Powered By Blogger

Total de visualizações de página

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Joaquim Antonio Dutra

-
(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE)
-
Dentre os muitos vultos da história leopoldinense, talvez Joaquim Antonio Dutra seja o mais injustiçado pelo silêncio da nossa história municipal. Joaquim Antonio jamais é citado, jamais homenageado. Não empresta nome a uma rua sequer, a uma praça, a uma escola, a um prédio público de Leopoldina. Só em Piacatuba há uma rua com o nome dele.

Não obstante foi figura das mais notáveis, como político e médico, na Leopoldina do final do Século IX. Médico, Fundador da Casa de Caridade Leopoldinense, Vereador, Presidente da Câmara (cargo que na época equivalia a Prefeito), Deputado, duas vezes Senador Estadual por Leopoldina - na primeira delas o candidato mais votado do Estado de Minas.

Joaquim Antonio Dutra nasceu em São João Nepomuceno em 21.08.1853, possivelmente nas terras de sua família na serra dos Dutras, na divisa de São João com Piacatuba. Era filho de Antonio José Dutra e Joaquina Maria Guerra d’Assumpção. Pelo lado paterno, neto de Maria Joaquina d’Assumpção e José Dutra Nicácio, a quem S.J. Nepomuceno homenageia com a rua Cel. José Dutra. Pelo lado materno era neto e afilhado de Antonio Vicente Rodrigues Guerra.

Em 17.01.1881 Joaquim Dutra casou-se com Eugênia Murgel Dutra, filha de Maurício Murgel e Maximiana Araújo.

As primeiras letras ele as fez em sua cidade natal. Cursou humanidades em Teresópolis (RJ), de onde rumou para o Rio de Janeiro para, em 02.12.1881, graduar-se em medicina pela Faculdade Nacional de Medicina daquela cidade. Concluiu sua residência médica no Hospital São João Batista, de Niterói, vindo clinicar e dedicar-se à lavoura em São João Nepomuceno, Piacatuba e Leopoldina.

Segundo Joaquim A. Moretzsohn, em “História da Psiquiatria Mineira”, p.185, “aliando seus conhecimentos de clínica médica ao seu permanente apego aos livros e ainda à vocação humanística, pouco a pouco, foi abraçando a psiquiatria, fazendo dela sua real especialização e tornando-se um distinto especialista. Contemporâneo dos famosos psiquiatras Juliano Moreira e Franco da Rocha, mantinha com eles lúcida e científica troca de informações....”
De seus estudos resultou o trabalho literário denominado “Notícia Histórica sobre a Assistência a Alienados em Minas Gerais”, publicado em 1933.

No ano de 1882 Dutra aparece como sendo médico em sua terra natal, São João Nepomuceno e, a 07.01.1883, é eleito para o cargo de vereador para a primeira câmara daquela cidade. A partir de 1885 passa a exercer a medicina em Leopoldina.

George C. A. Boehrer em seu livro “Da Monarquia à República”, traduzido por Berenice Xavier, do Serviço de Documentação do Ministério da Educação, alude à página 138 ao deputado Joaquim Dutra Nicácio, eleito pelo 9º distrito em 1888, e que aderiu à causa republicana. Nota-se, no entanto que, pela Revista do Arquivo Público Mineiro, nesse ano só havia o deputado Joaquim Antonio Dutra, da 27ª e última legislatura. Parece, pois, haver equívoco daquele autor, tratando-se, com efeito, do Dr. Joaquim Antonio Dutra, no caso, já nosso deputado à Assembléia Mineira, em 1988.

Evidência maior dessa realidade é que, com a instalação da República, em 1889, ele integrou a Assembléia Constituinte do Estado. Em 1890, segundo a Gazeta de Leopoldina, de 24.04.1892, o Dr. Joaquim Antonio Dutra foi eleito vereador em Leopoldina. Já em 30.07.1893, na eleição para preenchimento de quatro vagas surgidas na câmara, de novo elegeu-se deputado, segundo as Efemérides Mineiras (1664 –1897), de José Pedro Xavier da Veiga p. 719.

Participou dos trabalhos parlamentares de votação da mudança da capital, juntamente com Francisco Salles, Levindo Lopes, Domingos Viotti, Wenceslau Braz, Júlio Bueno Brandão, Gama Cerqueira, David Campista e outros, onde assumiu posição contrária à mudança.

Registros do Dr. Joaquim Custódio Guimarães, em “História da Medicina em Leopoldina”, informam que a 18.09.1893 os Drs. Otaviano Costa e Joaquim Antonio Dutra foram nomeados para “verificar e extremar os limites do município de Leopoldina”. Além de médicos, diz o autor, cumpriram eles tarefas de engenheiros.

Dutra fazia parte da comissão de saúde da Câmara Municipal de Leopoldina e foi um dos que aprovaram a lei nº 24, de setembro de 1894, que criou a Casa de Caridade Leopoldinense.

Consta do jornal O Leopoldinense, de 09.09.1894, a informação de que, na eleição municipal daquele ano o Dr. Ernesto de Lacerda foi eleito Agente Executivo e o Dr. Dutra, médico na Piedade (Piacatuba), foi escolhido vereador especial por aquele distrito. E ainda nesse mesmo jornal está a notícia de que fixara residência em Leopoldina o Dr. José Monteiro Ribeiro Junqueira que, a 15.11.1894 se elegeu deputado estadual e, posteriormente, veio a se tornar adversário político do Dr. Dutra.

Dois meses depois, em 04.11.1894, o mesmo jornal O Leopoldinense informa que esteve na cidade o Dr. Joaquim Antonio Dutra, digno Agente Executivo do Município, residente na Piedade. E na edição seguinte o periódico trás a notícia de que foram eleitos Presidente da Câmara (Prefeito) o Dr. Joaquim Antonio Dutra e, vice presidente, o Ten. Cel. Manoel Lobato Galvão de São Martinho.
É a partir dessa administração municipal, do Dr. Dutra, que a cidade de Leopoldina passou a contar com rede de esgoto e água encanada.

Na 15 de novembro de 1894, Joaquim Antonio Dutra foi eleito para o Senado Mineiro, com a maior votação de todo o Estado, segundo O Leopoldinense do dia 18/11. Este mesmo jornal, na edição de 01.12.1894, informa que o Dr. Dutra, Presidente da Câmara de Leopoldina, solicitou ao governo do Estado e ao Ministro da Viação a interrupção do tráfego do trem para Leopoldina a fim de evitar a chegada do cólera.

Deu-se que, com a paralisação do trem, a cidade passou a ter sérios problemas de abastecimento, o que provocou um aumento assustador nos preços e exigiu do Dr. Dutra convocação de reunião com os comerciantes da cidade para resolver o problema.

Apesar de eleito senador, em 15.11.1894, O Leopoldinense de 06.01.1895 informa que Dutra esteve entre os vereadores de Leopoldina, empossados em 03.01.1895. Esse jornal, em número de 27.01.1895, narra que “tendo se espalhado na tarde de 21 do corrente a notícia de que o Dr. Dutra havia renunciado ao cargo de Vereador Geral e Presidente da Câmara, a população se reuniu para pedir que desistisse dessa idéia”. Lideradas pelos Dr. Ribeiro Junqueira, Dr. Teixeira e Randolpho Chagas, várias pessoas foram até ao Dr. Dutra para convencê-lo de que o povo precisava dos seus serviços e do seu sacrifício, pedindo-lhe para permanecer no cargo. Pelo visto seria possível a acumulação.

Em março de 1895 era ele o Agente Administrativo (Chefe do Executivo Municipal) interino de Leopoldina, na ausência do titular, o comendador Lucas Augusto Monteiro de Barros e, a 15.04.1895, segundo o jornal O Leopoldinense de 21 daquele mesmo mês, “seguiu para Ouro Preto, para tomar parte nos trabalhos do congresso, o Sr. Senador, Dr. Joaquim Antonio Dutra, que há pouco deixou o governo municipal, cujo cargo principal exercia.”

Nessa mesma época seguiu, também, para tomar posse no congresso mineiro, como deputado, o Dr. Ribeiro Junqueira, que tempos depois, na disputa pelo mesmo espaço político regional, iria divergir do Senador Joaquim Antonio Dutra.

Dutra e Ribeiro Junqueira, como se vê, eram políticos de uma mesma base eleitoral, a região de Leopoldina, e cujos pontos de vista nem sempre coincidiam. Jornais da época citam, inclusive, várias ocasiões em que os dois estiveram em posições divergentes.

“Notas e Epístolas”, obra de Estevam de Oliveira, p. 152, registra uma das ocasiões em que esta divergência se fez bastante clara quando o Dr. Ribeiro Junqueira assumiu posição contrária a Silviano Brandão, o que se traduziria, segundo o autor, em simples desafogo contra o candidato oficial, o senador Joaquim Dutra, antagonista local.

Profícua foi a atuação de Dutra no senado. O jornal O Leopoldinense de 28.04.1895, trás a notícia de que foi apresentado ao senado seu projeto sobre a encampação da rede mineira da Estrada da Leopoldina. Logo em seguida ele propõe e é aprovado, substitutivo sobre o serviço sanitário no Estado, com o qual procurava garantir o Tesouro Mineiro, a moralidade eleitoral e os princípios democráticos.

Pouco depois, a 27 de setembro de 1896, a Gazeta de Leopoldina noticia que o Presidente da Câmara era o ilustre clínico, Dr. Joaquim Antonio Dutra. Neste mesmo ano de 1896 ele é eleito 2º Secretário do Senado Mineiro e em 1897 é escolhido para 1º Secretário daquela Casa Legislativa.

Em 14.11.1897 é eleito deputado à Assembléia Provincial de Minas Gerais e, em 1898, reeleito para o Senado.

Quanto ao local onde teria residido em Leopoldina, diz a Gazeta de Leopoldina de 27.02.1898 que ele possuía sua chácara próxima ao Colégio Leopoldinense.

Candidato a deputado federal nas eleições de 31.12.1899, renuncia no dia 28 de dezembro daquele ano em razão de incidentes políticos ocorridos em Carangola (MG), envolvendo o candidato oposicionista João Batista Martins, cuja vida o Dr. Dutra consegue salvar. Paulo Mercadante, em “Crônica de uma Comunidade Cafeeira”, p. 75, conta como esse incidente de desenrolou e a participação mediadora assumida pelo Dr. Dutra.

Joaquim Dutra foi também grande defensor da cidade de Barbacena. Já em 1899, lutou tenazmente contra um projeto que dispunha sobre a divisão administrativa do Estado e que, se aprovado, desfalcaria Barbacena de grande parte de seu território, que seria incorporado a municípios vizinhos.
Em 1900 é eleito Vice-Presidente do senado mineiro. Grande colaborador e amigo do então Presidente do Estado de Minas, tornou-se um dos mentores da lei nº 290 que criou a assistência a alienados em Minas Gerais, promulgada em 16.08.1900 pelo Dr. Francisco Silviano Brandão.
Não obstante, em 1902, segundo o relatório da Casa de Caridade de Leopoldina, ele ainda era seu diretor.

João Baptista Magro Filho, em “A Tradição da Lavoura”, p. 28, dá notícia de que “o projeto de criação da Assistência a Alienados e depois sua regulamentação através do decreto nº. 1579-A, de 21.02.1903, foi elaborado pelo médico e senador Joaquim Dutra, que acabou designando a cidade de Barbacena como local para ser instalada a Assistência aos Alienados.” E na página seguinte desta mesma obra, o autor esclarece que a criação do Hospital Psiquiátrico de Barbacena está ligada à dinâmica da singular política mineira, dinâmica da qual faz parte a designação do Dr. Joaquim Dutra para chefiar a assistência.

Astolfo Dutra Nicácio conta, na Biografia de Astolfo Dutra, à pág. 135, que, em 1903, após a morte de Silviano Brandão (Presidente do Estado de Minas), agravaram-se os problemas políticos do deputado Astolfo Dutra em Leopoldina. Naquele ano o Dr. Joaquim Dutra, seu primo e cunhado, prestigioso político naquela cidade, abandonou a política indo dedicar-se exclusivamente à medicina. Portanto foi no ano de 1903 que Dutra deixou a política e deixou Leopoldina para ir dedicar-se inteiramente à psiquiatria, em Barbacena.

Para o jornal O Novo Movimento, editado em Leopoldina em 28.08.1910, “o Dr. Joaquim Antonio Dutra era o ilustre diretor da assistência a alienados de Barbacena que, em Leopoldina, prestou relevantes serviços, deixou muitos amigos e admiradores de suas belas qualidades.”

Em 1931, quando da última sessão da Sociedade Médico-Cirúrgica de Belo Horizonte, foi apresentada a plenário, e aprovada por unanimidade, a seguinte moção:
- “Fazem hoje 30 anos que foi decretada a primeira lei de assistência a alienados no Estado de Minas. Um acontecimento de relevante significação nos anais da medicina brasileira, está a se aproximar, envolto em sufrágios que prometem a comemoração do silêncio. Completará trinta anos à frente dos serviços da assistência a alienados na Colônia de Alienados, o Dr. Joaquim Dutra.
Um dos maiores mentalistas da Rússia, P.J. Kovalevsky, professor de Psiquiatria da Universidade de Kharkoff, afirmou que todo médico que permanecesse durante dez anos à frente de um estabelecimento de doentes mentais, deveria ser condecorado com a Cruz de São Jorge. O endosso de tal asserção não cabe apenas ao preposto egrégio de tão alto magistério, mas a um didata que logrou enorme renome na ciência mundial repercutindo em cenáculos de sábios com o hononariato da Sociedade Médico-Psicológica de Paris, a Sociedade de Freniatria da Itália, a American Assossiation for the Cure Inebriates, a Sociedade de Medicina Legal de Nova York. Dez anos valem, pois, no referido posto, a Cruz de Ferro do Martírio Moscovita, assim o entende a meditada experiência daquele eminente freniatra.”

Em outro trecho da moção e reconhecendo o emérito valor daquele que se queria homenagear, diz o proponente:
- “Na fria Rússia, cingir-lhe-iam ao peito três cruzes simbólicas do martírio moscovita; entre outras gentes, a gratidão médica lhe faria repercutir para a posteridade, os ecos de um escopo na heráldica de um cinzel; entre nós, neste século de surpresas e de simulações, em que se plasmam gênios, se decretam competências e se improvisam apóstolos, seria necessário que a Associação Médico-Cirúrgica de Minas Gerais resolvesse comemorar a data do trigésimo aniversário de Joaquim Dutra à altura dos estilos à antiga, senão pelos méritos dele, por memoreação ao fagedenismo moral que nos assola, com o seu cortejo de vergonhas e dissabores”.

Como justa e reconhecida homenagem ao seu verdadeiro valor e capacidade, a municipalidade barbacenense, em 1932, deu o seu nome a uma via pública da cidade e, em 17.10.1936, após 33 anos como diretor do Hospital Colônia, em Barbacena, Dr. Dutra aposentou-se.

Ainda em 36, foi eleito Juiz de Paz naquela cidade. Aos 16.10.1943, para a consternação geral de seus parentes e amigos, falece em Barbacena, poucos meses depois de completar 90 anos de idade.

Joaquim Antonio Dutra e sua esposa Eugênia Murgel tiveram doze filhos: Eugênia, Dulce, Waldemar, Omar, Joaquim, Consuelo, Graziela, Agmar, Maurício, Margarida, Beatriz e Orôncio.

Com estas notas, rendemos nosso culto e homenagem a esse grande político que tanto serviu Leopoldina no fim do Século IXX e início do Século XX, e cuja expressão e notoriedade não se compadecem com o injusto ostracismo a que, por aqui, vem sendo relegado através dos anos.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪

NOTA: Todos os conteúdos biográficos utilizados neste trabalho são frutos exclusivos de pesquisas da historiadora e genealogista, Nilza Cantoni, a quem agradecemos. Consigna ela agradecimentos pela documentação disponibilizada ao Dr. Eugênio Klein Dutra, advogado, oficial do 6º Ofício do Registro de Imóveis de Belo Horizonte e neto do Dr. Joaquim Antonio Dutra.

O trabalho original de Nilza Cantoni está disponível em:
http://www.cantoni.pro.br/ArtigosPapel/JADutra.htm
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Bianor

***
Foto: Jornal LEOPOLDINENSE

(Texto publicado no jornal LEOPOLDINENSE de 31.10.2006)


Outubro, 2006

Sei que muitos leopoldinenses, principalmente o pessoal da velha guarda que hoje mora fora de Leopoldina, costuma transitar por esta página em busca de notícias da terrinha. Detesto falar de coisas tristes, mas trago hoje uma péssima notícia.

Disse o poeta Mario Quintana, que há pessoas que passam e há pessoas que “passarinho”. Meu fraternal amigo, Bianor, virou passarinho.

Leopoldina acaba de perder um de seus filhos mais queridos. Isto mesmo, faleceu às 6:30h, da última segunda-feira, 23 de outubro, o músico, ex-sapateiro, e professor de violão, Bianor Vitor de Campos

Foi sepultado na terça-feira, às 8 horas, no cemitério local.

Bianor vinha sofrendo do mal de Alzheimer, mostrava-se fisicamente bastante abatido nas últimas semanas, vindo a falecer em casa durante o sono. No dia anterior, domingo, saíra para caminhar um pouco com a filha Norma mas, sem força nas pernas, regressou logo. À noite, recolheu-se como de costume e não mais despertou.

Como Leopoldina inteira sabe, Bianor sempre foi pessoa amplamente conhecida e estimada na cidade por seu boníssimo coração, sempre alegre, simpático, comunicativo, espiritualista, solidário com os que o procuravam em busca de ajuda − principalmente ajuda espiritual. Pessoa de finíssimo trato, pai de família extremoso, professor de violão de várias gerações de leopoldinenses e violonista emérito.

Figurou como um dos membros da famosa “Leopoldina Orquestra”, que fez a alegria dos Clubes Sociais leopoldinenses e de cidades vizinhas, nos chamados Anos Dourados.

Era natural do Distrito de Piacatuba, onde nasceu aos 10 de julho de 1924, filho de Gabriel Vitor de Campos e Rita Catarina de Cássia. Desaparece aos 82 anos.

Bianor sempre viveu em Leopoldina, mas prestou serviço militar no Rio de Janeiro, no quartel de Deodoro, onde serviu como ordenança de um Oficial que viria tornar-se Presidente da República – o General João Baptista de Figueiredo.

De regresso à nossa terra casou-se, em 22 de dezembro de 1949, com Da. Hilda Vitório de Campos, com quem teve os filhos: Norma, solteira, residente em Leopoldina; Flávio (falecido); Beatriz, solteira, residente em Leopoldina; Ione (falecida); e Euza, casada, residente em Brasília. Deixa, ainda, a neta Flávia Rosália de Campos, filha de Flávio.

Já saudoso dos abraços e do sorriso bom do amigo Bianor, desejo manifestar à Da. Hilda e filhos sentimento de grande pesar por tão sentida perda, certamente tida na conta de irreparável por todos os corações leopoldinenses.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada no jornal LEOPOLDINENSE de 31 de outubro de 2006)

Átila Lacerda da Cruz Machado

-
(Publicada como crônica no jornal LEOPOLDINENSE)
-
O estimado e culto cidadão leopoldinense Átila Lacerda da Cruz Machado nasceu, na verdade, em Barbacena, no dia 22 de dezembro de 1911. Filho do Dr. Áttila Brandão da Cruz Machado e de Da. Clariêta Lacerda da Cruz Machado.

Iniciou e completou seus estudos em Barbacena, vindo a obter, mais tarde, a “Carteira Oficial e Internacional de Radiotelegrafista da República dos Estados Unidos do Brasil”, no Departamento de Correios e Telégrafos do Distrito Federal.

Chegou a Leopoldina no dia 31 de maio de 1931 com incumbência de montar a Estação Radiotelegráfica do Estado de Minas Gerais. Nela exerceu sua profissão até aposentar-se.

Em 27.2.1935, casou-se com Herondina Domingues da Cruz Machado, leopoldinense, filha de Raphael Domingues e de Da. Idalina Gomes Domingues, com quem teve cinco filhos: Helenice, Lincoln, Maria, Raphael e Míriam.

Espírita convicto, ajudou na reestruturação do Centro Espírita “Amor ao Próximo”, elaborando seus novos Estatutos, a partir de 5.9.1937, tornando-se seu presidente por várias gestões, vice-presidente e secretário. Durante sua administração naquela Casa, Átila criou a Escola de Evangelização “Bezerra de Menezes”, para crianças, e a Mocidade Espírita “Dias da Cruz”, para jovens.

Fundou, com outros abnegados irmãos de crença, o Albergue Noturno “Major Zeferino”, notável obra social que se localiza na rua Santa Filomena.

Durante 49 anos dedicou-se à causa do Espiritismo com Jesus, levando a todos que o buscavam a palavra esclarecedora, o conselho amigo, exercendo, incansavelmente, a caridade moral e material, sem alarde ou ostentação, além de usar a tribuna espírita para exposições da Doutrina, tanto em Leopoldina quanto em cidades vizinhas.

Muito atuante, Àtila sempre foi solidário com a dor e os problemas do próximo, demonstrando no seu dia-a-dia coerência com a crença abraçada. Sempre íntegro e digno, cativava o respeito e a admiração dos que passavam a conhecê-lo de perto.

Ajudou a fundar o Rotary Clube de Leopoldina e, rotariano entusiasta, realizou, durante 27 anos, várias conferências rotárias, nacionais e internacionais, no próprio Clube e em diversos outros. Recebeu o título de “Sócio Honorário de Rotary”.

Oriundo da Loja Maçônica “Regeneração Barbacenense”, fundou a Loja Maçônica “27 de Abril” de Leopoldina, na qual foi Venerável durante os três primeiros anos e onde ocupou, mais tarde, outros postos. Recebeu do Grande Oriente do Brasil o título de “Maçon Emérito”.

Em 1958, eleito vereador e líder da Câmara Municipal de Leopoldina, na administração do Dr. Jairo Salgado Gama, teve oportunidade de prestar vários serviços à cidade.

Em 1977, foi-lhe outorgado o título de “Cidadão Leopoldinense”. Autodidata, publicou trabalhos de cunho rotário, político, poético e religioso na Gazeta de Leopoldina, jornal “Ilustração”, O Roteiro, Revista Rotária, Jornal do Rotary Clube de Leopoldina.
Publicou, na revista Acaiaca, de Belo Horizonte, em número especial, o poema “Cidade Menina”, de sua autoria, por ocasião do Centenário de Leopoldina, em 1954 - mês de março, pág. 81. Na revista rotária, Anais da Conferência do Jubileu de Ouro do Distrito 118, escreveu “A Luta Pelas Posições Chave” - pág. 126.

Idealista, simples, sensível às necessidades humanas e sociais, Átila Lacerda da Cruz Machado, apelidado pelo rotarianos “A Patativa de Caxambu”, em virtude de memorável alocução sua naquela cidade, escreveu com o coração, deixando espelhar em sua obra, um vida marcada pela preocupação com a elevação espiritual do ser humano, o amor a Deus e ao próximo.

Seu desenlace ocorreu em sua residência, de maneira tranqüila, na manhã do dia 26 de dezembro de 1980, aos 69 anos, rodeado pelo amor e o carinho da esposa, filhas, genros e netos. Na verdade, sua vida foi, sem sombra de dúvida, a vida de um justo, de um verdadeiro espírita cristão. A vida de um grande leopoldinense e, pela unanimidade dos que o conheceram, a vida de um homem exemplar.

₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Carlos Coimbra da Luz

***
Setembro, 2002

Dizer que conheci, pessoalmente, o deputado e ex-presidente, Carlos Luz, seria pretensioso. Apenas o via esparsas ocasiões, quando estudante. Em Leopoldina dos anos 50 era possível encontrá-lo caminhando com algum amigo em torno da arena central do Parque de Exposições, nas festas de meio de ano. Um desses amigos, algumas vezes, foi certamente o Sr. Francisco Gama de Oliveira, ex-secretário da Câmara Municipal em seu tempo de vereança.

No Rio de Janeiro, onde passei a residir a partir de 1958, cruzei com ele em duas ou três ocasiões na Rua da Quitanda. Por ali ficava seu escritório e uma filial do Banco Ribeiro Junqueira, do qual era diretor. Na época, mencionavam certo hábito que ele teria de freqüentar a Estação da Estrada de Ferro Leopoldina, na Av. Francisco Bicalho, para contatar correligionários vindos de trem, à Capital. Em 58, entretanto, por obra das estrada Rio-Bahia, a hoje BR-116, o trem já deixara de ser opção de transporte de passageiros para os habitantes da Mata Mineira.

Uma única vez realmente “estive” com o Dr. Carlos Luz e até recebi dele um abraço. Permitam-me lembrar a honrosa circunstância com cuidados de Cecília Meireles, no seu Mar Absoluto: “Não digas aos que encontrares que fui conhecida tua. - Quando houve, nos largos mares, desenho certo de rua? E de teres visto luares, que ousarás contar da lua?”

Foi na manhã de 7 de setembro de 1957. Comemorávamos o feriado nacional em Leopoldina com o estrépito habitual. Burburinho de gente pela Cotegipe, colégios secundários em uniforme de gala, grupos escolares, bandas de música e o nosso Tiro de Guerra alardeando metralhadoras nos tarois e canhonaços de bumbo. Esticava-se o cortejo pela rua principal indo desaguar na Félix Martins onde outra multidão se aglomerava em torno do palanque das autoridades, um ripado erguido em frente ao Forum.

Soldado “caçador de rolinhas” (era como jocosamente se referiam aos atiradores), equilibrando na quina do ombro um “fuzil mauser modelo brasileiro 1908”, caprichava eu no impacto seco do calcanhar contra as pedras quando soou o “alto”, bem em frente ao estrado de madeira onde pontificavam, o Prefeito Zequinha Reis e o Deputado e ex-Presidente, Carlos Coimbra da Luz. O parque entupido de gente.

Sendo eu o “homem da tropa” designado a pronunciar o discurso sobre o Dia da Pátria, estava tenso, porém preparado. Com orientação de minha mãe, professora, estudara com atenção o que constava no livro do Rocha Pombo sobre o Sete de Setembro. Tanto assim que, anunciado meu nome, galguei de um salto o palanque sem contornar pela escada (Pelas instruções do nosso Sargento comandante do TG, o soldado devia avançar sempre em linha reta) e, fazendo das palavras do mestre as minhas palavras, devo ter dado razoável conta do recado porque, generoso, o Dr. Carlos Luz parabenizou-me com um efusivo abraço para, em seguida, abonar minha fala com alusão em seu discurso a certa passagem “aqui tão bem lembrada pelo bravo soldado que me antecedeu...”

A Gazeta de Leopoldina, de 5/09/57, registrou o encontro com pormenores. Na home page do provedor CEFETLEO, há um repertório de imagens antigas de Leopoldina onde se vê a foto do referido palanque, exatamente sob a rubrica “palanque”.

Um moço de dezenove anos viveu ali seus quinze minutos de glória. Ao historiador e acadêmico da ABL, Rocha Pombo, toda a honra e toda a glória!

BIOGRAFIA

Advogado, político, jornalista e banqueiro, Carlos Coimbra da Luz, o homem público de maior projeção do município de Leopoldina, em todos os tempos, nasceu na cidade de Três Corações, MG, a 4/8/1894, tendo falecido no Rio de Janeiro, em 9/2/1961.

Era filho do Desembargador Alberto Ribeiro da Luz e de Da. Augusta Coimbra da Luz. Passou a infância na cidade de Lavras, onde completou humanidades no Instituto Gamon, recebendo o grau de Bacharel em Ciências e Letras em 1911, quando ingressou, como praticante, na Secretaria do Interior de Minas.

Em 1915 colou grau em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Faculdade Livre de Direito de Minas Gerais e foi nomeado Secretário do Conselho Superior de Instrução Pública. Chegou a Leopoldina, onde faria sua vida pública, no ano de 1916, no cargo de Delegado de Polícia.

Casou-se em 19/1/1920 com Da. Maria José Dantas Luz, filha do engenheiro José Dantas e de Da. Lydia de Rezende Dantas. De 1918 a 1923 ocupou a Promotoria Pública de Leopoldina e, de 1920 a 1923 dirigiu a “Gazeta de Leopoldina”.

Em 1923, eleito Presidente da Câmara Municipal, torna-se o Prefeito de Leopoldina, de 1923 a 1926. Em 1927 é reeleito Prefeito, realizando várias obras importantes na cidade.

Com o falecimento de sua esposa em 28/8/1924, contrai novas núpcias, em 30/6/1927, com Da. Graciema Junqueira da Luz, filha do Dr. Custódio Monteiro Ribeiro Junqueira e de Da. Emereciana Botelho Reis Junqueira. No final dos anos 20 dirige o Movimento da Aliança Libertadora, em Leopoldina, articulado com o Cel. Cristóvão Barcelos, com quartel-general instalado em Recreio.

A Revolução de 1930 o reconduz à Prefeitura de Leopoldina em 1931. Em 1932 é nomeado Secretário de Agricultura, Viação e Obras Públicas do Governador de Minas, Olegário Maciel e, com a morte deste, do governo interino de Gustavo Capanema. Deixa o cargo somente em 1933, quando se torna Secretário do Interior, na interventoria de Benedito Valadares, função em que vem a exercer o comando da Força Pública do Estado por diversas vezes.

Em 1934 é eleito Deputado Federal elegendo-se, na Câmara, Delegado Representante na Junta de Investigação dos Crimes do Presidente da República e Membro da Comissão de Finanças e Orçamento. Em 1937 é o líder da maioria mas advém o fechamento do Congresso.

Na ditadura ocupa o Conselho Administrativo da Caixa Econômica do Rio de Janeiro, a partir de novembro de 1937. Em 1938 torna-se Vice-Presidente da instituição e, em julho de 1939, seu Presidente, cargo em que permanece até 1942.

Elegeu-se Deputado Federal pelo PSD mineiro à Constituinte de 1945. Não tomou posse, entretanto, por ter sido nomeado Ministro da Justiça do Governo de Eurico Gaspar Dutra.

Em 1946 é escolhido Embaixador Especial à posse do Presidente eleito da Argentina, ocasião em que inaugura, em Buenos Aires, o busto de Tiradentes. Candidato ao governo de Minas em 1946, retira seu nome em favor de Wenceslau Bráz.

Em 1947, é eleito Deputado Federal com a maior votação jamais obtida no Brasil, por um deputado: 327.000 votos. Novamente eleito para a Câmara Federal em 1950, permanece como Relator do Orçamento da Fazenda, na Comissão de Finanças, de 1951 a 1954, quando é reeleito para a legislatura seguinte.

Escolhido Presidente da Câmara dos Deputados, é empossado no dia 3/2/1955. Entre 19 e 29 de abril de 55, substitui o Presidente Café Filho em visita de 11 dias a Portugal. Aos 8 de novembro desse mesmo ano, sob forte tensão política, vem a assumir novamente a Presidência da República, como substituto constitucional do titular, Café Filho, acometido de súbito distúrbio cardiovascular.

Nesta segunda ocasião em que assume a Presidência da República é deposto por um movimento militar, aos 11/11/1955, e declarado impedido para o exercício da Presidência, pelo Congresso.

Em entrevista à revista "O Cruzeiro", de 3 de dezembro de 1955, afirmou: -"Fui Presidente da República por 48 horas, mas guardarei para sempre os momentos emocionantes que vivi no exercício do cargo nesse curto espaço de tempo."

O FATO HISTÓRICO

Tudo começou quando nas primeiras horas do dia 24/8/1954, no desfecho de uma aguda crise político-militar, após receber um ultimato de oficiais das Forças Armadas para que renunciasse, Getúlio Vargas suicidou-se. A insidiosa trama golpista que levou Getúlio à morte não logrou, entretanto, viabilizar seu projeto de tomada direta do poder pelos militares. Grande mobilização popular em contrário ocorrida no Rio, São Paulo e Porto Alegre garantiu a posse do Vice, Café Filho, no mesmo dia do suicídio.

Deu-se, todavia, que Café muito identificado com as posições anti-getulistas da UDN (partido que, liderado por Carlos Lacerda, encabeçava o golpe), veio a compor primeiro e segundo escalão de seu governo com maioria de políticos e militares de oposição ao governo Vargas. Dir-se-ia até, naquele momento, que a UDN derrotara Getúlio Vargas. Mas o tempo demonstraria que mesmo morto Vargas continuaria a influir poderosamente.

Tanto que para as eleições de outubro daquele ano os trabalhistas já haviam lançado, em abril, a candidatura de Jango na chapa de Juscelino Kubitschek, reeditando a aliança PSD/PTB para reconduzir ao poder as forças dele alijadas com o desaparecimento de Getúlio.

Foi afrontando oposição militar às suas candidaturas que Juscelino e João Goulart venceram as eleições contra Juarez Távora (UDN, o ex-tenente "Vice-rei do Norte"), Ademar de Barros (Partido Social Progressista de São Paulo, legenda pela qual o vice de Vargas, Café Filho, se elegera) e Plínio Salgado (ex-AIB, então PRD).

Derrotada, a UDN levantou óbice à posse dos eleitos por não terem alcançado a maioria absoluta dos votos... condição, aliás, não prevista na Constituição. Dissuadida mais tarde a reconhecer inconsistência no argumento, passou a conclamar setores mais conservadores da Forças Armadas a impedir a posse de JK e Jango, já sob alegação de que ambos estavam ligados ao populismo getulista (o que era, em parte, verdadeiro) com risco de fazer o país “retornar ao caos de 1954”.

Carlos Lacerda, grande tribuno, jornalista e deputado pela UDN era o principal mentor das manobras oposicionistas. Valorizava bordões anticomunistas dirigidos a militares e à opinião pública conservadora, argumentando que "os eleitos tiveram apoio dos comunistas", havendo necessidade imperiosa de se "defender a democracia".

Eis que, acometido de um distúrbio cardiovascular na manhã do dia 3 de novembro, Café Filho é internado no Hospital dos Servidores do Estado. Terceiro na linha sucessória, assume o governo o Presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Coimbra da Luz, eleito pelo PSD, mas um dissidente, identificado com as posições udenistas.

Agrava-se, então, a crise sob forma de uma "questão de disciplina militar". O Coronel de Infantaria, Jurandir de Bizarria Mamede, na época lotado na ESG (Escola Superior de Guerra), pronunciara, à beira do túmulo do Gal. Canrobert Pereira da Costa, um discurso considerado “atentatório à disciplina das Forças Armadas”, no qual posicionava-se, como porta-voz da Diretoria do Clube Militar, abertamente contra a posse dos eleitos.

Não obstante estivesse o Cel. Mamede subordinado à ESG, sendo a ESG subordinada ao EMFA (Estado Maior das Forças Armadas), e este por sua vez devesse subordinação exclusiva ao Presidente da República, o Ministro da Guerra, Teixeira Lott, passou a exigir punição para o Coronel, com pronto retorno do Oficial ao âmbito do Ministério da Guerra, fazendo tábula rasa da autoridade do Presidente da República.

Entendendo o fato como uma subversão de valores, Carlos Luz, que ao assumir, no dia 8, havia manifestado a intenção de manter o gabinete de Café Filho, não se submete à vontade do Ministro, proferindo a 10 de novembro sua decisão final sobre o caso Mamede, negando a transferência do Coronel - exigida por Lott.

Vendo-se desprestigiado, naquele mesmo dia Lott se demite do Ministério da Guerra. O Presidente nomeia, então, para a pasta da guerra o Gal. Álvaro Fiúza de Castro, um militar favorável a solução golpista para a crise.

Retornando à sede do Ministério da Guerra para preparar a transmissão do cargo, Lott é convencido por vários generais, especialmente por Odílio Denis (Comandante da Zona Militar do Leste) a permanecer em suas funções e depor o presidente em exercício.

Assim, na madrugada daquele dia 11, a capital federal foi ocupada pelo Exército, com prisão do Chefe de Polícia e imediata rendição da Polícia Militar aos insurretos, forçando Carlos Luz e outras autoridades civis e militares a buscarem abrigo no prédio do Ministério da Marinha, de onde embarcariam, horas depois, no Cruzador Tamandaré, rumo a Santos.

Ainda no correr do dia 11 o Congresso Nacional se reuniu em sessão extraordinária e aprovou o impedimento de Carlos Luz, por 228 votos contra 81, empossando Nereu Ramos, vice-presidente do Senado, em exercício, na presidência da República.

Lott foi reconduzido à pasta da Guerra e, no dia 22 de novembro, o Congresso – ante disposição de Café Filho, restabelecido, de reassumir a presidência, aprovou também o seu impedimento por 208 votos contra 109, confirmando Nereu Ramos como presidente até a posse de Juscelino, em 31 de janeiro de 1956.

O PONTO DE VISTA DO PRESIDENTE DEPOSTO

Relatando o episódio do golpe sob seu ponto de vista, Luz conta que, avisado da anormalidade da situação às 2 horas da madrugada, dirigiu-se ao Palácio do Catete, onde chegou junto como o Ministro Prado Kelly.

Considerando eles que a Guarda do Palácio do Catete não estaria apta a proteger a pessoa do Presidente, encaminharam-se ao Ministério da Marinha, por volta das 3 horas da madrugada, seguindo num mesmo carro o Presidente, o Ministro da Justiça, Prado Kelly, o Ministro da Viação e Obras Públicas, Marcondes Ferraz, e José Monteiro de Castro, do Gabinete Civil.

Já no Ministério da Marinha, informados de que São Paulo não havia caído, deliberaram tomar o "Cruzador Tamandaré" e, nele seguirem para Santos, com objetivo de preservar a autoridade do governo e reinstalá-lo em terra firme. O deslocamento a Santos não seria tranqüilo.

Na saída da Baía de Guanabara o “Tamandaré” foi alvejado, após cruzar a barra, pelos canhões do Forte Duque de Caxias e, depois, pelos do Forte de Copacabana. No relato do comandante do vaso de guerra, o Comandante-Chefe da Esquadra de Alto Mar, Almte. Carlos Penna Boto, também da Fortaleza de Santa Cruz e do Forte de São João, partiram balaços na direção do “Tamandaré” sem que nenhum dos disparos, felizmente, tenha alcançado o navio.

Em Santos o desembarque, inicialmente previsto e com hospedagem preparada, veio a tornar-se inviável à tarde, antes da chegada ao Porto, quando se soube que os fortes e as guarnições militares paulistas haviam aderido ao movimento golpista.

Assim, inobstante o apoio velado do Governador de São Paulo, Jânio Quadros, que reconhecia o Governo que se preservava à bordo do “Tamandaré”, sabendo-se que o Gal. Tasso Tinoco, comandante da 2ª Região Militar estava subjugado, outra saída não havia que cessar a resistência, regressando ao Rio de Janeiro.

Em verdade, àquela altura outro governo estava constituído, reconhecido por todas as tropas do Exército, pela Câmara e pelo Senado. Tratava-se de uma situação de fato, irreversível.

Às 7:15 horas da manhã de 12 de novembro, estando o “Tamandaré” a 130 milhas ao largo do litoral paulista, retomou ele muito a contragosto de seu Comandante, o rumo do Porto do Rio de Janeiro, onde encerraria sua peregrinação de 48 horas por águas territoriais brasileiras.

Em mensagem final aos ministros militares assim se pronunciou o Presidente Carlos Luz:

"No exercício da Presidência da República, comandante supremo das Forças Armadas, ante a rebelião que hoje surpreendeu o País, deliberei defender a autoridade e a lei por todos os meios legítimos ao meu alcance. Recomendo, entretanto, aos meus leais Ministros, auxiliares, comandados e amigos, cessarem qualquer resistência, dada a situação de fato instaurada no País."

O GRADE BRASILEIRO E SEU LUGAR NA HISTÓRIA

Prevaleceu, portanto, o bom senso e a decisão do grande homem público diante das responsabilidades que a lei e a dignidade de seu cargo exigiam, menos a de derramar sangue de brasileiros e permitir fossem lançadas, umas contra as outras, as Forças Armadas do seu país.

Às 11 horas da manhã do dia 13 de novembro o “Tamandaré” chegou ao Porto do Rio de Janeiro, onde fundeou 11:20 horas. No dizer do Comandante Penna Boto, “era um domingo, um melancólico domingo, pelo que as praias do Leblon, Ipanema e Copacabana apresentavam pequena animação. Mas aqueles que lá se encontravam presenciaram a passagem de uma briosa unidade da esquadra brasileira, que havia galhardamente cumprido o seu dever e mantido bem altas as tradições da Marinha do Brasil.”

Vencidos estavam os óbices à posse de Juscelino Kubitschek.

Por muito que se possa dele politicamente divergir, sua história é a de um íntegro homem público mineiro, o mais expressivo vulto político de Leopoldina, o presidente constitucional da república por um curtíssimo espaço de tempo, que, deposto, exorcizou inclusive a idéia de regresso à Presidência da Câmara do Deputados. Ainda no dia 11, a bordo do “Tamandaré”, comunicava a todos os deputados que não mais poderia presidir à Casa Legislativa que o destituíra.
--------------------

Bibliografia:
- CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas
- Biblioteca da Câmara dos Deputados
- Arquivos, Gov. de Minas Gerais (site)
- Arquivos, Pres. da República (site)
- Revista “O Cruzeiro”, de 3/12/55, entrevistas de Carlos Luz,
Alm. Penna Boto e Jânio Quadros, aos repórteres, Arlindo Silva
e Jorge Ferreira.
- Gazeta de Leopoldina, nº234, de 15/9/57.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicado como crônica, dividida em duas edições, na Gazeta de Leopoldina - GLN – 20.09.2002)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Trajeto do Tintureiro

(Publicada em 18.02.2010
http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)



Nesta quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010, o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda cumpre seu oitavo dia de prisão preventiva na superintendência da Polícia Federal em Brasília. Não espera sair imediatamente da cadeia porque somente na próxima semana o STF (Supremo Tribunal Federal) deverá apreciar o mérito do pedido de habeas corpus protocolado por seus advogados.

É incomum ver corrupto, ou ladrão público preso neste país. Ver um governador preso é simplesmente inédito. Por isto, mais que repisado, este é o tema da nossa conversinha de hoje. Mesmo tendo eu quase nada a acrescentar.

É verdade. Quase “nada a declarar” - Armando Falcão, que Deus o tenha! - depois que o articulista Ruy Fabiano disse tudo o que cabia dizer sobre o caso Arruda em seu artigo, “Mensalão: regra, não exceção”, do último dia 13, no Blog do Noblat.

A conclusão de Fabiano, com a qual infelizmente temos que concordar, é que esta prisão de Arruda, “em que pese sua força emblemática, está longe de sanear o ambiente político brasileiro”. Talvez funcione mais como uma “recomendação de que é preciso sofisticar os procedimentos – não necessariamente despoluí-los”.

Autoriza este raciocínio o “silêncio com que tem sido brindado pela classe política – local e nacional, a primeira prisão de um governador no exercício do mandato, em toda a história deste país”.Observa o jornalista que se devotaram todos “ao silêncio obsequioso”.

Para o presidente Lula, toda a documentação exibida na TV, através de DVDs, resulta em sons e imagens que “não falam por si”. Da Presidência da República foi originário também o “empenho junto à Polícia Federal para que a prisão não expusesse o governador a mais vexames”. Sintomas de que o mundo político compreende e não condena Arruda.

Explica o articulista: “Arruda está sendo condenado por práticas que não inventou e sobre as quais está longe de exercer monopólio. Ao contrário, constituem um padrão na política brasileira”. Oposição e governo não ignoram isto, pelo que tem o governador a seu prol, além do empenho de bons advogados, a compreensão abonadora de seus pares até onde puder influir o prestígio dessa gente prestigiosa.

Sem esquecer que Arruda não foi preso por causa do inquérito de corrupção, mas pelo flagrante de suborno a testemunha, configurando crime contra a administração da justiça ao que se lê dos consideranda, no julgamento do Ministro Marco Aurélio. Crime gravíssimo e bem antigo!

O falso testemunho já era severamente condenado na Roma antiga. Desde o ano 452 a.C. a Lei das Doze Taboas reservava aos réus desse tipo de crime condenação à morte por lançamento no despenhadeiro da Tarpéia.

O certo é que, na queda de braço pela ratificação desta primeira quebra de impunidade significativa da vida nacional, seguirá a OAB, o Ministério Público e os Tribunais Superiores. Que ninguém conte com desfecho amplamente auspicioso. Certamente não será ainda desta vez que as múltiplas pragas do Deuteronômio se abaterão sobre a cabeça de um político infrator.

Com nada a ver, mas muito curiosamente, no “Jornal Nacional” de ontem, 17, o Ministro Marco Aurélio, homem de trânsito confortabilíssimo pelo Direito e pelo vernáculo, ao referir-se ao réu usou o vocábulo “paciente”... Não se veja aí, claro, nada mais que um gesto da proverbial nobreza de S. Excelência.

O importante é que algo de muito novo acaba de acontecer, no que volto a incomodar Ruy Fabiano: “Arruda deixou o Palácio de Águas Claras e foi para o cárcere da Polícia Federal. Não se sabe o que lhe ocorrerá, no futuro, no Judiciário. Não importa. O simples peso emblemático desse deslocamento – palácio/cadeia...”

É exatamente o que conta, é este o dado cultural relevante. Exemplos são sempre mais efetivos que normas. Estamos em pleno Brasil e um camburão – no título deste artigo preferimos o sinônimo “Tintureiro” em atenção ao pedido presidencial de atenuar vexames ao preso - conduzindo um Governador, saiu diretamente do Palácio do Governo para uma prisão.

Trajeto importantíssimo! Pode ser o Caminho de Santiago da nossa salvação. Alguém tem um mapa das ruas percorridas?

₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Carnaval, desengano!

***

Fevereiro, 2010

– Teixeira, amigo velho, cumé que vai? Te vi binado aqui no meu “cell phone”, tô retornando. Quê que cê manda, cumpade?
– .........
– Não, Teixeira, é brincadeira, não costumo chamar celular de “cell phone”. É que acabei de ouvir o Bono Vox dizer isto e resolvi imitá-lo. O Bono não é uma pessoa admirável? Um astro, um “performer” planetário do público jovem, que assume publicamente sua espiritualidade de berço. Um homem bom, portanto um homem raro. A conotação publicitária importa menos.
– .........
– Olha, Teixeira, sua companhia nos é sempre muito grata. Etelcira e eu adoramos estar com você e Ormenzinda. Mas desta vez não vai dar. Este ano estamos fugindo do carnaval na praia. Se você quiser, a casa está lá à sua disposição. O governo do Espírito Santo agradece. Nós vamos para Aruba, imagine! Etelcira ganhou passagens aéreas de brinde, comprando verduras, bijuterias e legumes no cartão de crédito.
– .........
Sem falar que Carnaval, hoje em dia, virou programa de doido, não é Teixeira. Gritaria infernal, música baiana aos dercibeisbotões, bateção de caixa, lixo, latas, cacos de garrafa na rua, rapaziada fazendo xixi nas muretas dos jardins, fedentina. A coisa tem piorado muito, companheiro!
–  .........
Não, isto de sexo-a-termo em via pública eu nem ligo. Nunca me incomodei com cães cruzando na rua, nada contra a moçada fazer cover dos bichinhos. O que me incomoda é a falta de educação desses jovens criados em anomia absoluta, avessos a valores, a regras de conduta. Essa coisa terrível, poderosa, que é a falta de educação dos nossos moços! Principalmente jovens do sexo masculino. Da minha varanda eu observo. As mocinhas estão, sim, totalmente liberadas, mas não perderam condição humana. Elas ainda guardam compostura de gente. Já os rapazes, não. A publicidade que manda beber cerveja para alcançar o sucesso está acabando com eles. Viraram bichos: xixi onde dá vontade, despudor, insolência, palavrões, uivos... A impressão é que a espécie humana, machos à frente, iniciou processo de involução ao neolítico.
– .........
Não, não tem mais. Carnaval de clube acabou. Há alguns anos, o Guia Quatro Rodas citou nosso balneário como sede de um ótimo carnaval. Pra quê! Encheu aquilo lá de gente, o clube não teve espaço pra todos, houve quebra-quebra, arrebentaram os vitrais, as portas, as janelas. O que sobrou do prédio está abandonado. Hoje a rapaziada brinca carnaval numa pracinha sinistra onde vale tudo. Na manhã seguinte é aquele chiqueiro. Alguns amanhecem dormindo na lama sapateada de cerveja, urina e sabe-se lá do que mais.
– .........
– É, não demora vai ser o mês de fevereiro inteirinho. Do barulho a gente nem devia reclamar, não é Teixeira. Fomos jovens e também já gostamos disto. Felizmente, no meu bairro o “entrudo” fica distante, uma rua abaixo. Cerrando as janelas e puxando a cortina dá até pra conversar dentro de casa.
– .........
Sei lá o que é entrudo, Teixeira! Parece que foi o primeiro nome que deram ao carnaval. Como é uma palavra esquisita, de acepção obscura, fica disponível para catarses. 
– ......... 
Eu vi no Jornal da Globo. Há uma ideia de ressuscitar as marchinhas carnavalescas. Seria uma boa, não é Teixeira? Além de menos primitivas nas letras, em comparação com o que se ouve por aí, eram um veículo poderoso de crítica social. Já pensou essas figuraças da senatoria pátria estigmatizadas para o resto da vida numa marchinha carnavalesca, daquelas antigas?

As marchinhas poderiam prestar um bom serviço à democracia brasileira. Seria o carnaval fazendo justiça onde os tribunais vacilam.

₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada em 11.02.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

Ele, Nascido em Piacatuba #

***
Fevereiro, 2010

Há dias, prometi falar aqui do lugar onde nasci. Alguns leitores podem ter pensado: e nós com isto?

Tranqüilidade total. Nada de culto à minha despicienda personalidade nem promoção de algum sítio turístico das minas gerais. O que me veio à mente foi uma lembrança divertida, rivalidade boba das gentes do meu interior mineiro.

Rivalidade entre cidades, aliás, não é coisa só do interior. São incontáveis as brincadeiras da concorrência entre Rio e São Paulo, e a rivalidade entre a cidade do Porto e Lisboa já rendeu até livro em Portugal. A sempre airosa Lisboa tem uma existência para conformar-se com a realidade assaz desconfortável de que "Porto de Cale" está na raiz de "Portugal".

Em Minas, Juiz de Fora já rivalizou com Belo Horizonte. Agora é briga superada porque Belo Horizonte cresceu demais. Da disputa antiga não ficaram mais que algumas piadinhas raras sobre um pretenso esnobismo do juiz-forense, de “julgar-se” carioca... “Vende-se apartamento, em Juiz de Fora, com vista para o mar...”

Ainda em Minas existe outra pendenga não de todo superada entre Uberaba e Uberlândia. Uberlândia, no passado, foi distrito de Uberaba – com o nome de “Uberabinha”. Hoje é muito maior e mais próspera que a “antiga sede do município”. Não dá mais para reverter.

Casos há em que o vezo de fazer piadas com vizinhos dispensa “rivalidade”, propriamente dita. Seria o caso de Rio de Janeiro e Niterói. O carioca adora brincar com Niterói, quando uma “queda de braço” entre as duas cidades seria um despropósito.

Guardadas as distâncias, ocorre o mesmo em minha terra. Leopoldina, MG, é sede de município, sede de comarca e de bispado. Tem uns 60 mil habitantes. Ocultam-se nas brumas do passado, entretanto, a mania que os leopoldinenses têm de implicar com um pequenino arraial, de seu distrito, chamado Piacatuba.

Piacatuba é antiqüíssimo, talvez não tenha mil habitantes, mas possui casarões que remontam ao segundo reinado e uma histórica igreja. Existe lá a lenda da “Cruz Queimada”. Um fazendeiro impiedoso, no passado, insurgindo-se contra o soerguimento de uma cruz na pracinha da localidade, por fazer parte de sua fazenda, amontoou sobre ela vários carros de lenha sequinha, ateado fogo para queimar a cruz e... Milagre! A lenha virou cinza em três dias de labaredas e a cruz sobreviveu apenas escurecida pela fumaça... Não ardeu. Lá está ela, ainda hoje, absolutamente íntegra para emoção dos romeiros.

Pois bem, os leopoldinenses não cansam de fazer piadas com Piacatuba e com quem nasce em Piacatuba. Negam que o progresso tenha chegado lá, insistem em que os piacatubenses sejam refratários à cultura, caipiras e simplórios.

Se num jogo de futebol alguém dá um chutão pro alto, certamente um gaiato na torcida gritará:
-Êh Piacatuba!
Se na tela do cinema aparece um tipo esquisito, alguém reagirá na platéia:
-Piacatuba!

Dito isto, passo a falar de mim. Nasci numa fazenda próxima a Piacatuba. Registraram-me lá. Fui, entretanto, criado em Leopoldina. O diabo é que em minha certidão de nascimento está escrito – Maktub! – nascido em Piacatuba.

Sintam o drama. Com 19 anos fui para o Rio de Janeiro, estudar e trabalhar. Aos 27 dei um pulinho de volta a Minas para casar-me com a namorada dos tempos do secundário. Casamento na casa do sogro, festança, dezenas de amigos, familiares, colegas, penetras, uma sala enorme entupida de gente. O escrivão começa a leitura formal de “minha união”: “Querem casar-se, etc., fulano, fulana.... Ele, nascido em Piacatuba...”

Ah, minha gente, pra quê! A sala quase veio abaixo às gargalhadas. Cena de um surrealismo impressionante. As pessoas riam de segurar a barriga. Tudo porque “ele”, ou seja, eu, era “nascido em Piacatuba.”

Lembro-me de uma tia da noiva, vinda de São Paulo, exclamar: - Gente, que coisa mais engraçada! De que riem tanto?
Noivo, noiva, padrinhos, escrivão, até o papagaio da casa ria junto... “Ele, nascido em Piacatuba!”
A rapaziada do meu tempo não era mole. Ainda hoje não dá para escrever sem rir.

Anos depois viria outra anedota. Residindo no Rio de Janeiro, desejei levar para casa um “queijo minas”, muito bom, que faziam em Piacatuba. Entrei numa padaria de Leopoldina e brinquei com a balconista:
-Por favor, embrulhe pra mim aquele queijo ali, “fabricado na minha terra”. E, com o dedo no vidro, apontei o queijo de Piacatuba.

Uma senhora ao lado, 40 anos presumíveis, segurando sua sacola de pão, olhou-me de alto a baixo, conferiu minha camisa, minha calça, meus sapatos e não se conteve:
-O senhor é de Piacatuba?
-Sim, nasci lá.
E ela, esbanjando simpatia:
-Mas o senhor deve estar fora de lá há muitos anos, não é?
Fiquei lisonjeadíssimo, claro.
₪ ₪ ₪ ₪ ₪ ₪ ₪ ₪ ₪ ₪
(Publicado em 04.02.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)