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Maio, 2012
É bom a gente dar ênfase às coisas boas da nossa cidade. Nós, os fiscais do cotidiano, os cronistas, jamais contamos até dois ao nos agarrarmos a episódios negativos para tema de nossos escritos. É que a má notícia causa impacto, atrai leitura. Mas não custa, vez ou outra, esquecer o pirotécnico e falar de coisas boas. Então vai aí uma agradável constatação:
-Existe um público leitor em Leopoldina.
Já se disse que o baixo número de jornais vendidos na cidade não apontaria para uma sociedade informada e que o moderado comparecimento de pessoas a eventos culturais seriam indicativos de um público refratário a investimentos in abstracto.
Não foi o que presenciamos na sexta-feira, dia 4 de maio, quando do lançamento, na Casa de Leitura Lya Maria Müller Botelho, do livro de crônicas “Conversa Mineira e outras histórias”. Um grande número de pessoas lá esteve, prestigiando o evento, o que muito nos lisonjeou. Não houvéssemos providenciado uma tiragem maior, teria faltado livro.
“Conversa Mineira” é uma apanhado de crônicas bem humoradas, incluindo, em seu final, quatro artigos com anotações históricas sobre Leopoldina e região.
Desejo abraçar, ainda uma vez, a cada amigo(a) que lá esteve – Muitíssimo agradecido! – e dizer que deixei os livros que sobraram à disposição do público, na Livraria e na Banca de Jornais do calçadão da Rua José Silva, em Leopoldina. No Rio de Janeiro, no Largo do Machado, 29 sala 701.
Sai pelo preço de custo, apenas arredondado para facilitar o troco. Não se cogita de ganhar dinheiro com livro: a ideia sempre foi de um presente a Leopoldina.
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(Publicada no LEOPOLDINENSE OLINE, maio de 2012)
quarta-feira, 16 de maio de 2012
terça-feira, 1 de maio de 2012
A Propósito da CCL
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Janeiro, 2012
O jornal LEOPOLDINENSE vem de fazer uma enquete entre seus leitores com a seguinte pergunta:
- Qual seria o administrador ideal para o hospital de Leopoldina?
As respostas obtidas dão bem a medida do quanto a população leopoldinense anda atenta às dificuldades que afligem nossa Casa de Caridade. Luiz Otávio nos pede uma análise dos números e nós, pelo muito que amamos nosso Hospital e as pessoas que ali trabalham, entendemos útil toda troca de ideias sobre a saúde da população. É algo que fala de muito perto às pessoas de bem desta cidade. Eis o resultado da pesquisa:
Uma Empresa Especializada 85 votos
41,87%
O Supremo Conselho(Provedor) 35 votos
17,24%
O Município 32 votos
15,76%
A Associação Médica 28 votos
13,79%
O Estado 18 votos
8,87%
Tanto faz 5 votos
2,46% (Total de votantes: 203)
Os quase 42% dos votantes que optaram por “Uma Empresa” na administração do Hospital fazem uma boa escolha, no meu modo de ver. Não que isto vá resolver todas as dificuldades existentes; não vai. Mas seria a melhor forma de administrar a instituição. Diríamos, até, que a história demonstra que foi.
-Por que não resolve? Porque qualquer Empresa especializada em Administração Hospitalar nomeará, necessariamente, um “Administrador” que continuará sendo o ALVO da má-fé política, interna e externa, que sempre infelicitou o Hospital .
Politica interna, porque nem todos, dentro da CCL, desejam que ela seja tecnicamente bem administrada – tê-la mais complacente com o erro interessa a alguns; politica externa, porque os Prefeitos, na condição legal de “Gestores da Saúde no Município”, sempre lutaram (e lutarão) para ter à frente do Hospital um “homem deles”... E a arma nessa guerra é, e será sempre, o corte nas verbas: principalmente (mas não apenas) calote no pagamento das mensalidades do Pronto Socorro, sabidamente uma responsabilidade legal da Prefeitura, da qual o Hospital jamais conseguiu se livrar.
Todos se lembram das diversas ocasiões em que a Prefeitura suspendeu o pagamento das mensalidades do PS, até durante vários meses, na tentativa de defenestrar o Provedor. Por várias vezes o Hospital se viu à míngua dos mais elementares recursos para o pronto atendimento (ataduras, esparadrapos, antibióticos, desinfetantes etc.) por falta desses créditos.
Aliás, no dia em que o Ministério Público debruçar-se com especial carinho sobre o que os prefeitos de Leopoldina e seus Secretários de Saúde fazem com o Hospital, e aplicarem o “remédio” adequado, um coral de anjos entoará aleluias nos celestiais recessos.
Bom, mas quanto à enquete, devemos concordar com os 41,87% dos leitores votantes. É bem provável que se algum dia o Hospital vier a funcionar dentro de padrões mínimos de eficiência e confiabilidade, será sob égide de uma administração profissional.
Os 17,24% de leitores que optam pela continuidade do atual sistema, com um Provedor eleito pelo Supremo Conselho, certamente se louvam no aspecto HONESTIDADE, dos escolhidos. De fato, não consta ter passado pelo Hospital um Provedor sobre o qual haja recaído qualquer acusação de improbidade. Invariavelmente, os Provedores do Hospital são criticados apenas por aqueles que desejam seus lugares!
Os 15,76% que acreditam na administração “Municipal”, dão um voto que, em tese, tem sentido. Ou seja, sendo o Prefeito o gestor da Saúde, colocaria lá um “homem dele”, pondo fim à eterna celeuma. Qualquer Prefeito adoraria isto.
O problema é a irresponsabilidade do empreguismo político.
Todos ainda se lembram da fatídica Medida Liminar que colocou o Hospital, por alguns meses, nas mãos do Prefeito. Ao ser reinstalado na Provedoria, por decisão do TJMG, José Valverde Alves revelou-me ter encontrado o quatro funcional que deixara inflado em cerca de 45%, com a admissão de 82 (oitenta e dois) novos funcionários, apaniguados... Pode, uma coisa desta?
Infelizmente o político honesto existe, mas esta não é a regra; é a exceção.
Em verdade, falta aos votantes o dado fundamental: a honestidade dos Provedores eleitos pelo Conselho, paradoxalmente, alimenta a crise com a Administração Municipal porque impede o uso da Instituição como cabide de emprego. É que são mais de 200 (duzentos) postos de trabalho, dentro de uma cidade pequena como a nossa, a não render dividendos políticos para o Alcaide de plantão! Isto incomoda que só vendo!
Os 13,79% que optariam por um Administrador indicado pela Associação Médica, também votaram com inteligência e boa-fé. Sem dúvida, a Associação Médica é uma grande e leal colaboradora do Hospital. Até automóvel para o Hospital fazer rifa ela já doou, reformou segmentos do Hospital etc.
A parte tecnicamente afeta à medicina, no Hospital, entretanto, já é de responsabilidade do Diretor Clínico – sempre um médico. E não consta que a CCL tenha problemas imputáveis à administração dessa área técnica. O problema existente sempre foi administrativo-financeiro. Qualquer mudança a fazer, só terá sentido se for para agregar proficiência técnica à parte de gestão. O que não é, exatamente, tarefa para um médico, como não o seria para um físico nuclear, para um comandante de Boeing, para um sociólogo ou para um poeta. Administrar hospital é tarefa para um bom Administrador Hospitalar. A Fundação Getúlio Vargas – para só citar um exemplo – ministra cursos na área; quem quiser especializar-se, está lá.
Por último, 8,87% votaram pela Estadualização. O número baixo de votantes por certo se explica na inviabilidade da fórmula e por tudo que se sabe de hospitais públicos, de uma maneira geral. No caso da nossa Casa de Caridade, algo inteiramente fora de cogitação.
Interpreto, pois, a pesquisa do LEOPOLDINENSE como muito positiva ao indicar a melhor fórmula de dar boa gestão ao nosso Hospital: entregá-lo a uma empresa especializada. É fazer isto e procurar apaziguar os corações exaltados por interesses contrariados.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicado em janeiro de 2012 no jornal LEOPOLDINENSE Online)
Janeiro, 2012
O jornal LEOPOLDINENSE vem de fazer uma enquete entre seus leitores com a seguinte pergunta:
- Qual seria o administrador ideal para o hospital de Leopoldina?
As respostas obtidas dão bem a medida do quanto a população leopoldinense anda atenta às dificuldades que afligem nossa Casa de Caridade. Luiz Otávio nos pede uma análise dos números e nós, pelo muito que amamos nosso Hospital e as pessoas que ali trabalham, entendemos útil toda troca de ideias sobre a saúde da população. É algo que fala de muito perto às pessoas de bem desta cidade. Eis o resultado da pesquisa:
Uma Empresa Especializada 85 votos
41,87%
O Supremo Conselho(Provedor) 35 votos
17,24%
O Município 32 votos
15,76%
A Associação Médica 28 votos
13,79%
O Estado 18 votos
8,87%
Tanto faz 5 votos
2,46% (Total de votantes: 203)
Os quase 42% dos votantes que optaram por “Uma Empresa” na administração do Hospital fazem uma boa escolha, no meu modo de ver. Não que isto vá resolver todas as dificuldades existentes; não vai. Mas seria a melhor forma de administrar a instituição. Diríamos, até, que a história demonstra que foi.
-Por que não resolve? Porque qualquer Empresa especializada em Administração Hospitalar nomeará, necessariamente, um “Administrador” que continuará sendo o ALVO da má-fé política, interna e externa, que sempre infelicitou o Hospital .
Politica interna, porque nem todos, dentro da CCL, desejam que ela seja tecnicamente bem administrada – tê-la mais complacente com o erro interessa a alguns; politica externa, porque os Prefeitos, na condição legal de “Gestores da Saúde no Município”, sempre lutaram (e lutarão) para ter à frente do Hospital um “homem deles”... E a arma nessa guerra é, e será sempre, o corte nas verbas: principalmente (mas não apenas) calote no pagamento das mensalidades do Pronto Socorro, sabidamente uma responsabilidade legal da Prefeitura, da qual o Hospital jamais conseguiu se livrar.
Todos se lembram das diversas ocasiões em que a Prefeitura suspendeu o pagamento das mensalidades do PS, até durante vários meses, na tentativa de defenestrar o Provedor. Por várias vezes o Hospital se viu à míngua dos mais elementares recursos para o pronto atendimento (ataduras, esparadrapos, antibióticos, desinfetantes etc.) por falta desses créditos.
Aliás, no dia em que o Ministério Público debruçar-se com especial carinho sobre o que os prefeitos de Leopoldina e seus Secretários de Saúde fazem com o Hospital, e aplicarem o “remédio” adequado, um coral de anjos entoará aleluias nos celestiais recessos.
Bom, mas quanto à enquete, devemos concordar com os 41,87% dos leitores votantes. É bem provável que se algum dia o Hospital vier a funcionar dentro de padrões mínimos de eficiência e confiabilidade, será sob égide de uma administração profissional.
Os 17,24% de leitores que optam pela continuidade do atual sistema, com um Provedor eleito pelo Supremo Conselho, certamente se louvam no aspecto HONESTIDADE, dos escolhidos. De fato, não consta ter passado pelo Hospital um Provedor sobre o qual haja recaído qualquer acusação de improbidade. Invariavelmente, os Provedores do Hospital são criticados apenas por aqueles que desejam seus lugares!
Os 15,76% que acreditam na administração “Municipal”, dão um voto que, em tese, tem sentido. Ou seja, sendo o Prefeito o gestor da Saúde, colocaria lá um “homem dele”, pondo fim à eterna celeuma. Qualquer Prefeito adoraria isto.
O problema é a irresponsabilidade do empreguismo político.
Todos ainda se lembram da fatídica Medida Liminar que colocou o Hospital, por alguns meses, nas mãos do Prefeito. Ao ser reinstalado na Provedoria, por decisão do TJMG, José Valverde Alves revelou-me ter encontrado o quatro funcional que deixara inflado em cerca de 45%, com a admissão de 82 (oitenta e dois) novos funcionários, apaniguados... Pode, uma coisa desta?
Infelizmente o político honesto existe, mas esta não é a regra; é a exceção.
Em verdade, falta aos votantes o dado fundamental: a honestidade dos Provedores eleitos pelo Conselho, paradoxalmente, alimenta a crise com a Administração Municipal porque impede o uso da Instituição como cabide de emprego. É que são mais de 200 (duzentos) postos de trabalho, dentro de uma cidade pequena como a nossa, a não render dividendos políticos para o Alcaide de plantão! Isto incomoda que só vendo!
Os 13,79% que optariam por um Administrador indicado pela Associação Médica, também votaram com inteligência e boa-fé. Sem dúvida, a Associação Médica é uma grande e leal colaboradora do Hospital. Até automóvel para o Hospital fazer rifa ela já doou, reformou segmentos do Hospital etc.
A parte tecnicamente afeta à medicina, no Hospital, entretanto, já é de responsabilidade do Diretor Clínico – sempre um médico. E não consta que a CCL tenha problemas imputáveis à administração dessa área técnica. O problema existente sempre foi administrativo-financeiro. Qualquer mudança a fazer, só terá sentido se for para agregar proficiência técnica à parte de gestão. O que não é, exatamente, tarefa para um médico, como não o seria para um físico nuclear, para um comandante de Boeing, para um sociólogo ou para um poeta. Administrar hospital é tarefa para um bom Administrador Hospitalar. A Fundação Getúlio Vargas – para só citar um exemplo – ministra cursos na área; quem quiser especializar-se, está lá.
Por último, 8,87% votaram pela Estadualização. O número baixo de votantes por certo se explica na inviabilidade da fórmula e por tudo que se sabe de hospitais públicos, de uma maneira geral. No caso da nossa Casa de Caridade, algo inteiramente fora de cogitação.
Interpreto, pois, a pesquisa do LEOPOLDINENSE como muito positiva ao indicar a melhor fórmula de dar boa gestão ao nosso Hospital: entregá-lo a uma empresa especializada. É fazer isto e procurar apaziguar os corações exaltados por interesses contrariados.
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(Publicado em janeiro de 2012 no jornal LEOPOLDINENSE Online)
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Foi Assim #
***
Dezembro, 1965
Nasci à beira de um rio de águas vagarosas, ao qual chamavam Rio Pardo. No pequeno vale contíguo à planície denominada Vargem Linda, no sopé da encosta, meu pai construiu, com suas próprias mãos, sobre esteios de braúnas centenárias, nossa casa, simples, mas tão extraordinariamente bela e agradável que os anos ali vividos nós os guardaríamos na memória como um tempo submerso no azul de um céu muito limpo e pródigo nas mais preciosas dádivas da natureza.
Vargem Linda não chegava a ser grande. Uma pequena chácara de alqueire e meio, como sempre ouvi dizer. Dela, meu pai extraia o sustento da família com pequenas culturas de arroz, feijão e milho.
Tínhamos também uma vaca muito bonita e grande, chamada Princesa, de pelo queimado, brilhante, chifres altos cor de grafite, que nos brindava todas as manhãs, a meus três irmãos e a mim, com o leite forte de suas virtudes zebuínas. Meu pai possuía um cavalinho castanho, o Guarany, que o levava a trote por toda a parte.
Professora rural do lugar, minha mãe, Da. Pequetita, ensinava às crianças pobres a ler e a escrever. No início da década de 1940 a região da Vargem Linda era muito pobre de recursos e as pessoas muito simples. Todos trabalhavam na lavoura e eram poucos os que sabiam assinar o nome. Nem mesmo os proprietários das terras, em sua maioria, puderam frequentar escolas primárias. O mundo civilizado devia parecer distante, quase inalcançável para eles.
Minha mãe tornou-se particularmente estimada de toda a população por ser mestra dedicada, exigente e muito cuidadosa do aprendizado e da saúde de seus pequeninos alunos. Era um tempo em que a simples e elementar ideia de alfabetizar as crianças contava com poucos adeptos. Os menores eram úteis na ajuda aos pais na lavoura, atividade compreensivelmente prioritária, pois representava em muitos casos a própria sobrevivência.
Importantíssimo, portanto, que as professoras se dirigissem às residências e, lá, convencessem os adultos da relevância do aprendizado, da necessidade de equacionar o problema e alfabetizar os filhos. Para os meninos e meninas que não podiam comprar cadernos, minha mãe costumava fazer, com linha de costurar e papel de embrulhar pão, os cadernos com que pudessem anotar as aulas.
Tal como se descreve no início da criação, Deus há de ter visto que tudo aquilo era muito bom, pois parece ter inundado de bênçãos nossas vidas e determinado que, ao final, tudo viesse ter à trégua e à paz.
₪₪₪₪₪₪₪₪
Dezembro, 1965
Nasci à beira de um rio de águas vagarosas, ao qual chamavam Rio Pardo. No pequeno vale contíguo à planície denominada Vargem Linda, no sopé da encosta, meu pai construiu, com suas próprias mãos, sobre esteios de braúnas centenárias, nossa casa, simples, mas tão extraordinariamente bela e agradável que os anos ali vividos nós os guardaríamos na memória como um tempo submerso no azul de um céu muito limpo e pródigo nas mais preciosas dádivas da natureza.
Vargem Linda não chegava a ser grande. Uma pequena chácara de alqueire e meio, como sempre ouvi dizer. Dela, meu pai extraia o sustento da família com pequenas culturas de arroz, feijão e milho.
Tínhamos também uma vaca muito bonita e grande, chamada Princesa, de pelo queimado, brilhante, chifres altos cor de grafite, que nos brindava todas as manhãs, a meus três irmãos e a mim, com o leite forte de suas virtudes zebuínas. Meu pai possuía um cavalinho castanho, o Guarany, que o levava a trote por toda a parte.
Professora rural do lugar, minha mãe, Da. Pequetita, ensinava às crianças pobres a ler e a escrever. No início da década de 1940 a região da Vargem Linda era muito pobre de recursos e as pessoas muito simples. Todos trabalhavam na lavoura e eram poucos os que sabiam assinar o nome. Nem mesmo os proprietários das terras, em sua maioria, puderam frequentar escolas primárias. O mundo civilizado devia parecer distante, quase inalcançável para eles.
Minha mãe tornou-se particularmente estimada de toda a população por ser mestra dedicada, exigente e muito cuidadosa do aprendizado e da saúde de seus pequeninos alunos. Era um tempo em que a simples e elementar ideia de alfabetizar as crianças contava com poucos adeptos. Os menores eram úteis na ajuda aos pais na lavoura, atividade compreensivelmente prioritária, pois representava em muitos casos a própria sobrevivência.
Importantíssimo, portanto, que as professoras se dirigissem às residências e, lá, convencessem os adultos da relevância do aprendizado, da necessidade de equacionar o problema e alfabetizar os filhos. Para os meninos e meninas que não podiam comprar cadernos, minha mãe costumava fazer, com linha de costurar e papel de embrulhar pão, os cadernos com que pudessem anotar as aulas.
Tal como se descreve no início da criação, Deus há de ter visto que tudo aquilo era muito bom, pois parece ter inundado de bênçãos nossas vidas e determinado que, ao final, tudo viesse ter à trégua e à paz.
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Maria Sumiu
***
Faz tempo, passou Maria
Em frente à minha janela,
Eu que sempre falo em versos
Em versos não falo nela.
Meu fraco é falar de mar,
Falar de espera e de mágoa,
De lágrimas de se afogar
Como a lua dentro d’água.
Maria foi uma vaga
Em noite sem lua cheia,
Tudo indica que no escuro
Maria virou sereia.
*******
Na Dívida Ativa
***
Quero, neste Carnaval,
Reprimir minha alegria
Vou botar terno e gravata
E arquivar a fantasia.
Não quero o calor do samba,
Melhor uma ducha fria
Atiçar os meus problemas
Dando papo à minha tia.
E, à noite, quando eu voltar
Nem passo pelo chuveiro,
Enfio uma roupa suja,
Vou dormir no galinheiro.
Se espirrar não é Saúde
Por favor, digam: -Enfermo!
E debitem o mau humor
À ganância do governo
********
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
O Quintino e o Wando
***
Fevereiro, 2012
Fevereiro, 2012
A morte do cantor Wando me trouxe
lembrança de um estouvado companheiro de trabalho, no Rio de Janeiro, o também falecido
jornalista Luiz Quintino. Esse foi um cara que se destacava. Chefe de redação
da empresa em que trabalhávamos, gozava da justa fama de sério, competente e equilibrado.
Era casado com Vanira, mulher adorável com quem tinha dois filhos já moços.
Residia num bom apartamento da Zona Sul
do Rio, levava vida profissional e social dentro dos padrões e manifestava,
sempre, grande carinho pela esposa e até pela sogra. Versado em elogios abundantes,
tinha na sogra sua grande beneficiária.
Lembro-me da ocasião em que buscava
trocar o apartamento da família. Dizia enfático:
– Só me serve imóvel com terceiro quarto
que seja “muito bom”, para minha sogra. Não abro mão de tê-la morando comigo. Minha
mulher é maravilhosa, mas quem “adivinha meus pratos preferidos” é minha sogra.
Pois foi este homem de vida conjugal nos
eixos que, a partir de certo dia, passou a incluir a própria secretária,
Olivinha, nos confetes coloridos de sua verve. Moça casada e bem mais jovem que
o chefe, talvez enfrentasse problemas em casa. Percebíamos que Quintino tornara-se
seu confidente e, aos poucos, sua companhia invariável nos almoços. Rapidinho o
namoro ficou óbvio.
Da parte do Quintino, rarearam os louvores
à esposa e à sogra. As qualidades de Olivinha ganharam preponderância em seu
apostolado.
Pelo sim, pelo não, eu – o colega ao
lado − decidi a tudo ver e ouvir em silêncio obsequioso. A situação era desconfortável
para mim, na condição de também amigo da esposa, Vanira, pelos muitos anos de convivência
com o casal. Uma distância prudente do imbróglio era-me recomendável.
Deu-se, por aquela época, que o cantor
Wando fazia grande sucesso na casa de espetáculos “Asa Branca”, nos Arcos da
Lapa. A imprensa repercutia:
– Imaginem, ele arremessa calcinhas de lingerie
para as fãs!
Wando emplacava seus grandes “hits” românticos.
Quintino foi, com Olivinha, ao show.
Se faltava algum tênue empuxo a inundar
de paixão o coração do ragazzo, o show
do Wando seria a gota d’água. O homem já não conseguia trabalhar; grudou na
Olivinha.
Claramente envolvido no lirismo da
canção “Moça” (Só podia ser: assobiava aquilo o dia todo!), passou a
desconsiderar os limites do recato.
– Era casado? Dane-se!
– A moça era casada? Dane-se, novamente!
– A moça era muito mais nova? O Wando
resolve:
“Moça,
dobre as mangas do tempo
jogue
o teu sentimento, todo em minhas mãos...”
“Dobre as mangas do tempo” é garimpo
poético de fina extração, não acham? Pois o bom Wando, mineiro de Cajuri – povoado
que fica ali, pertinho de Viçosa – disse mais, naquele show:
– Brega, minha
gente, é não viver um grande amor.
Quintino tomou
boa nota e, certamente, viveu. Deu um galho danado, mas viveu.
₪₪₪₪₪₪₪₪
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
A Catástrofe da Treze de Maio
***
Janeiro, 2012
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(Publicado, em 30.01.2012, no Leopoldinense Online)
Janeiro, 2012
Cá de Minas Gerais, onde estou,
o desmoronamento dos três prédios da Av. Treze de Maio, a 25.01.2012, no Rio de
Janeiro, ressoou como se ocorrido aqui em frente.
É que a Av. Treze de
Maio foi, de fato, e por muitos anos, a minha rua, a rua do meu trabalho, do
meu dia-a-dia, além da rua do Teatro Municipal, do Banco do Brasil – Agência da
Cinelândia, do Cordão do Bola Preta, do antigo IAPB, no Edifício Darke, e da
Cia. Siderúrgica Nacional, no histórico Edifício Municipal.
Fronteiriças aos prédios
que desabaram, minhas janelas de escritório, no 18° andar do número 13, abertas
sobre a cúpula do Teatro Municipal, divisavam aqueles prédios que caíram no primeiro
plano da paisagem, tendo a Baia de Guanabara ao fundo, o Pão de Açúcar e a
Ponte Rio/Niterói.
No térreo de um deles,
funcionava uma padaria com pães especiais que, à noite, costumava levar para
casa, para deleite do meu filho.
Presenciar, pela TV, a
remoção daquele entulho me comove e me atesta situar-se ali um pedacinho do Rio
a integrar, silenciosamente, meu sentimento de lar.
Opinar prematuramente sobre as causas da
tragédia não é apropriado. Se, de saída, entretanto, foram descartadas as
hipóteses de explosão, algum outro episódio terá comprometido fatalmente as estruturas
da edificação maior, que levou, em sua
brutal implosão, as duas menores.
Sabe-se que o concreto não perde
resistência com o tempo – ao contrário, torna-se mais rijo − a menos que
ferragem exposta à ferrugem o comprometa, o que é raro. Obras desastradas, de
acréscimos, surgem, então, como causa mais provável da tragédia.
A propósito, vivi experiência bastante
elucidativa da questão. Na década de 80, contratei empresa para abrir um buraco
na parede e instalar condicionador de ar em meu apartamento de 10° andar.
Aos dois pedreiros que chegaram pela
manhã, indiquei a parede a ser furada e fui trabalhar. Cismado, porém, resolvi almoçar
em casa para conferir o andamento da obra. Que susto! Só a metade direita do
buraco estava aberta; a outra, a duras penas, eles tentavam, roer a marteladas...
– Está muito duro, Doutor, é concreto
armado!
Foi fácil logo ver que na ponta das
talhadeiras estava uma pilastra do prédio. Aflito, gritei que parassem com
aquilo... Devo ter pronunciado, naquele instante, a ordem mais importante da
minha vida...
Obras feitas por “curiosos”, sem
qualquer planejamento técnico, são comuns. Moradores, proprietários e síndicos
precisam estar atentos. Contratar pedreiro indicado pelo porteiro é uma
temeridade.
Também não pensar que a simples
regularização da obra no CREA garante segurança. Dão apenas notícia de que “há
um engenheiro responsável”. O que não é tudo. É bom saber se o engenheiro, de
fato, projetou e – importantíssimo – se passa por lá. Porque Conselho não
fiscaliza obra: ele existe para defender a classe profissional por cujos interesses
zela. Conselhos são autarquias que funcionam mais como burocracias cartorárias,
vorazes, sobretudo na coleta de suas próprias receitas, em anuidades, taxas e
multas.
O ideal seria fiscalização municipal eficiente,
acompanhando reformas e exigindo manutenção.
Infelizmente, esta é outra área em que, pelo menos nas grandes cidades,
a corrupção campeia solta. Dinheirinho para aprovar, dinheirinho para não
multar, dinheirinho pra isto, dinheirinho pra aquilo. E, cuidado, hem! Melhor
contratar despachante “do ramo”, que coloque a grana na mão da pessoa certa. Se
não...
A imprensa publicou duas fotos
comparativas do prédio maior, responsável pelo desastre da Treze de Maio –
antes e depois das reformas que sofreu ao longo dos anos. Na foto mais recente,
aparecem obras de ampliação nos andares superiores e inúmeras janelas
suplementares, abertas na empena cega do
prédio. O vulto dos acréscimos assusta pelas possíveis toneladas de cimento,
areia e tijolos ali colocados posteriormente ao cálculo das estruturas. As
aberturas caóticas das janelas sugerem possíveis danos aos pilares. Tudo,
portanto, obra irregular.
É
rezar pelos mortos.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicado, em 30.01.2012, no Leopoldinense Online)
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