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domingo, 4 de julho de 2010

Fotografia na Parede

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Temos conversado com pessoas que, nos últimos anos, vieram ou voltaram a fixar residência em Leopoldina. A impressão é de que elas andam um tanto céticas quando aos rumos das coisas por aqui. Há quem diga que Leopoldina caminha para o pior. Alguns não escondem a impressão de que estejamos em marcha batida para a realidade periférica dos grandes centros, onde marginais dão as cartas.

-Será que chegaremos aos donos de pedaços, chefes de poderes paralelos a ocupar espaços fora de controle das autoridades constituídas?

Pode parecer exagero. Mas o fato é que nas últimas semanas tivemos pelo menos três assaltos à mão armada em ruas leopoldinenses, até então consideradas tranqüilas. Em todas as ações delituosas facínoras armados, à noite, renderam famílias dentro de suas residências e, com ameaças e prática de violência, levaram tudo o que quiseram levar.

Sabe-se que a polícia não tem como aumentar, no momento, o número de policiais em Leopoldina. Consta, até, informação de que se veria com bons olhos algum pleito junto ao Secretário de Defesa para contratação de carcereiros, para possibilitar a liberação de uns dez policiais militares para o policiamento ostensivo.

O jornal LEOPOLDINENSE registrou, inclusive, opinião de importante autoridade local no sentido da conveniência de conscientização da juventude para os atrativos da carreira policial.

Mas vejam que, enquanto a polícia clama por homens nas ruas, o executivo municipal de Leopoldina, há uns três anos, enviou à Câmara de Vereadores lei para regulamentação, criando a Guarda Municipal. É projeto que encerra oportunidades de empregos formais e coloca nas ruas policiamento ostensivo que, no mínimo, cumpriria missão dissuasiva. Claro que não é uma má idéia.
- Mas cadê a lei?

A ninguém interessa adiar indefinidamente a assunção, pelo poder público municipal, da responsabilidade de participar da segurança de nossas ruas, de participar da segurança da família leopoldinense. A cidade precisa de polícia. De preferência polícia equipada com recursos um pouco além de cassetete e três-oitão. Porque, arma por arma, o bandido também tem. A marginalidade de hoje, instruída e glamourizada pela TV, demanda enfrentamento com instrumentos de inteligência.

Pelo que se ouve nas esquinas, dezenas de pessoas, só nas últimas semanas, receberam telefonemas anônimos na tentativa – algumas, consumadas – de extorsão de dinheiro mediante ameaça de seqüestro.

Sabe-se, historicamente, que esse tipo de coisa caminha invariavelmente para um ponto de ruptura. A sociedade tem limites de tolerância.

Há duas ou três semanas uma senhora do Rio de Janeiro, ante o anúncio de assalto, simplesmente sacou de sua bolsa uma arma e liquidou o bandido. Foi alvo de homenagem pelo Poder Legislativo...

Nossa Leopoldina, dos últimos tempos, vem se transformando em pólo de atração de aposentados de centros maiores, que buscam aqui vida mais tranqüila e saudável. Mesmo sem estatísticas quantificadoras, é razoável supor que essas pessoas representem hoje benefícios de grande vulto para a economia da cidade. Não nos surpreenderia se ficasse provado que os aposentados de Leopoldina carreiam para a cidade divisas superiores à contrapartida dos caminhões de leite e derivados que saem todas as manhãs da nossa magnífica Cooperativa LAC.

Mas temos que pensar numa coisa: a insegurança pode reverter esse fluxo e, até, mandar de volta às origens os que aqui estão. É sabido que nas capitais a insegurança continua enorme. Lá, entretanto, as pessoas têm a vantagem do anonimato. Elas contam com a opção de se esconder em condomínios fechados, na maioria das vezes só deixando suas casas com destino aos estacionamentos subterrâneos e controlados dos grandes shoppings.

Sem esquecer que, ao optar pelo interior, o aposentado pagou um preço bem alto pela mudança de vida. Perdeu ambiente social construído há longos anos, em muitos casos perdeu a praia, os clubes sociais, relacionamentos antigos, ambiente cultural e oportunidades mais amplas de até partir para uma nova ocupação. Tudo em nome de uma paz e de uma tranqüilidade que estão se esvaindo.

Vamos por mãos à obra. Tanto quanto Itabira que um dia virou fotografia na parede do poeta Drummond de Andrade, Leopoldina poderá vir a tornar-se, para esses seus cidadãos adotivos, um anúncio de Hotel Ritz no paredão das lembranças.
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(Publicada no LEOPOLDINENSE de novembro de 2006)

sábado, 3 de julho de 2010

GLN Dois Anos

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Agosto, 2005

Neste agosto de 2005 nosso Jornal completa dois anos de existência. Dois anos de bons serviços à comunidade, trazendo a notícia, promovendo o debate de assuntos do interesse geral, estendendo pontes, avivando a história, aproximando pessoas. Já se iam quase cinqüenta anos, Leopoldina não contava com um noticioso que mantivesse alguma regularidade, ainda que mensal.

Pois a folha do Grupo LEOPOLDINENSE de Notícias fixou-se, heroicamente, em regularidade quinzenal. Todo dia 15 e todo dia 30, vimos contando com a chegada certa, religiosa, deste periódico sob a porta. O mesmo que, nas bancas da cidade, também é o mais procurado.

Não pensem ser fácil chegar a isto. É dificílimo! Elaboração de matérias, diagramação, impressão, distribuição, tudo demanda mão de obra diferenciada, demanda tempo e dinheiro. Dinheiro duro de se mobilizar numa cidade como a nossa, praticamente sem indústrias e de comércio pouco exuberante.

Mas o Luiz Otávio faz das tripas coração e o LEOPOLDINENSE, com o apoio de amigos, vai se equilibrando. Sem falar daqueles, pelo qual o zelo é especial: suas excelências, os assinantes. São centenas, dentro e fora de Leopoldina.

Jornal se mede pela qualidade e pela quantidade dos leitores, por isto - informa o Luiz Otávio - no LEOPOLDINENSE, o valor da assinatura anual visa praticamente repor custos, ou seja, R$30,00 para Leopoldina e R$40,00 para fora do município. Como brinde, cada assinatura ou renovação, dá direito a um anúncio em edição posterior.

Mas problemas existem. Contra este jornal tem feito diferença o fato de seu proprietário não ser um “Coronel” do lugar. É que neste Brasil de interiores profundos, independente da distância aérea para o litoral, só os ditos “Coronéis” controlam pacificamente meios de comunicação como rádios, TVs e jornais. Ai da pessoa pobre, como o Luiz Otávio, que se meta a lidar com notícia! Notícia forma opinião, e isto põe em risco o establishment, gerando reações desastradas.

Imaginem vocês que Leopoldina possui uma emissora de Rádio há quase 100 anos; a circulação de pequenos jornais pela cidade, excede a um século; e tivemos, por algum tempo, uma repetidora de TV. Coincidentemente, todos esses órgãos são (ou foram) mantidos por pessoas ditas abastadas, detentoras de poder político.

Agora pasmem: ninguém por aqui, nesse “um século”, jamais ouviu falar de qualquer Processo Judicial contra donos desses veículos de comunicação. E olha que radialistas não perdoam: como em qualquer lugar do Brasil, programa popular em rádio é do tipo “macaco em vidraçaria”. Bota pra quebrar! Mas se a rádio é de um “poderoso”, cadê coragem no “ofendido” para processar o dono? Diante do “Coronel” as pessoas se encolhem, ficam inseguras ou, como se dizia antigamente, “reconhecem o seu lugar”.

Já com este jornal foi diferente. O primeiro número, em agosto de 2003, rendeu logo uns quatro processos judiciais contra o Luiz Otávio. Nas semanas que se seguiram, mais processos, e mais processos e, hoje, não são menos de dez as ações distribuídas contra o Jornal e seu titular. E se ficou apenas em dez ações – diz o Luiz – foi porque a justiça, em primeira instância, começou a dar ganho de causa ao Jornal.

Tudo porque Luiz Otávio é um lutador, um humilde profissional de jornal do interior. Ninguém tem medo dele, entende! Diante dos pequenos o bastão dos vilões ficam arrogantes. Fazer o quê? São resquícios coloniais, felizmente em extinção.

Felizmente para nós, nem tanto para a literatura. Nossos Jorge Amados e Dias Gomes do futuro não terão “Coronéis Ramiros” e “Odoricos Paraguassus” para delícia de suas novelas.

Mas o meu escasso entusiasmo pelo teclado, ultimamente, não me trouxe aqui para aborrecer ou ficar aborrecido. Vim só dar parabéns ao Luiz Otávio por esses dois anos de vida do Jornal, pelos dois anos de serviços relevantes a Leopoldina.

O grande Mahatma falava de luzes de purificação no fogo do sofrimento. Jornal tem a vantagem de não sofrer calado. Pode-se acender um toquinho de esperança e comemorar: “Parabéns pra você, nesta data sofrida”...
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(Publicada no primeiro número do LEOPOLDINENSE, em 15 de agosto de 2005)

Editorial nº1

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Leopoldina vê nascer hoje um novo jornal a integrar-lhe o patrimônio cultural.
Surge a “Gazeta Leopoldinense de Notícias” (*) como fruto promissor e instrumento de uma nova postura editorial responsável, de uma tomada de posição por pessoas que se pretendem capazes, construtivas, solidárias, livres e afinadas num mesmo ideal fraterno de serviço à nossa comunidade. Um jornal voltado para o bem de Leopoldina e para o lado melhor dos sonhos de cada leopoldinense.

A sociedade ocidental posterior ao Século XIII tornou-se beneficiária um pouco acomodada do triunfo dos três ideais iluministas sobre a bastilha, mas é inegável que uma certa ênfase liberal dada pela burguesia vencedora aos princípios da liberdade e da igualdade, acabou por vir negligenciando a fraternidade devida a nossos semelhantes. Essa constatação nos leva às raízes da imensa dívida social que vemos acumulada à nossa volta, nos bolsões nacionais de miséria, nas favelas e nos campos.

Tanto porque, sempre conveio aos poderosos privilegiar a própria liberdade (de contratar, de possuir, de governar) em nome do livre jogo de suas ações individuais - o qual, em tese, conduziria ao interesse geral – muito embora seja no desfrute da pretensa “igualdade” entre diferentes que a liberdade do mais forte se abastece de condições para oprimir o mais fraco. Isto, em todas as frentes: política, econômica, jurídico-contratual.

Felizmente, neste Brasil da Constituição de 1988, a exemplo de países como Alemanha, estamos dando um salto à frente ao positivar na lei maior a defesa da dignidade humana como um dos princípios norteadores da própria nacionalidade, com o que ingressamos num tempo de resgate ao ideal da fraternidade.

É nesta seara humanística que a GLN buscará sua inspiração. Não alardearemos o privilégio da verdade absoluta. Nossa proposta é pensar com nossos leitores para com eles chegarmos à verdade compartilhada.

Invocaremos o primado de uma razão liberta de preconceitos que afirme a crença no progresso dos múltiplos setores da atividade humana, sobretudo no que toca à liberdade de pensar, e queremos o debate aberto de que nos fala Umberto Eco, aquele que seja “uma possibilidade de discursos diversos e, para cada um, uma contínua descoberta do mundo”. Um discurso que “não queira agradar nem consolar”, mas, quando preciso, se proponha a “transformar o modo de compreensão das coisas”.

Seremos, sim, um jornal do interior e não aspiramos a muito mais que isto. A enorme evolução das comunicações empresta hoje, também ao jornal da província, janelas amplas para o mundo.

A realidade que a todos nos circunda e agrega passou a ser, em muitos casos, a realidade planetária. Não raro problemas elementares que nos afligem, até em âmbito doméstico - sobretudo se de ordem econômica - explicam-se por sua origem transnacional.

O mundo se associa em blocos, buscando ampliação de mercados, arrefecendo nacionalismos e fronteiras, confirmando o paradoxo do sociólogo americano Daniel Bell: “O estado-nação é hoje grande demais para os pequenos problemas e pequeno demais para os grandes problemas”.

Um nova ordem político-econômica subiu ao proscênio a partir de 1989, com a queda do muro de Berlim. Atenuam-se as disparidades, integram-se povos. A informação eletrônica, globalmente compartilhada, aproxima remotos rincões aos centros mais civilizados do planeta.

Malgrado diagnóstico feito por Bill Gates, há alguns anos, de que no ano 2000 não haveria mais jornais impressos, a realidade tem demonstrado que ainda sobra espaço para a imprensa escrita, desde que afeiçoada aos novos tempos, a novas técnicas. Mesmo para um simples jornal do interior haverá viabilidade quando capaz de incorporar qualidade que eqüivalha a uma quase reinvenção. É na edificação deste ideal que aqui estaremos.

Ao mesmo tempo em que houvermos de buscar algo menos convencional, alcançaremos a confiança de nossos leitores pela intransigência de ser-lhes sempre úteis e íntegros na veiculação da notícia, produzindo conteúdos de qualidade como a melhor maneira de dignificá-los e respeitá-los.

Enquanto veículo de idéias, jamais buscaremos impor a verdade, mas chegar a ela junto com o leitor. Não cultivaremos inimizades nem posicionamentos herméticos. Desconheceremos a vindita e o rancor. Repugnaremos a calúnia e a difamação. Estaremos abertos a todos os pensamentos e a todas as correntes. Sobretudo à fé e à esperança.
Trataremos a informação correta como instrumento decisivo e direito indisponível de uma sociedade civilizada. Mas sem esquecer que um jornal é também responsabilidade e coragem.

O renomado professor de ética jornalística, Carlos Alberto Di Franco nos ensina que:

“A exposição da chaga, embora desagradável, é sempre um dever ético. Não se constrói um país num pântano. Impõe-se o empenho de drenagem moral. E só um jornalismo de denúncia, comprometido com a verdade, evitará que tudo acabe num jogo de faz-de-conta. Os meios de comunicação existem para incomodar. Um jornalismo cor-de-rosa é socialmente irrelevante. A imprensa, sem precipitação e injustos prejulgamentos, está desempenhando importante papel na recuperação da ética na vida pública. Não se trata de transformar jornais numa espécie de contrapoder, mas numa instância de uma sociedade freqüentemente abandonada por muitas de suas autoridades...Os políticos, pródigos em soluções de palanque, não costumam perder o sono com o rotineiro descumprimento da palavra empenhada.Afinal, para muitos deles, infelizmente, a política é a arte do engodo. Além disso,contam com a amnésia coletiva.Ao jornalismo cabe assumir o papel de memória da cidadania... O jornalismo público não pode ser pautado pelas assessorias dos governantes ou candidatos, mas pelo interesse do cidadão. Precisamos falar do futuro, dos projetos e dos planos de governo. Mas devemos também falar do passado, das coerências e das ambigüidades. E, sobretudo, não podemos sucumbir às estratégias do marketing político que ameaçam transformar coberturas jornalísticas num show de chavões demagógicos e num triste espetáculo de inconsistência”.

A GLN se apresenta hoje, aqui, para ser o jornal das pessoas boas de Leopoldina, em busca do bem de nossa terra. A você, leopoldinense, que vinha nos prestigiando nas páginas da velha “Gazeta de Leopoldina”, queremos dizer que foi honroso para nós estarmos juntos nestes últimos anos.

Procuramos sempre respeitar o nível e a inteligência dos nossos leitores, bem como respeitar a tradição de nossa querida “Gazeta de Leopoldina” um jornal de 108 anos, que é, e certamente continuará, sendo um patrimônio desta cidade, agora sob nova condução.

Foi para nós, e para toda a equipe que hoje realiza esta GLN, uma grande honra ter servido à “Gazeta de Leopoldina”. A ela e a seus novos responsáveis, desejamos, todos, sob inspiração de Deus, vida longa e trabalho proficiente.

A você leitor, que sempre confiou em nós, pessoalmente, queremos dizer que partimos para algo bem maior. Pela primeira vez Leopoldina contará com um jornal, esta “GAZETA LEOPOLDINENSE DE NOTÍCIAS”, no qual todas as pessoas se identifiquem.

Inspirados em sua receptividade ao jornal que fazíamos, seguiremos levando até você, todos os meses futuros, o jornal que agora passamos a fazer. Este, que pretendemos venha constituir-se no melhor jornal de Leopoldina, a “GAZETA LEOPOLDINENSE DE NOTÍCIAS”, simplificada e, carinhosamente, também referida como GLN.

Um brinde à nossa amizade! Um brinde à GLN! Ou, no verso poderoso do nosso poeta, psiquiatra, vereador e grande amigo, Dr. Iano S. Campos: “Um brinde à vida e à emoção!”
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(Publicada no primeiro número do LEOPOLDINENSE, em agosto de 2003)

* Nota: Poucos meses após o lançamento o jornal alterou sua razão social para “Grupo LEOPOLDINENSE de Notícias” (LEOPOLDINENSE), em acordo com os então detentores da “Gazeta de Leopoldina”.

Edição nº100

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O presente número do Jornal LEOPOLDINENSE assinala a edição número100 deste periódico. Cem vezes saiu às ruas de Leopoldina uma edição do nosso Jornal - primeiro mensalmente, depois quinzenalmente - desde agosto do ano de 2003.

Sem dúvida, de lá para cá, alcançamos alguns avanços significativos no plano editorial, procuramos aprimorar apresentação e os conteúdos, melhoramos a distribuição e nos esforçamos para colocar o jornal cada dia mais próximo daquilo que de nós pudesse esperar o público leitor.

Com orgulho constatamos que o LEOPOLDINENSE tem, hoje, a afeição de seus leitores. Isto significa que cativamos pessoas que acreditam em nós, e não podemos decepcioná-las.

Não são muitos os estudos sobre a realidade do exercício do jornalismo no interior do Brasil, e a maioria mostra que, apesar de todas as dificuldades, os jornais interioranos se destacam pelo pioneirismo no segmento da mídia comunitária, pautando-se cada vez mais pelo foco nos interesses internos aos municípios onde atuam. E assim deve ser.

Em sua obra sobre jornalismo comunitário, a autora Beatriz Dornelles, pesquisadora, doutora em comunicação e professora de pós-graduação da PUC-RS, afirma que, do ponto de vista ético, os jornais do interior, especialmente os de cidades pequenas, são mais responsáveis que os veículos de massa porque eles precisam ser mais conseqüentes e cuidadosos. Sua credibilidade não pode ser abalada em hipótese alguma. No interior, se um pecado sério for cometido o veículo estará desacreditado e morto.

Não raras vezes a imprensa do interior é acusada de ser pouco profissional, ou, quando não, de simples porta-voz de políticos e de governos locais. Deste mal o LEOPOLDINENSE jamais sofrerá. Nossa independência há de ser sempre nosso lastro mais precioso.

Um jornal, como o nosso, que se pretenda merecedor da confiança de seus leitores tem que atuar como verdadeiro fiscal das administrações municipais, não produzindo a crítica pela crítica, mas pela vigilância dos bens maiores que a todos pertencem: o patrimônio e os interesses públicos locais.

Será, através de uma imprensa ciosa de suas efetivas finalidades, possível, a todo tempo, ter-se uma idéia da vida da cidade e dos movimentos populares ocorridos em nosso tempo. Estará ao alcance do futuro conhecer pessoas, influentes ou não, fatos sociais e pessoais, aniversários, nascimentos, óbitos, formaturas, casamentos e tantos outras preocupações de uma comunidade que se conhece e que se estima.E a isto podemos chamar “ser útil à sociedade”.

Este compromisso nós o renovamos ao ensejo desta 100ª edição. Continuaremos aqui no firme desiderato de ser útil a Leopoldina, estar perto de cada membro desta comunidade independente de posição social ou de escolha política, interagindo como intérpretes de suas reivindicações e anseios, evitando atritos sempre que possível e atuando como catalisadores da fraternidade e do entendimento entre nossos irmãos, concidadãos desta terra que a gente adora.
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(Publicado no LEOPOLDINENSE de 01 de fevereiro de 2008)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Editorial dos Quatro Anos

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O LEOPOLDINENSE comemora seu quarto ano de circulação ininterrupta. Em agosto do ano de 2004 ganhava as ruas de Leopoldina este pequeno órgão de imprensa portador de um ideal tão simples quanto penoso de conduzir: Ser “a consciência crítica da cidade”, na feliz elocução do jornalista José Barroso Junqueira.

De fato, existe um preço a ser pago pela verdade dita em público, porque são comuns os interesses contrários à verdade. Todo jornalista sabe que no âmago de algumas notícias aparentemente singelas pode estar instalada a subterrânea conveniência de seu silêncio.

Não obstante, uma imprensa livre é viga mestra do regime democrático.
Em discurso proferido a 17 de maio de 2005, no 8º Congresso Brasileiro do Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas, organizado pela Mega Brasil Comunicação, o presidente do Grupo Abril, Roberto Civita, fez algumas reflexões de permanente atualidade.

Lembrou que a multiplicidade de vozes necessárias a garantir e a fortalecer a democracia só pode existir numa sociedade em que a liberdade de imprensa seja assegurada, na qual a entrada seja franqueada a quem se habilitar, na qual a concorrência em todas as frentes gere publicidade que feche o círculo virtuoso de viabilizar a existência de múltiplos meios de comunicação.

Embora existam jornais, revistas, televisões e rádios sem qualquer preocupação com padrões de ética e qualidade, e apesar do ainda péssimo nível geral da educação em nosso país, tudo indica que o público acaba preferindo o conteúdo de melhor qualidade, tanto eletrônico quanto impresso.

Isto porque o povo não é bobo e também porque há um outro círculo virtuoso em ação: à medida que se eleva o nível de uma publicação, à medida que se produzam reportagens e matérias mais inteligentes, bem pesquisadas, claras e mais bem apresentadas, o público passa a gostar e exigir mais disso e a valorizar os veículos que os fornecem.

Um meio de comunicação que mereça este nome, não pode estar subordinado a interesses políticos e partidários ocultos. Não pode aceitar que tutela política substitua seu próprio autocontrole, auto-regulamentação e compromisso com a sociedade.

Não referindo aí, apenas, ao jornalismo político e econômico, porque o público também se interessa por outras coisas como astronomia, história, filosofia, e até por seus amores, empregos, fantasias, saúde, férias e por pessoas – especialmente se forem celebridades.

Num mundo cada vez mais interligado e complexo, com cada vez mais informação disponível em todas as frentes, 24 horas por dia, a tarefa do jornal passa a ser separar o relevante do não relevante, selecionar o que mais interessa e mais importa, tentar organizar e explicar o que tudo isso significa para um público com muitas alternativas de diversão, muitos interesses, e cada vez menos tempo.

Sobretudo, deve o Jornal procurar não ser chato, dogmático, lembrando sempre que uma de suas principais funções é fazer o importante ficar interessante.

Deve o meio de informação ser uma força que ajude a compreender o mundo, que ajude a construir uma sociedade mais justa, a defender a comunidade e a levar seus utilizadores a viver melhor.

Esta haveria de ser, para Civita, uma das mais fascinantes, desafiadoras, gratificantes e divertidas atividades que existem.

Nós, aqui no LEOPOLDINENSE, também temos tido a honra de viver plenamente esse desafio e essa alegria há quatro anos, dotando Leopoldina de um Jornal regular, honesto, consciente de sua responsabilidade e de seus compromissos com o leitor - acima dos interesses e das paixões.
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(Publicada no LEOPOLDINENSE de 31 agosto de 2004)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Convite para Inauguração #

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Julho, 2010

Transações pouco éticas das chamadas “malas diretas” são um tormento. A toda hora alguém nos azucrina pelo telefone com alguma promoção ou “vantagem”. Recebemos e-mails aos montes, nas mais variadas tretas. O “lixo postal” abarrota nossa caixa de correspondências. Fazer o quê? É a sociedade de consumo ao encalço de suas vítimas.

Procuro desenvolver defesas. Às garotas do telemarketing despacho com delicadeza (afinal, é o trabalho delas), relatando-lhes minha penúria econômica – o que logo as faz desinteressadas de “alvo” tão indigente. Acossado por e-mails, levo a melhor: deleto, sistematicamente, toda e qualquer mensagem que não seja de pessoa conhecida. Abordagens postais vão para o lixo sem leitura. Quase todo mundo faz isto.

Digo quase, porque, semana passada, o logotipo no envelope de uma carta − dois corações entrelaçados – abriu a guarda do meu amigo, Otávio. Quis conferir. Imaginem! Convite para inauguração de um Motel! “Convidamos V. Exa. e excelentíssima família...”
É muito bom morar no interior, pensou o Otávio, diverte-se sem sair de casa.

Quando é assim – disse-me ele – prefiro não rir sozinho. Chamei minha mulher e rimos de acordar o gato. Depois começamos a analisar o convite. Estava claro que o remetente usara a “mala direta” de algum banco ou de concessionária de serviço público. São uns sacanas – concluiu.

Felizmente, a esposa do Otávio é mulher sem grilos. Jamais suspeitaria da proximidade do marido com o mundo dos motéis. Nem ele, carola e sistemático como é, compareceria a um evento de tal ordem. Mas imaginem o estrago que um convite assim pode trazer a lares menos estáveis.

Claro que muitas outras pessoas também foram convidadas e passaram a entender a edificação escalafobética que vinham erguendo na entrada da cidade. Supunha-se uma igreja evangélica. Mas não. Era motel e o programa da inauguração estava ali.

A partir do meio dia de sábado, recepção aos convidados e autoridades (“Favor apresentar este convite”). Em seguida, bênçãos ecumênicas das dependências. Almoço, com início às 13 horas, no pátio interno, “facultadas visitas, sem caráter íntimo, aos apartamentos...”

E eu jurava que motel vinha caindo de moda! Os jovens não se escondem mais para fazer sexo. Aposto que nós, os coroas, somos o público alvo do projeto.

Vamos reler. O convite é para almoço e para conhecer os apartamentos. Nada de desarrumar as camas. Aquilo que advogado de paletó xadrez chama de “animus fornicandi”, nem pensar! Autoridades comparecerão e serão recepcionadas... É coisa para velho, sim. E vai ter discurso. Certamente executivo e legislativo municipal estarão “bem representados”, dúvidas não pairando quanto à sutileza cetácea das falas sobre o “moderno empreendimento” e seus “legítimos propósitos” sexo-recreativos.

Minha curiosidade maior empacou nas “bênçãos ecumênicas”, previstas para as serventias do prédio. Já imagino o padre, o pai de santo, o pastor, o rabino, o imã dos crentes, todos de aspersórios às mãos, borrifando bênçãos aos espelhos do teto, frigobares e camas redondas. Isto não existe!

Se até sábado me der coragem, pego o convite do Otávio e vou lá conferir. Talvez recite uns versos:

“O sexo contém tudo: corpos, almas,
sentidos, provas, purezas, delicadezas,
resultados, avisos,
cantos, ordens, saúde,
o mistério materno, o leite seminal,
todas as esperanças, benefícios,
todas as dádivas, paixões, amores,
encantos, gozos da terra,
todos os deuses, juízes, governos, pessoas no mundo com seguidores.
Tudo isto no sexo está contido,
ou como parte dele ou como sua
razão de ser”.

Se alguém perguntar:
-Isto é seu?
É claro que direi:
-Não, cara, isto é Walt Whitman!
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(Publicado em 01.07.2010 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

Falar de Coisas #

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“Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?”

(João Cabral de Melo Neto)


Tenho para mim que escrever sobre nossa terrinha interiorana, registrar o cotidiano dos dias que correm, é dever mínimo do cronista. A alguém certamente interessará um dia saber o que vai hoje pelos nossos bares, pelos clubes sociais, pelas lojas, calçadas e esquinas, onde, diga-se de passagem, o velho papo de futebol já não empolga tanto, depois de cinco campeonatos mundiais ganhos. Pode-se falar até de política.

Só que a política leopoldinense neste outubro de 2003 ainda não saiu da penumbra. A gente sabe que mais à frente as coisas se definem, mas, por enquanto, só existe uma definição: toda coligação é possível. Ninguém é tão fétido que não possa ser inalado nem tão indigesto que não possa ser deglutido. Se o problema for cruzar jegue com girafa, não será por falta de tamborete...

A confusão não melhora quando lembramos que a “situação” em Leopoldina, hoje, corresponde historicamente a uma gloriosa oposição. O atual prefeito é herdeiro político do velho PR de Enéas Lacerda França, via Sô Liliu, Manoel Lacerda, Artur Leão, Olivier Fajardo, Colatino Barbosa de Castro, Antônio de Oliveira Guimarães, etc., brava gente que em 1958 inaugurou a alternância do poder político nesta terra, elegendo o médico Jairo Salgado Gama para a prefeitura. Como a Lei Provincial que elevou Leopoldina a Vila é de 1854, conclui-se que esses homens, em 58, apearam um situacionismo de 104 anos!

Política é coisa complicada, apesar de Gustavo Capanema dizer, em seu livro Pensamentos, que é só “uma parcela de energia e outra de jeito”.

Mas podemos esquecer política e falar dos nossos produtores rurais em sua faina frustrante e descapitalizante de produzir leite e entregá-lo ao preço de custo porque as regras do comércio globalizado tornaram-se cruéis com o leite e o plantio de milho, arroz e feijão, por estas bandas, simplesmente desapareceu nos anos setenta, com a abertura das largas fronteiras agrícolas mecanizáveis dos serrados do centro-oeste.

Cazuza, o “barão vermelho”, queria uma ideologia para viver, nossa terra clama por uma vocação.
- Meus despenhadeiros por uma vocação! Bananas gostam de morro.

Quem sabe o Lalado, nosso campeão de vôo livre, pega uma “ascendente” para cinco mil metros de altura e, lá de cima, com olhos de águia, descola pra gente alguma coisa diferente daquelas que urubu só descobre pelo faro? Vai ver nossa vocação econômica é o próprio vôo livre. Se for, já tem gente conspirando: fincaram um verdadeiro paliteiro de postes bem ali, na Onça, nas imediações do local de pouso.

Um cronista que se preze pode anotar ainda os hábitos sociais em voga, o linguajar regional que a televisão vai homogeneizando pelos padrões (charmosos?) do Rio e de São Paulo. A moda no vestir, principalmente dos jovens, para quem o modelo americano decretou, há muito, o índigo jeans e o tênis branco como pièces de resistence na luta pela elegância.

Me parece, sim, que a um jornal de província cabe o registro que nele possamos deixar para a posteridade do que foram as gentes, as igrejas, as ruas, os riachos e as praças do nosso tempo. E aqui prontamente me assalta a lembrança do poeta argentino Jorge Luis Borges considerando este esforço do escritor:

-O homem se propõe à tarefa de desenhar o mundo à sua volta, de fixar para a posteridade o real e o sonho, o desgracioso e o belo, o comum e o inusitado, e segue neste mister, muito inadvertidamente e a seu próprio modo, cinzelando esculturas, pincelando quadros, mobiliando e povoando espaços, reinos, montanhas, mares, baías, navios, moradas, peixes, ilhas, cavalos e pessoas.
Nem dá conta de que as descrições que deixa, o cerne de suas palavras, a essência de suas imagens, entrechos e conceitos, nada mais se tornaram que a estampa de seu próprio rosto.

É um privilégio estar com Jorge Luis Borges.
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de outubro de 2003)