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terça-feira, 10 de maio de 2011

João Rodrigues

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(Foto: Janeiro, 1968)


João Rodrigues foi um agricultor e pecuarista leopoldinense, nascido em 23 de agosto de 1911 na localidade rural denominada Sítio Puris, no Bairro da Onça, e falecido em Leopoldina aos 23.03.1974. Era filho do também agricultor Antonio Augusto Rodrigues (Totônio Rodrigues) e de sua esposa, Maria Antonia de Oliveira Rodrigues (Mariquinhas).

João e seu seis irmãos foram criados na propriedade de Totônio e Mariquinhas, na Boa Sorte, mais exatamente o lote nº22 da Colônia da Constança, adquirido pela família em 1924. Casou-se, em 1937, com a prima de segundo grau, Maria Pereira Machado Rodrigues (Pequetita), professora na escola pública da Vargem Linda e, nesse lugar, também conhecido por Lajinha, nasceram os quatro primeiros dos onze filhos que o casal veio a ter.

A residência era a própria Casa da Escola, construída por João – e que ainda hoje existe - onde a família residiu até o ano de 1945, ocasião em que Pequetita obteve transferência para a Escola do Bairro da Onça, que funcionava numa sala contígua à Capela de Santo Antonio. Por essa ocasião, a família passou a residir no Sítio Puris, onde João nascera.

Autodidata, inteligente e bem informado, João gostava de ler revistas, principalmente Seleções do Reader´s Digest, e também jornais que, naquela época, não chegavam com regularidade ao meio rural. Fazia pouco alarde de suas preferências políticas, mas era simpático ao PR de Artur Bernardes.

Por herança e por compra ou cessão de alguns irmãos, fixou-se no Sítio Puris, que era parte da antiga Fazenda Puri. Nessas terras, além do cultivo de cereais, construiu com suas próprias mãos, curral, paiol, tulha, engenho de cana para fabricação de rapadura e açúcar, olaria, serraria e um moinho de fubá movido a água. Chegou a conquistar, dentre muitos outros, o 1º prêmio, na Exposição Agropecuária de Leopoldina, pela qualidade do produto de seu moinho.

Muito habilidoso, trabalhava com couro, madeira, ferro, hidráulica, eletricidade, construção civil e na ordenha e manejo do gado. Seus empregados se ocupavam apenas da lavoura (plantio e colheita) e da roçagem dos pastos. Todas as demais tarefas João as realizava pessoalmente, com refinado “engenho e arte”.

Por volta de 1946, João dotou a sede da propriedade de água encanada e sanitários - o que, na década de 40, era bastante incomum nas fazendas. Em 1948, juntamente com o vizinho e cunhado, Odilon, eletrificou o Sítio Puris, trazendo posteamento e rede a partir da venda do Timbiras. Pouco tempo depois, tomou a si a tarefa de recuperar teto, paredes e pintura da Capelinha de Santo Antonio, da Onça. (Não é dele – ressalve-se – a desfiguradora reforma do teto que lá está, feita muitos anos depois)

Em 1955, para facilitar a educação dos filhos, muito sacrificados com idas e vindas, a cavalo, ao Colégio Leopoldinense, João e Pequetita adquiriram casa na cidade e se mudaram. Mas a partir daí, e até seu falecimento em março de 1974, foi João que passou a ir, todas as manhãs, tocar a vida do Sítio, que era o sustento de sua família.

Seu falecimento, em março de 1974, se deu em conseqüência de ferimentos em um desastre automobilístico. Após sua morte a família transferiu residência para o Rio de Janeiro (RJ).

João Rodrigues foi um homem muito comunicativo e popular no meio em que vivia. Sempre de bom humor, gostava de rir e fazer piadas com os amigos. Parecia viver algumas situações pelo simples prazer de fazer graça. Um exemplo disto foi o pequeno cavalo que possuiu, chamado Guarani, no qual costumava ir à cidade. Sem dúvida que ele poderia possuir – e muitas vezes possuiu – um animal maior e melhor. Guarani, além de muito pequeno, era ruim de marcha (trotão), o que tornava pouco agradável cavalgá-lo. Mas João gostava de usá-lo. Certa ocasião, o ex-expedicionário da FEB na Itália e primo de minha mãe, Derneval Vargas, comentou comigo em tom de pilhéria:
-Que coisa mais esquisita é aquela! Seu pai um homenzarrão de quase dois metros de altura cavalgando aquele minúsculo Pequira! Parece até que ele está com um cavalinho de brinquedo no meio das pernas...

Além dessa pessoa alegre, João era também extremamente solidário com os menos favorecidos. Estava sempre ajudando pessoas em dificuldade. Mas João foi, sobretudo, um forte, um bravo, um lutador incansável. Suportou a dura tragédia da perda de três filhos ainda jovens, dos onze que teve. Criou os outros oito com os dotes da terra, fecundada com suas próprias mãos. Ele fez jus aos versos de Homero, na Ilíada, pronunciados por Ulisses em tributo ao herói, Aquiles:

Se um dia contarem minha história, digam que andei entre gigantes.
Os homens nascem e morrem, como o trigo no campo.
Mas esses nomes jamais serão esquecidos.
Se um dia contarem a minha história,
digam que vivi no tempo de Heitor, o domador de cavalos...
Digam que vivi na época de Aquiles. 

Quando de seu falecimento, a Câmara Municipal de Leopoldina consignou um voto de pesar à família, cujo agradecimento fizemos nos termos da correspondência abaixo:

Rio Verde (GO), 22 de abril de 1974.

Ao
Exmo. Sr. Vereador
Dr. Dalmo Pires Bastos

Amigo Dr. Dalmo,

Chega-nos hoje o conhecimento de que o Legislativo Municipal de Leopoldina, por moção partida de V. Exa., em sessão de dois do corrente, dignou-se dirigir a nossa família um voto de pesar pela morte de nosso inesquecível pai.
Com esta, vimos manifestar a V. Exa. a gratidão da família, ao mesmo tempo em que nos permitimos solicitar-lhe faça chegar à Mesa, e a cada um dos membros dessa Casa, sinceros agradecimentos.
-Nosso pai, João Rodrigues, não viveu muito. Mas aos 63 anos de sua fecunda existência, soube legar aos filhos o exemplo que foi de chefe de família, de cidadão honrado, de homem do trabalho e, sobretudo, de bondade.
-Consola-nos, hoje, saber que ele partiu deixando realizado todos os seu sonhos; posto que fossem de homem simples esses sonhos.
Mais chegado aos humildes, e essencialmente humilde, nunca almejou a fortuna ou a notoriedade mundana. Lutou não mais que pela educação e bem-estar dos seus, o que arrancou da sorte e da terra, com amor, perseverança e áspero sacrifício.
Tinha no modo simples de ser e na singeleza da vida que gostava de viver, sua maneira própria de ser feliz e de ser bom.
Deixou-nos cedo, mas tendo conhecido a glória, quase sempre rara, de ver-se realizado em si e, na realização dos filhos. Amigo de todos, foi homem de bem na mais completa inteligência da expressão.
-O conforto que – por seu passamento – nos traz essa Casa de Representação Pública, nós o recebemos como justa homenagem da terra querida à memória de seu filho exemplar.
E tal como a inscrição celebre, nós a colhemos no fundo do coração, pois “esta é a glória que fica, eleva, honra e consola...”
Cordialmente,
José do Carmo Rodrigues
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Dados desta biografia foram extraídos do livro “Os Rodrigues da Fazenda Puri”, de José Luiz Machado Rodrigues – Luar Artgraf Ltda. – Leopoldina, MG – 2006)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Morte do Bin Laden, o que pensar?

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Maio, 2011


Osama Bin Laden deu trabalho e despesas. Dez anos de buscas e milhares de dólares aplicados em sua procura. Para quem supunha que a fera pudesse estar precariamente malocada numa caverna qualquer das montanhas do nordeste do Afeganistão, foi surpresa encontrá-lo numa ampla mansão da cidade turística de Abbottabad, a 50 km de Islamabad, a capital do Paquistão.

Abbottabad é cidade turística notável por seu clima aprazível, a 1.260 metros de altura (quatrocentos metros mais alta que Petrópolis, RJ), pelo alto padrão de suas instituições de ensino e estabelecimentos militares. Muito ao contrário da indigência e abandono em que se o supunha entocado, Bin Laden desfrutava de pouso privilegiado em local bastante compatível com os 300 milhões de dólares de sua propalada fortuna pessoal.

Os assassinatos por ele cometidos, tomando-se em conta apenas os do ataque de 11 de setembro de 2001, passaram de 3.200 vítimas: no World Trade Center, 3.045, entre mortos e desaparecidos; no ataque ao Pentágono, 125 mortos; no avião caído na Pensilvância, 44 mortos. Ao todo, 19 sequestradores e suas 3.195 vítimas inocentes.

Em operação de legalidade discutível – já que incluiu violação de espaço aéreo paquistanês – embora eticamente justificável, um comando militar americano, partindo de base próxima, no Afeganistão, apeou de helicópteros atiradores de elite bem no interior da mansão do terrorista, cujo corpo, minutos depois, já esfriava enrolado num lençol, a bordo.

John Brennan, autoridade em assuntos de terrorismo da Casa Branca, afirmou em entrevista à Fox News, que os militares poderiam não matar Bin Laden, aceitando sua rendição, sob certeza de que ele não carregasse explosivos junto ao corpo e não representasse qualquer perigo. Ou seja, Bin Laden teria que ficar nu, segundo interpretação de alguns jornais. Ignora-se a ocorrência de tal negociação.

Sem dúvida que a prisão do terrorista, com sua submissão a julgamento, tal como Israel procedeu com Adolf Eichmann, cairia melhor para os USA. Algo como anunciar: nosso império é o da lei e não nos nivelamos a terroristas...

Compreende-se, entretanto, que isto não tenha sido possível. No momento crítico da operação de guerra o soldado pode não ter mais que dois segundos para tomar uma decisão que pode lhe valer a vida ou a morte. Nenhuma censura, pois, ao militar que puxou o gatilho. Menos ainda se a ordem recebida era exatamente esta...

Mas há algo mais discutível nesta história: constava, até ontem, que a pista crucial para que Osama bin Laden fosse encontrado – no caso, o nome do mensageiro do líder, que passaria a ser seguido – foi obtida sob tortura. Segundo documentos revelados pelo site Wikileaks e publicados no britânico The Daily Telegraph, um dos responsáveis pelo atentado de 11 de setembro, Khalid Sheikh Mohammed, “soltou” o nome do homem, na prisão de Guantánamo, sob tormentos físicos.
Nesta quarta-feira, 4 de maio, foi o próprio diretor da CIA, Leon Panetta, que revelou a prática de afogamento simulado para arrancar informações ao terrorista preso.

O que é lamentável. É certo que o famigerado saudita, wanted dead or alive (inclusive com o indefectível valor da recompensa), pronunciou louvores a Alá pelo sucesso de sua hedionda implosão das Torres Gêmeas, confessando a autoria do morticínio. Eliminá-lo, a partir daí, tornou-se uma questão de honra nacional para os USA.

Nosso ex-presidente Geisel afirmou em suas memórias que considerava a tortura justificável, em certas circunstâncias... Geisel, porém, jamais foi ou será uma unanimidade. Na verdade a tortura é sempre inaceitável. Ela tem raízes na vileza do indivíduo que a aplica. É o vazio da dignidade humana. O torturador é, invariavelmente, um ser iníquo.

Se a tortura estiver, pois, na base das informações que levaram os helicópteros americanos a Bin Laden, terá o assassino marcado um tento ao cair morto: o inimigo desmentiu a vantagem ética oponível à sua barbárie. O fundamentalismo professado pela Al-Qaeda não serve a outra causa que não seja a da contraposição obstinada aos valores da civilização ocidental.
E são esses os valores dos quais não podemos abrir mão.

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(Publicada em 05.05.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

domingo, 1 de maio de 2011

Maria Fumaça

***
Quem é mineiro vai
Quem é mineiro vem,
Eu saí de Minas,
Não avisei ninguém.

Fui virar o mundo,
Minha mãe chorou,
Embarquei no dia
Que meu pai calou.

Maria Fumaça,
Lá ficou meu bem,
Um trem rompedor
E eu naquele trem.

Pára pra por água,
Pra embarcar café,
Se não fosse a mala
Eu seguia a pé.

Foi no Arraial da Onça
Que eu peguei o trem,
Era muita lenha
E eu segui além.

Meu coração tá aqui
Mas ficou lá também,
Curva do Timbira,
Largo do Armazém.

*******

Quem por aqui me dá nova

***
Quem por aqui me dá nova
Dum amor que já foi meu,
O dono andava sumido,
Agora já apareceu.

Cabra que ´tiver com ela
Se for nego de opinião
Sabendo que eu tô de roda
Não larga mais o facão.

Mas se for um poeeeeta
Que não tenha medo da morte,
Nem de morrer faça conta,
Sabendo que de mim se trata
Não larga as facas de ponta.

*****
(Calango ouvido nos anos 60 numa festa de fazenda, no interior de Minas)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Colégio Leopoldinense - II Encontro de ex-Alunos

***
Julho, 1981

Lá se foram 20 anos, meu velho Colégio Leopoldinense, a garotada crescida com sestro de gente grande, e a comemoração dos teus 75 anos, oferecendo-nos, por empréstimo, dois dias de adolescência. Muito ligados na tua, a turma de meu tempo com a turma de outros tempos, recentes e remotos, andou pela cidade sorrindo, cantando, chorando, brincando de antigamente.

Espiar tudo aquilo, meu “Gymnasio” dos mais velhos, valeu o desarquivamento delicioso de incontáveis reminiscências. Algo tão aliciante e terno que o dever de casa, como sempre teve que ficar pra depois: só abracei (fisicamente) a cada um de minha turma no baile do Clube Moinho.

Primeiro, pelo ângulo do expectador apaixonado, experimentei minha saudade depurada dos tempos reais. Como o poeta Han Fook do conto de Hesse, permiti que um sonho providencial me passasse à outra margem onde, partícipe solitário, não me somasse na grande festa das lâmpadas, para contemplá-la, incrivelmente mais bela, refletida no espelho do rio.

Maravilha, meu Colégio. A um só tempo tudo ver e com todos estar, eu, no alto da Catedral ou no Morro dos Pirineus, eles todos lá em baixo... Aqueles marotos, agora marmanjos. Ontem mesmo “queimando as pestanas” no Estudo-1, a maleta de livros afivelada ao pé da carteira, o pavor de uma prova oral atazanando o espírito.

Vez por outra podiam espalhar gás sulfídrico no Gabinete (puleiro) de Química, mas sempre compenetrados na sala-5 (o Machado era “fogo”). Estudiosos quando necessário, irreverentes – quase sempre.
- Sacripantas! (No limite da paciência, o adjetivo novo do mestre Leitão)

Ei-los, fedelhos, espalhados pela pracinha, um “cano” inocente nas cocadas do Botelho (bom coração que esquecia e se fingia não ver), nas tangerinas e bananas do boteco do Nestor (nosso bondoso Nestor), nas filas do Cine Alencar, ávidos de pastelões e das pernas da Brigitte Bardot.

Com indizível felicidade, meu hoje “Botelho Reis”, só às vezes surpreendida por uma fisionomia sensivelmente mais mudada, eu devolvia a cada um seu pedacinho de “bons tempos” guardado no meu bolso. Meus velhos brinquedos de sonho, como na Ode de pessoa, caíam por dentro de mim, em monte, qual conteúdo de gaveta despejada no chão. Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e repartir como bolo: aula das seis e cinqüenta, campo do arranca-toco, meninas de azul e branco. O verbo nas “cinco” formas, o teorema na lousa, os bebedores de esguicho, aqueles vasos de “agacho”, um cheiro de carne assada das bandas do refeitório.

A serenata “pra ela”, o pomar do Dom Delfim, o violão milagroso do “incrível” Bianor. A gente ficando “um espicho”, a calça “pegando frango”, um sonho: jogar na liga, mais um “zerrô” em francês, que “mens” agitada e mole!

O quebra-queixo de côco, a Coquita geladinha, o picolé do Leopoldo. Aquela foto do Jarbas, o “footing” depois das oito, a chama braba dos moços pras bandas do Cemitério.

Passavam meus camaradas de coloridas memórias e fluía lento o transe quando um zunido de vento brincalhão cantou-me dos longes a ladainha daqueles apelidos inesquecíveis, curiosos, acachapantes: eh-eh-eh...Piacatuuubaaa; eh-eh-eh...Burneeetiii; eh-eh-eh...Jumeeentooo; eh-eh-eh...zabulããooo...eh-eh-eh...

Colégio Leopoldinense de todos nós. O coração meio querendo esboroar-se, abracei com saudade doída a meninada alegre, estudiosa e sonhadora que cruzou teu pórtico na década cinqüenta. Uma turma que se fez rara – companheiros de uma juventude aos pouquinhos ficada pra longe, no tempo e na lembrança, unida sob tua égide, meninada sentimental que te ama e não te perde de vista.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada no jornal REENCONTRO de julho de 1981)

O Pau d´Alho da Onça #

***
Setembro, 1983

À margem da Rio/Bahia, na segunda curva a meio caminho entre a Capelinha de Santo Antônio e o acesso à Boa Sorte, vai desaparecendo uma árvore secular. Um Pau d´Alho. O velho Pau d´Alho da Onça, tão avançado em anos que ninguém entre os vivos afirma tê-lo visto nascer ou crescer.

Também eu já o conheci idoso, imponente, ufano, mas franzido nas cascas, a braços com aquela perda de substância no tronco, moléstia que durante uns prováveis cem anos conspirou contra sua vida. Tão grande era o buraco brocado que servia de abrigo e maloca aos retirantes da poeirenta BR-4.

Ali armaram pouso providencial, através dos anos, andarilhos, mendigos, viandantes e erradios das mais variadas origens.
- Teria vindo de onde a moreninha infeliz que, por lá, também vacilou breve paradeiro nos idos dos primeiros anos 50? Nós, crianças, mal dávamos trato então à zoada de pé de ouvido, no meio da peãozada:
-Tá pondo incômodo nos home...

Quantas histórias, meu Pau d’Alho!
Você, estacado bem a meio dos meus sete quilômetros de ir ao Ginásio, foi o resfolgo do meu cavalinho Guarany, a sombra fresquinha, o perfume da floração sentido de longe, como se você quisesse vir correndo encontrar com a gente. Um troço que ardia nos olhos, aquele acerbo silvestre de floração, sabendo ao alho do seu sobrenome.

Impossível esquecer! O Pau d´Alho foi também pátio do meu recreio. Quando mamãe, a professora rural, soltava a criançada no fim da classe, era aquela correria. Tua sombra afável nos recebia com zelo de fada protetora e, do alto de sua fronde, nos descia uma cantiga de ninar com os solos das cigarras, zumbido das abelhas e trinados de pássaros miudinhos.

No chão, a terra batida, lisinha, na conta certa para se deitar e rolar. Não sabíamos, companheiro, que nossos sentidos haveriam de ficar, para sempre, contaminados pelo gesto mágico dos seus galhos. E por falar neles, um dia carreguei de presente um galho seu, bem fininho, para cabo de meu arco... As crianças ainda brincavam de rodar arco.

São muitas lembranças, centenário amigo. Não tenho como agradecê-las. Mas o pior é não ter como socorrê-lo, agora. Há dias, chegando por aqui, deparei-me com você estirado morro abaixo. Parei o carro, dei ré, desci e apalpei com a sola dos sapatos suas raízes chochas, humilhadas pelas orelhas dos fungos.

Subiu-me à garganta uma bucha de dó e de saudade. Meio estúpido, num gesto automático, cheguei a erguer os olhos à procura de seus ramos.
Claro que não podiam estar lá em cima.

Cabeça baixa, dei então de contemplar ao redor naquelas coisas todas que há muito se foram e, por um instante, experimentei a sensação de revê-las. Sonho de homem acordado.

O velho Pau d´Alho está irremediavelmente extinto. Mas todo mundo, nas redondezas da Onça, sabe da sua luta pela vida, do silêncio com que foi útil e foi belo, e da dignidade com que se entrega, só agora, neste ano da graça de mil novecentos e oitenta e três.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada na FOLHA DE LEOPOLDINA, 2ª quinzena, setembro, 1983)

Lydio Machado Bandeira de Mello (Prof.)

***
Setembro, 1983
(Foto: Internet)

O doutor e professor Lydio Machado Bandeira de Mello foi ex-diretor do Colégio Leopoldinense por algum tempo, e, seguramente, um de seus mais notáveis professores em todos os tempos. Em Leopoldina, lecionou também no Colégio Imaculada Conceição, tal como registrado neste Blog na biografia de Maria Machado Rodrigues, em cuja formatura, no ano de 1933, foi o professor Lydio o orador que procedeu ao encerramento da cerimônia de diplomação das formandas.

Detentor de vasta e consagrada bibliografia, grande filósofo e jurista, foi também professor universitário em Belo Horizonte. Empresta ele nome à "Biblioteca Lydio Bandeira de Mello", na Faculdade de Direito - UFMG, sita à Av. João Pinheiro, 100 - Centro, Belo Horizonte / MG.

Em 1950, quando ingressamos no primeiro ano ginasial, no Colégio Leopoldinense, o Prof. Lydio cumpria, possivelmente, seu último ano de magistério em Leopoldina. Não tive, pois, a felicidade de ser seu aluno. Minha mãe, formada normalista em 1930, para quem ele lecionara Português no Colégio Imaculada Conceição, guardou com cuidado e me passou a terceira obra do grande mestre, "No Templo da Sabedoria".

Numa livraria da Rua da Carioca, no Rio de Janeiro, encontrei a "Teoria do Destino", de 1944; e o advogado cataguasense, Dr. Galba Ferraz, ofertou-me, recentemente, a "Prova Matemática da Existência de Deus", uma edição da Gazeta de Leopoldina, de 1942. Faltam-me "O Problema do Mal", "Minutos de Meditação", "Responsabilidade Penal" e "A Procura de Deus".

Mestre do Direito ser ser exatamente um literato, Lydio foi acima de tudo um pensador vigoroso. Em Muriaé existe uma rua com seu nome. Em Leopoldina, nem rua nem praça.

Observem a alta ideia de Deus contida na alegoria que propõe para a gênese humana, na "Teoria do Destino", p. 55:

"A queda não foi um pecado, no sentido de ofensa pensada e voluntária a Deus: foi um ato de liberdade facultado por Deus. Deus deu a Adão e Eva a faculdade de escolher (reflexão e liberdade) e a possibilidade de escolher entre o Paraíso e a Terra. Escolhendo o Paraíso, o Homem teria escolhido o dom inferior da perfeição gratuita, adquirido sem esforço e, pois, sem merecimento; tendo escolhido a terra, o Homem caiu (degradou-se e degredou-se, temporariamente), porém não pecou; não ofendeu voluntariamente a Deus. Preferiu a miséria vencível das coisas imperfeitas unida à possibilidade de adquirir por si mesmo (isto é, pelo exercício da reflexão e da liberdade) a perfeição (e o Paraíso). Tornou-se, em verdade, o Filho Pródigo, a quem o Pai deixou que partisse e, depois, recebeu de braços abertos, com o mesmo infinito e inalterável amor."

Convenhamos, tranquiliza e é muito bonito!

Os dados biográficos que se seguem nós os extraímos da coluna “Ex-Diretores”, do jornal REENCONTRO, em sua edição de setembro de 1993.

Nasceu, o Prof. Lydio, em Abaeté em 19 de julho de 1901. Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, em 1927. Iniciou a advocacia em Muzambinho (Sul de Minas), Professor Catedrático de Direito Penal na UFMG, professor de Aritmética, Álgebra, Geometria, Trigonometria, Matemática, Português, Direito Constitucional, Direito Civil, Técnica Comercial, Estatística, História Econômica e Administrativa do Brasil e Legislação Fiscal. Filósofo, autor do ensaio “The Biology of war and the Law of the peace”, considerado por americanos como o melhor texto filosófico de 1969, um dos brasileiros a figurar no “The International Who´s Who”, edição de 69/70, autor de 70 livros com 44 publicados e espalhados por 800 universidades do mundo.

Compõe um sistema filosófico que procura provar serem ontológicas as leis da Matemática pura “que, por conseguinte, nos levam (em sintonia com as leis da lógica formal) a um conhecimento do universo”. Nunca foi reconhecido no Brasil.

Em 1969 ele resolveu, por correspondência, um problema matemático sem solução no Japão. Nas aulas não admitia interpelações; aplaudia, na sala, sua linha filosófica, Platô e Visconde de Araguaia.

Foi professor e Diretor Técnico do Ginásio Leopoldinense, de 01.03.46 a 01.03.47. Iniciou em 06.05.42 uma série de artigos filosóficos, “Novos Minutos de Meditação, publicados no jornal quinzenal do Ginásio, o “Três de Junho”.

Por ocasião do lançamento de seu novo livro “Prova Matemática da Existência de Deus” dirigindo-se aos alunos do Ginásio, em outubro de 1942... “E, se alguém vos disser que Deus é apenas um sonho de nossa alma o qual não tem cabida na Ciência, respondei, com esse livrinho, que Deus é Quem dá existência e leis à nossa razão; que todas as ciências conduzem a Deus pela via direta de seus corpos de doutrina; que a afirmação provada da existência de Deus é o teorema supremo das ciências matemáticas”.

Faleceu em 30.09.84, vítima de insuficiência cardíaca congestiva, no Hospital das Clínicas em Belo Horizonte, tão desconhecido quanto sua obra filosófica.
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(Publicada no jornal REENCONTRO, de setembro de 1983)