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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Trajeto do Tintureiro

(Publicada em 18.02.2010
http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)



Nesta quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010, o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda cumpre seu oitavo dia de prisão preventiva na superintendência da Polícia Federal em Brasília. Não espera sair imediatamente da cadeia porque somente na próxima semana o STF (Supremo Tribunal Federal) deverá apreciar o mérito do pedido de habeas corpus protocolado por seus advogados.

É incomum ver corrupto, ou ladrão público preso neste país. Ver um governador preso é simplesmente inédito. Por isto, mais que repisado, este é o tema da nossa conversinha de hoje. Mesmo tendo eu quase nada a acrescentar.

É verdade. Quase “nada a declarar” - Armando Falcão, que Deus o tenha! - depois que o articulista Ruy Fabiano disse tudo o que cabia dizer sobre o caso Arruda em seu artigo, “Mensalão: regra, não exceção”, do último dia 13, no Blog do Noblat.

A conclusão de Fabiano, com a qual infelizmente temos que concordar, é que esta prisão de Arruda, “em que pese sua força emblemática, está longe de sanear o ambiente político brasileiro”. Talvez funcione mais como uma “recomendação de que é preciso sofisticar os procedimentos – não necessariamente despoluí-los”.

Autoriza este raciocínio o “silêncio com que tem sido brindado pela classe política – local e nacional, a primeira prisão de um governador no exercício do mandato, em toda a história deste país”.Observa o jornalista que se devotaram todos “ao silêncio obsequioso”.

Para o presidente Lula, toda a documentação exibida na TV, através de DVDs, resulta em sons e imagens que “não falam por si”. Da Presidência da República foi originário também o “empenho junto à Polícia Federal para que a prisão não expusesse o governador a mais vexames”. Sintomas de que o mundo político compreende e não condena Arruda.

Explica o articulista: “Arruda está sendo condenado por práticas que não inventou e sobre as quais está longe de exercer monopólio. Ao contrário, constituem um padrão na política brasileira”. Oposição e governo não ignoram isto, pelo que tem o governador a seu prol, além do empenho de bons advogados, a compreensão abonadora de seus pares até onde puder influir o prestígio dessa gente prestigiosa.

Sem esquecer que Arruda não foi preso por causa do inquérito de corrupção, mas pelo flagrante de suborno a testemunha, configurando crime contra a administração da justiça ao que se lê dos consideranda, no julgamento do Ministro Marco Aurélio. Crime gravíssimo e bem antigo!

O falso testemunho já era severamente condenado na Roma antiga. Desde o ano 452 a.C. a Lei das Doze Taboas reservava aos réus desse tipo de crime condenação à morte por lançamento no despenhadeiro da Tarpéia.

O certo é que, na queda de braço pela ratificação desta primeira quebra de impunidade significativa da vida nacional, seguirá a OAB, o Ministério Público e os Tribunais Superiores. Que ninguém conte com desfecho amplamente auspicioso. Certamente não será ainda desta vez que as múltiplas pragas do Deuteronômio se abaterão sobre a cabeça de um político infrator.

Com nada a ver, mas muito curiosamente, no “Jornal Nacional” de ontem, 17, o Ministro Marco Aurélio, homem de trânsito confortabilíssimo pelo Direito e pelo vernáculo, ao referir-se ao réu usou o vocábulo “paciente”... Não se veja aí, claro, nada mais que um gesto da proverbial nobreza de S. Excelência.

O importante é que algo de muito novo acaba de acontecer, no que volto a incomodar Ruy Fabiano: “Arruda deixou o Palácio de Águas Claras e foi para o cárcere da Polícia Federal. Não se sabe o que lhe ocorrerá, no futuro, no Judiciário. Não importa. O simples peso emblemático desse deslocamento – palácio/cadeia...”

É exatamente o que conta, é este o dado cultural relevante. Exemplos são sempre mais efetivos que normas. Estamos em pleno Brasil e um camburão – no título deste artigo preferimos o sinônimo “Tintureiro” em atenção ao pedido presidencial de atenuar vexames ao preso - conduzindo um Governador, saiu diretamente do Palácio do Governo para uma prisão.

Trajeto importantíssimo! Pode ser o Caminho de Santiago da nossa salvação. Alguém tem um mapa das ruas percorridas?

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sábado, 13 de fevereiro de 2010

Carnaval, desengano!

***

Fevereiro, 2010

– Teixeira, amigo velho, cumé que vai? Te vi binado aqui no meu “cell phone”, tô retornando. Quê que cê manda, cumpade?
– .........
– Não, Teixeira, é brincadeira, não costumo chamar celular de “cell phone”. É que acabei de ouvir o Bono Vox dizer isto e resolvi imitá-lo. O Bono não é uma pessoa admirável? Um astro, um “performer” planetário do público jovem, que assume publicamente sua espiritualidade de berço. Um homem bom, portanto um homem raro. A conotação publicitária importa menos.
– .........
– Olha, Teixeira, sua companhia nos é sempre muito grata. Etelcira e eu adoramos estar com você e Ormenzinda. Mas desta vez não vai dar. Este ano estamos fugindo do carnaval na praia. Se você quiser, a casa está lá à sua disposição. O governo do Espírito Santo agradece. Nós vamos para Aruba, imagine! Etelcira ganhou passagens aéreas de brinde, comprando verduras, bijuterias e legumes no cartão de crédito.
– .........
Sem falar que Carnaval, hoje em dia, virou programa de doido, não é Teixeira. Gritaria infernal, música baiana aos dercibeisbotões, bateção de caixa, lixo, latas, cacos de garrafa na rua, rapaziada fazendo xixi nas muretas dos jardins, fedentina. A coisa tem piorado muito, companheiro!
–  .........
Não, isto de sexo-a-termo em via pública eu nem ligo. Nunca me incomodei com cães cruzando na rua, nada contra a moçada fazer cover dos bichinhos. O que me incomoda é a falta de educação desses jovens criados em anomia absoluta, avessos a valores, a regras de conduta. Essa coisa terrível, poderosa, que é a falta de educação dos nossos moços! Principalmente jovens do sexo masculino. Da minha varanda eu observo. As mocinhas estão, sim, totalmente liberadas, mas não perderam condição humana. Elas ainda guardam compostura de gente. Já os rapazes, não. A publicidade que manda beber cerveja para alcançar o sucesso está acabando com eles. Viraram bichos: xixi onde dá vontade, despudor, insolência, palavrões, uivos... A impressão é que a espécie humana, machos à frente, iniciou processo de involução ao neolítico.
– .........
Não, não tem mais. Carnaval de clube acabou. Há alguns anos, o Guia Quatro Rodas citou nosso balneário como sede de um ótimo carnaval. Pra quê! Encheu aquilo lá de gente, o clube não teve espaço pra todos, houve quebra-quebra, arrebentaram os vitrais, as portas, as janelas. O que sobrou do prédio está abandonado. Hoje a rapaziada brinca carnaval numa pracinha sinistra onde vale tudo. Na manhã seguinte é aquele chiqueiro. Alguns amanhecem dormindo na lama sapateada de cerveja, urina e sabe-se lá do que mais.
– .........
– É, não demora vai ser o mês de fevereiro inteirinho. Do barulho a gente nem devia reclamar, não é Teixeira. Fomos jovens e também já gostamos disto. Felizmente, no meu bairro o “entrudo” fica distante, uma rua abaixo. Cerrando as janelas e puxando a cortina dá até pra conversar dentro de casa.
– .........
Sei lá o que é entrudo, Teixeira! Parece que foi o primeiro nome que deram ao carnaval. Como é uma palavra esquisita, de acepção obscura, fica disponível para catarses. 
– ......... 
Eu vi no Jornal da Globo. Há uma ideia de ressuscitar as marchinhas carnavalescas. Seria uma boa, não é Teixeira? Além de menos primitivas nas letras, em comparação com o que se ouve por aí, eram um veículo poderoso de crítica social. Já pensou essas figuraças da senatoria pátria estigmatizadas para o resto da vida numa marchinha carnavalesca, daquelas antigas?

As marchinhas poderiam prestar um bom serviço à democracia brasileira. Seria o carnaval fazendo justiça onde os tribunais vacilam.

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(Publicada em 11.02.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

Ele, Nascido em Piacatuba #

***
Fevereiro, 2010

Há dias, prometi falar aqui do lugar onde nasci. Alguns leitores podem ter pensado: e nós com isto?

Tranqüilidade total. Nada de culto à minha despicienda personalidade nem promoção de algum sítio turístico das minas gerais. O que me veio à mente foi uma lembrança divertida, rivalidade boba das gentes do meu interior mineiro.

Rivalidade entre cidades, aliás, não é coisa só do interior. São incontáveis as brincadeiras da concorrência entre Rio e São Paulo, e a rivalidade entre a cidade do Porto e Lisboa já rendeu até livro em Portugal. A sempre airosa Lisboa tem uma existência para conformar-se com a realidade assaz desconfortável de que "Porto de Cale" está na raiz de "Portugal".

Em Minas, Juiz de Fora já rivalizou com Belo Horizonte. Agora é briga superada porque Belo Horizonte cresceu demais. Da disputa antiga não ficaram mais que algumas piadinhas raras sobre um pretenso esnobismo do juiz-forense, de “julgar-se” carioca... “Vende-se apartamento, em Juiz de Fora, com vista para o mar...”

Ainda em Minas existe outra pendenga não de todo superada entre Uberaba e Uberlândia. Uberlândia, no passado, foi distrito de Uberaba – com o nome de “Uberabinha”. Hoje é muito maior e mais próspera que a “antiga sede do município”. Não dá mais para reverter.

Casos há em que o vezo de fazer piadas com vizinhos dispensa “rivalidade”, propriamente dita. Seria o caso de Rio de Janeiro e Niterói. O carioca adora brincar com Niterói, quando uma “queda de braço” entre as duas cidades seria um despropósito.

Guardadas as distâncias, ocorre o mesmo em minha terra. Leopoldina, MG, é sede de município, sede de comarca e de bispado. Tem uns 60 mil habitantes. Ocultam-se nas brumas do passado, entretanto, a mania que os leopoldinenses têm de implicar com um pequenino arraial, de seu distrito, chamado Piacatuba.

Piacatuba é antiqüíssimo, talvez não tenha mil habitantes, mas possui casarões que remontam ao segundo reinado e uma histórica igreja. Existe lá a lenda da “Cruz Queimada”. Um fazendeiro impiedoso, no passado, insurgindo-se contra o soerguimento de uma cruz na pracinha da localidade, por fazer parte de sua fazenda, amontoou sobre ela vários carros de lenha sequinha, ateado fogo para queimar a cruz e... Milagre! A lenha virou cinza em três dias de labaredas e a cruz sobreviveu apenas escurecida pela fumaça... Não ardeu. Lá está ela, ainda hoje, absolutamente íntegra para emoção dos romeiros.

Pois bem, os leopoldinenses não cansam de fazer piadas com Piacatuba e com quem nasce em Piacatuba. Negam que o progresso tenha chegado lá, insistem em que os piacatubenses sejam refratários à cultura, caipiras e simplórios.

Se num jogo de futebol alguém dá um chutão pro alto, certamente um gaiato na torcida gritará:
-Êh Piacatuba!
Se na tela do cinema aparece um tipo esquisito, alguém reagirá na platéia:
-Piacatuba!

Dito isto, passo a falar de mim. Nasci numa fazenda próxima a Piacatuba. Registraram-me lá. Fui, entretanto, criado em Leopoldina. O diabo é que em minha certidão de nascimento está escrito – Maktub! – nascido em Piacatuba.

Sintam o drama. Com 19 anos fui para o Rio de Janeiro, estudar e trabalhar. Aos 27 dei um pulinho de volta a Minas para casar-me com a namorada dos tempos do secundário. Casamento na casa do sogro, festança, dezenas de amigos, familiares, colegas, penetras, uma sala enorme entupida de gente. O escrivão começa a leitura formal de “minha união”: “Querem casar-se, etc., fulano, fulana.... Ele, nascido em Piacatuba...”

Ah, minha gente, pra quê! A sala quase veio abaixo às gargalhadas. Cena de um surrealismo impressionante. As pessoas riam de segurar a barriga. Tudo porque “ele”, ou seja, eu, era “nascido em Piacatuba.”

Lembro-me de uma tia da noiva, vinda de São Paulo, exclamar: - Gente, que coisa mais engraçada! De que riem tanto?
Noivo, noiva, padrinhos, escrivão, até o papagaio da casa ria junto... “Ele, nascido em Piacatuba!”
A rapaziada do meu tempo não era mole. Ainda hoje não dá para escrever sem rir.

Anos depois viria outra anedota. Residindo no Rio de Janeiro, desejei levar para casa um “queijo minas”, muito bom, que faziam em Piacatuba. Entrei numa padaria de Leopoldina e brinquei com a balconista:
-Por favor, embrulhe pra mim aquele queijo ali, “fabricado na minha terra”. E, com o dedo no vidro, apontei o queijo de Piacatuba.

Uma senhora ao lado, 40 anos presumíveis, segurando sua sacola de pão, olhou-me de alto a baixo, conferiu minha camisa, minha calça, meus sapatos e não se conteve:
-O senhor é de Piacatuba?
-Sim, nasci lá.
E ela, esbanjando simpatia:
-Mas o senhor deve estar fora de lá há muitos anos, não é?
Fiquei lisonjeadíssimo, claro.
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(Publicado em 04.02.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A Condenação de Jobson

Janeiro, 2010

(Publicada em 28.01.2010 em
http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)



No meu tempo de faculdade esteve em moda ler Pitigrilli. Não me lembro em qual de seus livros topei uma frase que guardaria: “Ver um ser humano julgando a outro, é espetáculo que me mataria de rir se não me causasse pena”.

Dizem os jornais que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) acaba de julgar o atleta Jobson, da equipe do Botafogo, nos termos do artigo 244 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, condenando-o a ficar 2 (dois) anos sem jogar futebol. Motivo, doping.

O passe do jovem atleta, que ainda pertence ao Brasiliense, clube onde foi revelado, seria adquirido pelo Cruzeiro de Belo Horizonte, por R$4 milhões de reais. Claro, o Cruzeiro desistiu da contratação.

Ou seja, numa penada exaustiva, de 3 votos contra 2, o STJD, praticamente liquidou com a carreira promissora de um pobre rapaz de 21 anos em razão de sua doença. Ele usa drogas.

Doença! A OMS (Organização Mundial de Saúde) reconhece a dependência química como uma doença de caráter progressivo, incurável. Pode, no entanto, ser controlada. Do mesmo modo, embora não com tanta facilidade, como se controla o diabetes, a alergia, a epilepsia, a pressão alta, etc.

Não são poucos os exemplos de atletas, do futebol e de outras modalidades esportivas que, diagnosticados em alguma doença não incapacitante, puderam seguir na profissão e no esporte. Registros de arritmia cardíaca, AIDS e até esquizofrenia já repercutiram publicamente sem incidência da apenação atroz que agora se pratica. De uso de drogas, também.

Compreende-se que a ingestão de substâncias químicas que melhoram o desempenho de atletas é doping, constituindo-se em prática intolerável por desvirtuar a ética desportiva. Há que ser fiscalizado e punido em nome da lisura nas competições.

Só que a prática abusiva do doping deve ser apurada com lucidez. Nem toda evidência química é prova de que o atleta se dopou para melhorar desempenho. O exame laboratorial atesta a evidência química. Se ela é conseqüência do ânimo de dopar-se é outra coisa a ser apurada.

Mesmo porque, no caso do jogador Jobson, a droga usada (crack) não melhora o desempenho atlético. Ao contrário, compromete-o seriamente ao interferir na capacidade pulmonar do atleta.

Espera-se que o ser humano encarregado de julgar possua discernimento para separar o atleta saudável que usa uma substância química “para melhorar seu desempenho”, do atleta adoecido cujo exame antidoping acusou evidências de uma doença. Não se sentencia com um carimbo. O juiz que assim procede faz tábula rasa de sua condição de pessoa humana com domínio do raciocínio abstrato e da instrospecção.

O tal artigo 244 do Código Brasileiro de Justiça desportiva acerta quando cuida de punir o doping. Falha, entretanto, quando estabelece penalização “de carimbo”, inafeiçoável a casos específicos em que alguma substância condenável entrou no organismo do atleta, não com ânimo de fraudar o esporte, mas pela circunstância de uma enfermidade.

Os números da condenação (3 contra 2) estão a demonstrar que o próprio tribunal que “puniu a doença de Jobson” não o fez pela unanimidade de seus membros.

E vejam o paradoxo: a pena prevista no citado artigo 244 é “Suspensão de 120 (cento e vinte) a 360 (trezentos e sessenta) dias e eliminação na reincidência”.
Ou seja, bem interpretada a letra desse infeliz dispositivo aplica a “suspensão” (pena menor), a quem não é doente. Isto é, em quem “consegue não reincidir”. Já o atleta doente, que dificilmente ficará na primeira transgressão, a este a lei reserva a “eliminação”...
Não vem ao caso sugerirmos aqui a pena que julgamos correta. Estabelecimento de um prazo para tratamento? Talvez. É uma tarefa desafiadora para os legisladores do esporte.

Dizemos, apenas, que liquidar a carreira de um menino pobre, de 21 anos, a quem Deus concedeu a chance rara da virtude atlética, apenas porque ele passa por uma doença que pode ser tratada e controlada, é atitude de uma estupidez crassa.


(28.01.2010)
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O niver do Galeno

***
Janeiro, 2010

Quando cheguei em casa na última sexta-feira o ambiente não era lá, digamos, promissor. Minha mulher estava com o penteado nos trinques e isto, às sextas, quase sempre significa obstáculo à minha bermuda surrada após o banho. 


Tem programa à minha espreita – pensei. E ruim, porque não existe programa bom para quem chega do trabalho na sexta à noite sonhando com uma ducha generosa e aquela esticada básica na rede pra interagir com as estrelas.



– Amor, você não adivinha quem ligou. A Bel. Hoje é aniversário do Galeno e eles estão nos convidando para um chopinho honoris causa. 



– Chopinho honoris causa! Claro que você agradeceu dizendo que não vamos porque eu estou com suspeita de dengue, não foi?



– Que isto, amor, não diga bobagem, eles são tão gentis, tão gente boa! Eu sei que você acha o papo do Galeno meio cansativo. Mas, afinal, ele é o marido da minha melhor amiga e trata você muito bem. A Bel, por sua vez, é um amor de criatura e só tem elogios para você. Grosseria não irmos. Por favor, rapidinho, tome seu banho e troque de roupa. São 7 horas, marcamos para a meia noite, na casa deles, na Barra da Tijuca.



– O quê! É hoje? Eu vou dirigir 200 km agora à noite, pegando esse trânsito maluco para o Rio de Janeiro? E ainda tolerar o papo do Galeno?



– Não dramatize tanto, amor, vamos dirigindo devagarzinho, com calma. 



– Bota devagarzinho nisto, não é querida! Já pensou o que vamos pegar de engarrafamento nesta sexta de feriadão, daqui de Minas até a Barra, no Rio?



– Não é tão cansativo assim, a gente dorme lá, descansa e volta amanhã ou depois.



– Virgem da Abadia! Dois dias de “colóquio unilateral” com o Galeno? O homem parece rádio, blá-blá-blá, só fala, não deixa ninguém falar, não consegue ouvir, é um surdo funcional! Não é por nada, não, Izilda, mas eu vou fazer uma oração:



– Meu São Judas Tadeu, sei que é difícil até para um santo milagroso como o senhor, mas faça alguma coisa por este seu devoto, ó santinho recluso e enfumaçado da gruta do Cosme Velho!



– Pare com bobagem, meu queridinho, vamos pensar positivamente. Pior será passarmos o fim de semana aqui nesta nossa Minas Gerais friorenta, sem opções de lazer, lendo jornais e revistas de domingo.



– O que me desespera são as perguntas dele, sabe Izilda, uma emendada na outra. E mais: toda afirmação que ele faz vem com desfecho interrogativo, a exigir “sim” ou “não”. É o platusardil (ardil de chato) que ele usa para escravizar as pessoas ao seu discurso. Não dá para fingir que se está ouvindo. O homem é um megachato. Dono da verdade, não dá descanso, não deixa “o inimigo” respirar. 



Você já observou que em todas as histórias o Galeno se dá bem no final? Nos casos dele, todo mundo entra de gaiato. Só ele triunfa. É o “mocinho” do filme. O mundo do Galeno só tem índio e bandido pra ele matar. E já vou eu, mais uma vez, fazer ponta num western spaghetti com meu Giuliano Gemma preferido... 



Já decidi. Eu vou, tá. Vou. Nunca soube dizer não a você. Só que desta vez, Izilda, eu gostaria de ver você sofrendo comigo. Por favor, não fuja pra conversar com a Bel. Participe comigo dos monólogos do Galeno. Ele vai falar sem trégua, lecionar, doutrinar, arguir, contar vantagem, elogiar-se, cortar sua frase ao meio toda vez que você abrir a boca, e, se você conseguir externar alguma ideia, ele vai olhar pro outro lado em sinal de desdém à sua opinião. Quero ver você firme como eu, politicamente correta o tempo todo, tá, só meneando positivamente a cabeça.

–-  Combinado?


Chegamos à Barra antes das onze da noite. Bel veio nos receber à porta, com o que ela alegava ser uma “má notícia”. Só não nos havia telefonado, desmarcando o encontro, porque desejavam demais nossa presença. 
– Galeno não abriria mão de comemorar o niver dele com vocês – disse. Mas imprevistos acontecem. Imaginem que de algumas horas para cá ele passou a estar febril e inteiramente afônico. Sente dor na garganta, coitado. Está falando como quem assopra. Ponham o carro pra dentro. Entrem.



Pois não é que acabou sendo, para nós, um bom fim de semana na praia. O problema laringológico do nosso anfitrião desaconselhava gelados, o que resultou em dois dias regados a scotch, do bom, no lugar de chope. Bel, simpaticíssima, como sempre. Galeno certamente mereceria comemoração natalícia menos silenciosa. Esteve o tempo todo ouvindo mais que falando, garganta irritada, febril, cachecol em torno do pescoço. “Infelizmente”, quando começou a articular melhor as palavras, no domingo, já estávamos de saída...

– Incrível, não é mesmo?


Para quem tem fé e confia em milagres, a Igreja de São Judas Tadeu, no Rio de Janeiro, fica na Rua Cosme Velho, ali, bem pertinho do Largo do Boticário. 
Recomendo.
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(Publ. a 21.01.2010,em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

No Metrô

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Janeiro, 2010


O que dois rapazes conversavam no banco à frente do meu, no metrô do Rio de Janeiro, estava interessante. Dobrei o jornal para ouvir. Sem dúvida voltavam de alguma prova do exame vestibular. 

– O professor do cursinho deu uma dentro quando mandou a gente se ligar nos babados das questões climáticas, hem! Tava na cara que ia cair. Ecologia continua o barato do momento. 

– Pois é, cara, durante todo o mês de dezembro os jornais deram na primeira página notícias sobre essa tal Conferência da ONU pra mudar o clima de Copenhague e dar uma abaixada geral no nível do mar. Fui vacilão não dando uma cubada no assunto. 

– Esse troço do gelo no mar, pra ser sincero, eu também não saquei legal. Num foi exatamente uma baita pedra de gelo no canal de Nuremberg que afundou o Titanic, provocando aquele tremendo sufoco, inclusive com o Leonardo DiCaprio e a Kate Winslet? Tudo a comprovar que o problema é antigo. Não é de agora. 

– Sei não, cara. Pode ser coisa da mídia. O filme foi chocante pra caraca. 

– A TV continua filmando queda de geleiras pra mostrar que o mar vai subir. Problema do caranguejo que vai ter que fuçar a lama mais pra cima. 

– Li que a conferência de Copenhague deu em nada, tá sabendo? 

– Algum dia você já viu alguma iniciativa política dar em tudo? O problema lá era enfiar a mão no bolso, meu caro. Ecologia mexe com grana: a que o país gasta ou a que deixa de ganhar. Em pleno Reino da Dinamarca nenhum país rico aceitou quebrar os ovos para fazer “hamlet”. Esta foi a questão. 

– Eu desconfio é que ninguém acredita em efeito estufa. Eu mesmo tenho um pé meio recuado com isto. O mundo acaba de ver neve e gelo tomarem conta da América do Norte e da Europa. Cadê o efeito estufa que derrete gelo? Até agora não apareceu. 

– Tá na cara que o mundo desenvolvido manobra essas ONGs marotas, de “bonecas” engajadas, para travar industrialização nos países que começaram a sair do sufoco. Não é a toa que o Lula disse que vai tirar neguinho da merda. Dizendo isto ele não prova que tira, mas prova saber onde o eleitor dele mora. 

– Vai ver os computadores de última geração dos americanos já estão fornecendo dia e hora em que eles não serão mais a primeira economia do mundo. 

– É ruim deles fecharem fábricas ou reduzirem produção por recomendação ecológica. Vão empurrar isto com a barriga. Parece que a próxima conferência “de Copenhague” será no México, né. 

– Vamos esperar que até que os jornais larguem de mão dessa mania de projetar tempo ruim no sudeste. Para mim, o noticiário têm uma grande parcela de responsabilidade pelo mau tempo e pelas catástrofes em nossa região. Eles falam de véspera o que vai ocorrer... Minha avó sempre disse da força das palavras. Se no instante em que alguma bobagem sai de nossa boca, lá em cima, os anjos estiverem dizendo “amém”... a desgraça acaba acontecendo. 

– Ah, ia me esquecendo de perguntar. Caiu na tua prova aquele lance da Águia de Haia? Eu cravei “ave mamífera em extinção”, e tu? 

– Ih, cara, acho que dançaste nesta. Lembro vagamente que Águia de Haia tem a ver com um baiano fodão, de cuca super cacetada. Só que nas cinco opções de escolha não aparecia o nome do João Ubaldo Ribeiro. Pode ter sido lápis deles – pensei comigo. Deixei em branco porque é o tipo da questã que eles devem anular.

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(Publicada em 14.01.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Déa Lustosa Junqueira Xavier

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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE, de 16.01.2009)
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Em trágico acidente automobilístico, faleceu a 26 de dezembro último, a artista plástica leopoldinense, Déa Lustosa Junqueira Xavier. O desastre ocorreu por volta das 16:30h, daquela sexta feira, numa curva da BR-116, próxima à divisa de Leopoldina com Além Paraíba.

Dos quatro ocupantes da pick up Chevrolet Blazer, dirigida por seu filho Rogério, que se chocou contra os pneus traseiros de uma carreta Mercedes Benz, somente escapou com vida, mas com alguns ferimentos, a irmã de Déa, Lenita Maria Junqueira Shultz. Lenita está em casa e passa bem. Viajava ao lado de Déa, no banco traseiro, atrás do chamado banco do carona.

A família se dirigia de Leopoldina a Santo Antonio do Aventureiro, para missa comemorativa das bodas de ouro de um casal amigo. Fotografias dos veículos e do local apontam como razão provável da colisão uma derrapagem da carreta, com o que teria invadido a pista de direção contrária.

Déa Lustosa era a segunda dos cinco filhos do ilustre leopoldinense, Dr. Joaquim Custódio Ribeiro Junqueira e Da. Laura Lustosa Junqueira. Os outros foram, Roberto, Evandro, Lenita e José Joaquim. Nasceu a 9 de maio de 1929 e casou-se em 27 de janeiro de 1952 com o advogado e administrador de empresas, Ruy Ferreira Xavier, natural de Recife (PE) o qual, juntamente com o filho de ambos, Rogério Junqueira Xavier, também faleceu no terrível acidente.

O casal sempre residiu no Rio de Janeiro, cidade onde Déa cursou o primário e o secundário no Colégio Assunção, no bairro de Santa Tereza. Passou a residir em Leopoldina após a aposentadoria de Ruy, há pouco mais de dois anos.

Pronta a assumir a direção do Orfanato de nossa cidade, a consagrada pintora ocupava a cadeira número três da ALLA – Academia Leopoldinense de Letras e Artes, entidade de cuja fundação participou. Conduzia também em nossa cidade um projeto denominado “Florir Leopoldina”, de sua concepção juntamente com a médica, Dra. Isabela Machado Barbosa David (filha do nosso conceituado médico, Dr. Ronald Alvim Barbosa), que teve início pela recuperação dos canteiros da Praça Gal. Ozório.

Pintora consagrada, Déa Lustosa realizou exposições na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, no Museu de Arte Moderna - MAM, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, dentre outras. Estudou artes com os professores, Carvão e Astréa Al Jaick.
Seu filho, Dr. André, nos conta que foi procurando vencer a depressão que Déa, há alguns anos, descobriu a pintura soltando as amarras de um talento promissor, até então imanifesto.

Déa e Ruy tiveram três filhos: Guilherme Junqueira Xavier, empresário, falecido há 14anos; Rogério Junqueira Xavier, empresário, que agora com eles faleceu; e André Junqueira Xavier, médico, residente em Florianópolis. Filhos estes que lhes deram oito netos e um bisneto. São eles, os netos: João Paulo, Danilo, Felipe e Vitor – filhos de Guilherme; Raquel e Karina – filhos de Rogério; Olívia e Catarina – filhas de André. Danilo é pai da bisneta Maria Eduarda.

O inesperado desaparecimento de Déa produz uma grande lacuna na cultura leopoldinense. Alegre, sonhadora, altruísta, ela se entregava com paixão às boas causas. A todos motivava pelo entusiasmo com que abraçava desafios, como ocorreu na fundação da Academia Leopoldinense de Letras - ALLA e, ultimamente, com a perspectiva de serviços importantes ao Orfanato, legado maior do Padre Júlio Fiorentini a Leopoldina.

Entre os membros da ALLA, sensação é de choque. De Brasília, o Dr. Antonio Márcio J. Lisboa, empossado na Academia no dia 18 de dezembro último, assim se manifestou: “Não estamos acreditando. Há dez dias tão alegres, recebendo-nos no dia de minha posse... Ela, o Rogério, que cuidei desde que nasceu! Que tragédia! Estamos chocados”.

O presidente da Academia, Dr. Ronald Alvim Barbosa, dedicou ao casal, Déa e Ruy, estes versos acrósticos:

“Déa e Ruy

Depois de um curto tempo e uma curta convivência
É a lógica de Deus, que não é a nossa,
A nos revelar uma amizade sincera e infinita.

E aparece a saudade, que ficará conosco.

Recebendo cartões com votos de paz e alegria,
Uma notícia nos deixa petrificado
Y – ficamos como a letra, sem sentido e desolado.”

Na quinta-feira, 18 de dezembro, quando Léa e Ruy reuniram amigos em sua casa para uma íntima e descontraída recepção ao novo membro da Academia Leopoldinense de Letras, Dr. Antonio Márcio J. Lisboa, a morte daquele casal tão pleno de vida e alegria, juntamente com o filho Rogério, era algo absolutamente impensável. Hoje, a realidade aterradora se impõe e nos remete ao filósofo alemão, Goethe, que disse: “A morte é de certa maneira uma impossibilidade, que de repente se torna realidade”.

Estivemos com Déa e Ruy na quinta, 18, quando nos receberam. Transbordavam alegria. É assustador o desaparecimento repentino de pessoas tão felizes com a vida.

16.01.2009
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