrorismo da Casa Branca, afirmou em entrevista à Fox News, que os militares poderiam não matar Bin Laden, aceitando sua rendição, sob certeza de que ele não carregasse explosivos junto ao corpo e não representasse qualquer perigo. Ou seja, Bin Laden teria que ficar nu, segundo interpretação de alguns jornais. Ignora-se a ocorrência de tal negociação.

Sem dúvida que a prisão do terrorista, com sua submissão a julgamento, tal como Israel procedeu com Adolf Eichmann, cairia melhor para os USA. Algo como anunciar: nosso império é o da lei e não nos nivelamos a terroristas...

Compreende-se, entretanto, que isto não tenha sido possível. No momento crítico da operação de guerra o soldado pode não ter mais que dois segundos para tomar uma decisão que pode lhe valer a vida ou a morte. Nenhuma censura, pois, ao militar que puxou o gatilho. Menos ainda se a ordem recebida era exatamente esta...

Mas há algo mais discutível nesta história: constava, até ontem, que a pista crucial para que Osama bin Laden fosse encontrado – no caso, o nome do mensageiro do líder, que passaria a ser seguido – foi obtida sob tortura. Segundo documentos revelados pelo site Wikileaks e publicados no britânico The Daily Telegraph, um dos responsáveis pelo atentado de 11 de setembro, Khalid Sheikh Mohammed, “soltou” o nome do homem, na prisão de Guantánamo, sob tormentos físicos.
Nesta quarta-feira, 4 de maio, foi o próprio diretor da CIA, Leon Panetta, que revelou a prática de afogamento simulado para arrancar informações ao terrorista preso.

O que é lamentável. É certo que o famigerado saudita, wanted dead or alive (inclusive com o indefectível valor da recompensa), pronunciou louvores a Alá pelo sucesso de sua hedionda implosão das Torres Gêmeas, confessando a autoria do morticínio. Eliminá-lo, a partir daí, tornou-se uma questão de honra nacional para os USA.

Nosso ex-presidente Geisel afirmou em suas memórias que considerava a tortura justificável, em certas circunstâncias... Geisel, porém, jamais foi ou será uma unanimidade. Na verdade a tortura é sempre inaceitável. Ela tem raízes na vileza do indivíduo que a aplica. É o vazio da dignidade humana. O torturador é, invariavelmente, um ser iníquo.

Se a tortura estiver, pois, na base das informações que levaram os helicópteros americanos a Bin Laden, terá o assassino marcado um tento ao cair morto: o inimigo desmentiu a vantagem ética oponível à sua barbárie. O fundamentalismo professado pela Al-Qaeda não serve a outra causa que não seja a da contraposição obstinada aos valores da civilização ocidental.
E são esses os valores dos quais não podemos abrir mão.

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(Publicada em 05.05.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

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