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sábado, 28 de novembro de 2009

Minha jujuba

***
Da física, a noção de magnetismo segundo a qual cargas de sinais iguais se repelem, às vezes tem aplicação no cotidiano da vida. Chatice anula chatice, loucura repele loucura, e assim por diante. No meu caso já exorcizei inconveniência meio doida com uma discreta dose de loucura pessoal. Conto direitinho como foi.

Minha mulher desejou fazer compras, com a irmã, no centro de Belo Horizonte onde estacionar um carro em dia útil é impensável. Combinamos então que eu “rodaria” pela Praça Sete e as deixaria lá. Na volta, tomariam um táxi.

Sol a pino, um calor de sucursal do inferno, fizemos o combinado. Deixei a patroa no centro da cidade entregue à tarefa feliz de bem aplicar nossos magros proventos no comércio da capital e voltava para casa na esperança vã de uma ducha fria, reconfortadora. Não imaginava que contratempos conspiravam à minha frente.

Na esquina de Av. Amazonas com Av. Contorno existe um aparatoso sinalizador de trânsito a que nós, brasileiros convencionais, principalmente mineiros e cariocas, chamamos de “sinal” e que os paulistas, goianos e outros, juram que é “semáforo”. Pois é, aquele sinal fechou para mim.

A propósito, alguém conhece aí a canção maravilhosa, do Paulinho da Viola, intitulada “Sinal Fechado”? Um primor, não é mesmo? Vocês já imaginaram se o título daquela inspiradíssima genialidade musical fosse “Semáforo Fechado”? O estrago na letra!

...“Por favor, telefone, eu preciso beber
Alguma coisa, rapidamente.
Pra semana
O semáforo ...
Eu espero você
Vai abrir...
O semáforo!
O semáforo!...”

Tem dó! Ainda bem que a divindade chamada Paulinho da Viola nasceu carioca.

Mas eu dizia que o sinal/semáforo da Amazonas com Contorno fechou à minha frente. Tive que parar o carro. Claro, o cidadão que vinha atrás de mim deveria fazer o mesmo. Só que não fez direito. Enfiou sua bicanca no meu pára-choque traseiro.

Certifiquei-me de que meu pescoço continuava íntegro e desci para ponderar o estrago. Nada que um novo pára-choque não resolvesse. Apertei a mão do desastrado e o tranqüilizei:

- Sem problema, amigo, vida que segue, não vamos colapsar o trânsito de BH. Vá à tua vida que eu vou à minha.

E já me dirigia ao cockpit do meu fórmula-1973 quando, sem que percebêssemos de onde, surgiu a figura grená de um guarda de trânsito:

- Por favor, documentos das “viaturas” e dos “efetivos condutores”!
Os meus – procurei-os quase em desespero! - não estavam nos meus bolsos nem no carro.

- Seu guarda, infelizmente, minha carteira deve ter ficado na bolsa da minha mulher a quem acabei de deixar lá na Praça Sete. Sei que é errado dirigir sem documentos, mas, infelizmente, é o que está me ocorrendo agora. Eles ficaram na bolsa da “efetiva proprietária” do veículo.

- Pelo Código Brasileiro de Trânsito, sou obrigado a realizar a apreensão da viatura – disse o policial.

- Sem problema, seu guarda. Não temos remédio. O senhor deve aplicar a lei. Aliás, para ser sincero, gosto tão pouco deste carro que talvez nem lhe pergunte pelo endereço do depósito do Detran.

O guarda, coitado, mal podia ouvir-me tamanho já se tornara o alarido de ônibus acelerando e do buzinaço de mineiros engarrafados sob a canícula, numa longa cauda em direção ao centro da cidade. Tentava ele um penoso contato com o caminhão guincho, via tijolo eletrônico, preto, do qual pendia uma cordinha trançada.
– Estás me ouvindo? Câmbio!...

Aproximei-me, solidário.

- Grande transtorno lhe causei, hem, amigo! Mil desculpas. Não sei onde ando com a cabeça! Imagine o senhor que até minha jujuba ficou na bolsa da mulher. Minha jujuba! Absurdo! Eu nunca esqueço minha jujuba! Só pode ser carência de fosfato na ideia...

Como eu já contava alguns fios de cabelos brancos – para ser sincero, quase todos – o digno policial há de ter pensado com seus botões:

“Um calorão desgraçado destes e eu perdendo tempo com esse velho maluco, comedor de jujuba!”.

Fui liberado. O trânsito na Amazonas voltou a fluir e centenas de mineiros da capital foram felizes para sempre.

Se eu realmente gostasse de jujuba talvez comprasse, antes de chegar a casa, um pacotinho bem colorido pra comemorar. Mas não. Tenho pé atrás com jujuba. Ninguém sabe do que é feito aquilo.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicado em 26.11.2009 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/ e no Jornal Leopoldinense)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O Embaraço da Fazendeira #

***
-Felizmente não é tumor, não, Da. Mariquita. A senhora está é grávida de três meses.

-Grávida, doutor! Que absurdo! Sou viúva há cinco anos, nunca arredo pé de minha fazenda, não tenho amante, não tenho namorado, vivo sozinha e Deus, cuidando dos meus bois, dos meus roçados... Como posso estar grávida?

-Isto eu não sei, Da. Mariquita. Sei é que seu exame deu positivo. Diga-me uma coisa, trabalham muitos homens em sua propriedade?

-Trabalham, claro, mas são operários rurícolas, pessoas muito simples, com as quais não me relaciono pessoalmente. Por favor, doutor, não será por aí.

-Perdão, Da. Mariquita, não quis ser inconveniente. Estamos diante de uma ocorrência que a senhora não entende e eu tento ajudá-la. Diz a senhora, então, que em sua casa não entram homens, certo?

-Não, não entram... Bom, exceto o Apyacá.

-Quem é o Apyacá?

-O Apyacá, doutor - o senhor nem imagina! - é um rapaz indígena que nem aculturado foi. Mentalmente limitado, foi agregado à fazenda pelo meu ex-marido para ajudar a cozinheira nas tarefas mais pesadas, que numa Casa Grande são muitas. Mas, veja, eu sou a patroa e ele, meu empregado. Por favor, o senhor não pode admitir o absurdo envolvimento meu com um infeliz serviçal como aquele.

-Claro que não, Da. Mariquita. Só me diga uma coisa: Onde mora o índio?

-Destinei um quarto a ele na própria sede da fazenda, doutor. Antes ele dormia no paiol de milho, mas com o falecimento de meu marido, senti-me mais segura trazendo-o para dentro da casa.

-Sim, entendo. O quarto dele, na Casa Grande, ficaria distante ou próximo ao quarto da senhora?
-Eu preferi colocá-lo num quarto mais próximo, sabe doutor, inclusive para facilitar a transmissão das minhas ordens a ele, dos meu pedidos, etc. Não temos interfone.

-Sim, sim. A senhora diria “muito próximo”?

-Bastante próximo. Na verdade, o quarto dele é parede-meia com o meu.

-Há uma porta, Da. Mariquita, entre os dois quartos?

-Claro que não, doutor. Que sentido faria uma porta, em meus aposentos, dando para dentro do quarto de um empregado!

-Calma, Da. Mariquita, desarmemos os espíritos. Há uma realidade diante de nós a reclamar compreensão. Se ainda uma vez me permite, essa parede que separa o seu dormitório, do dormitório do serviçal Apyacá, é uma parede íntegra, compacta?

-Eu não diria isto, doutor. A fazenda, como o senhor sabe, é muito antiga. A divisória que separa meu quarto do dele tem rachaduras, sim, frestas, algumas até bem dilatadas. Na verdade, só não mandei, ainda, arrumar aquilo por absoluta falta de tempo. Coisa simples, qualquer pedreiro tapa aqueles buraquinhos na hora.

-Entendo, entendo. E a cama em que a senhora dorme, fica encostada nessa parede rachada?

-Sim, fica bem colada à parede. Impossível outra arrumação. Do outro lado está o guarda-roupa, do outro a janela...

-Tudo bem. Sendo assim, Da. Mariquita, é correto concluir que, durante o sono, a senhora pode, eventualmente, encostar-se na parede onde existe a fenda, certo?

-É, eu não excluiria esta hipótese.

-Pois bem, então vamos pensar juntos.
Da. Mariquita, é consabido que gravidez não cai do céu. Ela, digamos, converge para a mulher a partir de um homem. Necessariamente a partir de um homem. Neste seu caso, diante de todos os fatos e condições que acabamos de checar, a senhora não admitiria a hipótese - pelo amor de Deus, não me leve a mal - de que uma possível convergência condutora, noturna, proveniente do silvícola Apyacá, possa ter-se insinuado em seu quarto através da fissura da parede?

Neste ponto Da. Mariquita balança negativamente a cabeça, pensa um pouco e zanga-se em voz baixa, quase que para si mesma:

-Ahhh, índio safado!
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publ. a 20.11.2009, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Falando de cadeira

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Novembro, 2009

Obama chamando Luiz Inácio de meu louro, Sarkozi no papel de francês simpático, Haiti entregue à nossa responsabilidade, destino político de Honduras nas mãos da diplomacia brasileira e, como se não bastasse, inimigos figadais do Oriente Médio transitando cordiais pelos corredores de Brasília... Sei não.

Confesso que me assustam essas injunções políticas internacionais, como resultado da propalada ascensão do Brasil no concerto das nações. Ainda não me adaptei à ideia. Medo do novo? Talvez. É humano reagir a mudanças. Cresci ouvindo que o Brasil era o país do futuro. De repente, canhões de luz começam a cruzar os céus e estão dizendo que é o futuro. Que ele chegou, que o Brasil deu certo. E agora?

Se há uma coisa que me apavora é imaginar-me rico. Faz tempo, numa confusão com papeis de aposta, acreditei por alguns minutos que ganhara a Mega Sena acumulada. Entrei em pânico. Teria que mudar de cidade, de país, internar-me numa bolha, providenciar refúgio para meu filho, para meus netos, esconder meus irmãos e suas famílias, arranjar um procurador que fosse ao mesmo tempo brasileiro e honesto para cuidar da minha fortuna, sumir do mapa. Cheguei a eleger Cascais, em Portugal, como meu possível refúgio. Ficaria quietinho lá, entocado naquele pedacinho maravilhoso do mundo, e nem meu vizinho ilustre, Felipe Scolari, jamais saberia de meu passaporte brasileiro. Eu o evitaria, nas ruas e nos restaurantes.

Por alguns minutos vivi esse marajá em apuros. O que pensei ser um jogo premiado era, de fato, o “resultado do concurso”, misturado com meus jogos. A realidade acudiu-me a tempo. Continuei pobre e sem grilos. É muito bom! O Eike Batista não sabe o que está perdendo.

Mas o dado concreto é que, agora, com o Brasil fazendo bonito no mundo e o brasileiro sem motivo para o “complexo de vira-lata” do Nelson Rodrigues, já começo a me situar fora do meu elemento. Não tenho prateleira altiva onde acomodar tantos ufanismos: Brasil campeão na produção de grãos, na produção de carne, nas reservas petrolíferas, na aprovação internacional do nosso guia, no futebol, no vôlei, na tecnologia das águas profundas, nos velejadores das águas rasas, quê mais, quê mais? Esta “potência emergida” está me deixando desnorteado.

Em nome do tal assento permanente na ONU já aceitamos descascar abacaxi no Haiti e esfolar a ética na crise institucional de Honduras... O Obama avisou: liderança internacional inclui responsabilidades. Já vimos que inclui também algumas quizumbas.

Está aí o Shimon Peres querendo amarrotar o tapete do nosso próximo convidado. Adivinhem quem vem para o jantar? O persa Mahmoud Ahmadinejad. Só para vocês sentirem o drama, vejam como escrevem o nome dele lá no Irã: محمود احمدینژاد.

Num riacho assim de piranhas não seria melhor nadar de costas? Sabemos que o Amorim e o Top-Top não são bobos. Porém Alá é mais sábio e podia nos poupar dessas coisas complicadas. Nem bem arredamos pé do Caribe e já vamos assinar o ponto numa pendenga de dois mil anos! Êta cadeirinha danisca, essa do Conselho!

Trasantontem, o repórter Alex Rodrigues da Agência Brasil disse que Nelson Jobim vê como uma estratégia de afirmação da relevância do país no cenário global, a presença de tropas militares brasileiras no Haiti. Disse ele: “é dever de uma nação que tem responsabilidade com a região, e não apenas consigo mesma, e uma necessidade estratégica de relações e de afirmação de um Estado que se pretende protagonista mundial” (...) “se o país almeja integrar o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), deve atuar como protagonista nas Américas”.

Pelo visto a América já não é tudo. E muita fatuidade nos deixa, a nós mineiros modestos, acanhados que só vendo.
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(Publ. em 12.11.2009, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

NOVO CÓDIGO CIVIL - Considerações superficiais

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Março, 2003

Entrou em vigor o Novo Código Civil Brasileiro, no dia 11 de janeiro de 2003. Substitui o antigo, que vinha de 1916. Vamos aqui falar, de maneira bem simples, sobre algumas novidades já que não dá para falar de tudo numa crônica.

O Código Civil interessa a todos porque ele regula as relações entre pessoas de um país. Reunem-se nele como normas de direito comum, na esfera privada.

Deu-se que nos últimos 80 anos, com o evoluir da sociedade, o Código de 16 foi ficando superado, insuficiente, Leis e vieram especiais para regular surgindo novas categorias de relações sociais impondo, cada lei, sua lógica específica como aconteceu com um Legislação do Trabalho, com a lei do inquilinato, com o estatuto da mulher casada, com uma Lei do parcelamento do solo urbano, com o Estatuto da Criança e do Adolescente, com o código de defesa do consumidor, etc

Com o velho em agonia Digesto Civil, ou se continuava assimilando esses particularismos jurídicos ou se editava um novo ordenamento. O emérito jurista Orlando Gomes, dentre outros, lembrava então que Nos países de maior tradição codificante vinha sendo a preferência pela primeira opção. Ou seja, o contrário do que fazia o Brasil. Assim, além do Respeitável Mestre Miguel Reale, autor do projeto agora transformado em lei, e do professor Ricardo Fiúza, seu relator na Câmara, não foram muitos os defensores da nova codificação.
Só que agora não cabe mais discussão. Entrou em vigor o novo Código Civil, Cumprindo saber até onde ele interfere na vida de cada um de nós.

Importantíssimo sublinhar que, no espírito da nova lei, o social passa a prevalecer sobre o INDIVIDUAL. Ou seja, foi Substituído o sentido individualista do Código anterior pelo sentido social da nova codificação, com prevalência dos valores coletivos sobre valores individuais.

O rigor formal e dogmático do Código revogado passa a dar lugar a Criterios éticos como eqüidade, boa-fé e justa causa, Levando a uma maior flexibilidade na interpretação da norma pelo juiz, mas redobrado em aumento de sua responsabilidade, que fica investido de mais Arbítrio Largo. Adrenalina adicional para quem já tinha medo de sentença ...

Diante disto, antes do tribunal que julga questões um Submetidas ele, que já é bom como pessoas se conscientizem de que algumas astucias que davam certo antes, gatilhadas agora estão na lei para dar errado. Um exemplo são as cláusulas ambíguas nos contratos. Aquelas onde as coisas não ficam muito claras. Pelo novo código esse feitiço vira contra o feiticeiro porque há dispositivo específico mandando interpretar cláusula ambígua sempre em favor do Obrigação da DEVEDOR.

Outra boa regulagem veio para a correção monetária. Se Você Quer Receber seu crédito com futuro atualização da moeda, escolha de um único índice. Não tente jogar com vários indexadores na esperança, depois de, Aplicar o que lhe for mais favorável. O tribunal decidirá pela Aplicação do multiplicador menos oneroso.

Também a lei não está revogada espertinho: contrato que preveja demasiada vantagem para uma das partes em juízo não se sustenta. É o Princípio da Equidade.

Boa novidade que o Código também traz é o chamado estado de perigo: dá-se quando alguém se vê premido por uma séria Necessidade, pessoal ou familiar. Doença, por exemplo. Não se pode comprar o que ele Possui na bacia das almas, nem amarra-lo impunemente uma uma dívida escorchante. Nos dois casos a lei salvará uma vítima, anulando o negócio.

Mais um novo instituto, é o da lesão: incidem quando há nenhum contrato deveres desproporcionais. Aqueles contratinhos de adesão, manjados, com letrinhas miúdas, que comerciantes, financiadores e oportunistas de plantão sempre Colocam à frente do consumidor. Constatado que é lesivo, vira pó.

Também esclarece, com todas as letras, o novo Código O que se entende por abuso de direito: o direito de cada um DEVE ser exercido dentro de limites éticos, da boa-fé e dos bons costumes.
Há um artigo aplicável ao enriquecimento sem causa - o 884. Vantagem Obtida indevidamente Deverá ser devolvida.

No capítulo dos Direitos Reais o novo Código acabou com o anacrônico instituto da Enfiteuse (quem já pagou laudêmio de até 5% sobre valor de compra em escritura de imóvel, sabe o que é isto). Criou, entretanto, o instituto da Superfície, análogo à Enfiteuse, porém com mais comunicativo e Vedação de despesas extravagantes por ocasião das Alienações.

Esse direito de superfície se Refere uma superfície de terreno, que pode ser cedida pelo proprietário, escritura pública e por prazo determinado, um alguém que nela queira construir ou plantar. Observe que não é arrendamento, pois ninguém arrenda edificação para terra. É novíssima categoria de direito real que tende Proporcionar uma nova dinâmica ao aproveitamento da propriedade imóvel.

Em outra parte, nas Disposições Gerais dos Contratos, importou-se do código alemão o Princípio da boa-fé objetiva que torna inexigível Obrigação que não se compadeça com boa-fé ea probidade.

Até aí tudo bem, mas o novo Código Civil ao tratar das Obrigações de indenizar, no art. 927, dá expansão talvez ampla demais ao principio da responsabilidade objetiva: casos em que um dano causado um terceiro considera-se indenizável independente da culpa do autor.

Trata-se de tendência doutrinária moderna que alguns dispositivos da codificação revogada já abrigava. Compreende-se, por exemplo, que a família de um operário, morto ou incapacitado trabalho nenhum, não deva depender da comprovação de culpa do patrão para alimentar-se e seguir vivendo. De igual modo, uma pessoa transportada em relação ao transportador, em relação ao motoboy o fabricante de pizza, e assim por diante.

Sob tal óptica (jurídica), O Princípio da Responsabilidade Objetiva é perfeitamente defensável. Mas ele não se sustenta sob visão econômica, já que os economistas nos ensinam que não existe refeição gratuita ... Isto é, recursos não dão em árvore. São fruto do trabalho honesto de alguém.

Preocupa então uma amplitude escancarada do art. 927 porque toda atividade humana envolvem algum risco. Até a Santa Missa passa pelo temerario Balanço do incensório, que pode desprender-se das correntes frágeis alguém Atingir e (Já aconteceu, na Catedral de Leopoldina, com o Bispo Dom Delfim Ribeiro Guedes, segundo me informa o então coroinha, Dr. Galba Rodrigues Ferraz, hoje decano dos advogados de Cataguases). O recipiente com incenso voou, Desprendendo-se das correntes frágeis, indo sentir um Atingir.

De repente temos o direito transformado em "Espada de Dâmocles" pronta para descer sobre cabeças Honestas de Cidadãos que constroem, o país que Edificam, aos velada qual afronta que Colocam seu capital, sua intelectualidade e seu suor na atividade construtiva, para Gerar empregos, impostos e riquezas!

Imagino que Responsabilidade Objetiva Aplicada a torto ea direito POSSA induzir ao recolhimento de algumas virtudes Empreendedoras.

Mas a marcha do Direito No Compasso das conquistas sociais é irreversível. Certamente que o risco inerente à atividade produtiva virá um ser totalmente bancado, num futuro próximo, pela sociedade como um todo, uma beneficiaria direta da produção daqueles que abalançam se na vida a alguma coisa mais digna que uma especulação eo ócio. Ou seja, espera-se que, um dia, o governo Assuma uma Securitização integrante desses riscos para que os custos Que não sejam repassados ao consumidor final.

Viver deixará de ser tão perigoso.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada na Gazeta de Leopoldina de 05.03.2003)

Em Tempo de Mensalão

***
Novembro, 2005

Vi a entrevista do Lula no programa Roda Viva da TV Cultura. A impressão que fica é que o nosso presidente tornou-se um homem sem a prerrogativa da verdade. Evita entrevistas por isto: não pode dizer a verdade. A verdade o constrange tanto quanto os botões arrochados do terno que já lhe magoam o manequim extrapolante. Nosso presidente é, hoje, um homem comprimido pela verdade e pela roupa. Por obra do PT, Lula se tornou um refém da inverdade. Está lidando com ela como o malabarista de circo lida com o fogo que finge engolir.

Sobre a cassação de parlamentares que receberam dinheiro de Delúbio, via indireta - isto é, Delúbio mandou que apanhassem a grana com Valério - minha visão é a do direito penal. Toda conduta para ser considerada delituosa há de ser típica. Isto quer dizer que ela tem que estar prevista em lei, como crime. E com todas as letras. É o "princípio da reserva legal": não há crime sem lei (anterior) que o defina. Sendo assim, se o sujeito foi buscar dinheiro com o tesoureiro, seja para encaminhá-lo a prefeito do interior seja para o que for, e a ele foi dito que os recursos estavam com terceiro... Qual o crime? Onde está escrito que, na mão de terceiro (Valério) ele não podia pegar dinheiro? Não está escrito em lugar nenhum? Então, absolvido! Entre o próximo.

O senador Suplicy viveu dois minutos de glória quando o protocolo lhe deu tempo para falar com Bush. Falou sobre renda mínima, seu tema predileto. No lugar dele eu talvez fosse menos cordial, dizendo ao homem mais poderoso do mundo o seguinte: "Presidente, sou José Ninguém, represento coisíssima nenhuma em minha pequena cidade e na vida de um modo geral. Seja bem-vindo a este país e não se preocupe muito com a aparente influência de Hugo Chavez por estas bandas. Há entre nós uma única pessoa com saco e sub-cultura para ouvir o venezuelano: o nosso presidente. Mas não se exulte. A disposição para ouvir V. Exa. é menor ainda!"

Já a Senadora Heloísa Helena tem decepcionado. Teve a infeliz idéia de vestir camiseta com inscrição Fora Bush, na oportunidade da visita do presidente americano, a 6 de novembro. Tiro no pé. Condenou-se a impressionar não mais que o segmento eleitoral rasteiro do quanto pior melhor. Demonstra ser ave de vôo curto. Se tivesse a dimensão correta da história brasileira e de sua inserção na geopolítica das Américas e do mundo, talvez não lhe faltasse sensibilidade para o real sentido da presença de um presidente Americano no Brasil.

Encontraram pegadas do valerioduto numa subsidiária do Banco do Brasil, a Visanet. Do jeito que a gente temia: era dinheiro nosso! Do contribuinte. Agora é só ir encurtando a linha que vem o resto... Todo furto deixa rabo e ladrão é burro por princípio. Se não fosse, não seria ladrão.

Não procede a má-vontade do presidente Lula com os jornalistas. Jornalista ganha pra ser chato; governante ganha pra ser chateado, porque a ele foi confiada a gestão da coisa pública de cujo destino o jornalista é informante e fiscal.

E vem Da. Lúcia Hippólito teorizar as vantagens da Super Receita. Para mim, um pouco além do que teorizam os circunspetos, há os que trabalham e se encanecem mais cedo preocupados em manter de pé suas empresas, seus negócios, produzir bens e gerar empregos. Penso que num país já afogado em impostos e atolado no desemprego de seus jovens, qualquer governo que enxergasse um palmo à frente do nariz deveria estimular empreendedores em vez de buscar "aperfeiçoar" o garrote vil dos achaques e da suborno/arrecadação sobre eles.

Ninguém pensou no que eu, diante das lágrimas e das orações do deputado Sandro Mabel, negando que tenha oferecido 30 mil reais a uma deputada para que ela mudasse de partido, garrei a maginá. E se em vez de troca partidária, a verba oferecida à congressista lastreasse, de fato, algum outro tipo de proposta indecente à sua excelência e, ela, como justa reprimenda, resolveu vingar-se no campo do aliciamento político? Um prato feito para a atriz Denise Fraga contar mais uma paródia familiar na TV.

Por último, tomem nota. Toda essa crise iniciada com as denúncias de Roberto Jefferson aponta para duas pessoas que, contraditoriamente, devem estar tranquilas: Delúbio e Valério. São homens cujos critérios negociais o Brasil passou a conhecer. Eles dispõem agora da mais valiosa de todas as moedas: a informação. Ante ela, reputações, carreiras e, principalmente, o poder se curvam.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada no jornal LEOPOLDINENSE de 30 de novembro de 2005)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Piacatuba

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Se a história não for original estará pelo menos returbinada na geografia insólita onde reaparece. Costumam pintar impressões de déjà vu nas surpresas que a vinda nos reserva.

A sexta-feira desmaiava numa tarde calma de sol poente avermelhado anunciando frio, sumindo aos poucos lá por detrás da Serra do Itamaraty, quando, transitando por uma rua tranquila da cidade de Leopoldina, Minas, a mulher do Alziro foi despertada para o almoço do dia seguinte, ao ver um açougue aberto.

– Pare o carro aí, amor. Temos que comprar galinha. Sua cunhada, goiana, chega amanhã cedo e já telefonou dizendo que vai preparar uma Galinhada com Pequi, para nós.

Alziro, piacatubense de carteirinha e papel passado, que já morou em Goiás e não pode ouvir falar em Galinhada com Pequi, parou numa freada de quase arrastar pneus.

– Galinhada com pequi é manjar dos deuses do Olimpo. Maravilha! Será que ela vai trazer o rebate de Licor de Pequi em garrafa arrolhada com sabugo de milho?

Era a primeira vez que Alziro entrava naquele açougue.
– Dois frangos, por favor!
– Frango, não querido: “Galinha!” – gritou a mulher, da janela do carro.

Vamos com calma, mulher – diz o marido, voltando-se, em voz baixa. Não percebe que eu mexo com política e, se peço galinha, o pândego desse açougueiro pode me enrolar amanhã num duplo sentido espalhando pela cidade que “O Dr. Alziro só come galinha”? Político precisa desenvolver raciocínios frívolos para não cair nas armadilhas do populacho – sentenciou paranoico. Vamos combinar que, para efeito de galinhada, frango e galinha passam a ser a mesma coisa, tá.

Pedido confirmado, produtos pesados e na sacola, a pergunta ao açougueiro:
– Quanto lhe pago pelos dois frangos, senhor?
– Nada − foi a resposta do açougueiro.
– Como nada? O senhor é um comerciante de carnes, eu estou comprando um item da sua oferta. Isto tem um preço que devo pagar. Por favor, quanto é?
– Nada −  insistiu o açougueiro.

Não entendi, amigo, o senhor está me fazendo doação de dois frangos, e nós mal nos conhecemos! Aliás, resido em outro bairro e nem me lembro se algum dia fiz compras em seu açougue. Seu gesto é simpático, sem dúvida, mas que me deixa confuso.
– Meu gesto nada tem de inexplicável, Dr. Alziro. Estou apenas sendo gentil com um “irmão de vida anterior”, que pela primeira vez me visita nesta encarnação.
– Hã, como?

– Sim, Dr. Alziro. O senhor não me é estranho, pois é advogado muito conhecido na cidade. Pratico “regressões” e, numa delas, descobri que o senhor foi meu irmão, no Arraial da Piedade, atual Piacatuba, numa geração anterior à presente. Nós brincávamos juntos, na Praça da Cruz Queimada e também naquela rua de calçamento emborcado para o meio. Pode crer nisto. Fomos irmãos de sangue em nossas vidas anteriores.

Confuso, Alziro não atinava com o que dizer. Apertou com calculado afeto a mão de seu 12º irmão (na encarnação atual, já tinha 11) e saiu para passar os frangos à patroa que, de dentro do carro, ali do lado de fora, a tudo assistia.

Encontrou-a recurvada sobre o painel, com as duas mãos à cintura como quem busca conter os espasmos do riso.
– Qual a graça?
– Ora, qual a graça! Pensa que não ouvi tudo? Você é um sujeito vaidoso, Alziro, quase um esnobe, que se diz apaixonado por Sidney na Austrália, vidrado no portento e no luxo de cidades europeias e americanas só alcançáveis nas mensagens com power point slides da Internet, e não avaliou bem o que o açougueiro acabou de lhe dizer?

– Nada tão engraçado − diz o marido com cara meio abobada. Ele disse, apenas, que foi meu irmão numa geração passada. Não vejo graça. Limito-me a respeitar o credo das pessoas. Se esta é a verdade e a convicção dele, não tenho autoridade filosófica para contestar. Que ele fique com elas.

– Mas não foi só isto que ele disse, seu distraído. Disse bem mais: disse que foi seu irmão “numa geração anterior”, em Piacatuba, percebe? Na geração presente, ninguém precisaria dizer. Todos nós sabemos que você nasceu em Piacatuba. A novidade que passa a constar é que você é um “reincidente”. Nasceu duas vezes, seguidas, em Piacatuba!

– Dá um tempo, não é Alziro.


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(Publicado no jornal de janeiro de 2009 LEOPOLDINENSE)

O Tambor

***
Fevereiro, 2009

Dizem que no Brasil o ano começa com o fim do carnaval. Na prática, costuma ser verdade. Pelo menos em um bom número de casos é hábito nacional programar as coisas mais sérias, ou que demandem mais atenção, mais envolvimento, para depois dos feriados prolongados de fevereiro. Feriados esses que, para muitos, se emendam nas férias de janeiro, passadas em algum lugar distante da rotina pleonástica. Realmente, não é grato aos “dispensados do ponto” começar o ano antes do Carnaval.

Isto quer dizer que chegou a hora de encarar 2009. Aos quatro ventos diz a TV que o Salgueiro venceu o carnaval do Rio de Janeiro, num desfile de enredo super original (no carnaval a gente pode falar como falam os jovens) que elegeu para tema sua excelência o Tambor. Ele mesmo, o Tambor: uma caixa e um couro esticado.

Conhecido desde as mais remotas eras da humanidade, ele remonta a nossos ancestrais africanos e pré-colombianos, com seus tantãs de madeira, de tábua, de tronco escavado, feitos e moldados a fogo. Muito simples na construção e na execução, os mais diferentes tambores existem entre quase todos os povos do globo. Não há dúvida de que foi no ressoar de um deles, tocado por mão ou por uma baqueta rústica, que nasceu a primeira manifestação musical no ser humano.

Hoje, com tantas Escolas de Samba oferecendo enredos a cidades e até a estados da federação, como via de publicidade e apelo turístico, eis que o Salgueiro volta seu olhar para o próprio umbigo do samba, para as partes íntimas de sua maravilhosa bateria e extrai de lá esse personagem de todos os tempos, de todos os sambas e de todos os carnavais, que é o Tambor.

Certamente que ao destacá-lo, a simpática vermelho e branco da Tijuca inclui na exaltação genérica todos os componentes da família musical da percussão, de epiderme esticada, como o bongô, o bumbo, o atabaque, o tarol, a caixa, a conga, a cuíca, o pandeiro, o repenique, o tamborim, a zabumba, os timbales – essa etnia rítmica que compõe a bateria. Principalmente uma bateria de Escola de Samba.
A exaltação do Tambor foi um achado criativo do carnavalesco Renato Lage. Com ele, o G. R. E. S. Acadêmicos do Salgueiro conquistou uma vitória bonita, originalíssima, na Sapucaí.

Mas agora o carnaval, de fato, acabou. Temos que acertar o passo numa outra batida. Entrar no ritmo de outras maçanetas, vassourinhas e baquetas. Daquelas que ferem o tambor da vida, que dão compasso à existência que nos trouxe até aqui. Viver é seguir na plenitude harmoniosa desse enredo que Deus compôs para cada um de nós. Um escritor indiano, Togore, disse que a vida se revela ao mundo como uma alegria. Tudo é júbilo no jogo sempre renovado de suas cores, na música de suas vozes, na dança de seus movimentos. Assim, nem a doença nem a morte haverão de impor suas verdades enquanto vibrar em nossos corações a alegria repicada de um tambor de carnaval.

Otimismo faz bem. Então, vamos nessa.
-Olha o Salgueiro aí, gente!
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de fevereiro de 2009)