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domingo, 15 de agosto de 2010

Paulo Lisboa

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Setembro, 2007

O Jornal LEOPOLDINENSE, edição de 15 de setembro de 2007, registrou o falecimento, ocorrido a 5 de agosto último, do senhor Paulo Lisboa, uma das pessoas mais queridas da comunidade leopoldinense.

Nascido em 3 de maio de 1915, Paulo contava 92 anos, filho de Luiz do Amaral Lisboa e de Maria da Conceição Lisboa. Era casado com Da. Lilía Lisboa, já falecida, com quem teve os filhos Paulo Roberto Lisboa, artista plástico e José Fernando, engenheiro, falecido.

Era irmão do Dr. Moacyr do Amaral Lisboa, famoso professor de mineralogia e botânica da Universidade Federal de Ouro Preto, entidade educacional da qual foi também reitor; de Pedro Lisboa; de Da. Carmosa, esposa de Francisco Resende; e de Da. Júlia, esposa de Pedro Pacheco.

Como Secretário do velho Colégio Leopoldinense, desde os tempos em que o Botelho Reis pertencia à Diocese de Leopoldina, Paulo Lisboa passou por várias gerações de professores e alunos do nosso tradicional educandário, até aposentar-se em 1983.

Tal o amor e a dedicação de Paulo pelo Colégio que, mesmo aposentado, jamais se desligou da escola. Continuou informado de todos os problemas, de tudo dando conta e por lá aparecendo com a maior solicitude sempre que necessário.

Segundo o Professor e ex-Diretor do Colégio, Geraldo Bertocchi, Paulo Lisboa foi um servidor de inigualável integridade e insuperável dedicação ao trabalho. Como Secretário de instituição, era o encarregado de fazer os pagamentos a funcionários e professores. Houve ocasião – lembra o Prof. Bertocchi - que já estando com o numerário nas mãos para o pagamento da folha no dia seguinte, Paulo, diante da necessidade urgente de uma pequena quantia, pediu-a emprestada ao Diretor, que lhe ponderou: “Ora, Paulo, você já não tem em mãos o dinheiro do pagamento mensal que fará a todos, e a si mesmo, amanhã? Por que não assina o próprio recibo hoje, adiantando em um dia seu próprio pagamento?”
Ao que Paulo retrucou: - De maneira nenhuma. O dia do meu pagamento é amanhã...
E conclui o Prof. Geraldo: - Paulo era intransigentemente honesto!

Foi, portanto, fazendo merecida justiça a esse servidor exemplar que o atual Diretor da Escola Estadual Professor Botelho Reis, professor Fernando M. Vargas, determinou que o corpo de Paulo Lisboa fosse velado na Secretaria do Colégio.

Deixou o falecido, além do filho Paulo Roberto, os netos Felipe, Rodolfo e Thiago.
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(Publicada no jornal LEOPOLDINENSE de 15 de setembro de 2007)

Casa de Caridade Leopoldinense & Pronto Socorro


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Junho, 2006


Foto: Posse da Mesa Administrativa do Hospital período 1999/2001 - da esq. para a direita: Rogério de A. Junqueira (Representando, Arlen José Fontes Freire - Tesoureiro), Francisco Mendonça Gama - Secretário, José do Carmo Rodrigues - Provedor, Dr. Sérgio Maranha - Diretor Clínico, Nelito Barbosa Rodrigues - Administrador, Sérgio Roberto Vitoi - 2º Secretário

Esta história é antiga. Só mudam os personagens.
A Casa de Caridade Leopoldinense notificou extrajudicialmente a Prefeitura de Leopoldina, de que resolveu rescindir o convênio firmado entre as partes para o funcionamento do Pronto Socorro Municipal nas dependências do hospital. Na mesma notificação extrajudicial a Casa de Caridade se propõe a ceder à Prefeitura as instalações onde funcionam hoje os serviços de urgência e emergência, em regime de comodato, por prazo a ser acordado, o que significa que se a Prefeitura se interessar em instalar e administrar o Pronto Socorro Municipal poderá fazê-lo no mesmo local onde funciona hoje, mas sem responsabilidade da Casa de Caridade Leopoldinense. De acordo com a notificação extrajudicial a Prefeitura tem prazo até o dia 10 de agosto para assumir o Pronto Socorro.

O Provedor da Casa de Caridade Leopoldinense, José Valverde Alves, disse ao jornal LEOPOLDINENSE, que o motivo da rescisão do convênio se prende aos limites físicos e orçamentários atribuídos à CCL pela Programação Pactuada Integrada (PPI) que não autoriza mais de 300 internações por mês.

Para Valverde, esse número está sub-dimensionado, pois a população estimada para atendimento é de 155 mil pessoas considerando os municípios vizinhos que estão na cota da CCL. Isto significa que para cada 534 pessoas somente uma por mês tem o direito de internar-se no hospital, pelo SUS, exemplifica o Provedor. “Se você levar essa situação para os casos de cirurgia, assevera Valverde, a coisa fica pior pois só podemos realizar 66 cirurgias por mês, o que vale dizer que para cada 2.348 pessoas somente uma pode fazer uma cirurgia, pelo SUS, mensalmente. O que passar disto, o SUS não paga.

O provedor conta que a partir de outubro de 2004, quando foram iniciados os cortes de verbas, a CCL veio acumulando excesso de internações que não pode faturar em virtude do teto orçamentário, pois o SUS não aceita que o limite seja ultrapassado. No entanto - é ainda Valverde quem diz - “...a partir daquela data o número de pacientes atendidos pelo SUS sempre foi superior ao limite estabelecido e foram sendo represadas para faturamento futuro, chegando ao mês de agosto de 2005 com um total de 980 internações pendentes, que representam um total de R$390 mil reais, verba esta que teria de ser repassada pelo Governo do Estado.

O Provedor lembra que o hospital da CCL é o único da cidade e que mesmo com o limite de atendimento já esgotado é obrigado a praticar os atendimentos, porque os casos de urgência não podem deixar de receber socorro. E assim - aduz o Provedor - ficando sem faturar, a CCL entra a atrasar pagamentos a fornecedores de materiais e de medicamentos, indispensáveis ao atendimento.

Hoje, encontram-se no setor de faturamento mais de 600 internações pendentes de pagamento, perfazendo um total de R$220 mil reais. Os gestores da saúde, tanto na área estadual como na área municipal, têm conhecimento dessa situação.

Valverde exibe cópia do Oficio Circular nº 014/2005, assinado pela Secretária Municipal de Saúde, Lucia Helena Fernandes da Gama, onde ela diz: “...é com grande pesar e insatisfação que informamos a V.Sa que por determinação da Secretaria Estadual da Saúde o teto/físico orçamentário da PPI-Programação Pactuada Integrada foi reajustado de acordo com a primeira PPI de três anos atrás....informamos-lhe, ainda, que em conjunto com secretários municipais de quatro DADS, estamos pleiteando junto aos órgãos competentes a revisão desta PPI, pois todos somos sabedores de que não é possível uma entidade sobreviver e prestar bons serviços com este teto financeiro”.

O teor desta correspondência é um reconhecimento, por parte da Secretária Municipal e, claro, do Sr. Prefeito, da realidade que vive o hospital. Explica Valverde que:

“Os principais motivos da denúncia do Convênio do Pronto Socorro pela Casa de Caridade são o teto orçamentário fixo mensal que é extrapolado constantemente. A maioria das internações realizadas pela CCL provém de atendimentos feitos no Pronto Socorro Municipal, o que torna difícil controlar a quantidade de internações, porque o paciente chega lá, o médico atende, vê a necessidade de internação e não pode deixar de pedi-la”.

Ou seja, mesmo com o teto atingido, o Hospital não pode deixar de internar e não tem a quem recorrer. A Portaria nº 2.048 de 5 de novembro de 2002, do Ministério da Saúde determinou que até o ano de 2004 todo município teria que implantar uma Central de Vagas para controlar a regulação médica das urgências e emergências.

Em resumo, complementa Valverde: “A Casa de Caridade Leopoldinense não pode continuar sendo responsabilizada pelo excesso de internações que pratica. Quem tem que fazer isso é a Secretaria Municipal de Saúde, o que não vem ocorrendo. Por outro lado, a Casa de Caridade continuará atendendo os usuários do SUS dentro das normas estabelecidas pela legislação atribuída aos hospitais em geral”.

Assim sendo, o Provedor informa à população, que a partir do dia 10 de agosto de 2006 o Pronto Socorro será administrado pelo Município.

A VERDADE VERDADEIRA

Mais uma vez entrará no foco das atenções uma queda-de-braço entre a Prefeitura e a Provedoria do Hospital, a propósito da entrega do PS à municipalidade. Na origem da questão está a inviabilidade do modelo nosocomial representado pela Casa de Caridade Leopoldinense, um Hospital que o Sistema Único de Saúde – na teoria, perfeito - tornou, empresarialmente, inviável.

Os constituintes de 1988, ao instituírem, demagogicamente, o SUS, na Seção II, Capítulo II, do Título da Ordem Social, acharam que podiam resolver o problema da saúde dos brasileiros pobres com a simples inserção de “artigos milagrosos” no texto Constitucional. A ninguém ocorreu a pergunta que cabia:
- Quem financiará?
Os recursos orçamentários previstos no art. 195 da Constituição jamais serão suficientes para bancar saúde plena a 185 milhões de brasileiros (estimativa do IBGE, ano 1995).

Mesmo países desenvolvidos e ricos enfrentam dificuldades no setor. Uma meia-solução para minorar os problemas seria a imediata criação de impostos ou aumento dos já existentes. Mas sabemos todos que a sociedade brasileira não está disposta a aceitar aumento de impostos em montante suficiente para bancar a saúde pública. Mesmo porque é um balaio sem fundo. Os meios diagnósticos e tratamentos crescem em evolução vertiginosa, ficam cada dia mais sofisticados e caros, falindo até Seguros de Saúde de âmbito internacional.

Sendo assim - e assim é - não adianta brigar. Falta pão e ninguém tem razão. A situação da saúde no Brasil, como em qualquer país pobre ou emergente, é dramática.

No caso específico de Leopoldina, sempre estivemos a braços com a inviabilidade econômica do nosso Hospital e com os problemas (que são os mesmos) do Pronto Socorro. A Prefeitura certamente resistirá à “devolução” do PS porque o Prefeito sabe que não dispõe de verba para arrostar o déficit crônico a que o serviço está condenado. Aceitando, desgasta-se em poucas semanas. Por uma razão tão simples quanto límpida: o Pronto Atendimento é deficitário! É dependente de custos que não são cobertos pelo SUS, principalmente pela ultrapassagem de limites.

Será sempre oneroso porque ele é a própria SAÚDE PÚBLICA do Município. Há uma tendência de convergir para o Pronto Socorro do Hospital todas as necessidades médicas da população. E, quanto melhor e mais bem aparelhado ele estiver, maior será a convergência – tanto da população da cidade, quanto dos distritos e das cidades vizinhas. Claro, convergência na direção do SUS, em detrimento, portanto, de consultórios e clínicas particulares. Por isso, talvez, haja até quem prefira que ele não funcione... ou que funcione mal... (Censurado será quem maldade pensar!)

Uma coisa, entretanto, é muito clara: o Pronto Socorro é da Prefeitura. Não é do Hospital. Funciona no Hospital em razão de um antigo Convênio. Exatamente o Convênio que se pretende extinguir. Tentativas nesse sentido já foram feitas no passado. Mas todos os prefeitos resistiram a receber de volta o Pronto Socorro, por verem nele - como sugerido acima - uma batata quente... O Pronto Socorro é, de fato, uma batata quente.
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de junho de 2006)

Querendo Entender

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Janeiro, 2006

▪Clepto, do greco klépto = Roubo, roubar; Cracia, do greco krátia = Governo, autoridade; CLEPTOCRACIA = Governo de ladrões (fonte: Dic. Aurélio).
Vide relatórios das CPIs. As provas nos inquéritos parlamentares dão conta de que não há muita falsidade nas acusações recíprocas entre petistas, peessedebistas e pefelistas. É tudo verdade. O que nos leva a outra realidade terrível. O Brasil saiu de uma ditadura, no final do governo Figueiredo, e entrou numa CLEPTOCRACIA desvairada. Governo Itamar à parte, a truculência deu lugar à pilhagem. Confesso que não tenho saudade da ditadura. Mas tenho pena deste Brasil vítima do baixo padrão moral de grande parte de seus homens públicos. E, claro, da estupidez incomensurável do povo infeliz que os elege. Aliás, a maneira desastrada como o povo brasileiro escolhe representantes é garantia constante de horizontes nublados.

▪Tio Candim, enxadeiro, filósofo e macumbeiro dos meus bons tempos de criança, acha que os partidos políticos brasileiros se comportam como facções clandestinas. Acerta pela média. O PT que emerge das CPIs em andamento, com valerioduto e cuecas recheadas, mereceria melhor classificação? E o PMDB da suspeitíssima contumácia no Ministério dos Transportes, do Estevão, do Governo Sarney, do Newtão, do Quércia, do Genebaldo, do Barbalho, do Zé Geraldo “Quinzinho”? E o PFL da grana de responsa nas burras da Roseana, das loterias do João Alves, do painel eletrônico do ACM avô, do Fiúza, da fidelidade canina ao Collor e ao PC? E o PTB do Jéferson, do Queiroz, da Sra. Cândido? E o PSDB do Senador Arruda, das obscuridades do Azeredo, do governo FHC nas privatizações opportunitysticas do Mendonça de Barros, do limite ricardiano da responsabilidade? E o PL do Mabel, do Costa Neto, do Bispo Rodrigues? Ó tempos, ó costumes!

▪Não há exagero em dizer que as próximas eleições se resumirão a uma luta entre amigos do alheio para definir quem se ocupará dos cofres públicos nos quatro anos seguintes. Ou seja, votaremos pela permanência de larápios ou pelo rodízio deles. Uma escolha entre o que aí está e o que aí esteve.

▪Vira e mexe o assunto Previdência volta à tona. Previdência diz respeito ao bolso, ao estômago, à saúde e ao futuro de cada um. Mesmo lembrando que no longo prazo estaremos todos mortos, incomoda o temor de que, antes, possa vir miséria e abandono. Uma previdência falida e sem perspectivas de sustentação é espada de Dâmocles sobre nossas cabeças. O problema não é só brasileiro. Sabe-se que a população economicamente bem situada, nos países desenvolvidos, vem tendo um filho por casal no máximo dois. A dúvida é: como, numa sociedade sempre mais competitiva, esses (poucos) filhos irão prover os custos previdenciários dos pais – cuja longevidade aumenta? Complicadíssimo! A ameaça futura pode ser penúria na velhice, já que também os salários descem a níveis asiáticos.

▪O nivelamento por baixo, feito principalmente pela TV quando deixa que o grande público, via institutos de pesquisa, lhe fixe a pauta dá que pensar: - Quem está educando a quem? A TV educa o povo ou o povo educa a TV? Veja essa interessante minisérie “JK”, da Globo. Para contar a história de um grande estadista já enfiaram, desde os capítulos iniciais, cenas de sexo explícito (inclusa uma de estupro não convencional) e um altíssimo percentual de tomadas em bordel. Tudo para atrair o grande público em cima da propalada natureza boêmia do legendário Juscelino. Não é que esteja ruim, mas podiam pegar mais leve, né?

▪Tome gafe. Não faz muito tempo, o presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B - SP) depois de almoçar com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em Viçosa, Alagoas, saiu com este comentário: “- De tanto falar de política, ele parecia Lázaro escolhido por Cristo para ressuscitar”.
Vê-se que nossa Câmara de Deputados não anda bem servida de presidente, ultimamente. Se depois de almoçar com um homem público do nível de FHC, Aldo foi capaz de tal comentário grosseiro, ele carrega, para mim, uma virtude e um defeito. Como virtude, a verve - sem dúvida notável; o defeito seria a falta do legado doméstico do berço e seus consectários de natureza ética.

▪E vai noticia do Oriente Médio! Entendo, até prova em contrário, que a importância de Israel e Palestina é estratégico/militar, tão somente para os Estados Unidos. O espalhafatoso destaque que nossa imprensa dá a cada incidente de rua ocorrido por lá me soa como macaqueamento de preocupação alheia. O território geográfico de São José do Rio Preto, SP, por exemplo, é muito mais importante para o Brasil e eu, nascido na Lajinha, pras bandas dos Carrapatos, não sou informado sobre quem é o prefeito de lá.

▪Vou transcrever declaração do Sr. Rodrigo de Rato, diretor-gerente do FMI, à TV: “O que posso dizer é que o Brasil não tem há mais de uma geração uma oportunidade tão boa como tem hoje de assentar-se num caminho de crescimento. A economia brasileira é dinâmica, com um futuro promissor. Crescerá mais em 2006 do que cresceu em 2005, com menos inflação, custo menor de sua dívida, menos pobreza e mais emprego. Isso foi obtido depois de muitos esforços, mantendo uma política macroeconômica que garante a estabilidade. Creio que é do interesse dos brasileiros não perder tudo o que foi alcançado e continuar trilhando o caminho de uma economia que dará resultados cada vez melhores. (...) Queria lembrar que, em outros momentos em que o ambiente internacional foi favorável, o Brasil não se beneficiou da mesma maneira. É verdade que hoje a situação internacional é mais favorável, mas também é verdade que os brasileiros fizeram muitas coisas na direção correta para colher os benefícios”.

Nada tão claro: o diretor do FMI está com o Palocci e não abre. A única crítica, aliás, que se poderia opor ao PT, hoje, é que o governo Lula conduz a política econômica exatamente como o PSDB o faria. Ou seja, na área econômica há continuísmo. Mas que o Palocci tem defensores importantes, tem. O que explica a percepção corrente de que o establishment (leia-se, quem está por detrás do poder, no Brasil) confia mais no Palocci que no Serra.
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(Publicada no Jornal LEOPOLDINENSE de 30 de janeiro de 2006)

Repensando Leopoldina

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Fevereiro de 2006

No último número do Jornal LEOPOLDINENSE, o jornalista Luiz Otávio, com seu proverbial senso de oportunidade, examinou lista de candidatos potenciais ao posto de Deputado Estadual por Leopoldina, no próximo pleito de 3 de outubro. Como sempre, aquele atento jornalista foi ao ponto. Leopoldina tem que trabalhar para tentar resgatar sua representação na Assembléia Legislativa de Minas e, queira Deus, se possível, na Câmara dos Deputados.

Os nomes lembrados por Otávio - Zé Roberto, Bené Guedes, Emanuel, Ivan e Iolanda - integram segmento importante da representação leopoldinense, mas aos indicados pode-se acrescentar, ainda, políticos como do ex-deputado Sérgio Naya, cujo impedimento por cassação se expira no próximo dia 15 de abril.

Naya, segundo o Correio Brasiliense de 29/01/2006, pretende retomar sua carreira política e preside, hoje, o PSC de Laranjal. Candidata-se, portanto, ao que quiser na hora que quiser.
Com direitos políticos cassados por 8 anos, em verdadeiro linchamento político promovido pela grande imprensa na esteira do acidente com o Palace II, Barra, Rio, seguido de alguns equívocos lamentáveis, Naya vem de ser absolvido, pela unanimidade dos desembargadores que compõem a 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, do crime de responsabilidade naquele desabamento. Tem até 5 de junho para decidir e legitimidade absoluta para retomar sua carreira política, com a credencial de Deputado Federal mais votado em Minas nas eleições de 1990.

O importante é que o trabalho do Luiz Otávio põe a gente pra pensar que os leopoldinenses devem acordar logo para a triste realidade política que vivemos. Temos que nos unir em torno de UM NOME e arrancar Leopoldina da vigente ORFANDADE POLÍTICA. Vamos esquecer essa “bobajada” de partidos, essas siglas inexpressivas que, neste Brasil partidariamente desverticalizado, nada representam.

Vamos escolher DOIS NOMES e fecharmos com eles. Não interessa se um ou outro é mais simpático a mim. Interessa é apoiar um leopoldinense com condição de vitória. Se for o caso, que se acrescente à lista do Luiz outros nomes. Temos aí, também, o Márcio Freire, a Dra. Beatriz, o Roberto Freire, o Marcinho Pimentel, o José Newton Oliveira, o Dr. Iano, o André Fernandes... Gente boa, e em condições, é o que não falta. Falta Leopoldina usar o “desconfiômetro” e caminhar unida nesta hora em que UNIR FORÇAS revela-se mais inteligente.

Leopoldina não tem COLÉGIO ELEITORAL tão grande que, sozinha, possa competir com outras cidades para a Assembléia Legislativa e para a Câmara Federal. Vamos perder, sempre! Não podemos ter dois “exércitos” e dois uniformes. Vamos lutar juntos, gente. União agora!

Se tivéssemos nesta cidade um CORONEL, como nos velhos tempos, ele mandaria um ultimato a cada presidente de partido: “A ordem é apoiarmos o Fulano. A cidade precisa!”.
Pois bem, não estamos mais no tempo dos Coronéis. Vivemos um tempo de liberdade, de livre arbítrio, de democracia. Que isto não sirva para agirmos desorganizadamente, como paspalhos, como burros. Vamos pensar realisticamente! Sugiro que os presidentes de partidos promovam uma reunião entre eles, EM NOME DOS SUPERIORES INTERESSES DE LEOPOLDINA e, após avaliações, entendimentos e até os acertos que caibam, decidam:
- Leopoldina fecha com Fulano para Deputado Estadual e com Beltrano para Deputado Federal.

Vamos lá? Tenho certeza que feitos os entendimentos nada irá faltar. Nem financiamento nem entusiasmo. Se a classe política FECHAR PELA CIDADE, o comércio e a inteligência leopoldinenses também fecham e, todos, “chegamos juntos”!

Tudo o que fomos no passado, tudo que temos, tudo aquilo de que nos orgulhamos hoje, é fruto de um tempo em que Leopoldina foi politicamente forte. Hoje, a divisão nos enfraquece. E há um provérbio bem interiorano que diz: “Catitu fora da manada é papá de onça”.
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(Publicada no LEOPOLDINENSE de fevereiro de 2006)

sábado, 14 de agosto de 2010

Salve o Dia 27 de Abril

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Abril, 2006

Leopoldina comemora neste 27 de abril de 2006 seus 152 anos!
No 152º natalício da cidade, ocorre-nos relembrar a história - já algumas vezes contada - desta terrinha querida, nascida São Sebastião do Feijão Cru, arraial fundado à beira de um caminho quando Minas procurava o mar.

Tudo começou no mato bravo, na saga heróica dos primeiros desbravadores destes “Sertões do Leste”, nas trilhas pisadas que o homem livre abriu nas serras, nos rastros que imprimiu nos charcos, no sangue que deixou na terra, na esperança que hauriu no vento, elos despegados que se vão juntando na procura obstinada de pesquisadores do porte de, Nilza Cantoni (Documentos e arquivos virtuais), Oíliam José (Marliére o Civilizador, Visconde do Rio Branco, Notas para sua História, Historiografia Mineira, A Abolição em Minas, Indígenas de Minas Gerais, Tiradentes e inúmeros outros trabalhos), Barroso Júnior (História de Leopoldina), Mauro de Almeida Pereira (Os Almeidas, os Britos e os Netos de Leopoldina), Francisco de Paula Ferreira de Rezende (Minhas Recordações), Frederico de Barros Brotero (Família Monteiro de Barros), José Luiz M. Rodrigues (Machado Rodrigues - Fazenda Puris, Leopoldina), e tantos outros.

A presença de homens livres nos sertões da zona proibida (Zona da Mata Mineira), tem início oficial em 14/01/1784, quando o Comandante do 1º Regimento do Rio das Mortes, Cel. Manoel Rodrigues da Costa, escreve ao Governador da Província, Cunha Meneses, sugerindo diligências para explorar os “Sertões do Leste”. Autorização dada, Manoel Rodrigues da Costa volta a escrever a Cunha Meneses comunicando ter incorporado à tropa o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o “Tiradentes”, no dia 21 de abril (!!!) daquele ano. Um mês depois, o comandante da expedição, Sargento Mor, Pedro Afonso Galvão de São Martinho, informa já ter alcançado o Pomba. Só a 5/6/1784, Galvão chega ao Porto do Cunha, confluência do Riacho Aventureiro com o Rio Paraíba.

A “Mata” desvirginada, avançam sobre ela posseiros e sesmeiros (ganhadores de Sesmarias), obrigando, impiedosamente, nossos “primeiros habitantes”, os índios Coroados, Coropós e Puris, a ceder-lhes espaço.

Em 1791, quando a Freguesia de N. Srª. da Borda do Campo é guindada a Vila com denominação de Barbacena, a região selvática do atual município de Leopoldina estava incluída naquele Termo. Depois, “em data não comprovada”, como atesta Nilza Cantoni, o povoado do Feijão Cru, passou à circunscrição da Vila de São Manoel do Pomba, hoje Rio Pomba (Seguramente, após 13/10/1831 data do Decreto Regencial que elevou o Pomba à categoria de Vila). No dia 10/9/1851, quando a Lei Provincial nº514 promoveu o Arraial do Cágado a Vila de Mar de Espanha, incluiu nela o nosso Distrito.

Unidos a Mar de Espanha ficaríamos menos de três anos, exatamente porque, a 27 de abril de 1854, pela Lei Provincial nº666, fomos nós, São Sebastião do Feijão Cru, que nos tornamos Vila, com denominação de Leopoldina, passando a Cidade, sete anos depois (16/10/1861), na Lei Provincial nº1116.

O povoamento do lugar onde se desenvolveu a urbs leopoldinense começa, por volta de 1828, quando já estariam estabelecidos na região do Feijão Cru, da Serra dos Puris ou dos Monos, os irmãos, posseiros ou sesmeiros (titular de Sesmaria), Manoel José da Fonseca e Bernardo José da Fonseca. No local hoje conhecido como São Lourenço, Manoel teria fundado sua Fazenda das Moças. Bernardo José, fixou seus domínios em sede “aos pés da majestosa muralha granítica, contraforte ciclópico da Serra dos Puris”, i.é., sob a pedra do Cruzeiro, dando-lhe o nome de Fazenda da Grama, porque a várzea fronteiriça, cortada pelo riacho Feijão Cru, era gramada.

Mas outros pioneiros estavam a caminho. Francisco de Paula Ferreira Resende, registra que as primeiras famílias de Leopoldina, os Almeidas, os Britos e os Netos, aqui chegaram no dia 30/9/1829, vindos de Sta. Rita do Ibitipoca, Conceição e Bom Jardim, numa viagem (certamente por trilhas) que durou 30 dias, em comitiva chefiada pelo Comendador Manoel Antonio de Almeida, que adquiriu de um posseiro chamado Felipe, as terras do “Feijão Cru Pequeno”, que se estendiam do, hoje, Distrito de Tebas ao vertedouro do riacho, nas proximidades de Cataguases. O Comendador trouxe consigo muitos amigos, escravos e alguns parentes, dentre os quais o Tenente Joaquim Ferreira Brito. Consta que aos escravos deu alforria plena - 17 anos antes da “abolição” - doando, a onze deles, 25 alqueires das terras que possuía.

Ainda a genealogista e historiadora, Nilza Cantoni, nossa fonte mais recorrida neste trabalho, ressalva que as datas de chegada desses fundadores nem sempre são exatas, pela precariedade dos registros. No caso acima, por exemplo, Nilza tem evidências de que Manoel Antonio de Almeida, nascido aos 19/8/1782 em Sta. Rita do Ibitipoca, patriarca dos Almeidas de Leopoldina, por aqui já andara no ano de 1825.
Em 1831, a construção de uma Capela daria fôlego ao povoado que se insinuava às margens do Riacho Feijão Cru, pelas bandas do Rosário.

Joaquim Ferreira Brito, senhor da Fazenda Cachoeira, localizada “na saída para a Meia Pataca”, vindo de Sta. Rita do Ibitipoca na comitiva do Comendador Almeida, como dito acima, decidiu erguer, naquele ano, uma igrejinha sobre o morro, depois chamado “da Matriz”. O terreno, contido na Fazenda Desengano, foi doado, em 30/1/1831, por seu genro, Francisco Pinheiro Corrêa de Lacerda, entusiasta do projeto. Construção rústica, com paredes de pau-a-pique e bicas de hastes de palmito no telhado, foi edificada pelo carapina, Benedito, “crioulo do Turvo” – como consta, profissional habilidoso, que já havia construído para Bernardo, na Fazenda da Grama, um moinho movido a água, represada do Feijão Cru.

Francisco pensou dedicar a Capela ao culto de Santa Rita, padroeira de Ibitipoca, mas prevaleceu sugestão de Bernardo José da Fonseca em favor de São Sebastião, protetor contra a peste, porque o cólera já havia matado um escravo de Antonio Gomes Rodrigues, da Fazenda Córrego do Bagre, e uns índios Puris, para o lado da Meia Pataca.

A Capela demandou padre e, curiosamente, o primeiro sacerdote a chegar por aqui, Manoel Antonio Brandão, também influiu no nascimento do vilarejo. Natural do Sumidouro de Mariana, Padre Manoel, para cá se deslocou por interferência do Dr. Antonio José Monteiro de Barros e de sua mulher, Da. Ana Helena, donos da Fazenda Paraíso..

Numa visita à Fª Cachoeira, Pe. Manoel convenceu o abastado sesmeiro, Joaquim Ferreira Brito, a doar ao Padroeiro, para as primeiras casas do lugarejo (Largo do Rosário), “todo o vale ao pé da Capela de São Sebastião”. Joaquim, que já fizera uma primeira doação em 1/6/1831, atendeu ao pedido do simpático e persuasivo religioso com nova doação aos 30/11/1831, cedendo ainda um “trato de terra” para o cura edificar sua própria casa. O “Escrivão” que lavrou o ato foi o mesmo Antonio Gomes Rodrigues, acima referido.

Ao construir a “Matriz” de São Sebastião, pode-se dizer que Joaquim Ferreira Brito tornou-se o FUNDADOR de Leopoldina. Também, a partir das doações de terras por ele feitas, no Rosário, pôde a Vila florescer num “aglomerado irregular de edificações rústicas, quando a Província de Minas Gerais era presidida por Manoel Inácio de Melo Souza, o Barão do Pontal” – segundo anotações de Barroso Júnior.

Depois dos pioneiros ilustres, viriam pessoas ilustres. Antonio José Monteiro de Barros, proprietário da Fazenda Paraíso, oriundo de Congonhas do Campo, descendente do Barão de Paraopeba, aristocrata de colenda estirpe, sobrinho de um Senador do Império, advogado que em 1832 já fora Ouvidor Geral de Ouro Preto, trabalhou muito pela edição da Lei Provincial nº666, de 27 de abril de 1854, que elevou-nos a Freguesia e, ao mesmo tempo, a Vila. Teria sido ele nosso primeiríssimo VEREADOR, representando o então Distrito na Câmara da Vila de São Manoel do Pomba. (Nilza Cantoni, parece, ainda não encontrou tais registros, no Pomba) Elegeu-se, depois, por várias legislaturas, deputado à Assembléia de Minas.
Aliás, quando pela primeira vez Antonio José se elegeu Deputado, seu Suplente na Câmara Municipal quase leva o Arraial do Feijão Cru à guerra civil.

Conta-nos Barroso Júnior que, em 1842, o capitão João Gualberto Ferreira Brito (o Suplente), filho destemido do nosso fundador Joaquim Ferreira Brito, liderava os Conservadores locais. Eclodida a Revolução Liberal entrou ele a aliciar voluntários para combater os Liberais, acantonados em São João del Rei. Fardou filhos, genros, agregados e, “à frente de 600 homens concentrados e instruídos na sua Fazenda Fortaleza”, marchou para o Paraibuna à cata dos insurretos entrincheirados em Sta. Luzia, sob comando do Barão de Cocais. Por sorte, não houve luta. Ainda sobre a ponte do Paraibuna veio notícia da rendição do inimigo ao Barão de Caxias.

É um episódio curioso da nossa história, mas Barroso Júnior pode ter-se equivocado nos números. Nilza Cantoni, com um velho “Mapa de Habitantes” à mão, demonstra que seria aritmeticamente impossível recrutar 600 homens, em idade de combate, naquele São Sebastião do Feijão Cru do ano de 1842. Talvez fossem 60 ... Aliás, quem quiser saber tudo (ou quase tudo) sobre a história de Leopoldina não deve deixar de ler os livros acima indicados, do Prof. Oíliam José, fazendo também uma visita obrigatória ao site da historiadora Nilza Cantoni, nossa principal referência, a quem agradecemos pela maior parte das informações históricas contidas neste texto.
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de Abril de 2006)
Nota: Esta crônica aproveita, em sua quase totalidade, texto de “Quando Nasceu Leopoldina”, de abril de 2002, obviamente também escrito, sobretudo, com apoio nos estudos de Nilza Cantoni.

Seja Burro, Otto

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Março, 2005


Tenho quase certeza de que li isto no próprio Nelson Rodrigues. Certa feita teria ele, Nelson, comparecido a um sarau de granfinas levando consigo o amigo Otto Lara Resende. Nelson participava de uma mesa redonda na TV onde o assunto era futebol, falava do seu Fluminense, dizia coisas engraçadas, repetia bordões. Tornou-se personagem muito popular, teatrólogo, jornalista, articulista, largamente conhecido e festejado. Numa festa como aquela virava centro das atenções, ficava inteiramente à vontade.

Já para o Otto a coisa complicava um pouco. Embora comunicativo e simpático, era membro da Academia Brasileira de Letras, homem de cultura, escrevia crônicas de qualidade nos jornais, estava mais para intelectual do que para o jornalista. As pessoas talvez temessem não poder sustentar um papo como o Otto. Ficavam arredias. Principalmente os homens. Nelson, sentindo-o gauche no ambiente, fustigava: - “Seja burro, Otto! Tem paciência, seja burro!...”

A leitura desta frase, há uns 30 anos, tem mantido eriçadas minhas antenas para o constrangimento em que se veem pessoas portadoras de alguma luz, tendo que apagá-la para não “conspurcar” o ambiente.  Ou, como estaria na moda dizer, para agirem dentro do “socialmente correto.” No discurso político há fartura de casos. Mas há um exemplo bem mais acessível, todos os domingos, no comportamento do apresentador, Faustão, da TV Globo.

Quem tem o dom de perceber nas entrelinhas sente que Fausto Silva não é bobo. Sujeito inteligente, boa cultura geral, informadíssimo dos fatos da mídia, domina com folga o vernáculo e tem vocabulário rico. Mas passa o tempo todo fingindo que “nem tanto”, nivelando-se por baixo, como a melhor forma de sustentar nível adequado a seu programa popular de variedades. 

Não faz muito tempo, andou perdendo IBOPE para o Silvio Santos. Alguém deve tê-lo alertado:  – Seja um pouco mais burro, Faustão!...  Parece ter encontrado a medida. Quando é obrigado a dizer alguma palavra ou frase mais apurada ele baixa a voz, sorri meio matreiro, afasta o microfone ou vira-se de lado, como se não fosse “culpa dele”.

O próprio Silvio Santos, ali citado, demonstra conhecer esse “caminho das pedras”, de identificação com o público. Só que, no caso do Sílvio, dizem as más línguas que ele não precisa fingir tanto...

Agora que vocês estão avisados, comecem a observar a enxurrada de exemplos, entre artistas e políticos, dessa busca desesperada de identificação com o povão. Entrevistas são um maná. O entrevistado, quando é dos bons, contorna, gagueja, faz de tudo para não parecer afetado, ou seja, inteligente.

O Conde Afonso Celso – dizem − costumava frequentar a Confeitaria Colombo levando sob o braço um tomo alentado, escrito em alemão, e caçoava com os amigos dizendo que “aquilo” era apenas para impressionar as pessoas (“Conheço o meu povo”)... Ele, hoje, não estaria com nada.

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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de março de 2005)  

Tomando Algumas

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-Olha, duma coisa eu não abro mão, cara. Pra mim, é uma questã de absoluto: cerveja tem que ser antártica. O resto é xixi de pombo.

-Rá, rá, rá! Táis com nada, gente boa. Duas coisas os americanos ainda não inventaram: é avicultura com bexiga e cerveja melhor que a brama. Ainda vale o velho ditado: ela tem “o melhor lupo, o melhor esmalte e o melhor fermento”.


-Velho o ditado é. Do tempo em que o Pagodinho só mamava mingau de maizena. Eu prefiro a antártica. Tem o buquê que faz ela descer redonda, entende.


-Que isso, ô meu? Buquê é frescura de bacano entendido de vinho. Esse negócio de descer redondo, que eles falam, é da skol. Não troca as bolas.


-Tô nem aí pra essas palhaçadas da publicidade. Tudo lavagem cerebral que, aliás, é crime de tapeação enganosa no código do consumidor. Se quer saber, a coca-cola, que é dona da skol, gasta uma nota preta em propaganda.


-Troca as bolas não, malandro. A kaizer é que é da coca-cola. Lembra que tinha até um baixinho no mictório? Sumiu, né. Matar ele, acho que não mataram, porque não deu no Linha Direta! Hilário o sujeitinho! Onde já se viu propaganda de cerveja focada no mijo do produto! Ô loco! Tinha que mostrar a loura da ampola é sendo degustada numa praia, com aquela pá de mulher azarando. Mictório? Tem dó.


- Esse pessoal da ambev é burro.


-Mas quem te falou que a kaizer é da ambev? Brama e antártica é que são da ambev, ô Mané! E parece que desapropriaram também aquela kronembergue, aí de fora. Falam que ela entrou no Brasil na onda deles venderem nosso guaraná pros gringos. Só mesmo brasileiro! Achar que gringo vai beber guaraná naquele clima deles, de zero grau centímetro...


-Tão certos de não beber, sabia? Cê já leu, no rótulo do guaraná, a proporção da fruta do rio amazonas que entra? Apenas 0,013%, cara pálida! Só pra dar nome. O resto é química. Teu fígado que se vire. Dá pra sacar o que é 0,013%? É treze vezes menor do que um vigésimo, ô meu! Só quem não bebe tem essa noção.


-Num bebe água, né?


Quer saber? Tanto na América como nos países tropicais da Europa, o povo se amarra mais no sabor “cola”. Pra eles, se tem gosto de fruta é fanta! Fanta isto, fanta aquilo... Manjas um pé de fanta? Bom, vai ver existe.

-O Brasil não faz refrigerante “cola”. Eles não deixam. Tem direito autoral registrado na polícia, no cartório do registro de imóveis, os cambau. Não tem pra sapo, bagulho deles eles defendem.


-Pô, corta essa de refrigerante. Me dá gastura na boca do estômago. Outra cerveja legal era a boemia, feita na serra de Petrópolis. Lembra dela?


-Lembro. Boa pra caraca! O Nelson Gonçalves fazia a propaganda dela.


-Sabe por que era boa? Cerveja depende muito da água do local onde ela é destilada. Tem que ser água de mina ou de cachoeira...


-Veja essa tal de skin dos paulistas. Num dá, né. De onde será que eles pegam a água?


-Xi, nem fala, cara! Rolou até uma bronca com os donos da fábrica só porque não pagaram o IPTU do produto.


-IPTU de cerveja? Parece que bebe, malandro! IPTU é imposto de automóvel.


-Tá certo, eu é que bebo...

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