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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Realengo nosso de cada dia

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Abril, 2011


Muito do que poderia ser dito sobre a tragédia do Realengo já o foi. Como seria natural, não resultaram poucas propostas emocionadas de medidas para que a situação não se repita. Compreende-se. O episódio deixou o país em estado de choque.

Ocorrem, entretanto, a todo momento, outros tipos de chacinas igualmente covardes contra crianças, no Rio, em São Paulo, em Belo Horizonte, em cada grande cidade e até nos pequenos arraiais deste imenso Brasil. São as chacinas perpetradas por traficantes, com a venda do crack a menores. Eles estão matando meninos e meninas da mesma idade das que morreram pelos dois revólveres do louco de Realengo. A diferença é que as mortes pelo crack, embora em maior número, são lentas e dispersas no espaço geográfico do país, não produzindo impacto emocional.

Nosso bom Ministro da Justiça pensa numa campanha pelo desarmamento para tirar armas de fogo das mãos dos perturbados. Tenho dúvida. Nos Estados Unidos, onde esse tipo de crime é mais comum, ainda não tocaram na tal Emenda nº2 da Constituição deles, que permite a todo cidadão possuir arma de fogo.

Além do que é muito duvidoso que um doido, capaz de premeditar seu crime com a minuciosa antecedência que o ex-aluno Wellington, da Escola Municipal Tasso da Silveira, premeditou, vá abortar o desatino por falta de arma. Com ou sem proibição ele conseguirá a arma. Não há como obstar, em medidas prévias, a ação de um louco imanifesto.

A brutalidade do crime do Realengo nos atordoa e até nos diminui como seres humanos. Não podemos, todavia, deixar de considerar que todos os dias, a cada instante do dia e da noite, aquele outro tipo de aniquilação física e morte é imposto às nossas crianças, nas imediações dos colégios, nas conduções, nas esquinas, e até nos passeios organizados pelos Colégios.

Um rapaz de 30 anos, do Rio de Janeiro, revelou-me que sua primeira experiência com droga, aos 15 anos, foi numa excursão a São Paulo, quando o time de vôlei do colégio dele, foi jogar contra colégio de lá. Rolou droga, à noite, no alojamento dos visitantes.

Penso como o Governador do Rio quando considera o Sargento Márcio Alves, autor do disparo que atingiu Wellington, um herói. Principalmente porque, no momento crítico, ele escolheu atirar nas pernas do assassino, não atirando para matar. Agiu assim no estrito limite de seu dever legal, com absoluta eficiência, inteligência e equilíbrio.

Só lamento que nossas leis não estimulem a ação de outros heróis, do porte de um Sargento Márcio, atuar com igual empenho e desenvoltura nas bocas-de-fumo assassinas, espalhadas por todos os recantos deste país. Nelas são todos assassinos cruéis, com nomes conhecidos, endereços, “locais de trabalho” fixos e bem divulgados – pois se assim não fosse os viciados não teriam como chegar ao “bagulho”.

Arrisco até um conselho ao respeitável Sr. Ministro da Justiça – imaginem a insolência! Não alcanço os calcanhares do Dr. José Eduardo Cardozo, homem de notável experiência e preparo.

Nós precisamos arrancar do Legislativo uma lei séria, exemplar, incisiva, que faça do tráfico de drogas um “péssimo negócio”. Sim, porque enquanto for “bom negócio” não vai acabar. Tenho convicção de que uma boa lei possa tornar esse crime não compensador.

Com todo respeito às famílias das vítimas recentes, descreio de remédios legislativos para dissuadir doentes mentais. Já com os negociantes de drogas é diferente. São “negociantes” que investem numa atividade ilícita e terrivelmente danosa. Contarão até dez quando já não tiverem impunidade assegurada.

O país compreenderá a oportunidade e a pertinência de uma lei severa em tal sentido. Enquanto a lei não vem, busquemos junto ao SUS tratamento específico para dependentes químicos, proporcionando-lhes internações, inclusive de caráter involuntário, de sorte a que famílias pobres tenham como evitar a morte de seus jovens adoecidos. Sem internação involuntária (Instituição fechada) e tratamento especializado, é impossível salvar viciados em crack.


Isto é muito sério e urgente!

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(Publicada em 14.04.2011 no Globo Online, Blog do Noblat/Maria Helena/)


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