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segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um bom sujeito

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Julho, 2009

Escolhi falar hoje de três pessoas que, talvez em tese, não possam ser tomadas como padrões éticos pelos exemplos que passaram. Convivi com elas no interior de Goiás. Não me perguntem se os considero amorais ou simples passageiros das circunstâncias deste trem expresso que é a vida. Os fatos por si se explicam.

Afinal, os últimos tempos não andaram pródigos de assunto para quem não curte Michael Jackson nem torce para que a gripe suína se esparrame pelas pocilgas legislativas de Brasília. Não, não torço. Aqueles macunaímas da vida pública merecem cadeia. Morte por pneumonia ainda não.

Falta-lhes caráter, é certo, mas são heróis pervertidos dos eleitores que os colocaram lá. E, claro, do PT que trabalha para que lá permaneçam.

Mas vamos ao Caso Especial dos meus três atores: um médico, um advogado e a esposa deste. Cenário, uma cidade tranquila do interior goiano, onde trabalhei nos anos 70. O personagem principal, o médico, talvez nem fosse dos piores, mas tinha fama de bronco, mal educado, quase um primitivo. Era filho de mórmons americanos, agricultores fixados numa colônia do sudoeste goiano. Fora criado no Brasil, mas como em sua casa os pais sempre se entendiam em inglês, falava com notável sotaque.

Tudo começa quando o advogado, de seus 40 anos de idade, casado, pai de quatro meninos, desconfiado que precisava ser visto por um médico, decidiu ir ao consultório do gringo, velho amigo e colega de juventude. Sintomas preocupantes o incomodavam e não dava para adiar mais. Marcou hora e foi.

Vieram as perguntas da praxe clínica, apalpa daqui, ouve dali, finalmente, pedidos de alguns exames de laboratório e uma determinação ao paciente:
-Quando estes exames ficarem prontos você volte, mas venha com sua mulher. Traga a Tininha, entendeu? Arranje alguém para ficar com as crianças, mas traga a Tininha.

Deu-se o recomendado. Exames feitos, o paciente volta à consulta levando muitos resultados e a esposa. Sentam-se, o médico corre os olhos pelos papéis e, aparentando súbita exaltação, passa a quase gritar na direção do casal:

-Tininha, você está aqui para ajudar a segurar a barra do seu marido. Pedi estes exames apenas para confirmar o que eu já tinha certeza: ele está com “aquela” doença em estágio avançado. Incurável, intratável! (O médico disse o nome da moléstia, mas mineiro do meu tempo só fala nome de doença grave com espaço à frente para cuspir três vezes).

Seguiu o doutor na peroração atroz:
-Não joguem dinheiro fora com ilusões. O que mais tem por aí é charlatão prometendo cura impossível pra tomar dinheiro dos bobos. Tininha, você tem marido para, no máximo, seis meses - tratando ou não tratando.

-Saiam daqui agora - estão me ouvindo? – saiam daqui agora e procurem uma seguradora. Façam o maior seguro de vida que puderem fazer.
E, com o indicador no nariz do doente:
-Não deixe sua mulher e seus filhos na merda - está me ouvindo, ô cara? Não vou receitar coisa alguma pra você. Se começar a sentir dores, interne-se ou tome analgésico. Também não vou registrar esta consulta nem a anterior. Jogue fora esses exames de laboratório. Não seja burro de deixar provas de que você sabia da doença antes de fazer o seguro, entendeu? É o que lhes tinha a dizer!

Diante do susto, e em tão trágica circunstância, Tininha só teve forças para levantar-se e dizer ao médico:
-Você é um animal, você não é gente, você é um monstro! Contrafeitos, viraram as costas, desceram o elevador e dobraram a esquina.

Meses depois, no sepultamento do advogado, o médico se manteve a distância preferindo não aproximar-se para cumprimentar a viúva do amigo. Sabe-se, entretanto, que daqueles tempos a esta parte, sempre que alguém menciona a proverbial incivilidade do clínico, curtida na sabedoria dos últimos anos, a viúva pondera:

-Nada disto, ele foi um bom sujeito. Se houve uma pessoa decisiva na educação dos meus filhos, essa pessoa foi ele...
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(Publicada em 07.07.2009 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

2 comentários:

  1. Abstraindo a possibilidade de tratar-se de um caso real, seu texto foi uma bela surpresa. Observação excruciante. Sem maniqueísmos fica muito mais fácil observar o humano que habita em nós e à volta dos nossos passos.Parabéns!

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  2. Obrigado, Nilza.
    Relativismos à parte, viver é bastante complicado. Sua opinião será sempre bem recebida, amiga.
    jcarmo

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