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sábado, 14 de agosto de 2010

Uma Informação, por Favor!

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-Ah, sim, você deseja uma informação? Vou logo dizendo que na Internet tem de tudo, tá.

Por exemplo, quando for comprar qualquer coisa não deixe de consultar o site “Gastarlhufas”. É uma maravilha! Olha, você tem lá serviços dos cartórios de todo o Brasil, que permite tirar documentos via internet, na hora, site para compras em geral, reservas de passagens, de hotéis em todo o mundo! Já pensou?
Você programa, da sua mesinha de cabeceira, viagens de ônibus, de trem, de avião, de navio, para qualquer ponto do planeta. Tudo à sua disposição, nome da empresa, preços e horários.

Tem também página de Legislação Federal e Estadual, por assunto ou por data de publicação, além de súmulas dos STF, STJ e TST, tribunais estaduais, federais, tudo. Tem até o regimento interno de um novo tribunal que estão querendo criar, aí, o Superior Tribunal da Probidade Administrativa. O objetivo é centralizar a absolvição de corruptos e o deferimento liminar de habeas corpus e mandados de segurança a ladrões de boa aparência, de um modo geral. Competência fixada em razão da solércia.

Noutro sítio interessante você pode rir da desgraça alheia, conferindo pousos e partidas cancelados em nossos aeroportos.
Outra coisa interessante é você reclamar de sua conta telefônica que veio em triplo do valor, sem precisar esperar a atendente “estar atendendo”. Um voz masculina, porém suave, vinda do alto (Seria Deus?), absolutamente confiável, explica que é melhor “estar desistindo”.

Ia esquecendo, há um sítio virtual onde estão todas as estradas do mundo. Você ali escolhe o caminho mais curto e localiza até ruas na cidade de destino. Cuidado, hem! O caminho mais curto pode ser uma trilha. Mas tem tudo: desenho das estradas, distância entre as cidades.

Numa outra página que eu visito sempre, se um veículo vier a ser furtado, antes mesmo de registrar ocorrência na polícia, ela deve ser registrada nela. O comunicado às viaturas da DPRF será imediato. Não tem pra puxador. Acham o carro na hora... -Duvida? Eu também.

Catálogo telefônico? Jogue o seu fora. Há uma home page na qual você localiza, pelo nome, até ex-namorada do ginasial que está no quarto casamento e trocou de nome em todos eles. É só escrever o apelido dela e clicar search;

É, tem site pra tudo. Se você está, por exemplo, com o cavalo na sombra do Instituto de Aposentadoria e deseja escolher um cruzeiro marítimo pelo Caribe, Ilhas Gregas ou Mares do Sul, não perca tempo. Na Internet, estão as datas de saída, duração, preço, roteiro e as passagens. Dão até a data do “Baile do Comandante”... -Vai encarar?

Olha, já encontrei indexador de imagens que você mesmo manipula; site de procura igual ao Google (nem me pergunte por que fizeram igual, se já tinha o Google); site que lhe dá as horas em qualquer lugar do mundo; site que lhe permite pesquisar livros, obras de arte, cadeiras, ceroulas, guarda-chuvas usados; site que explica as origens da corrupção no Brasil; a origem do chamado “golpe de barriga” (do qual, dizem que nem o Imperador Pedro-I se livrou); site que ensina a declinar substantivos e adjetivos em alemão e conjugar verbos em 102 idiomas; converter unidades, calcular logaritmos; sites para envio de e-mails acima de 50Mb; site para cálculo da correção monetária de Prudente de Moraes a Lula;

E, que ninguém nos ouça, tem páginas na Internet que nos permitem falar, de computador para computador, de telefone para computador, e de um pro outro e do outro para um, sem pagar nada. Inclusive ligação internacional! Não sei como ficam as companhias telefônicas, num futuro próximo, mas, de graça, até injeção na veia.

Jornais e revistas nem se fala. Ninguém compra mais. É só abrir a home do próprio jornal ou revista – tá tudo lá.
Tem também um site maluco que acabou de vez com a privacidade da gente. Qualquer um apura nossas mutretas de cabo a rabo: o que temos de patrimônio, broncas judiciais, financeiras, e otras cositas más, inclusive com o valor do desfalque corrigido pra ontem!

Agora, meu bom amigo, sobre sexo e pornografia, você vai ter que anotar aí. Pegue um papel, por favor...

-Não, não, não! Calma, amigo. Eu disse apenas que queria uma informação, e você nem me deixou completar; veio com todo esse lixo cibernético a contaminar meu espírito!
Eu quero saber, apenas e tão somente, como é que eu faço para mandar tudo isto que você falou aí pro raio-que-os-parta, esticar minha rede nos galhos de um pé de jambo vermelho e passar o resto da vida comendo jambo com as maritacas. Só isto!
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Vacas & Suplentes

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Julho, 2007

Embora o exemplo deva vir de cima, no caso brasileiro a chamada “Câmara Alta” demonstra não ser padrão de ética e compostura. O Senado Federal vem sendo avacalhado pelos senhores senadores da república e seus suplentes lamentáveis. O presidente da Casa, acusado de pensionar a amante com dinheiro escuso, comprovadamente entregue à “gestante” por um lobista da Construtora Mendes Júnior, defende-se “provando” lucros pecuários astronômicos em terras do agreste alagoano.

Quase ao mesmo tempo, suspeito de “gratificar membros do Judiciário” que lhe salvaram o mandato, com verbas graciosamente cedidas pelo proprietário das Linhas Aéreas – GOL, o Senador Joaquim Roriz se agarra à pretensa compra de uma VACA, por 300 mil reais, para explicar o sumiço de 1,2 milhões! Renunciou para não ser cassado, mas seu suplente não tem folha corrida limpa e não deverá emplacar os restantes, 7 anos de mandato.
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Democracia no terceiro mundo é essa coisa complicada. Por exemplo, para tornar-se juiz e aplicar a lei, o candidato tem que fazer curso de graduação em direito, apresentar prova de títulos e uma batelada de certidões negativas de distribuidores cíveis, criminais, atestados de bons antecedentes, etc.
Com vida imaculada, boas luzes jurídicas, cultura geral rica e dando sorte de passar num concurso duríssimo, vira APLICADOR das leis, isto é, Juiz de Direito.

Já, para tornar-se senador, deputado, vereador (portanto um FAZEDOR de leis), o cidadão não precisa curso, nem concurso, nem ficha limpa. Muito pelo contrário, muito pelo contrário! Quando tem, costuma até atrapalhar. O povão se amarra é em pilantra semi-analfa.

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Apesar de tudo, ainda acho que a qualidade do homem público brasileiro não piorou nem melhorou. Sempre foi mais ou menos assim. Hoje as (sem) vergonheiras pipocam mais porque as comunicações evoluíram ao tempo real, temos um Ministério Público atuante e a Polícia Federal tornou-se muito eficiente.

Ficou mais visível até uma particularidade interessante. Para governar, o Presidente da República tem que dividir o bolo com os trapaceiros que infestam a política partidária. Submisso a tal circunstância, ele acerta com os partidos, reparte tudo direitinho e constrói a chamada “governabilidade”. Providencialmente, entretanto, ele coloca no Ministério da da Justiça, alguém de confiança que deixe a Polícia Federal agir.
É só rato caindo na ratoeira! Os “partidos da base” se danam! Perdem força reivindicatória. Acho divino!.

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Vejam o paradoxo. Senador não é representante do povo. É representante do seu Estado.
-Como pode um representante de Estado inexpressivo como Alagoas (dependente de verbas federais até pra comprar o papel sanitário do gabinete do governador) ter a força que o atual presidente do Senado vem demonstrando ter diante de representantes de São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Goiás, etc ?
-Tem lógica?
Por outro lado, justificam-se 3 senadores para cada Estado da União? Gente, num país que tem programa contra fome, isto é um rematado absurdo.
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A esperança deve prevalecer. É claro que a coisa vem melhorando. Quando acontece a desistência do Cafeteira, a renúncia do Salgado (milionário da baixada fluminense a quem os mineiros elegeram Senador, sem saber), a renúncia do outro suplente, Sibá Machado, e a perda do controle sobre o Conselho de Ética pelo Senador Renan, é porque uma força muito construtiva está atuando.
-Que força é esta? Claro, a imprensa responsável e a consciência crítica dos brasileiros lúcidos.

Precisamos acabar com essa ridícula “suplência” de senador. É uma trapaça contra a vontade do eleitorado. Serve para colocar no congresso, às escondidas, financiadores de campanha e oportunistas de ocasião.
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O resultado é essa vergonheira. Todos com medo do presidente do Senado. Ele “sabe demais”, de cada um. É rabo preso pra todo lado. Para dar uma satisfação ao eleitorado o sujeito vai à tribuna, dá uma de bom moço proferindo dois ou três conceitos éticos bem teóricos e desaparece até a semana seguinte.
Parodiando Ponte Preta, o Senado é hoje uma lagoa infestada de jacarés e piranhas “onde sabido nada de costas”.
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Os jornais deviam ajudar a memória dos brasileiros não permitindo que um escândalo servisse para esquecer outro. É clara a tática dos senadores, de adiar o julgamento de um escândalo até o aparecimento de outro que o encubra. Aliás, para “salvar” Renan, apareceu logo o caso Roriz, mas tão escabroso que o homem não titubeou: renunciou sem gastar tempo. Não quis arriscar a elegibilidade.
Seria bom se algum bom jornal abrisse título fixo para algo como "Escândalos derradeiros”. Em breves sinopses, manteria na primeira página, como carne-de-sol no varal, a memória fétida dos cinco últimos escândalos. Deixa apodrecer.
Como diria o Magri, mosca varejeira também é gente.

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Essas coisas não têm fim, mas vamos ficar na última frase do Renan Calheiros, agarrando-se à presidência do Senado: "Se eu deixar a presidência, serei um senador zumbi, um morto-vivo." Tem toda razão. É claro que, zumbi por zumbi, é bem melhor (para ele) continuar “presidente zumbi” que “senador zumbi”.
O problema é saber se isto é bom para o conceito da nossa Câmara Alta, que ele preside, e para a imagem do país. Coisa com a qual certamente não se preocupa muito um neo-coronel, daqueles lá de riba.
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(Publicado no LEOPOLDINENSE de 30.07.2007)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Apenas José

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Sou apenas José
Cumpre aqui nem citar
Passagens de João
Tão formal quanto eu.

Essa explicitação
Assaz indispensável
Eis que o meu violão
Tem acordes a opor
Dissonâncias com dor
Curtidas em dó maior,
Engulhos, trastes vocais
Deste versejador.

Quanta insensatez
Quanta alucinação
De um maneiro José
Nas cordas que ouviu João.
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(27.04.2000)

Barrado no Baile

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Julho, 2007

Todo mundo gosta do Waldir Pires, político baiano simpático e honesto. O maior oponente, naquele estado, do pai de todos os santos, Antonio Carlos Magalhães, falecido nesta quinzena. Mas, realmente, nunca foi feliz na política. Waldir Pires renunciou ao mandato de governador da Bahia para ser candidato a vice na chapa de Ulisses Guimarães, cometendo um erro mortal de cálculo político. Eleição terrível para o PMDB, que acabou sendo polarizada entre Lula e Collor. É agora substituído por Nelson Jobim no Ministério da Defesa, de onde sai vítima da longa crise no setor aéreo que culmina com o maior desastre da história da aviação da brasileira, envolvendo o airbus da TAM. Pires sai do ministério como alguém que foi caçar onça com bodoque de bambu.
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Dando a dimensão do problema nos aeroportos, por pouco Jobim recusa a indicação. Sua mulher, Adriene, resistiu. Foi preciso um telefonema direto de Lula para ela, a fim de “negociar o passe” do marido.
É que, infelizmente, mesmo depois das “desortodoxias” protagonizadas por Jobim quando ministro do Supremo, ele ainda seria um nome maior que o nosso (atual) Ministério da Defesa.
Adriene é mulher inteligente e muito preparada.
Advogada, trabalhou com o ex-ministro Paulo Renato, na redação do programa de governo de Fernando Henrique Cardoso, quando candidato a presidente da República em 1994. Depois, quando Fernando Henrique criou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, órgão do Ministério da Fazenda responsável pelo combate à lavagem de dinheiro, Adriene foi nomeada para comandá-lo. Em seguida, foi procuradora Geral do ministério.
Conheceu Jobim quando ele era Ministro da Justiça do governo FHC. Era divorciada. Jobim divorciou-se para casar com ela.
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Há quem veja Jobim como um possível candidato de Lula às sua sucessão. Mas há também quem veja problemas nesta ideia. Dilma Roussef parece destinada a encabeçar a chapa petista ou sair como vice. Dilma nasceu em Minas, mas é gaúcha para efeitos políticos. Ora, uma chapa governista com dois gaúchos complica.
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O Governo Lula tem contabilizado gafes. Teve aquela bobagem dita pela Marta Suplicy, com relação às filas nos aeroportos (“relaxa e goza”), a afirmação insensível do ministro Guido Mantega (“não há caos aéreo, há prosperidade no país”) e a vulgaridade (tof-tof) no gesto do Marco Aurélio Garcia. Logo o ministro Marco Aurélio, talvez o cérebro mais desenvolvido do governo Lula! Por cima ainda vem condecoração inoportuna, no dia seguinte ao desastre da TAM, exatamente no órgão – a ANAC - que pode ser responsável pela perda de 200 vidas!
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Aliás, a ANAC não regula coisa nenhuma. É uma cópia macaqueada do modelo americano, sem a força que as Agências de lá têm porquanto teúda e manteúda pelas próprias empresas reguladas e fiscalizadas, com suas diretorias comendo na mão de quem os indicou e os mantêm embarcados.
Confiram as "funções do órgão", segundo seus estatutos:
a) manter a continuidade na prestação de um serviço público de âmbito nacional;
b) preservar o equilíbrio econômico-financeiro dos agentes públicos e privados responsáveis pelos diversos segmentos do sistema de aviação civil;
c) zelar pelo interesse dos usuários e consumidores;
d) cumprir a legislação pertinente ao sistema por ela regulado, considerados, em especial, o Código Brasileiro de Aeronáutica, a Lei das Concessões, a Lei Geral das Agencias Reguladoras e a Lei de criação da ANAC."

Ou seja, nada concreto, positivo e factível. Tudo coisa abstrata, intangível.
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O presidente Lula, há dias, soltou uma frase afirmando ter dito coisas, quando sindicalista, que hoje, como presidente, não repetiria. Não me esqueço que, para dizer exatamente a mesma coisa (ou seja, da "responsabilidade com resultados", que todo governante assume) Fernando Henrique Cardoso programou uma concorrida palestra sorbonneza, se bem me lembro no início de seu segundo mandato, com direito a Antonio Carlos Magalhães e o falecido filho, então presidente da Câmara, sentados na primeira fila meneando positivamente as cabeças – uma erudita alocução à qual não faltaram aspas elegantes para sociólogos como Comte, Weber e Spencer.
Tudo para dizer: discurso de palanque é uma coisa, exercício de uma função executiva ou legislativa é outra.
No primeiro caso, esqueçam o que escrevi (dito por um homem que, no início dos anos 60, traduziu Montesquieu); no segundo, esqueçam o que sempre falei (de cima dos caixotes, claro).
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A surpresa do Lula com as vaias do Maracanã, deveu-se ao fato de que ele vive em Brasília, num ambiente de pensamento oficial. Brasília isola o governante do contato direto com a sociedade livre-pensante dos grandes centros. Submerso naquele mundo protocolar e estanque, de prosa e cochichos oficiais, fica compreensível o susto presidencial diante da chamada galera, em porre catártico de livre expressão. O Maracanã vaia até minuto de silêncio, dizia Nelson Rodrigues. Foi indelicado. O presidente se sentiu como um convidado barrado no baile...
O verso é do Eduardo Dusek numa canção muito engraçada:
-“Isto é que dá, cê querer freqüentar ...”
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(Publicado no LEOPOLDINENSE de julho de 2007)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Um Tema para Debate

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Agosto, 2010

Na última segunda-feira, 9, o jornal Estado de Minas publicou matéria relevante, de autoria de Carlos Alberto Di Franco, sob o título “Drogas: o debate necessário”.

Bem a propósito, nesta fase de contendas na TV entre os postulantes à presidência da república, a questão das drogas merece repercutir porque é importante que tráfico e consumo de drogas no Brasil passe a integrar a agenda pública e a preocupação dos candidatos. Diria até que o combate ao tráfico e o socorro à juventude dependente é, hoje, tão importante para o país quanto saúde, educação e segurança – conceitos dos quais o tema “drogas” é, aliás, indissociável.

Drogas leves conduzem às drogas pesadas e o consumo de crack vem assumindo proporções de epidemia neste país, levando aos hospitais psiquiátricos, aos presídios e aos cemitérios muitos de nossos jovens. Crack é droga insidiosa altamente viciante, ou seja, começa a aprisionar o usuário já na primeira dose. Seus efeitos no organismo humano são devastadores.

O Brasil é campeão no consumo do crack. Somos nós, portanto, os responsáveis pela solução do problema. O governo não pode continuar em síndrome de avestruz – ou seja, escondendo a cabeça e deixando o bum-bum de fora – porque está em jogo a saúde e a vida da juventude brasileira. Principalmente, das crianças nos segmentos menos favorecidos da sociedade.

Pessoas envolvidas no problema já encontraram um bom caminho para a recuperação de dependentes. Comunidades terapêuticas que se adaptaram e se especializaram no tratamento especifico da doença, vêm obtendo bons resultados. São, de preferência, clínicas fechadas – o doente de crack às vezes precisa ser contido, porque a compulsão para o uso é muito forte – com assistência psiquiátrica e psicológica nas vinte e quatro horas do dia.

Essas clínicas vêm conseguindo romper o círculo vicioso da drogadicção com terapêutica médico-psiquiátrica individualizada, cuja proposta é resgatar ou infundir no adicto valores familiares e éticos, mudança de estilo de vida e adoção de hábitos saudáveis. O tempo médio do tratamento é de seis meses, variável conforme o caso.

É importante anotar que o velho discurso segundo o qual o dependente deve, por si mesmo, chegar ao “fundo do poço” e passar a desejar sair do vício, já não vale tanto. Funcionava com drogas menos pesadas. Os dependentes de crack que chegam ao “fundo do poço” e desejam ser tratados, são bem mais raros. Infelizmente, já a partir dos primeiros experimentos com essa droga a vítima entra em estágio de dependência tão exacerbado que anula, por completo, sua autocrítica impedindo-a de mentalizar outra coisa que não seja continuar no uso...

Por isto, em grande número de casos, o dependente terá que ser internado contra sua vontade, por iniciativa de terceiros. Esta “internação involuntária” é permitida e regulada pela Lei nº 10.216/01, porque as consequências da doença expõem o paciente, e mesmo terceiros, a riscos.

É claro que tal modalidade terapêutica, em caráter particular, tem um preço que nem todas as famílias podem pagar. Convém, então, que o Estado - ou seja, o SUS, o Ministério da Saúde - se adiante e coloque o tratamento à disposição de todas as famílias. Não é justo que o crime organizado - esse monstro que a segurança pública não tem competência nem meios para conter – se ocupe de simplesmente dizimar uma parte de nossa juventude. Sem dúvida que a perspectiva é de extermínio de jovens pela venda do crack.

Quando vemos pelas ruas, principalmente nas imediações de comunidades pobres, meninos e meninas excessivamente magros, abatidos, melancólicos, que não paire dúvida: é o crack realizando seus estragos.

O governo não tem que criar “grupos de estudo” nem “comissões” disto ou daquilo para dissecar e equacionar a questão. Esta etapa já foi cumprida por brasileiros solidários e responsáveis que se adiantaram, e se adiantam, na busca de tratamento para esses doentes. Cabe agora ao governo a iniciativa simples de tomar em suas mãos um trabalho que vem dando certo.

Se precisarem de exemplos concretos, entrem no Google e procurem por comunidades terapêuticas como a “Clínica Novos Rumos” da cidade mineira de Betim, como a “Comunidade Terapêutica Horto de Deus”, de Taquaritinga (SP), e por muitas outras que certamente existem, no mesmo grau de eficiência técnica e limpidez de propósitos.

O mal é terrível, mas ainda é possível investir na esperança. O que não se concebe é o assentimento oficial de que o tratamento da dependência química continue ao alcance apenas das pessoas que podem pagar por ele.

Drogadicção é doença, segundo a Organização Mundial de Saúde. Doença gravíssima! Nossas autoridades estão convidadas a exercício de compaixão que as leve a pôr em prática meios efetivos de franquear tratamento a todos os doentes das drogas. E não nos venham falar em CAPS – Centros de Atenção Psicossocial, do SUS, porque a coisa é bem mais complexa e séria.
É a juventude brasileira em grave situação de risco.
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(Publicada aos 12.08.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

Baita duma Reiva

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Agosto, 2010


Neste país, alguém já disse ou, se não disse deveria ter dito, todos nós estamos metidos numa pilantragem ou noutra. É triste, mas temos que admitir. Embora pessoas mentalmente saudáveis não escapem da “baita reiva” que isto provoca, no dizer antológico do falecido João Rubinato, também conhecido como “Adoniran Barbosa”, o grande sambista nascido em Valinhos, SP, cujo centenário será comemorado amanhã, 6 de agosto. Ele que é o glorioso pai da nossa amiga, Maria Helena Rubinato Rodrigues de Souza, blogueira e articulista do globo.com/noblat e nossa editora, aqui neste espaço.

Pilantragem nos negócios, pilantragem na política, pilantragens sociais e até familiares. Eu disse negócios?

O infeliz que se abalançou a montar uma empresa no Brasil é quase certo ter subornado alguém para constituí-la e vir sonegando muito para mantê-la. Quem não fez, e não faz isto, já desistiu do negócio. As exigências legais são impraticáveis, os impostos absolutamente insuportáveis e a fiscalização corrupta. O instinto de sobrevivência se encarrega de providenciar os desvios. Assim la barca va.

Já o político que ostenta um mandato eleitoral agiu, necessariamente, de forma ilegal para chegar a ele e sacrifica sua ética (na maioria dos casos bastante complacente) para nele manter-se. Uma legislação anacrônica inviabiliza a boa-fé eleitoral e hábitos arraigados fazem do político ético um corpo estranho entre seus pares. O sistema o convida a adaptar-se e ele se curva – nem sempre a contragosto.

O país é dominado por não mais que dois segmentos de poder em torno dos quais gravitam os formadores de opinião, sob a égide recôndita (mas não muito) de interesses corporativos. É escolher o lado.  

Também no âmbito das relações pessoais, há sapos a engolir. Querem ver?

Tonico Majestade, tinha mania de filar. Filava de tudo. Cigarro, jornal, goma de mascar, carona, comprimidinho sublingual, fósforo, literatura de cordel, canetas... Se bobear, até fio dental. Gabava-se da própria intransigência ao exigir troco nas compra de 1,99.

Pedinchão nato, foi perdendo a noção do ridículo até parar de ser exatamente uma pessoa. Virou uma topada.

Certo dia, num bar, como pretexto para encerrar o papo, pedi café para dois.
Ele adoçou com açúcar, eu arrisquei ciclamato.
A bisnaga ainda em minha mão, ele – escravo da filância inveterada – reclamou duas gotinhas “pra reforçar o açúcar”...
Esguichei meio tubo.

– É beber ou jogar fora, Magestade! Tchau.
Dá uma “reiva”!


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(Publicada aos 05.08.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A Disputa Eleitoral

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Julho, 2010

A intriga pela imprensa entre os candidatos à presidência produz na gente um desapontamento de selecionado brasileiro na África do Sul. Todo mundo comprando TV nova na esperança de festa, de ver o time jogar um bolão para, na hora agá, engolir o vexame.

Do mesmo modo, Serra e Dilma desapontam pela superficialidade dos temas que trazem ao debate. Um diz uma bobagem, o outro retruca com uma besteirinha... Fofoca pra lá, fofoquinha pra cá. Nada de substancioso que estimule disputa construtiva e alguma criatividade. Puro teatro besteirol para uma platéia de néscios.

E nem se diga que cometam abusos gratuitos com a inteligência do eleitorado. O que lemos nesta quarta-feira, no Blog do Noblat, sobre o censo do TSE, é de falar baixo pra vizinho não ouvir. Apenas 54% do eleitorado brasileiro completaram o primeiro grau. Ao curso superior, somente 6% dos brasileiros chegaram.

Convenhamos não ser fácil - e, certamente, muito pouco proveitoso - expor programas e temas da nacionalidade a um público com semelhante deficiência intelectiva. É quando, para serem entendidos, os candidatos recorrem ao mingau ralo das frivolidades.

Nada muito diferente do que se passa com a propaganda comercial e com a própria grade de programação das TVs. Submetido à pesquisa, o público informa seu grau de discernimento e, com isto, “pauta” os conteúdos que recebe. Estabelece-se um “ciclo caviloso”.

É complicado! Principalmente porque Serra e Dilma têm pouca munição para desconstruções recíprocas. PT e PSDB são partidos gemelares. Duas correntes gramscianas óbvias que lograram polarizar a disputa pelo poder, no Brasil, no âmbito doméstico da centro-esquerda.

O convite ao eleitorado é para pronunciar-se sobre qual dos dois grupos hegemônicos seguirá tocando projeto liberal de governo. Como Lula é um líder muito identificado com a maioria dos votantes - as pesquisas não deixam dúvida - a chance que tem de “emplacar” sua escolhida é considerável. Deve estar sempre dizendo a Dilma:
-Deixe comigo, diga por aí umas besteirinhas sem conseqüências só para participar.

Do lado Serra a estratégia não pode ser outra:
-Se eu complicar o discurso esse troço pode melar de vez. Melhor repousar a cinzenta, dizer umas abobrinhas aí pelas esquinas, se houver oportunidade arrisco até um sorriso, compro cigarro picado nos botecos e saio cuspindo de esguicho, até ver onde isto vai dar.

No que toca à coadjuvante, Marina Silva, seu discurso é de defesa das vítimas do avanço tecnológico. Embarca na dialética social da opção por um projeto alternativo, que concilie o progresso que seus antagônicos alardeiam - e ela não é doida de desmentir o Lula – com o apreço devido às vítimas futuras da degradação ecológica.

Soa meio utópico, mas é bonito. E lembra John Lennon: pode-se dizer que a candidata do PV é uma sonhadora. Mas ela não é a única.
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(Publicada aos 29.07.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)