***
Novembro, 2003
Arte: Luciano Meneghite
É sempre uma dádiva para quem escreve em jornal a chegada de manifestações positivas da parte dos que lêem. No caso de crônicas sobre temas cotidianos, como é o nosso caso, em regra os assuntos mais leves impressionam a um número maior de leitores, claro. A medida se tem pelo retorno – telefonemas, abordagens pessoais, cartas, e-mails – recebidos pessoalmente ou pelo jornal.
Algumas vezes, entretanto, a gente se surpreende. Foi o que aconteceu com a crônica, “Falar de Coisas”, do número anterior desta GLN. Tomei uma erudita confidência de João Cabral de Melo Neto, sobre o que haveria de essência do autor nos elementos de que trata, e dei de falar de umas tantas... coisas. Não imaginava que tema tão abstrato fosse suscitar reações simpáticas. Muitas!
Uma delas veio em carta de um velho amigo e primo, Ely Rodrigues Neto, aliás, o autor do texto de onde extraí os nomes de quem chamei, na crônica, “gloriosa oposição” leopoldinense, em 1958.
Pródigo em elogios que não mereço, o Ely amplifica exageradamente os méritos do trabalho. É, pois, constrangido pela modéstia que abro aspas para a opinião dele.
“Prezado e perspicaz amigo Zé do Carmo.
Lendo sua coluna “Falar de Coisas” (GLN nº3) verifiquei que João Cabral de Melo Neto foi perfeito quando disse, perguntando sutilmente, se ao falar das coisas que nos envolvem já não estamos falando de nós... E observei que você falou com propriedade na frase inicial do seu valioso e correto trabalho: Ainda não disponho da sabedoria dos velhos, mas já não me constrange a perplexidade dos jovens.
Também são reveladoras do seu conhecimento da história de Leopoldina, da sua rica personalidade e qualidades de arguto observador, até as ilustrações da coluna: colcha de retalhos e instrumentos musicais... Sinto-me como envolto na primeira, e, dos instrumentos musicais, imagino estar ouvindo os sons dissonantes da política partidária local... “ouvido absoluto”?
Parabéns pela interpretação correta, amena, elegante, e construtiva dos fatos, que formam tão bem o quadro perfeito da situação hoje, do cenário político leopoldinense, retratado com humor pela sua coluna, com sua conhecida e admirada sutileza, que vem enriquecendo o conteúdo do periódico.
Ainda bem que, muito antes do Vice José Alencar aplainar os montes e pavimentar a avenida para o Presidente Lula, mesmo sem ter lido Guimarães Rosa, eu demonstrei com palavras e atos, que não sou vocacionado para Vice... Ou “não tenho o perfil de Vice”, como já afirmou um ilustre conterrâneo...
Se minha idade já me credencia a dar conselhos, envio-lhe este: se a vereda que leva à Câmara Municipal lhe parece atraente, siga por ela. Leopoldina está necessitada de tal presente. (...)
Para que esta mensagem não fique tão vazia, como algumas cabeças da política nacional, encerro com uma das muitas recomendações puras do amado titular do Vaticano: Avance para águas mais profundas...
Com amizade e gratidão, Ely.”
Obrigado, Ely, pelas palavras generosas. Tê-lo como leitor é um privilégio. Concordo em que o barco do PMDB deva avançar para águas mais profundas. Mas sou apenas um dos remadores.
A ilustração é obra genial do nosso cartunista, Luciano Meneghite, garoto de talento com tudo para ainda vir a acontecer na grande imprensa deste país. Quanto à “vereda” suspeitada por você, certamente haverá por ali também outra questão pessoal de “perfil’, bastante séria, a considerar. Mas encaro com naturalidade que uma pessoa que haja adquirido algumas experiências na vida possa vir a colocar essas mesmas experiências à disposição da sociedade em que vive.
Agora, aqui entre nós, Ely: minha bola de cristal quando girada para o futuro vem transparecendo a reserva moral que é Ely Rodrigues Neto, eleito Vice-Prefeito em 2004. Você não imagina a nitidez da imagem!...
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de 29.11.2003)
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
CPMF e Honestidade
***
Outubro, 2011
Outubro, 2011
Sei que
minhas convicções sobre a volta da CPMF são discutíveis. Devo ser um dos poucos
brasileiros “a favor” desse imposto – que considero o mais justo e inteligente
jamais instituído no mundo das finanças públicas. A Contribuição sobre
Movimentações Financeiras só atinge quem tem dinheiro, e na exata proporção do
dinheiro que possui. Nada mais perfeito para resolver o problema da Saúde entre
nós. Desde que os recursos passem ao largo dos ladrões e da má-fé política que
sempre os rastreou desde a criação no governo FHC.
Nada
obstante justa e perfeita, a CPMF tem inimigos poderosos. O vulto das operações
bancárias, sobre as quais incide, permite que a alíquota seja sempre fixada
muitíssimo abaixo de “um por cento”, o que não impede que empresários nutram
simpatia bem maior pela Cofins, de alíquota em torno dos “oito por cento”.
Sabem a razão? É que a CPMF possui taxa pequenina mas não dá para
sonegar...
Conheço
hospitais públicos por dentro. Ali se celebra, todos os dias e todas as noites,
o triunfo da miséria humana. Leitos de CTI, por exemplo, em número sempre
abaixo da demanda, obrigam, não raro, à escolha de “quem vai morrer”. Imaginem
todos os leitos e respiradores ocupados e a chegada de uma pessoa jovem em
estado desesperador. Óbvio, leva-se para o quarto – ou seja, para morrer – um
paciente idoso ou com menor probabilidade de recuperação. É mal menor, mas é
terrível.
Pelo
interior do país, o SUS elege Hospitais Regionais, “de referência”, para
procedimentos fora da capacidade técnica dos nosocômios das cidades menores.
Estabelece, entretanto, LIMITES mensais estreitos (faltam verbas) para tais
eventos. Resultado: bem antes do fim do mês o “limite abonável pelo SUS” se
esgota nos hospitais de referência, que passam a informar às cidades
circunvizinhas a inexistência de vagas.
– Pelo
amor de Deus, é caso gravíssimo! Tenho aqui um acidentado de 20 anos com
fratura de crânio; não temos tomógrafo nem neurocirurgião!
– Não
temos vaga.
– Ele
morrerá se não for operado dentro de quatro horas!
– Não
temos vaga, já disse.
Se é
família de classe média, vai “se virar” e correr com o paciente para uma
Clínica Neurológica particular. Se é família pobre, muito provavelmente
sepultará o acidentado no dia seguinte.
Há
poucos dias a TV mostrou um acidentado percorrendo 80 km, em busca de socorro,
na baixada fluminense. Claro, morreu. Fratura de crânio exige cirurgia rápida.
Não
estou, pois, falando em tese. Este é apenas um exemplo do que resulta a anemia
financeira do SUS.
Como
ficou claro, falta quase nunca é de quarto vago ou de cama na enfermaria. A
expressão “falta vaga” é eufêmica. A falta é de “margem abonável”. Se o
hospital atender não receberá do SUS, impedido que estará, inclusive, de implantar
no Sistema os atendimentos feitos extralimite. Ou seja: o SUS, além de não
abonar, jamais será informado de que houve o atendimento.
Não é
por outro motivo que o hospital, quase sempre endividado – devendo a
fornecedores, devendo luz, água, Bancos – recusa o paciente. Quando vira caso
policial ou jornalístico, demite-se de baixo para cima até onde o interesse
político permite.
Querem
outro exemplo? Alguém conhece Pronto Socorro, público, com cobertura
pediátrica? Se tem, gostaria de conhecer esse lugar abençoado onde criança
possa ser salva, principalmente à noite. A realidade é que não é fácil
encontrar pediatra disposto a passar noites em claro para ganhar o que o SUS
paga aos médicos.
Quando
Adib Jatene criou a CPMF, um ledzinho azul piscou na escuridão do túnel. Só que
Jatene não podia ter nas mãos aquela dinheirama toda, resolver o problema da
saúde no Brasil, e tornar-se – quem sabe! – presidenciável! Não era tucano, ora
bolas! Providenciaram uma regulamentação:
– O
dinheiro da CPMF teria que ir, primeiro, para as mãos do Ministro da Fazenda
que o repassará à Saúde segundo os critérios, tais, tais e tais. Pronto! Jatene
ficou a ver navios. E a ver navios, com a população brasileira, seguiram todos
os Ministros da Saúde que o sucederam.
Na recente tentativa de reativar a CPMF, o Congresso passou a entender que o
governo é que não poderia colocar a mão naquela “baba”. Seria muita grana à
disposição de quem poderia desequilibrar o jogo nas eleições seguintes. Pronto!
A CPMF não passou no Congresso.
É claro
que a possibilidade (ou seria a certeza?) de desvio de grande parte do dinheiro
existe. Somos uma nação de corruptos. Mas vamos fiscalizar, vamos denunciar! O
que não é razoável é negar à nossa gente essa possibilidade real, efetiva, de
financiamento da saúde pública. Por isto sou a favor da volta da CPMF. Para
mim, a solução para a Saúde, no Brasil, passa pela combinação de duas palavras:
CPMF e honestidade.
O resto
é jogo sujo. Independente do lado em que se ponham os contendores.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
O DVD e meu Ansiolítico
***
Setembro, 2011
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicado em 22.09.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)
Setembro, 2011
Confesso
que não me sinto bem, hoje. Estou com raiva. Muita raiva. Mesmo ciente do
alerta de Guimarães Rosa, para quem ter raiva de alguém, ou de alguma coisa,
equivale a autorizar que esse alguém ou essa coisa passe a governar nossas
ideias e nosso sentir, não consigo dominar meu ódio a esses aparelhinhos bestas
de rodar DVD.
Imaginem
vocês que não vejo filme em casa há uns quatro meses. Meu antigo “reprodutor de
DVD” pifou e só ontem comprei outro, para ruína do meu dia de hoje. Disse à
minha mulher que eu mesmo o conectaria à TV e me danei.
Alguém
aí já tentou conectar um aparelho de rodar DVD à TV? Conseguiu? Eu não
consegui. E olha que sou considerado na família um cara habilidoso, desses que
a esposa nunca diz que precisa “chamar um homem” pra fazer isto ou aquilo.
Consertar cabos de eletrodomésticos, trocar interruptores (troco sem desligar a
luz), disjuntores, torneiras, substituir resistência de chuveiros elétricos,
trocar lâmpadas queimadas (complicadíssimo, não!)... É só a patroa
convocar que: − Yes, I can!
Pois
o maldito aparelhinho de DVD conseguiu tripudiar sobre todo esse meu cabedal de
habilidades. Apelei para o Manual que, aliás, não prima pela clareza: são 29
páginas de letrinhas microbianas e gráficos torcicolosos. Peguei os óculos
porque uso lentes 3.7 para perto. Não deu pra ler. Confirmei com minha mulher
(ela, de óculos) se minhas lentes estavam limpas. Estavam, mas realmente não
dava pra ler. Apelei para a lupa dos meus netinhos brincarem. Ah,
finalmente!
Primeiro
estes três cabos: vermelho, branco e amarelo. No diagrama está o painel “A”,
onde se lê “TV”, com entradas (buracos) assinaladas com “L”, “R” e Video. Consta ainda a palavra Imput.
Imagino ser o equivalente de nosso verbo imputar em sua acepção inglesa de
enfiar, atochar... Bom não ser absolutamente cego num segundo idioma, não é
mesmo.
Já
no diagrama “B”, lê-se a palavra “Televisor” (no “A” é “TV”, lembram!) Passo a
lidar, então, com a distinção de dois conceitos que sempre imaginei
indistintos: TV e Televisor! Mas vamos em frente. Tenho que imputar (Imput),
no esquema “B”, o cabo verde no orifício (que eles chamam de tomada) “Y”; o
cabo azul no orifício “Pb”; e o cabo vermelho no orifício “Pr”... Ixe! Nada de
imagem, nada de som.
O
que será Y, o que será Pb e o que será Pr, meu Deus? Se este último “r” fosse
maiúsculo, me remeteria ao PR de Minas, Partido Republicano, que levou o
mineiro de Viçosa, Artur Bernardes, à presidência da república. Mas claro que a
coisa não passa por aí.
Observo
que no desenho “A”, existe um alerta que ali é Vídeo Out e Audio Out; no
esquema “B”, diz que é para Component Video
Out... Certamente haverá diferença importante entre esses dois entes
técnicos. Acabo descobrindo − imaginei. “Hay que pensar em positivo” – dicen
los hermanos.
Antes
do fim do dia – pensava
eu – terei atochado corretamente todos estes conectores para
que possamos, a patroa e eu, revermos o filme Notorious, de Alfred
Hitchcock, com cenas filmadas no Brasil e inclui um diálogo entre Gary Grant e
Ingrid Bergman no qual não chego a ser citado pessoalmente, mas há uma alusão à
terra onde nasci – Leopoldina, MG. O que também me promove. Já pensou? Minha
província nos lábios da Ingrid Bergman!
Ávido
de respostas, fui à página 32 do Manual onde está o capítulo, Guia para Solução de Problemas. Li com
atenção para perceber que eles chamam de “problemas” as ocorrências infaustas
surgidas depois que o aparelho é conectado; exatamente o que eu não estava
conseguindo fazer. Soquei, com malignidade, a mesa.
Minha
mulher convidou-me a desistir. Pressentiu que o DVD corria risco de ser estraçalhado
num ataque de ira, antes mesmo que eu passasse à maldição do Controle Remoto,
cujas instruções, aliás, ocupam a maior parte do Manual. Convenceu-me que colocar aquele troço para
funcionar era algo inteiramente fora dos limites de nossa aptidão. (Com esse
“nossa” buscava ela, inteligentemente, dividir com o doido sua
perigosa frustração).
Sugeriu
que chamássemos um técnico que, inclusive, depois de atrelado o aparelho ao
televisor, nos proporcionasse um cursinho intensivo de manejo do impenetrável
objeto.
Guardiã
atenta do meu sistema circulatório, minha esposa já discursava de copo d’água e
comprimidinho ansiolítico à mão. Ela sabe o quanto uma derrota para o mundo das
coisas intricadas me faz mal. Seria tão mais simples girar controles! Juro que,
se pudesse, trancava num beco úmido, para conviver com ratos, baratas e
samambaias brotando das paredes, todos os criadores dos botões digitais. Como
castigo adicional a obrigação de lerem “Os Sertões”, de Euclides da Cunha...
Veriam como é bom sacanear os outros na promoção de topadas.
Ah,
sim, o técnico disse que só poderá vir na próxima semana, mas nenhum problema.
Fã do Hitchcock, eu que já sou meio gordo posso também ficar bonachão de um
momento pra outro. O efeito do comprimidinho é rápido.
(Publicado em 22.09.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena)
Rido de Barros Oliveira
***
Na foto: Rido de Barros, jan. 2003, na sede da BMPL.
Agosto, 2003
Rido de Barros, como era mais conhecido, foi o idealizador e fundador da Banda Musical Princesa Leopoldina, uma instituição leopoldinense sem fins lucrativos que visa atrair para a carreira musical e ensinar música gratuitamente a jovens talentos de nossa cidade, trabalhando a priori com crianças e adolescentes dos segmentos menos favorecidos da sociedade.
Nascido no distrito de Barra Alegre, município de São José do Ribeirão Preto, RJ, aos 11 de março de 1943, era filho o filho mais velho dentre os oito que teve o casal, Odir Barros de Oliveira e Venizia Julia Benvenute de Oliveira.
Seu pai, Odir, foi farmacêutico em Nova Friburgo, RJ, cidade onde Rido residiu desde menino.
Ainda jovem tornou-se sócio e músico clarinetista da Banda de Sâo José do Ribeirão Preto. Depois, em Nova Friburgo, passou a integrar os quadros da famosa Banda Euterpe Friburguense, chegando a Conselheiro da Euterpe.
Vindo para Leopoldina no início dos anos 60, casou-se com a leopoldinense, Maria da Conceição Fajardo Oliveira, com quem teve os filhos: Fernanda, que é casada e tem um filho; Reinaldo, casado com dois filhos; e Juliana, solteira.
Além de seu trabalho na Banda Musical Princesa Leopoldina e de gerir uma propriedade rural – na qual tornou-se o primeiro grande criador de suínos sob técnica apura, no município – Rido tomou em suas mãos o aperfeiçoamento de nossa Casa de Cursilhos e a reforma da Capela do Asilo Santo Antonio.
De suas obras, entretanto, a que mais o emocionava era, sem dúvida, a Banda Musical Princesa Leopoldina.
Essa instituição foi criada em 1998, quando Rido liderou um grupo de amigos – ele, seu cunhado Nelito Barbosa Rodrigues, Ronald Alvim Barbosa, Rodrigo Arantes Queiroz e José do Carmo Rodrigues - e com eles, depois de algumas reuniões, logrou ver formada essa importante agremiação musical de utilidade pública.
De fundamental importância pra o projeto foi o apoio financeiro da Cia. Força e Luz Cataguases Leopoldina, obtido por Rido, para a compra de uniformes, instrumentos, etc, e a própria sede da Banda, em compartimento da Usina Cultural da Hidrelétrica, na Rua Lucas Augusto, 36.
Quem o acompanhava nas apresentações da Banda, percebia que ele mal podia conter a emoção de ver aqueles meninos pobres em suas belíssimas execuções.
Rido faleceu aos 60 anos, no dia 24 de agosto de 2003, às 9:30h, na Casa de Caridade Leopoldinense, vítima de uma fatal pancreatite. Como anotado no jornal LEOPOLDINENSE de 30 de agosto de 2003, Leopoldina perdia um amigo, um benemérito, um insubstituível homem de bem.
______
Obs. Nas fotos, oportunidade em que a Banda Musical Princesa Leopoldina participava de evento festivo nas ruas centrais da cidade; embaixo, Rido de Barros ladeado por Nelito Barbosa Rodrigues e pelo então presidente da Banda, José do Carmo Rodrigues, o jovem músico Tiago e um irmão de Rido, de camisa branca.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicado no LEOPOLDINENSE de 30 de agosto de 2003)
Na foto: Rido de Barros, jan. 2003, na sede da BMPL.
Agosto, 2003
Rido de Barros, como era mais conhecido, foi o idealizador e fundador da Banda Musical Princesa Leopoldina, uma instituição leopoldinense sem fins lucrativos que visa atrair para a carreira musical e ensinar música gratuitamente a jovens talentos de nossa cidade, trabalhando a priori com crianças e adolescentes dos segmentos menos favorecidos da sociedade.
Nascido no distrito de Barra Alegre, município de São José do Ribeirão Preto, RJ, aos 11 de março de 1943, era filho o filho mais velho dentre os oito que teve o casal, Odir Barros de Oliveira e Venizia Julia Benvenute de Oliveira.
Seu pai, Odir, foi farmacêutico em Nova Friburgo, RJ, cidade onde Rido residiu desde menino.
Ainda jovem tornou-se sócio e músico clarinetista da Banda de Sâo José do Ribeirão Preto. Depois, em Nova Friburgo, passou a integrar os quadros da famosa Banda Euterpe Friburguense, chegando a Conselheiro da Euterpe.
Vindo para Leopoldina no início dos anos 60, casou-se com a leopoldinense, Maria da Conceição Fajardo Oliveira, com quem teve os filhos: Fernanda, que é casada e tem um filho; Reinaldo, casado com dois filhos; e Juliana, solteira.
Além de seu trabalho na Banda Musical Princesa Leopoldina e de gerir uma propriedade rural – na qual tornou-se o primeiro grande criador de suínos sob técnica apura, no município – Rido tomou em suas mãos o aperfeiçoamento de nossa Casa de Cursilhos e a reforma da Capela do Asilo Santo Antonio.
De suas obras, entretanto, a que mais o emocionava era, sem dúvida, a Banda Musical Princesa Leopoldina.
Essa instituição foi criada em 1998, quando Rido liderou um grupo de amigos – ele, seu cunhado Nelito Barbosa Rodrigues, Ronald Alvim Barbosa, Rodrigo Arantes Queiroz e José do Carmo Rodrigues - e com eles, depois de algumas reuniões, logrou ver formada essa importante agremiação musical de utilidade pública.
De fundamental importância pra o projeto foi o apoio financeiro da Cia. Força e Luz Cataguases Leopoldina, obtido por Rido, para a compra de uniformes, instrumentos, etc, e a própria sede da Banda, em compartimento da Usina Cultural da Hidrelétrica, na Rua Lucas Augusto, 36.
Quem o acompanhava nas apresentações da Banda, percebia que ele mal podia conter a emoção de ver aqueles meninos pobres em suas belíssimas execuções.
Rido faleceu aos 60 anos, no dia 24 de agosto de 2003, às 9:30h, na Casa de Caridade Leopoldinense, vítima de uma fatal pancreatite. Como anotado no jornal LEOPOLDINENSE de 30 de agosto de 2003, Leopoldina perdia um amigo, um benemérito, um insubstituível homem de bem.
______
Obs. Nas fotos, oportunidade em que a Banda Musical Princesa Leopoldina participava de evento festivo nas ruas centrais da cidade; embaixo, Rido de Barros ladeado por Nelito Barbosa Rodrigues e pelo então presidente da Banda, José do Carmo Rodrigues, o jovem músico Tiago e um irmão de Rido, de camisa branca.
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(Publicado no LEOPOLDINENSE de 30 de agosto de 2003)
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Full of Life, now
***
by Walt Whitman
(1819-1892)
(1819-1892)
Full of life now, compact, visible,
I, forty years old the eighty-third year of the States,
To one a century hence or any number of centuries hence,
To you yet unborn these, seeking you.
When you read these I that was visible am become invisible,
Now it is you, compact, visible, realizing my poems, seeking me,
Fancying how happy you were if I could be with you and become your comrade;
Be it as if I were with you. (Be not too certain but I am now with you.)
***
Cheio de Vida, Hoje
Cheio de vida, hoje, compacto e visível
Eu, com quarenta anos de idade, no ano oitenta e três dos Estados,
A ti, dentro de um século ou muitos séculos,
A ti, que não nasceste, procuro.
Estás lendo-me. Agora o invisível sou eu,
Agora és tu, compacto e visível, quem intui os versos e me procura,
Pensando como seria feliz seu eu pudesse ser teu companheiro;
Sê feliz como se eu estivesse contigo. (Não tenhas muita certeza de que eu estou contigo.)
Nota de JCR: Nestes versos, “Cheio de vida, agora”, Walt Whitman nos manda – a nós, pessoalmente – sua mensagem emocionada. Ele se reporta a este momento entre ele e nós, hoje e aqui, diante de seus versos. Você e eu não éramos nascidos, e ele nos procurava!... Hoje, nós o procuramos!...
Sua bênção, Walt Whitman! Somos felizes, sim, como se você, nosso companheiro, entre nós estivesse.
(De fato, não temos certeza de que você esteja entre nós)
***
(Publicado no LEOPOLDINENSE de 29.11.2003)
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Lugares #
***
Novembro, 2003
Há uma coisa em Leopoldina que me incomoda bastante. Não ocorre apenas aqui. O problema é que quando acontece em nossa terra, mexe com a gente. São alguns designativos de logradouros que caem no esquecimento ou são substituídos, a meu ver, desnecessariamente. Falo só dos lugares da minha infância.
Alguém, por acaso, sabe que aquela área onde está, hoje, o Posto Imperial, a Aramil e o Hotel Santo Antonio, na saída de Leopoldina para o Rio de Janeiro, logo depois do Posto da Polícia Federal, tinha o lindo nome de Ponte Cheirosa - desde quando por ali existia apenas uma bela casa, com eira e beira, no terreno onde está edificado o hotel? Era a casa de Da. Manoela, sogra do Sr. Ranulfo Matola. A ponte devia ser cheirosa por causa das flores de açucena.
Quem vinha a cavalo, à cidade, ou de carro de boi, tinha ali o bebedouro dos animais. A estrada rural, paralela à BR, passava dentro d’água. O fundo do riacho era compactado, não atolava de jeito nenhum. Nem os pesados carros de boi, nem os animais.
Incomoda-me ouvir chamarem aquele lugar de Caiçaras.
Sei que o DNER acabou com a ponte, substituindo-a por manilhas, e que os irmãos, Paulinho e Chiquinho Resende, construtores do Posto Imperial, encanaram o riacho, que passa debaixo do Posto de Gasolina e do prédio deles. Mas chamar aquela região de Caiçaras é apelar para designativo sem nenhuma tradição local.
O Hotel Caiçaras nada mais foi que um projeto inacabado e logo demolido que praticamente não funcionou, ou funcionou por muito pouco tempo. O construtor, Sr. Fued, foi assassinado durante a obra. O negócio de bar e hotel naquele lugar claramente não tinha futuro. Nos anos 50 aquele ponto ficava muito distante da área urbanizada de Leopoldina, que começava na ponte sobre o Feijão Cru, na Rua João Neto. A Quinta Residência e o Arraial do Sapo se resumiam a, no máximo, quatro ou cinco casas. Era roça mesmo. Os restos dos alicerces do Hotel estão sepultados debaixo da balança da Polícia Rodoviária.
Outra pergunta: E o bairro que vai da Polícia Rodoviária até a lanchonete Seta? Por acaso alguém sabe que a localidade sempre foi denominada Bairro Santo Antonio, também conhecido como Bairro da Onça?
Agora um doce para quem souber que o local onde fica a lanchonete Seta, também na saída para o Rio de Janeiro, onde vão construir agora um posto de gasolina em frente, denomina-se Água Espalhada. As pessoas simples que ali residiam, na minha infância, diziam “Água Espaiada”...
Outro doce para quem souber que onde está o trevo da BR-116, no pé da Serra da Vileta, início da estrada para Juiz de Fora, sempre foi conhecido como Placa, embora parte da área maior, tradicionalmente referidaa como Constança. Ou seja, a Placa ficava na Constança. Era alusão à primeira placa de propaganda (outdoor) ali colocada, se não me engano anúncio da antiga concessionária Ford, do Sr. Acácio Serpa.
Estamos entendidos, portanto. O Sítio Puris, (onde fui criado), na altura do marco n°771 da BR-116, fica na Onça, próximo à Água Espalhada. Compra briga comigo quem disser que eu sou do Caiçaras. E olha que não é pela beleza do nome Onça, não, pois também é verdade que, num passado não muito distante – até 1950, mais ou menos – referiam-se, também, àquele lugar, entre a Onça e a “Água Espaiada”, como Cubu. Curva do Cubu. Sítio do Cubu.
Feio, não é? Mas Cubu nada mais é que uma bolacha de fubá, assada no forno de lenha. Devia ser pelo formato do morro, ao fundo. A Curva do Cubu é aquela fronteiriça à divisa do Sítio Puris (dos Machado Rodrigues) com o sítio pertencente aos herdeiros do Sr. Francisco Barreto Faria Freire. Um pouco antes dela, nas proximidades da jazida de saibro do sítio do Sr. Francisco Monteiro (ex sítio do Augusto Timbiras), situava-se a Fazenda da Onça, sobre os alicerces da qual passou, e ainda passa, a estrada Rio/Bahia – aberta lá pelo início dos anos 1940.
Como escreveu o poeta Ovídio, nomina sunt odiosa. Sim, às vezes os nomes são importunos.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicado no LEOPOLDINENSE de 29.11.03 e, revisto, aos 16.09.11
Novembro, 2003
Há uma coisa em Leopoldina que me incomoda bastante. Não ocorre apenas aqui. O problema é que quando acontece em nossa terra, mexe com a gente. São alguns designativos de logradouros que caem no esquecimento ou são substituídos, a meu ver, desnecessariamente. Falo só dos lugares da minha infância.
Alguém, por acaso, sabe que aquela área onde está, hoje, o Posto Imperial, a Aramil e o Hotel Santo Antonio, na saída de Leopoldina para o Rio de Janeiro, logo depois do Posto da Polícia Federal, tinha o lindo nome de Ponte Cheirosa - desde quando por ali existia apenas uma bela casa, com eira e beira, no terreno onde está edificado o hotel? Era a casa de Da. Manoela, sogra do Sr. Ranulfo Matola. A ponte devia ser cheirosa por causa das flores de açucena.
Quem vinha a cavalo, à cidade, ou de carro de boi, tinha ali o bebedouro dos animais. A estrada rural, paralela à BR, passava dentro d’água. O fundo do riacho era compactado, não atolava de jeito nenhum. Nem os pesados carros de boi, nem os animais.
Incomoda-me ouvir chamarem aquele lugar de Caiçaras.
Sei que o DNER acabou com a ponte, substituindo-a por manilhas, e que os irmãos, Paulinho e Chiquinho Resende, construtores do Posto Imperial, encanaram o riacho, que passa debaixo do Posto de Gasolina e do prédio deles. Mas chamar aquela região de Caiçaras é apelar para designativo sem nenhuma tradição local.
O Hotel Caiçaras nada mais foi que um projeto inacabado e logo demolido que praticamente não funcionou, ou funcionou por muito pouco tempo. O construtor, Sr. Fued, foi assassinado durante a obra. O negócio de bar e hotel naquele lugar claramente não tinha futuro. Nos anos 50 aquele ponto ficava muito distante da área urbanizada de Leopoldina, que começava na ponte sobre o Feijão Cru, na Rua João Neto. A Quinta Residência e o Arraial do Sapo se resumiam a, no máximo, quatro ou cinco casas. Era roça mesmo. Os restos dos alicerces do Hotel estão sepultados debaixo da balança da Polícia Rodoviária.
Outra pergunta: E o bairro que vai da Polícia Rodoviária até a lanchonete Seta? Por acaso alguém sabe que a localidade sempre foi denominada Bairro Santo Antonio, também conhecido como Bairro da Onça?
Agora um doce para quem souber que o local onde fica a lanchonete Seta, também na saída para o Rio de Janeiro, onde vão construir agora um posto de gasolina em frente, denomina-se Água Espalhada. As pessoas simples que ali residiam, na minha infância, diziam “Água Espaiada”...
Outro doce para quem souber que onde está o trevo da BR-116, no pé da Serra da Vileta, início da estrada para Juiz de Fora, sempre foi conhecido como Placa, embora parte da área maior, tradicionalmente referidaa como Constança. Ou seja, a Placa ficava na Constança. Era alusão à primeira placa de propaganda (outdoor) ali colocada, se não me engano anúncio da antiga concessionária Ford, do Sr. Acácio Serpa.
Estamos entendidos, portanto. O Sítio Puris, (onde fui criado), na altura do marco n°771 da BR-116, fica na Onça, próximo à Água Espalhada. Compra briga comigo quem disser que eu sou do Caiçaras. E olha que não é pela beleza do nome Onça, não, pois também é verdade que, num passado não muito distante – até 1950, mais ou menos – referiam-se, também, àquele lugar, entre a Onça e a “Água Espaiada”, como Cubu. Curva do Cubu. Sítio do Cubu.
Feio, não é? Mas Cubu nada mais é que uma bolacha de fubá, assada no forno de lenha. Devia ser pelo formato do morro, ao fundo. A Curva do Cubu é aquela fronteiriça à divisa do Sítio Puris (dos Machado Rodrigues) com o sítio pertencente aos herdeiros do Sr. Francisco Barreto Faria Freire. Um pouco antes dela, nas proximidades da jazida de saibro do sítio do Sr. Francisco Monteiro (ex sítio do Augusto Timbiras), situava-se a Fazenda da Onça, sobre os alicerces da qual passou, e ainda passa, a estrada Rio/Bahia – aberta lá pelo início dos anos 1940.
Como escreveu o poeta Ovídio, nomina sunt odiosa. Sim, às vezes os nomes são importunos.
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(Publicado no LEOPOLDINENSE de 29.11.03 e, revisto, aos 16.09.11
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Casamento a Prazo
***
Setembro, 2011
– Como é que é?
Tive conhecimento, então, de um “instituto” do Direito de Família que não constava das leis: o “Casamento por Contrato”. Soube depois que era prática bastante usual pelo interior do país. Pessoas legalmente impedidas de casar valiam-se de um “contrato de prestação de serviços domésticos” com alguma alusão oblíqua à vida em comum e... pronto! Passavam a pisar o mundo na condição de casadas.
Como os usos e costumes são fontes do direito, os tribunais vieram dando guarida a situações de fato, até que o novo Código Civil, de 2002, ocupou-se de regular a chamada União Estável. Hoje, tão legalmente válida quanto o próprio casamento.
Daí que, sem compromisso com a melhor exegese do direito e atento apenas ao que percebo no âmbito da sociedade que me cerca, estive pensando numa melhora, ainda maior, nas regras do casamento: dar-lhe uma cláusula de PRAZO.
É certo que a união de duas pessoas que se amam (nos dias fluentes, independente de serem elas do mesmo sexo) se materializa num contrato matrimonial, um contrato como outro qualquer. Opss! Seria mesmo um contrato como outro qualquer? Nem tanto. É um contrato em que a justiça costuma, não poucas vezes, meter o bedelho, seja para defender a mulher, seja para proteger filhos menores, seja para calibrar gargantas largas na divisão do butim separatório.
Antigamente, ou seja, até a Lei do Divórcio, de 1977, o contrato de casamento deveria valer “até que a morte os separe”. Costumes menos ortodoxos, todavia, se impuseram. Veio o divórcio, no princípio sujeito a condicionantes quanto ao tempo de casamento ou de separação, para agradar segmentos conservadores que a ele se opunham, ao final estabelecido sem restrições.
Com efeito, em 2010, através da chamada Emenda 66, todos os entraves ao divórcio foram para o espaço: a separação prévia tornou-se desnecessária e quem quiser casar-se agora, para divorciar-se daqui a dois minutos, está liberado. Ou seja, nisto o Estado não se intromete mais. A responsabilidade é toda dos cônjuges.
Estive pensando se, diante de tanta liberdade e de tanta instabilidade nos matrimônios, não poderíamos aperfeiçoar ainda mais o instituto do casamento introduzindo o Contrato de Casamento por Prazo Determinado. Algo similar, por exemplo, ao contrato dos atletas de futebol com os clubes.
Ora, se as estatísticas provam que, decididamente, os casamentos modernos não são para sempre, qual a razão de seguir-se insistindo nessa hipocrisia de contratar, e até jurar, o reverso do previsível? Se ninguém mais é capaz de sustentar uma conexão emocional que supere os tropeços mínimos da vida a dois, por que não estabelecerem, os nubentes, um prazo para seus casamentos? Deu certo, prorroga. Deu errado, tchau no vencimento! Não precisa divórcio.
– Filhos? Se forem “nossos”, despesas rachadas. – Bens? Comunhão parcial; apenas os resultantes do esforço comum pertencerão a ambos. Aliás, já é assim. Jogo limpo!
Acabaria também o constrangimento que os homens sentem, até de admitir para si mesmos, alguma simpatia por mulheres casadas. Eu, por exemplo, gostaria de estar à vontade para topar com a simpática Renata Vasconcelos na Ponte Aérea e perguntar:
Não seria um show de liberdade responsável? Se você gostou da ideia, ótimo. Vamos procurar, juntos, um deputado federal honesto (Ih, sujou!) que leve a plenário meu projeto de Casamento por Tempo Determinado. Não duvido, até, de um significativo aumento na durabilidade das uniões. Querem um exemplo?
Ruy Castro, no livro “Ela é Carioca”, conta que a modelo e socialite Ionita Salles Pinto, com seus 20 anos, em 1967, era uma das mulheres mais belas e desejadas do Rio de Janeiro, quando conheceu Jorginho Guinle na boate Le Bateau. O incorrigível playboy, simpático, mas baixinho e feinho que só ele, pediu-a em casamento na mesma hora. Vejam a perfeição da proposta feita à moça pelo conquistador magistral:
Proposta óbvia de casamento a prazo, igual à minha. Ela topou. Foram tão felizes que a união durou a eternidade de sete anos! Evidência de que este meu projeto tem pé e tem cabeça.
POLÔNIO (à parte) – Apesar de louco, ainda assim revela método.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicado em 15.09.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)
Setembro, 2011
Quando jovem estagiário num escritório de advocacia, meu primeiro susto foi
quando lá apareceu um casal pedindo que eu os casasse. Entendi que desejavam
providências na documentação a ser levada ao Cartório do Registro Civil, para
os proclamas. O advogado titular me acudiu:
– Zé o que eles querem é um Contrato de
Prestação de Serviços Domésticos. Um deles (ou ambos) deve ser impedido,
legalmente, de casar-se.
– Como é que é?
Tive conhecimento, então, de um “instituto” do Direito de Família que não constava das leis: o “Casamento por Contrato”. Soube depois que era prática bastante usual pelo interior do país. Pessoas legalmente impedidas de casar valiam-se de um “contrato de prestação de serviços domésticos” com alguma alusão oblíqua à vida em comum e... pronto! Passavam a pisar o mundo na condição de casadas.
Como os usos e costumes são fontes do direito, os tribunais vieram dando guarida a situações de fato, até que o novo Código Civil, de 2002, ocupou-se de regular a chamada União Estável. Hoje, tão legalmente válida quanto o próprio casamento.
Daí que, sem compromisso com a melhor exegese do direito e atento apenas ao que percebo no âmbito da sociedade que me cerca, estive pensando numa melhora, ainda maior, nas regras do casamento: dar-lhe uma cláusula de PRAZO.
É certo que a união de duas pessoas que se amam (nos dias fluentes, independente de serem elas do mesmo sexo) se materializa num contrato matrimonial, um contrato como outro qualquer. Opss! Seria mesmo um contrato como outro qualquer? Nem tanto. É um contrato em que a justiça costuma, não poucas vezes, meter o bedelho, seja para defender a mulher, seja para proteger filhos menores, seja para calibrar gargantas largas na divisão do butim separatório.
Antigamente, ou seja, até a Lei do Divórcio, de 1977, o contrato de casamento deveria valer “até que a morte os separe”. Costumes menos ortodoxos, todavia, se impuseram. Veio o divórcio, no princípio sujeito a condicionantes quanto ao tempo de casamento ou de separação, para agradar segmentos conservadores que a ele se opunham, ao final estabelecido sem restrições.
Com efeito, em 2010, através da chamada Emenda 66, todos os entraves ao divórcio foram para o espaço: a separação prévia tornou-se desnecessária e quem quiser casar-se agora, para divorciar-se daqui a dois minutos, está liberado. Ou seja, nisto o Estado não se intromete mais. A responsabilidade é toda dos cônjuges.
Estive pensando se, diante de tanta liberdade e de tanta instabilidade nos matrimônios, não poderíamos aperfeiçoar ainda mais o instituto do casamento introduzindo o Contrato de Casamento por Prazo Determinado. Algo similar, por exemplo, ao contrato dos atletas de futebol com os clubes.
Ora, se as estatísticas provam que, decididamente, os casamentos modernos não são para sempre, qual a razão de seguir-se insistindo nessa hipocrisia de contratar, e até jurar, o reverso do previsível? Se ninguém mais é capaz de sustentar uma conexão emocional que supere os tropeços mínimos da vida a dois, por que não estabelecerem, os nubentes, um prazo para seus casamentos? Deu certo, prorroga. Deu errado, tchau no vencimento! Não precisa divórcio.
– Filhos? Se forem “nossos”, despesas rachadas. – Bens? Comunhão parcial; apenas os resultantes do esforço comum pertencerão a ambos. Aliás, já é assim. Jogo limpo!
Tenho certeza que isto faria mais
felizes as pessoas, livres de compromissos mirabolantes, desconectados da
realidade hodierna. Lembram o Raul Seixas: “Porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo...” Maluco,
porém beleza.
Acabaria também o constrangimento que os homens sentem, até de admitir para si mesmos, alguma simpatia por mulheres casadas. Eu, por exemplo, gostaria de estar à vontade para topar com a simpática Renata Vasconcelos na Ponte Aérea e perguntar:
– Seu contrato com o maridão termina
quando? Ao que ela poderia retrucar com justa repulsa:
– Assinamos por vinte anos! E eu,
agravando a inconveniência:
– Estou disposto a assumir a multa rescisória...
Não seria um show de liberdade responsável? Se você gostou da ideia, ótimo. Vamos procurar, juntos, um deputado federal honesto (Ih, sujou!) que leve a plenário meu projeto de Casamento por Tempo Determinado. Não duvido, até, de um significativo aumento na durabilidade das uniões. Querem um exemplo?
Ruy Castro, no livro “Ela é Carioca”, conta que a modelo e socialite Ionita Salles Pinto, com seus 20 anos, em 1967, era uma das mulheres mais belas e desejadas do Rio de Janeiro, quando conheceu Jorginho Guinle na boate Le Bateau. O incorrigível playboy, simpático, mas baixinho e feinho que só ele, pediu-a em casamento na mesma hora. Vejam a perfeição da proposta feita à moça pelo conquistador magistral:
– Ionita, tenho 52 anos e você tem 20. Dê-me dois anos de sua vida. Para
você, isso não é nada. Para mim, é uma vida inteira.
Proposta óbvia de casamento a prazo, igual à minha. Ela topou. Foram tão felizes que a união durou a eternidade de sete anos! Evidência de que este meu projeto tem pé e tem cabeça.
POLÔNIO (à parte) – Apesar de louco, ainda assim revela método.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicado em 15.09.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)
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