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sexta-feira, 24 de junho de 2011

As Amizades de Minas

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As amizades de Minas
não retornam ligação
por mais que lhes deixe avisos
o empenho é sempre vão.

Que falta faz um amigo
uma frase, sua mão
se desce o silêncio n’alma
e se impõe a escuridão.

Conforto longe demais
pras pernas do coração!

Existe coisa mais feia
que o apego ao dobrão?
As amizades de Minas
não retornam ligação.

Elas sequer imaginam
o quanto me fazem mal,
Patentear cicatrizes
num poeminha banal,

vacilo de quem se cuida
pra lá do bem e do mal.

Sempre me fiz companheiro
solidário, um irmão
e as amizades de Minas
não retornam ligação.

Pelos baldios da vida
só fiz descartar meus planos,
espiga de milho verde
e o sabugo dos enganos

salgados por minha mãe
quando eu só tinha dez anos.

₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada em 23.06.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A Calma do Padilha #

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Junho, 2011

Padilha sempre foi um sujeito tranquilo. Tranquilo até demais. A crônica de sua plácida existência, aliás, não registra um único dia ou instante de apreensão ante os habituais percalços do estar vivo. O que não tem solução, solucionado está - sua profissão de fé.

Nascido, criado e vivido numa vila do interior de Minas onde todas as ruas são curtas e convergem para o cemitério, Padilha – que jamais cumpriu horários combinados – cometeu a proeza de chegar atrasado ao enterro do próprio pai. Foram vinte minutos de contrita ansiedade familiar na hora de dar tampa ao esquife. O filho único não aparecia. - Viajou? - Adoeceu? Nada! Tá por aí mesmo. - Deus do céu! – exclamavam carpideiras – que excepcional embaraço estará subtraindo a um solteirão desocupado as exéquias de tão bondoso pai?...

Eu disse desocupado? Então fica. Padilha realmente nunca trabalhou. Não almejo fortuna mundana – justificava-se. Recebera por testamento de um tio e padrinho a próspera casa comercial que lhe renderia aluguel ao longo da vida. Era quanto lhe bastava à existência regrada. Suficiente também para ele apregoar que o cavalo dele já nascera arreado...

Vício, apenas os botecos. Não que fosse bebum. N’era não. Tava ali pra participar, ver gente, uma cervejinha compondo a mesa, um amigo ou uma amiga de passagem... Patota, não. Se aglomerasse o Padilha escorregava de fininho. Mas o sublinhadamente folclórico nele era mesmo aquele proverbial desligamento, seu absoluto desapego a compromisso. Só chegava em festas quando os últimos convidados já estavam saindo. No jogo de canastra ou buraco era um suplício esperá-lo na escolha da carta para descarte. – Joóóóga, Padilha!

Já as moças o tinham em boa conta. Cinquentão, solteiro, educado, alto, esguio, vestia-se com aprumo, sempre com aquele aspecto de banho tomado, cabelos sabendo à prata. Além do mais, pagava a cervejinha da mesa. Nunca tantas que parecesse “coronel”; duas ou três, podia deixar com ele.

Constava ter vivido um rápido relacionamento conjugal ali pelos trinta anos. Equívoco fugaz que não voltaria a cometer. Nascer homem – afirmava – é dádiva preciosa demais para se desperdiçar com amarrio a mulher e filhos.

Mas por que estaria eu aqui a falar de um sujeito falecido há dez anos? É que, no último sábado, numa roda de amigos, o cirurgião Dr. Motinha trouxe à baila os dias finais do Padilha.
Contou-nos ele que, na ocasião, Padilha o procurara com dificuldade respiratória. A verificação clínica sugeriu problema grave. Exames requeridos e feitos, na consulta de volta não pôde o médico sonegar ao doente a realidade terrível: teria que retirar um pulmão e, para o outro, o tratamento seria apenas paliativo.

Padilha era lúcido o bastante para entender o prognóstico sombrio. Motinha, entretanto, não captou nele qualquer sinal de pânico ou inquietude. Como seria natural pelo menos algum sofrimento interior, mediu-lhe a pressão para, vindo ao caso, ministrar-lhe calmantes, etc.
Qual nada! Mesmo diante do funesto diagnóstico, Padilha acusava batimentos normais e pressão doze por sete! Pena que coração não é tudo e, dentro do previsto, veio a falecer meses depois.

E Dr. Motinha concluiu sua fala: - Gente, o Padilha foi meu colega de ginásio, meu amigo, um cara legal. Mas eu considero que ser tranquilo ao ponto de ostentar ritmo cardíaco inalterado e pressão arterial doze por sete no momento em que recebe – aliás, impassivelmente – a notícia de estar liquidado por um câncer, não pode ser normal. É deboche, é negar sentimentos que nos igualam a todos, é diminuir o semelhante, é colocar-se acima do bem e do mal, é viver num mundo supraterreno onde nada o atinge... Um mundo criado só pra ele!

Querem saber de uma coisa, para mim o Padilha extrapolava. Aquilo não era calma, não era equilíbrio coisa nenhuma. Tinha outro nome. O Padilha era um bom filho da p...
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada em 16.06.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

sábado, 11 de junho de 2011

PEC dos Recursos

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Junho, 2011

Aberto o debate público sobre a “PEC dos Recursos”, operadores do direito, acadêmicos e interessados devem discutir a proposta do ministro Cézar Peluso, do STF, de alteração da Constituição Federal para nela incluir dois novos artigos que, subtraindo efeito suspensivo aos recursos - Extraordinário (para o STF) e Especial (para o STJ) - trará maior efetividade às decisões judiciais de segunda instância, reduzindo o colossal aporte de processos no Supremo e no Superior Tribunal de Justiça.
Principalmente de recursos meramente protelatórios, ou seja, expedientes espúrios para ganhar tempo.

Equivale isto dizer que as decisões já se tornariam executáveis quando proferidas em segunda instância. Os recursos, Extraordinário (STF), e Ordinário (STJ), continuariam oponíveis, porém sem efeito suspensivo a obstar a execução do julgado. Equiparáveis, portanto, à Ação Rescisória - procedimento cabível para rescindir sentença de mérito transitada em julgado.

Da teoria à prática, se estivéssemos sob tal regime processual, Pimenta Neves estaria cumprindo pena desde dezembro de 2006, ano em que o TJSP confirmou sua condenação pelo Tribunal do Juri de Ibiúna. Muito a propósito, Rui Barbosa declarou, em sua Oração aos Moços, que “a justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta”.

Na Proposta de Emenda à Constituição - PEC, Peluso a constituição ganharia dois novos artigos:

Art. 105-A A admissibilidade do recurso extraordinário e do recurso especial não obsta o trânsito em julgado da decisão que os comporte.
Parágrafo único. A nenhum título será concedido efeito suspensivo aos recursos, podendo o Relator, se for o caso, pedir preferência no julgamento.
Art. 105-B Cabe recurso ordinário, com efeito devolutivo e suspensivo, no prazo de quinze (15) dias, da decisão que, com ou sem julgamento de mérito, extinga processo de competência originária:
I – de Tribunal local, para o Tribunal Superior competente;
II - de Tribunal Superior, para o Supremo Tribunal Federal.

O tema se inclui no III Pacto Republicano, aliás, seu eixo principal, mas suscita controvérsias. Se, por um lado, a modificação tenderá a imprimir maior celeridade aos processos – dissuadindo partes a manifestar recursos inconsistentes – por outro, levanta questões de difícil equacionamento, como seria o caso do processo criminal (Como reparar o preso cujo recurso o tribunal superior julgou procedente?) e dos processos de cobrança, inclusive tributária (Como recuperar dinheiro em espécie, há tempos na mão de um eventual vencido em “terceira instância”?)

O acatado constitucionalista, Luís Roberto Barroso, considera que “os princípios constitucionais do acesso à Justiça e do devido processo legal se realizam nas instâncias ordinárias, em dois graus de jurisdição”. E aduz: “Em nenhum sistema jurídico, o acesso à Suprema Corte constitui direito subjetivo da parte".

Também o culto ministro do STJ, João Otávio de Noronha, vê na proposta “um esforço válido para dar racionalidade e celeridade ao sistema judicial."

Ou seja, as quatro instâncias que militam no país, dando ensejo a verdadeira indústria de recursos, são incompatíveis com o tempo aceitável para entrega da chamada prestação jurisdicional. Vale dizer, não concorrem para decisões judiciais em prazos civilizados, fomentando lentidão e impunidade.

Pertinente considerar, a propósito, que cerca de 80% dos recursos que chegam ao STF são desacolhidos. Nos processos criminais o índice de rejeição chega a 93%. Outro dado relevante é que o maior número de recursos aos tribunais superiores (mais de 90%) provém, exatamente, do Poder Executivo.

Tanto porque advogados de órgãos públicos, sociedades de economia mista, etc., são invariavelmente orientados a esgotar todos os recursos. É que, na administração desses órgãos, dificilmente os gestores se consideram autorizados a avaliar, de antemão, que determinada causa é infundada e, a partir de tal raciocínio pessoal, firmar acordo oneroso que obrigue o ente público. Há sempre o risco da atitude do servidor ser confundida com liberalidade análoga à tal “devolução do imposto de renda em tempo recorde", do recente affaire Antonio Palocci.

Assim, constituindo-se o Pacto Republicano num esforço conjunto dos três poderes para chegar-se a uma Justiça mais consentânea com os reclamos da moderna sociedade brasileira, medidas de vocação administrativa também se impõem na conciliação de hábitos e práticas que se interpenetram.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada em 09.06.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

sábado, 4 de junho de 2011

Gaivotas

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Junho, 2011

Baia de Guanabara, sol de janeiro, reflexos de níquel arremetidos do azul.
Da minha sala de vidro, Esplanada do Castelo, trigésimo quarto andar: a entrada da baia, navios, o Pão de Açúcar, velas, Icaraí, vãos da ponte e, na perna do vento, aviões em manobra de pouso.

Logo ali, rentes à minha janela, gaivotas festivas rodopiam nas correntes ascendentes.
São muitas em revoada, mas, milagrosamente, não se tocam – há segredos recônditos nas rotas passaredas.

Uma delas parece interessar-se por mim. Não é a primeira vez que passa roçando minha vidraça.

Trocamos olhares – juro que trocamos. Gostaria de falar-lhe e sinto que ela talvez busque saber coisas em mim.

– Que perguntas me propõem dois olhinhos voadores?

Observo a revoada em bando, perscruto a lógica de sua coreografia. Nada definível onde reina divindade e  poesia. Trajetórias de astros sob as leis da criação, desocupadas de trigonometria e esquadros.

As exatidões do mundo postaram-se, todas, do lado de cá desta parede de cristal, porque isto aqui é um Banco num arranha-céu de vidro e eu sou um bancário. Um Banco empanzinado de números ásperos sobre a superfície célica do mar da Guanabara.

Êxtase de um guarda-livros dantanho, de máquina calculadora aos dedos e gaivotas nas retinas.

Gaivota

Voa gaivota branca
Pra lá de mim, prisioneiro
Desta vida, dos costumes
Da rotina e do dinheiro.

Me leva pra ir contigo
Por teus caminhos de vento
Retomar a encruzilhada
Onde eu errei minha estrada.

Leva este artista, menina
Companheira e bailarina
Atrás da segunda chance
Tão fora do meu alcance.

Portadora das canções
E das notas sobre a pauta
Devolve com tuas asas
A liberdade que me falta.

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Letra: josé do carmo
Música: dhaal e palavrinha
Gravação Estúdio Eldorado
Performance: dhaal

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Processo Penal, Avanço ou Retrocesso?

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Maio, 2011

Publicada a 05 de maio corrente, para vigência a partir de 05 de julho próximo, a Lei nº 12.403/2011, que altera dispositivos do Código de Processo Penal (CPP) alusivos à prisão processual, medidas cautelares de natureza penal, fiança e liberdade provisória, vem sendo alvo de elogios e críticas.

Há os que reconhecem que o velho CPP de 1941, realmente ostentava deficiências não compadecentes com princípios da constituição de 88, sobretudo quanto à proteção da dignidade da pessoa humana (como é o caso da presunção de inocência), além de encerrar desconfortos outros com postulados doutrinários e jurisprudenciais consagrados.

Restrições são feitas pelos que entendem que a Lei, na prática, esvazia o instituto da Prisão Preventiva ao restringi-la a crimes dolosos para os quais o Código Penal estabeleça pena máxima superior a 4 (quatro) anos. Nos crimes considerados menos graves – que são muitos e, alguns, nada releváveis – a prisão preventiva estaria abolida, substituída por medidas cautelares de difícil fiscalização e duvidosa eficácia, propiciando mais asas à impunidade.

De fato, a lei modifica o Código de Processo Penal positivando como alternativas ao encarceramento provisório, agora excepcional nos crimes de menor potencial ofensivo, doze medidas a serem adotadas preferencialmente (Art. 319):

I - comparecimento periódico em juízo, no prazo e nas condições fixadas pelo juiz, para informar e justificar atividades;
II - proibição de acesso ou frequência a determinados lugares quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado permanecer distante desses locais para evitar o risco de novas infrações;
III - proibição de manter contato com pessoa determinada quando, por circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado dela permanecer distante;
IV - proibição de ausentar-se da Comarca quando a permanência seja conveniente ou necessária para a investigação ou instrução;
V - recolhimento domiciliar no período noturno e nos dias de folga quando o
investigado ou acusado tenha residência e trabalho fixos;
VI - suspensão do exercício de função pública ou de atividade de natureza econômica ou financeira quando houver justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais;
VII - internação provisória do acusado nas hipóteses de crimes praticados com violência ou grave ameaça, quando os peritos concluírem ser inimputável ou semi-imputável (art. 26 do Código Penal) e houver risco de reiteração;
VIII - fiança, nas infrações que a admitem, para assegurar o comparecimento a atos do processo, evitar a obstrução do seu andamento ou em caso de resistência injustificada à ordem judicial;
IX - monitoração eletrônica.

O artigo 312, no entanto, alerta que “a prisão preventiva também poderá ser decretada em caso de descumprimento de qualquer das obrigações impostas por força de outras medidas cautelares”. Ou seja, das medidas acima.

Logo, o diabo não é tão feio como o pintam. Está aí o noticiário internacional informando que o ex-diretor do FMI, Strauss-Kahn, pagou fiança altíssima e está sob prisão domiciliar, com monitoramento eletrônico e acompanhado por guarda. Exemplo de medidas cautelares, cumulativas, aplicadas com critérios de proporcionalidade e razoabilidade, em substituição à prisão provisória.

É, lá como cá, a lei disponibilizando aos operadores do direito medidas alternativas ao xadrez. Dizer que se trata de proteção embutida a criminosos de colarinho branco é meia verdade. O número de pobres que se beneficiarão dessas mesmas normas é, certamente, bem maior. (Não se diz que cadeia é escola de crime?) Quanto aos ricos, a fiança de até 100 salários mínimos – 200 nos crimes graves – multiplicados por mil, como permite o art. 325-I e II, não nos parece desprezível para ninguém.

Julgamos, assim, enriquecido o CPP, não exatamente com uma novidade, pois algumas leis extravagantes (reguladoras de casos específicos) como o Código de Trânsito Brasileiro, a Lei de Drogas e a Lei Maria da Penha, já contemplavam, entre nós, medidas de caráter cautelar substitutivas do encarceramento preventivo.

Verdade também que, à míngua de normas processuais caseiras, alguns juízes do crime já vinham substituindo a prisão provisória com suporte legal nas Medidas Cautelares do Código de Processo Civil onde, pelo art. 798, "poderá o juiz determinar as medidas provisórias que julgar adequadas, quando houver fundado receio de que uma parte, antes do julgamento da lide, cause ao direito da outra lesão grave e de difícil reparação.”
A rigor, uma ilegalidade ante a carência instrumental do CPP.

Outra boa novidade da lei é a substituição da prisão preventiva pela prisão domiciliar, em favor de acusados: maiores de oitenta anos, ou sujeito a severas conseqüências de doença grave; que sejam necessários aos cuidados especiais de menor de sete anos de idade, ou de deficiente físico ou mental; gestantes a partir do sétimo mês de gravidez ou, sendo esta de alto risco, independente do tempo de gestação.

Nada exclui, entretanto, a urgência de aperfeiçoamentos mais ousados que melhor afeiçoem a prestação jurisdicional às expectativas da moderna sociedade brasileira. Prazos processuais não podem obrigar apenas a advogados e reparos são indispensáveis na abundância de recursos protelatórios, capazes de esticar para onze anos o êxito de julgamentos como esse que o Brasil, estupefato, acaba de presenciar no caso Sandra Gomide.

Em síntese, a lei nos parece boa e agrega melhoras. É ver o uso que dela farão os tribunais e buscar novos avanços.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada em 26.05.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Neneco Passarim #

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Maio,2011

Arte: Francisco de Souza (O Chico), por Luciano Baia Meneghite.


Hoje, causos da roça. Vamos ver se “dou conta” de não parecer apenas um bobão. O desafio é passar a quem não é mineiro, nem do mato, a “graça” que percebo nessas histórias de outros tempos. Se bem que, com as cidades consumindo música sertaneja, divulgadíssima até no horário nobre da Globo, o Brasil passe por caipirização que talvez me ajude. Vocês viram o livro didático do MEC oficializando o “nóis vai”? Antão vamo lá.

- O negócio é conforme o seguinte: Quando Deus fez o mundo e, no terceiro dia, mandou a terra produzir as erva e as árvore – tá na Bíblia – o que Ele fez na verdade foi despejar, lá da banda de riba cá pra baixo, um saco de semente, que ali tinha semente de tudo que era mato. No que caiu a primeira chuva, exprudiu aquela brotação geral que veio dar em tudo que inxiste, com raiz e com foia, nesse mundão de Deus.

Pera aí, Neneco, banana e bambu não têm sementes. Como foi que nasceu, então, o primeiro pé de banana?
-Bão, isso aí é conforme o seguinte: Mistério de Deus! E nos mistério de Deus nós não devemo meter a cuié.

Palavras de Neneco Passarim, a mais adorável e feliz criatura que Deus parece ter colocado no mundo com missões determinadas de ser simples e de ser bom. Colaborou com meu pai no campo por mais de quarenta anos e foi, com suas histórias deliciosas, a alegria de nossa infância. Minha e de minha irmãozada.

Morava numa casinha jeitosa, ao lado da nossa. Nela entrou ao casar-se, com vinte e cinco anos, e dela só saiu morto, em 1990, por complicações do seu diabetes.

Neneco foi pau pra toda obra: boiadeiro, carreiro, cavaleiro, controlava a água que fazia girar o moinho de fubá, o engenho de cana e fazia socar o monjolo. Engraçado e criativo que só ele, no dizer as coisas e no interpretar o mundo ao seu redor, colocava raciocínio de gente na cabeça dos bichos. Vejam só.

Soberbo, boi irrequieto que meu pai teimava em não mandar para o açougue por produzir boas filhas leiteiras, arrebentou cerca de arame farpado e destruiu parte de uma plantação de milho. Papai quis saber:
- O que houve, Neneco, o vento derrubou árvore em cima da cerca e ele passou?

- Não, Jão, aquilo ali foi conforme o seguinte:
O pasto tá muito fraco com esse tempo seco; o Soberbo viu aquele milharal verdinho e espigado do lado de lá da cerca, deve ter pensado: Ah, eu não vou ficar aqui comendo esse capim jaraguá estorricado, não; vou vazar nesse arame e me servir do bão e do mió... Não conversou, estufou o peito e levou a cerca de embrui...
Falam que boi não sabe a força que tem, mas o fidazunha do Soberbo sabe. Tá lá, redondo que nem um porco, deitado na sombra da sapucaia ruminando espiga de mio...

Não inventei nada, hem gente! Letra e música do Neneco Passarim. Mas talvez a melhor “dramatização” dele tenha ocorrido no dia em que minha mãe lhe perguntou a razão de uma galinha choca ter deixado o ninho com apenas quatro pintinhos.

Antes, convém explicar que nas fazendas antigas, onde as aves eram criadas soltas, sem métodos intensivos, quando uma galinha “entrava no choco”, alguém colocava debaixo dela pelo menos uns dez, ou doze, ovos pra bichinha não ficar ali 21 dias, no estado febril da incubação, por conta de dois ou três filhotes. A ave pode chocar tantos ovos quantos caibam sob seu corpo.

Outra particularidade é o costume de colocarem ovos de pata – cujo tempo de incubação é de 30 dias - para galinha chocar. A pata é boa mãe, mas se há riacho por perto ela vai longe com as “crianças” e as perde na correnteza. Prato feito para gaviões e outros predadores. Galinha é mais confiável. Fica ciscando por perto, atenta aos piados de perigo emitidos pela comunidade galinácea.

Pois bem, minha mãe vendo a carijó caminhar pelo quintal com quatro pintinhos, ficou curiosa:
- Ela chocou apenas quatro ovos, Neneco?

- Não, Da. Maria, isso aí se deu conforme o seguinte: essa galinha já tava no ninho, chocando quatro ovo dela, tinha uns cinco dias. Veio o moleque do seu filho, o Tiãozinho, e resolveu completar dez ovo, colocando outros seis... Só que ele colocou ovo de pato! Uai, coitada da galinha! Deu os 21dias, nasceu os quatro pintinho... Pros baita ovo de pato virar fióte ainda faltava muito tempo!

A galinha ainda esperou mais um dia... dois dia... no terceiro, os quatro pintinhos já empenado começaro a correr em roda do ninho, a mãe preocupada dos bichinho caçar rumo, olhou mei de banda praqueles seis ovão encrencado, e falou:
- Ah, com esses aí num tem jeito, não. E raspou fora!
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(Publicada em 19.05.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

domingo, 15 de maio de 2011

Gazeta de Leopoldina - Cartas do Leitor

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Prezado conterrâneo e amigo, Lúcio Sampaio

A nota Candidatura, em sua deliciosa COLUNA SOCIAL da Gazeta de junho/95, na qual o amigo considera nossa possível candidatura à vereança nas próximas eleições, só persiste como fruto da enorme bondade e simpatia do Colunista. Certamente um destaque sobre o que, por hora, não se cogita.
Agradeço, todavia, a delicadeza.

Na verdade, amigo Lúcio, não passo de um advogado de empresas, um técnico, portanto, de origem modesta, mas sem lastro popular/eleitoral. Meu interesse pela política é apenas cultural, coisa de homem racional inserido no seu tempo.

Quanto ao mandato, propriamente dito, temos muita gente boa e amiga para concorrer, com chances efetivas. Para mim, cai melhor aquela primeira fila do teatro, a do gargarejo, donde eu possa aplaudir de pé valores como Nilo Ramos, Ely Rodrigues Neto, o ex-prefeito Márcio Freire, o atual prefeito José Roberto de Oliveira, todos juntos, muito breve, num mesmo palanque, construindo uma Leopoldina maior e mais bela.

Parodiando Martin Luter King, eu também tive um (este) sonho.
Acho que quem viver, verá.
Grande abraço,
José do Carmo

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Velho amigo e vereador, Nilo Ramos

É imprescindível dizer-lhe que muito me lisonjeou a amável nota, Volta às origens, publicada em sua atraente coluna informativa da edição de junho/95, da nossa Gazeta.

Tem significado muito especial para mim receber boas-vindas, na volta à minha terra, exatamente daquele amigo que, em novembro de 1957, tão jovem quanto eu, deslocou-se da Glória à Rodoviária Interestadual do Rio de Janeiro, na Praça Mauá, para receber um companheiro de 18 anos que chegava pela Tavil, de Leopoldina, com o equivalente a meio salário-mínimo costurado no bolso da calça, para arriscar a sorte na cidade grande.

- Deus foi muito bom para nós, não foi, meu caro Nilo?
Na Presidência da República, Juscelino Kubitscheck, mesmo envolvido na criação de Brasília, dispunha de tempo, engenho e arte para garantir oportunidades à nossa juventude. Fui para o Banco Nacional de Minas Gerais, você, o Nilo de Almeida Ramos, para o Banco Mineiro da Produção. Nilo estudou Direito na Faculdade do Catete; eu, na Praça XV de Novembro. Havia emprego, escola superior ao alcance dos jovens trabalhadores e até refeições a preço simbólico no indefectível Restaurante do Calabouço, da U.N.E. Uniâo Nacional dos Estudantes. (O atual Ministro José Serra, naquela época, passou por lá; o Senador Artur da Távola, também).

Éramos rapazes pobres - como disse o Belquior - sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes, mas vínhamos do interior com muitas canções do rádio na cabeça, a nos lembrar que tudo era divino, tudo era maravilhoso...
A gente estudava, trabalhava, fazia vestibular, fazia concursos e, só de vez em quando, se permitia alguma liberalidadezinha...

Neo-liberalismos, não. Não conhecemos isto, nem nada disto advindo, como desemprego, subemprego, camelotagem, sacolagem, recessão, demissões coletivas de pessoal concursado ... Nada disto. Fomos uma juventude feliz.

Quem primeiro mencionou Anos Dourados, deve ter se dourado no sol do Posto-2, em Copacabana, que também caiu de moda há muito tempo.
Muito obrigado, querido amigo Nilo Ramos, pela carinhosa acolhida.
É um privilégio estar em Leopoldina.
Abraço,
José do Carmo
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( Gazeta de Leopoldina, julho de 1995)