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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O niver do Galeno

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Janeiro, 2010

Quando cheguei em casa na última sexta-feira o ambiente não era lá, digamos, promissor. Minha mulher estava com o penteado nos trinques e isto, às sextas, quase sempre significa obstáculo à minha bermuda surrada após o banho. 


Tem programa à minha espreita – pensei. E ruim, porque não existe programa bom para quem chega do trabalho na sexta à noite sonhando com uma ducha generosa e aquela esticada básica na rede pra interagir com as estrelas.



– Amor, você não adivinha quem ligou. A Bel. Hoje é aniversário do Galeno e eles estão nos convidando para um chopinho honoris causa



– Chopinho honoris causa! Claro que você agradeceu dizendo que não vamos porque eu estou com suspeita de dengue, não foi?



– Que isto, amor, não diga bobagem, eles são tão gentis, tão gente boa! Eu sei que você acha o papo do Galeno meio cansativo. Mas, afinal, ele é o marido da minha melhor amiga e trata você muito bem. A Bel, por sua vez, é um amor de criatura e só tem elogios para você. Grosseria não irmos. Por favor, rapidinho, tome seu banho e troque de roupa. São 7 horas, marcamos para a meia noite, na casa deles, na Barra da Tijuca.



– O quê! É hoje? Eu vou dirigir 200 km agora à noite, pegando esse trânsito maluco para o Rio de Janeiro? E ainda tolerar o papo do Galeno?



– Não dramatize tanto, amor, vamos dirigindo devagarzinho, com calma. 



– Bota devagarzinho nisto, não é querida! Já pensou o que vamos pegar de engarrafamento nesta sexta de feriadão, daqui de Minas até a Barra, no Rio?



– Não é tão cansativo assim, a gente dorme lá, descansa e volta amanhã ou depois.



– Virgem da Abadia! Dois dias de “colóquio unilateral” com o Galeno? O homem parece rádio, blá-blá-blá, só fala, não deixa ninguém falar, não consegue ouvir, é um surdo funcional! Não é por nada, não, Izilda, mas eu vou fazer uma oração:



– Meu São Judas Tadeu, sei que é difícil até para um santo milagroso como o senhor, mas faça alguma coisa por este seu devoto, ó santinho recluso e enfumaçado da gruta do Cosme Velho!



– Pare com bobagem, meu queridinho, vamos pensar positivamente. Pior será passarmos o fim de semana aqui nesta nossa Minas Gerais friorenta, sem opções de lazer, lendo jornais e revistas de domingo.



– O que me desespera são as perguntas dele, sabe Izilda, uma emendada na outra. E mais: toda afirmação que ele faz vem com desfecho interrogativo, a exigir “sim” ou “não”. É o platusardil (ardil de chato) que ele usa para escravizar as pessoas ao seu discurso. Não dá para fingir que se está ouvindo. O homem é um megachato. Dono da verdade, não dá descanso, não deixa “o inimigo” respirar. 



Você já observou que em todas as histórias o Galeno se dá bem no final? Nos casos dele, todo mundo entra de gaiato. Só ele triunfa. É o “mocinho” do filme. O mundo do Galeno só tem índio e bandido pra ele matar. E já vou eu, mais uma vez, fazer ponta num western spaghetti com meu Giuliano Gemma preferido... 



Já decidi. Eu vou, tá. Vou. Nunca soube dizer não a você. Só que desta vez, Izilda, eu gostaria de ver você sofrendo comigo. Por favor, não fuja pra conversar com a Bel. Participe comigo dos monólogos do Galeno. Ele vai falar sem trégua, lecionar, doutrinar, arguir, contar vantagem, elogiar-se, cortar sua frase ao meio toda vez que você abrir a boca, e, se você conseguir externar alguma ideia, ele vai olhar pro outro lado em sinal de desdém à sua opinião. Quero ver você firme como eu, politicamente correta o tempo todo, tá, só meneando positivamente a cabeça.

–-  Combinado?


Chegamos à Barra antes das onze da noite. Bel veio nos receber à porta, com o que ela alegava ser uma “má notícia”. Só não nos havia telefonado, desmarcando o encontro, porque desejavam demais nossa presença. 
– Galeno não abriria mão de comemorar o niver dele com vocês – disse. Mas imprevistos acontecem. Imaginem que de algumas horas para cá ele passou a estar febril e inteiramente afônico. Sente dor na garganta, coitado. Está falando como quem assopra. Ponham o carro pra dentro. Entrem.



Pois não é que acabou sendo, para nós, um bom fim de semana na praia. O problema laringológico do nosso anfitrião desaconselhava gelados, o que resultou em dois dias regados a scotch, do bom, no lugar de chope. Bel, simpaticíssima, como sempre. Galeno certamente mereceria comemoração natalícia menos silenciosa. Esteve o tempo todo ouvindo mais que falando, garganta irritada, febril, cachecol em torno do pescoço. “Infelizmente”, quando começou a articular melhor as palavras, no domingo, já estávamos de saída...

– Incrível, não é mesmo?


Para quem tem fé e confia em milagres, a Igreja de São Judas Tadeu, no Rio de Janeiro, fica na Rua Cosme Velho, ali, bem pertinho do Largo do Boticário. 
Recomendo.
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(Publ. a 21.01.2010,em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

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