Powered By Blogger

Total de visualizações de página

domingo, 13 de março de 2011

Cantador

***

Quem canta povo e lugar
Tem algo familiar,
Estou em casa no Brasil
Meu canto é amigo de infância
De quem nunca me ouviu.

A platéia é companheira,
Gente boa, gente amiga
Farinha do mesmo saco,
Nossa amizade é antiga.

Platéia e cantor
Amor à primeira vista,
Não há diferença alguma
Entre o povo e o artista.

O dedo na mesma corda
O mesmo chão nos recorda,
Somos povo de se dar
Somos passado e presente,
Somos gente do lugar.

₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
Letra: josé do carmo e luiz airão
Música: dhaal
Gravada em LP de 1987 – Lup Som
Performance: dhaal




                

Amor por Inteiro

***

Se um dia você perguntar
O que eu penso da vida,
O que eu busco pra mim,
O que eu quero de ti
E o que desejo pra nós.

Se te tocar a lembrança,
O desejo de ouvir minha voz,
Se te faltar um carinho
Ou qualquer coisa assim.

Saiba que eu te pertenço
Muito mais do que a mim,
Muito além da razão,
Além da emoção,
Nosso amor não tem fim.

Ah, eu sou só coração
Não, não é simples paixão,
Paixão é fogo passageiro,
Eu te quero é por inteiro.

₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
Letra: josé do carmo
Música: dhaal
Gravada em LP de dezembro/1990 – Paralelo
Performance: dhaal


Gaivota

***

Voa gaivota branca
Pra lá de mim, prisioneiro
Desta vida, dos costumes,
Da rotina e do dinheiro.

Me leva pra ir contigo
Por teus caminhos de vento
E passar a encruzilhada
Onde eu errei minha estrada.

Leva este artista, menina
Companheira e bailarina,
Atrás da segunda chance
Tão fora do meu alcance.

Portadora das canções
E das notas sobre a pauta,
Contorna com tuas asas
A liberdade que me falta.

₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
Letra: josé do carmo
Música: dhaal e palavrinha
Gravada em LP de dezembro/1990 – Paralelo
Performance: dhaal

quinta-feira, 10 de março de 2011

Marcha da Quarta-Feira

***
Março, 2011

Quarta-feira de cinzas de 2011. Ontem, dia 8, cliquei no You Tube a “Marcha da Quarta-Feira de Cinzas”, de Vinicius de Moraes e Carlinhos Lyra. Hoje pela manhã, acometido de lembranças, voltei a ouvir.  Eu que nem sou tão dado a Carnaval, passei  a explorar todas as interpretações disponíveis, da linda Marcha.

Repetecos inclusos, não fiquei menos de hora e meia ouvindo a deliciosa lamúria do Vininha. Bendita seja toda inspiração que Vinícius bebeu em nosso nome!

A conclusão a que chego é que não é preciso gostar de Carnaval, nem é preciso participar de Carnaval, para que o espírito da Quarta-Feira de Cinzas baixe em cima (e, principalmente, por dentro) da gente. Os semblantes nas ruas não negam. Na cabeça das pessoas, todo céu de quarta-feira de cinzas é nublado, londrino. Razão assiste ao poeta quando observa que “saudades e cinzas” foram feitas para “restar nos corações” quando “ninguém mais passa cantando feliz”.

Até meia noite será quarta e ainda dá pra curtir a preguiça. Mas amanhã será quinta, quando todo sentimento de trégua e repouso assumirá conotação de malandragem. Será o calendário exigindo da gente um ânimo que o menor quociente de álcool no sangue – por insignificante que seja – oporá obstáculo no argumento pesado da lombeira.

Você não brincou o carnaval, não é mesmo, não foi pra rua bater pernas debaixo de chuva, não foi empurrado, pisado, xingado, cuspido, nem bateu caixa a noite toda, certo? Preferiu um passeio com a família, ao sítio, à piscina, um rachinha de futebol society, peteca, uisquinho, batidinha de limão ou caju... outro uisquinho, torresmo... mais um uisquinho, linguiça frita... outra dose do importado de lei; picles, camarão pingando aquela gordurinha de porco deliciosa, hem!...

Reforça a dose aqui, amigão! Um joelho de porco na brasa, hem, hem, hem, um aipimzinho crocante... Cadê a batida, gente boa?

Maravilha! Nós aqui e os palhações lá na chuva azarando mulher turbinada e pondo em risco a saúde. Tem gente que não pensa no dia de amanhã!

É claro que um pouco de exagero nas frituras e no sal das azeitonas deixa também o estômago da gente meio revirado ao fim de quatro dias. Pra falar a verdade, não sei por que não decretam que as quintas e as sextas, depois do carnaval, sejam igualmente “de cinzas”. Não custava nada. Estômagos e fígados agradeceriam. Falta de graça ter que trabalhar no efeito dessa gastura digestiva, dessa sensação de corpo moído que a ingestão de tira-gosto industrializado provoca no organismo!

Sei que muita gente toma isto como piada, mas tanta porcaria que se ingere para acompanhar scotch e caipirinha é uma temeridade. O que tem ali de química conservante, aromatizante e colorante não é brincadeira. Sacumé que é! E nós, aqui, mal conseguindo ficar de pé...

Tudo culpa do governo que nem tá aí pra essas paradas. Sacou? Desses órgãos fiscalizadores dos alimentos que deviam fiscalizar, mas não fiscalizam coisa nenhuma. Tendeu? Vai ver, numa hora dessas, eles também tão chapados, em paranoia etílica, falando abobrinha por aí... Hic!

Esse país só entra nos eixos, ó meu, quando pessoas conscientes de seus direitos, no uso da sobriedade que só nós sabemos preservar em momentos assim, mandarem logo uma ação de perdas e danos em cima dessa tal de “AVISA”... Ou seria... hic, hic...

₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada em 03.03.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

terça-feira, 8 de março de 2011

Colégio Leopoldinense, III-Encontro de ex-Alunos

***
Junho, 1987

Para mim ele será sempre “Colégio Leopoldinense”. Qual tatuagem indelével em meu córtex cerebral, dentre minha recordações mais gratas, um certo dia de fevereiro de 1950, quando pela primeira vez enverguei aquela camiseta branca com a divisa “Colégio Leopoldinense” bordada em curva azul sobre o peito.

Dia da estréia, também da minha primeira calça comprida. O brim caqui engomadinho! Como eu me orgulhava daquele uniforme!

Meu primeiro dia de aula, onze anos incompletos, uma talvez segunda-feira estratificada na memória! Nós morávamos na roça. Levantei-me muito cedo, preparei meu cavalinho castanho, vesti-me, passei um inútil “gumex” no cabelo espetado e galopei sete quilômetros em direção à “aula das seis e cinquenta”.

Nem de longe supunha que o estrépito das ferraduras no cascalho da estrada Rio/Bahia me anunciava a chegada dos grandes amigos da minha vida: mestres e colegas do Colégio Leopoldinense. Deus lhe pague, cavalinho “Guarany”.

A primeira lição foi de português, na sala 3, com nossa querida Dona Judith. Professora exemplar, toda dedicação. Carinho e bondade até quando se impunha a bronca.
Pena que meus adjetivos de consistência módica não se compadeçam com a justiça devida a mestres como Da. Judith, Da. Belinha, Da. Olimpinha, Joaquim Guedes Machado (a um tempo rigor e ternura), Padre José Ribeiro Leitão (Jurista e filósofo, meu enorme apreço), João Batista Alvim, Professor Moura (Poeta contaminador de sonhos, bom gosto e ritmo), Pedro da Cruz Pereira, Padre José, Geraldo Bertochi, Oíliam José, Átila e Geraldo de Vasconcelos Barcellos (influência estética para a qual nos faltou engenho e arte).

Sim, esse III Encontro foi mais um ato de reconciliação com os bons tempos. Somos todos gratos aos organizadores. Foram eles que tornaram possível gesto lindo, como o que presenciei, dos ex-alunos da turma de 1946: reuniram-se, na Cotegipe, após o almoço do dia 8 e foram levar um abraço ao mestre Barcellos, em sua residência na Cotegipe. Eram os meninos, Wander José Neder – da Assessoria Jurídica do Banco do Brasil, advogado e historiador, Kênio Souza – dentista, Lídio Bandeira de Mello – artista plástico de projeção internacional e Raul Soares de Souza Lima – médico em Belo Horizonte.
O poeta merece. Todos os nossos mestres merecem. Eles foram, eles são o Ginásio, de ontem e de sempre.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada no Jornal Reencontro, de junho de 1987)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Cantor do Povo

***

Me lembro eu era menino,
Num dia de inspiração
Peguei da minha viola
E fiz a primeira canção

Juntei palavras bonitas,
Tirei do pinho um som novo,
Foi quando meu pai me disse:
-Meu filho, canta pro povo.

Daí eu ganhei a estrada
Buscando o povo que foge,
Não deu pra agradar meu pai
Mas estou tentando até hoje.

₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(josé do carmo & dhaal)
Performance: Dhaal)
Ouvir Aqui


quinta-feira, 3 de março de 2011

O Desafio do Piracajó #

***
Março, 2011

Neste verão de temporais e alagamentos por toda parte, alguns até com vítimas, ocorre-me contar a história de uma tremenda tempestade mineira, que me permito classificar como muito engraçada porque, apesar dos estragos, não deixou vítimas.

Minas, como sabemos, é Estado pródigo em trombas d’água. Principalmente, na região da Mantiqueira e Zona da Mata Mineira, espaço fronteiriço aos Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo, indo do vale do Rio Paraibuna – que corta Juiz de Fora – até o Rio Doce, ao norte. Com intensidade menor, chove bastante também no sul e no centro do Estado.

O toró de que vou falar aconteceu há alguns anos no Oeste de Minas, numa cidade antiga, de médio porte, chamada Bom Sucesso (Assim mesmo, separado, diferente do bairro de “Bonsucesso”, no Rio de Janeiro). Bom Sucesso fica a cerca de 200km de Belo Horizonte, descendo pela Rodovia Fernão Dias, em direção ao sul. É terra de muitas famílias tradicionais de Minas, grandes fazendeiros, industriais e banqueiros importantes do passado recente.

A cidade se estende pelo topo de uma colina, com clima e visual maravilhosos, mas lutou muito em seu passado com um problema que parecia insolúvel. É que a via de acesso ao perímetro urbano, bem ao pé do monte, passava obrigatoriamente por um riacho de margens alagadiças, o Rio Pirapetinga, onde não havia ponte que parasse de pé. Era construir uma nova ponte (sempre de madeira, como da praxe de então), para vir uma enchente de fim de ano e levá-la rio abaixo, isolando mais uma vez a cidade. Um estorvo histórico.

Eis, contudo, que certo prefeito mais afoito vai ao governador e volta de Belo Horizonte com o deferimento da verba necessária para edificar a ponte que convinha ao local, de cimento armado, pilotis bem estaqueados até as profundas do charco, projeto portentoso de engenheiro do ramo. Uma obra – anunciava o Alcaide a seus munícipes - “que virá valorizar a cidade, resolver nosso antigo problema e levantar a auto-estima do nosso povo bom e trabalhador”...

Claro que no dia da inauguração da nova ponte foi feriado municipal. Carros de som percorreram as ruas desde cedo conclamando a população a comparecer ao corte da fita inaugural, banda de música, Hino Nacional, colégios em uniforme de gala, professoras descendo o vale na direção da nova ponte do Rio Pirapetinga com suas classes em forma, a digníssima esposa de Sua Excelência num vestido bem cortado, mandado confeccionar em Beagá, correligionários em trajes de missa, populares de olhos esticados sobre as muitas cabeças coroadas... O palanque, como não poderia deixar de ser, armado em cima da própria ponte.

-Povo da minha terra! Autoridades civis, militares e eclesiásticas que nos engalanam esta festa da municipalidade com a conspícua honra de vossas augustas presenças! Neste dia dois, dia ímpar nas tradições desta terra, nesta efeméride em que inscrevemos hoje - queira Deus para sempre! – nos gloriosos anais da história local, a ventura de uma realização que vem a lume exatamente pelas mãos do mais humilde dos filhos deste chão - o emocionado servidor que vos fala! – eu tenho a honra e o privilégio de entregar ao meu povo esta portentosa “Obra de Arte” que tantos benefícios trará à população local, quiçá de Minas, quiçá do Brasil!

É, pois, com o orgulho e o patriotismo dos impávidos que declaro neste momento aos homens e mulheres da minha terra:
-Nós vencemos o desafio do Pirapetinga!...

Introdução aplaudidíssima para um discurso que, pelo andar da carruagem, prometia ir longe! Só que Nereidas e Tágides camonianas, as ninfas do Rio Pirapetinga, não deviam estar gostando daquilo. Sim, porque mal ressoavam essas empoladas frases do palavroso tribuno, volumosas gotas d’água começaram a despencar de um céu surpreendentemente roxo, baixo e ameaçador. Pingos enormes estalavam no concreto da ponte, uma ventania surpreendente passou a desgrenhar árvores e a enlouquecer porteiras, gente se espalhando por todos os lados, um Deus nos acuda!

O gerente de Banco, Renato Esteves Alves, que me contou esta história, pegou sua filhinha de dez anos, colocou-a nos ombros enganchada ao pescoço e disse:
-Segura firme, filhinha, que papai também vai correr!

Choveu a cântaros calculados por todo o resto da tarde e pela noite. Um dilúvio!
Na manhã seguinte, desolada, a cidade constatava que, da ponte, sobraram apenas ferragem retorcida e guimbas inclinadas dos quatro pilotis.

O desafio do Pirapetinga continuaria por mais alguns tempos.
₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪₪
(Publicada em 03.03.2011 em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)