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sábado, 25 de setembro de 2010

Olyntho Gonçalves Netto

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2003 (?)

Por iniciativa de nossa egrégia Câmara Municipal, foi denominada Rua Olyntho Gonçalves Netto, uma via pública no Bairro Mina de Ouro. Olyntho Netto foi funcionário público estadual nesta cidade, membro do Partido Republicano Mineiro, liderado pelo ex-Presidente Artur Bernardes, e chefe de família exemplar.

Para registro dos dados biográficos do homenageado, transcrevemos adiante o discurso proferido por seu filho, o ex-vereador Ely Rodrigues Netto, por ocasião do descerramento da placa designativa da Rua, na confluência desta com a Rua Professor José Lintz.

“Desejaram os meus irmãos, Eloi e Elisa, que eu fosse o indicado para manifestar a gratidão da família ao Exmo. Sr. Vereador Darcy Luiz Vasconcelos Resende, autor do Projeto de Lei nº08/86, que deu origem à Lei Municipal nº1784/86, de 7/03/86, modificada por motivos técnicos, pela Lei nº 3.416, de 2002, denominando esta via pública, oficializando-a como Rua Olyntho Gonçalves Netto, uma consideração à família que nos honrou a todos, o que nesta oportunidade agradecemos ao autor da proposição, vereador citado, e por seu intermédio à Câmara Municipal de Leopoldina, que transformou a proposta em lei, sancionada pelo Exmo. Sr. Prefeito Municipal, Dr. José Roberto de Oliveira, a quem devotamos amizade e consideração e também dirigimos agradecimentos.

Esboçado, assim, nesta breve introdução, o principal motivo desta manifestação pública, a alegria e a gratidão da família aos que nos proporcionam a emoção desta homenagem póstuma à memória de Olyntho Gonçalves Netto, queremos reviver um pouco a vida do nosso saudoso pai, iniciando com uma expressão cristã de louvor a Deus que ele repetia com freqüência, com respeito e sentimento de oração gratulatória, exclamando: ‘Louvado seja Deus!’

Nosso pai tinha como hábito repetir com freqüência a expressão que parece ter escolhido para louvar a Deus em tudo: - ´Louvado seja Deus!`...

Tenho bem presente em minha lembrança essa curta e constante oração de louvor a Deus, que ele usava em qualquer circunstância como a querer agradecer a Deus por tudo, a partir da própria vida, esse dom maior do Criador, que tão bem soube amar e valorizar. Foi a primeira oração que com ele aprendi, ainda criança, sem mesmo saber avaliar a sutileza e a profundidade da frase-oração, que só mais tarde me foi possível entender, com a lição do apóstolo Paulo, que transcrevo para sublinhar a importância da fé e da vivência cristã de um homem, sobretudo quando ele é pai, chefe de família, líder e dirigente em qualquer setor da atividade humana. Se assim é para o homem, também vale em igual escala para a mulher-mãe. Vamos à lição do Apóstolo Paulo, em sua primeira carta aos Tessalonicenses-5, 17-18: -‘Orai sem cessar em todas as circunstâncias, dai graças porque esta é a vontade de Deus em Jesus Cristo’.

Não há como negar que este é para nós, também, um momento de ação de graças e de exclamarmos como Olyntho Netto: -‘Louvado seja Deus!’. E o que é mais gratificante para nós, filhos, filha, noras, genro, netos e bisnetos, é verificarmos que após um século do seu nascimento, a vida e a memória de Olyntho Gonçalves Netto estejam sendo lembradas, reverenciadas, apresentadas como exemplo e imortalizadas, tornando-se o nome oficial desta via pública, sinal de que a sua vida e os seus 81 anos, não foram em vão, não foram vazios, não foram infrutíferos. Portanto, temos motivo para dar a essa breve manifestação de contentamento e gratidão, esse sentimento de louvor, repetindo São Paulo: ‘Em todas as circunstâncias, dai graças...’

No início do século passado, mais precisamente no dia 4 de março de 1901, nascia o nosso pai neste município, na região da Fazenda Constança, ‘Sítio Genipapo’, proximidades da Fazenda Boa Sorte, localidades em que ele viveu sua infância e juventude.

Desde a sua adolescência, manifestava alguma vocação para a música. E convivendo com os principais fundadores e integrantes da Banda de Música da Colônia da Boa Sorte foi, também ele, flautista e clarinetista da corporação, pelo menos até seu casamento, que ocorreu em 29 de janeiro de 1930, com Mariana Rodrigues Netto.

Ruralista desde criança, veio para a vida urbana só em 1947, quando a saúde já não lhe permitia grandes esforços físicos na atividade agrícola. Nesta cidade, com uma breve passagem pelo comércio, conquistou logo após, já quase aos 60 anos, sua nomeação como servidor público no Ministério da Educação, onde prestou serviços no Setor de Merenda Escolar, até a sua aposentadoria aos 71 anos de idade.

Desde muito jovem foi leitor diário do então prestigiado Correio da Manhã; e como manifestava formação política democrática e equilibrada, ele se filiou ao então PR - Partido Republicano - de Artur Bernardes, unindo-se aos saudosos amigos Enéas Lacerda França e ao seu irmão Liliu, a Pedro Brito Netto, a Manoel Lacerda, a Artur Leão, a Olivier Fajardo, a Colatino Barbosa de Castro, a Dr. Antônio de Oliveira Guimarães, a Dr. Jairo Salgado Gama e tantos outros de igual valor e tendências político-partidárias, coligando-se mais tarde com o PTB – Partido Trabalhista Brasileiro – de Getúlio Vargas, de Castelar Modesto Guimarães, Aracy César, Prof. Alziro Azevedo de Carvalho e muitos outros e, num embate político árduo e financeiramente desigual que durou anos de exercício democrático e popular, elegeram, finalmente (posse em 31/01/1959), um dos líderes do grupo, o Dr. Jairo Salgado Gama, Prefeito deste município, num mandato que marcou época, inaugurando a alternância do poder político no município e o início de um tempo novo em que a voz do povo e o clamor dos humildes, passaram a ser ouvidos nesta querida Leopoldina, em que os Almeidas, os Britos e os Nettos, plantaram a civilização, segundo o historiador Mauro Almeida, cujo saber, trabalho e gentileza no trato com as pessoas nos deixaram saudades.

No episódio da histórica vitória do Dr. Jairo Salgado Gama e das forças populares, Olyntho Gonçalves Netto estava lá, firme nas suas posições, intransigente na defesa de seus ideais, defensor da justiça para todos, prudente e ético, radical, tanto quanto o homem deve ser na defesa de seus princípios, sobretudo extremamente fiel ao Partido Republicano e ao seu grupo político, sempre dedicados, todos eles, ao bem comum e aos interesses maiores do município.

Que estas pinceladas da história política de uma fase áurea de Leopoldina, possam servir de resposta aos mais jovens que porventura queiram perguntar quem foi Olyntho Gonçalves Netto. Mas a minha resposta pessoal a tal pergunta é bem mais simples, curta e objetiva: Olyntho Gonçalves Netto foi simplesmente um homem!

Assim, sem brilho e sem poesia, termino a tarefa que me foi dada por meus irmãos, sabendo que não fui perfeito. Mas afirmo que usei a sinceridade, a lealdade, a firmeza e a radicalidade que herdei de meu pai.

Só para amenizar e dar um toque de leveza e reflexão neste simples trabalho, transcrevo de Jorge Roberto de Souza Barbosa, do seu ensaio O Anjo do Apocalipse, a página 19, com o título Um Canto de Amor à Liberdade, onde ele, entoando louvores a uma plêiade de homens que dedicaram as suas vidas em prol da LIBERDADE e do AMOR, tais como: MOISÉS, com sua FÉ e coragem inauditas; GHANDI, com a sua não-violência; SÓCRATES, com a sua idéia de união contra o paganismo; o Unigênito do Pai, JESUS, com seu ideal de verdade, justiça e perdão; LECK WALESSA, pela sua voz em favor dos oprimidos, e, ainda, outros, Aristóteles, Galileu Galilei, Luther King, Tereza de Calcutá, Joana D’Arc, filósofos, cientistas, gênios, santos e heróis, para, através deles, nos mostrar que a humanidade, hoje, está carente de dignidade, idealismo, solidariedade, de valores éticos e morais, não sendo por isso tão fácil, hoje, podermos dizer como cada um dos citados: EU SOU UM HOMEM!´

E acrescenta o autor: ‘... ser HOMEM,
é você gritar a verdade sem se importar com as conseqüências;
é você ser inimigo das injustiças;
é você pelo menos tentar construir um mundo onde reine fraternidade e amor;
é você questionar os ensinamentos recebidos;
é você se rebelar quando lhe ferem a dignidade;
é você não aceitar a tirania;
é não depender de uma posição para clamar por seus direitos...
Enfim, ser HOMEM é você ser infinito e viver continuamente cantando... UM CANTO DE AMOR À LIBERDADE!’
Conclui o autor a sua página e também eu a minha.

Por tudo e por todos, ‘Deus Seja Louvado’, como diria Olyntho Gonçalves Netto.”
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(Publicada no Jornal LEOPOLDINENSE)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O Meu Cunhado, Roni



Foto: Roni, praia de Iriri - anos 80.

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Dezembro, 2003

Se este jornal fosse lido lá em cima, Roni iria adorar o título deste artigo porque uma das minhas certezas absolutas sobre o amigo Azevedo é que ele amava os de casa. Certamente abriria, lá dos celestiais recessos, um sorriso largo e conivente para este enfático “meu cunhado” do título.

Todos na minha família sabem. Perdemos, no dia 27 de agosto, nosso querido Roni. Lembrar aqui que ele não cuidava muito do diabetes, que poderia ter sido diferente, deixa de vir ao caso. Sob perspectiva divina certamente não faça diferença alguns anos a mais, alguns anos a menos, ante o incomensurável privilégio da vida. Por si só - diz Bandeira - a vida é o milagre.

Além de pai do meu maravilhoso sobrinho Andrei, Roni era neto do teatrólogo Artur Azevedo, autor de mais de 70 peças teatrais (O Mambembe, O Dote, etc.), homem que consolidou a Comédia de Costumes no Brasil e, ao lado de Martins Pena, considerado o fundador da dramaturgia nacional.
Neto de Artur, logo, sobrinho-neto do romancista Aluísio Azevedo (O Cortiço, Casa de Pensão, O Homem, etc.).

Herança de família, portanto, aquele discernimento fácil, a lucidez solar, aquela vocação cultural aguda, o banco-de-dados que era o cérebro do Roni. Cinéfilo, falava de filmes com a autoridade de um crítico. Lia tudo. Um dia, em nossa casa de Iriri, ES, não encontrando em casa livro ou revista, esticou-se no sofá e começou a ler a lista telefônica do Espírito Santo.

Não desfrutou completamente de um lar, na juventude. Perdeu o pai antes dos dois anos de idade e, sem melhor relacionamento com o padrasto, passou por internatos e hotéis.

Com o irmão recentemente falecido, e com a meia-irmã que o sobrevive, seu relacionamento não era diário. Talvez por isto, ao casar-se adotou a família da esposa, Leísa. Seu coração brando, generoso e companheiro, deixava claro que ele nos elegera, assim, também seus irmãos. Nós os genros, filhos e noras de seus sogros, Dr. Lélio e de Da. Laura.

Esta a minha percepção desde os bons tempos do campo de vôlei no quintal da rua Aristides Duarte, em Belo Horizonte, das festas anuais do Natal, das férias em Iriri e de cada churrasco regado, do Bar do Veio.

-Tanto penso assim, querido Roni, que até me preocupa se não lhe teríamos faltado com reciprocidade mínima. Se isto aconteceu, queira nos perdoar. A vida é desatenta e estrábica, leva a gente de roldão sem que mal atinemos com a realidade sob nossos olhos. Mas esteja certo de que, à maneira de cada um, foi enorme o carinho que todos tínhamos por você.

De minha parte confesso também uma admiração que beirava a inveja. Uma inveja benigna do seu inglês (o danado fluía também no francês, no italiano e no espanhol), da sua postura de otimismo diante dos problemas, do seu fair-play e, acima de tudo, daquele seu dom de sorrir tão prodigamente.


-Você ria até de piada sem graça, Roni!

Ainda ouço suas gargalhadas do dia em que lhe expliquei a palhaçada de um jogo de baralho chamado Caxanga, que um pilantra mexicano levou aos cassinos de Tegucigalpa. (Piada do José Vasconcelos) Nunca vi ninguém rir tanto! “Tegucigalpa” entrou para o seu ideário cômico.

Claro que aquele seu sorriso largo, sempre esticado para além do que merecia o dito, era seu artifício inconsciente de repartir coração com os amigos.

Nunca me esquecerei, Roni, daquela noite, lá no meu sítio de Leopoldina, quando você e meu irmão, Ladinho, abriram disputa sobre qual dos dois teria passado por maiores tropeços na vida. Com um pouco de exagero de lado a lado, a contenda ficou muito divertida.

Ladinho deu a partida dizendo que, na juventude, engraxara sapatos; você retrucou com equivalente agrura da infância; Ladinho devolveu lembrando que, quando jovem, fora empregado num boteco onde se escrevia jogo do bicho; você empatou a peleja dizendo que tinha experiência de crupiê em cassino europeu; Ladinho alegou ter colaborado num escritório de contabilista pilantra; você lembrou sua feirinha de legumes onde se passavam tomates amassados; Ladinho perdera uma beneficiadora de arroz; você se deu mal com engarrafamento de cachaça em noz de coco; Ladinho arriscou construir casas populares; você arriscou fazer, com fibra de vidro, barcos e orelhões de telefone...

A brincadeira ia longe, muito engraçada, até que você deu o xeque-mate:


-Eu já lavei prato em restaurante de Londres.


Aí o Ladinho, que nunca saíra do Brasil, jogou a toalha.

Só não sei se no desdobramento da vida, Roni, depois daquele dia inesquecível, meu mano não terá vencido, às avessas, nos trágicos desafios que vocês dois viveram. Você se foi aos 60 anos, de morte natural, como funcionário da Prefeitura de Belo Horizonte, depois de fechar uma pequena indústria metalúrgica. Ladinho já havia sido assassinado, aos 42 anos, como advogado de posseiros numa região primitiva do Mato Grosso, depois de deixar o cargo de Delegado de Polícia.

De uma forma e de outra, vocês dois foram meus irmãos muito queridos que, embora distantes, também foram irmãos entre si, nos muitos percalços de suas existências breves, porém corajosas.

Há quem morra por nada; há quem morra pelo país; há quem morra por uma ideia. Vocês morreram pela ideia de não ter medo, pela idéia de deixar os sonhos irem dando cordas à vida.

Por último, Roni, vou registrar aqui, para o pessoal, sua viagem de solteiro à Europa.
Já noivo e contrariando todas as expectativas de casamento breve, você, um durango kid sem vintém no bolso, entendeu de ir ganhar a vida na Inglaterra. Torrou seu único patrimônio, um fusquinha maneiro e comprou as passagens.

Cabendo a mim levá-lo ao Aeroporto Internacional do Rio, você apareceu lá em casa no dia do embarque, quando Leila e eu ainda morávamos num apartamentinho de Santa Tereza, abraçado a uma velha mala, puída, esfolada e sem fechos. Para obrigar a tampa da mala a permanecer fechada você a amarrou com um fio elétrico, parcialmente desencapado, que dava duas voltas no volume.

Nossa intimidade, na época, era pouca, mas não contive o espanto e perguntei:
- Vais tomar um vôo internacional, para Londres, com esta mala?
Ao que você retrucou:
- Qual o problema?
E eu contra-ataquei:
-Vá ter personalidade assim na puta que o pariu!

Pois é, você viajou, deu uma cubada no submundo londrino, voltou, casou-se e veio a ser, por todos esses anos, o adorável Roni que acabamos de perder. Se é perda para sempre, só Deus sabe, amigo. Até porque, sobre a morte há deste nosso lado de cá muito mais dúvidas do que certezas.

Perdão por interferir no seu silêncio. Sei que você está com Deus.
Quanto a nós, vamos seguindo por aqui na esperança de que, quando também virarmos lembranças gratas, alguém possa até sorrir e puxar por lembranças felizes como estas tantas que você deixou para nós, inesquecível companheiro Ronaldo Azevedo. Roni, para os amigos... Ou seja, pra todo mundo.
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(Publicada no jornalzinho CHAMA de dezembro de 2003)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Galo de Rinha

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Setembro, 2010

Há na política brasileira de hoje um encarte que tanto se aproxima do paradoxo do ovo e da galinha quanto do dilema daquele biscoito que “vende mais porque é fresquinho, ou fresquinho porque vende mais”. O país dá tratos à bola para saber se a corrupção aumentou porque aumentou mesmo, ou se aumentou porque ganhou mais visibilidade.

Há quem diga que nem uma coisa nem outra. A corrupção seria a de sempre. Apenas o hábito de investigá-la para fins políticos ganhou mais adeptos, no governo e na oposição. O país viria se beneficiando, obliquamente, de uma vigilância a serviço da instrumentação de dossiês.

Se já não havia consenso de que a corrupção passou a ser mais combatida no atual governo, bem mais complicado ficou agora diante dos escândalos da Casa Civil, a poucos metros do gabinete presidencial.

Longe de sugerir inclusão ou responsabilidade da mais alta autoridade do executivo nacional, causa apreensão constatar a quão próximo do poder central chegaram os valores morais decompostos, muito embora o governo tenha a seu crédito a liberdade que dá à Polícia Federal.

Mas quando se vê a segunda autoridade do Governo exonerar-se de seu honroso cargo para, em seguida, solicitar demissão das várias outras funções públicas que paralelamente exercia – ao que se supõe, numa considerável soma de vencimentos e vantagens – fica difícil entender o “para quê” de tantas incursões no erro. Se valores éticos a não dissuadiam, notáveis eram os interesses materiais postos em risco! Um mau negócio, portanto.

Será que Maquiavel acertou mais uma vez quando disse que a ambição do homem é tão grande que a vontade presente não lhe permite avaliar o mal que virá depois? Bons tempos quando aos bem situados na vida pública bastava cavar um empreguinho para os filhos. Hoje se concebem catapultas mirabolantes para torná-los milionários. Ainda bem que nem sempre dá certo.

Investigação existe e nossa PF é de fato eficiente. Só uma coisinha ainda pega: é o bom número de casos em que o proveito político pareceu atuar. Suspeitou-se disto no caso Roseana, que teria visado tirá-la (ainda bem!) da disputa presidencial de 2002.

Não ficou claro se, na ausência dos interesses políticos então existentes, aqueles R$1,34 milhões em espécie teriam deixado as gavetas da Lunus. Do mesmo modo como a luta partidária nos presenteou a seu tempo com as demolições do Mensalão, do Escândalo dos Correios, do Mensalão do DEM, do Dossiê dos Petistas, do Boi Barrica e do diabo a quatro.

O ideal, entretanto, seria que o normal funcionamento do Estado de Direito atuasse como inspiração única e suficiente na coibição do erro. Que a justiça não dependesse tanto dessa briga de pescador pelo trecho mais piscoso do rio.

É muito pouco para este Brasil que se moderniza crescer à noite enquanto a pilantragem dorme e crescer só mais um pouquinho ao dia quando eles brigam e escancaram escabrosidades recíprocas.

Galo que morre na rinha sempre melhora a sopa dos pobres. Mas nós merecemos mais.
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(Publ. em 23.09.2010, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Juiz Homologa Acordo – Hospital/Prefeitura

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Junho, 2008

Finalmente um acordo homologado em Juízo pode dar fim às agruras da Casa de Caridade Leopoldinense. O Juiz da Primeira Vara de Leopoldina levou Hospital e Prefeitura, no último dia 18 de março, a um entendimento quanto à manutenção do Pronto Socorro.

A Prefeitura passa a pagar ao Hospital cento e dois salários mínimos, mensais, para o funcionamento do PS. A briga, que se arrastava por mais de dois anos, era porque a Prefeitura insistia em continuar pagando apenas 60 SALÁRIOS...

Os números a que chegaram as partes, nos autos dessa Ação Cível Cominatória, Processo nº384.03.018139-8, demonstraram que eram procedentes as alegações da Casa de Caridade quanto à insuficiência dos 60 salários pactuados a cerca de uma década.

Desde o segundo ano do nosso mandato de Provedor, a Casa de Caridade vinha tentando acertar com a Prefeitura essas contas do Pronto Socorro. Dois meses antes de terminar aquele mandato, decepcionadíssimos, denunciamos, via Cartório, o Convênio do PS (“Denunciar”, no caso, é expressão jurídica, técnica, que apenas significa declarar que, a seu término, o contrato não seria renovado).

Um dos argumentos da Prefeitura era de que as verbas do SUS estavam corretamente aplicadas e que não dispunha de recursos. Ora, para o Hospital não vinha ao caso saber se a Prefeitura estava aplicando corretamente, ou não, as verbas da Saúde. Importava, sim, saber se os repasses que a ele chegavam cobriam ou não suas despesas com o PS Municipal. Se não cobriam, que a Prefeitura recebesse de volta seu serviço de Pronto Atendimento, um serviço tão pertencente à municipalidade como a coleta do lixo e a capina das ruas.

Deu-se que os Srs. Prefeitos sempre se recusaram a receber de volta o ônus daquele serviço. Ora, aquilo vinha descapitalizando a Casa de Caridade, à qual só restou a saída de obter a devolução via judicial.

Felizmente, prevaleceu o bom senso e, no último dia 18 de março, chegou-se a um acordo no processo. Saem ganhando, o Hospital que – por determinação do Juiz - recebe seus atrasados e passa a reembolsar-se, mensalmente, daquilo que gasta no PS; a Prefeitura, porque assegura à população um bom serviço com o PS funcionando dentro do Hospital; e ganha a população que tem a continuidade no atendimento ao qual sempre se vale nas horas incertas.

E que todos, doravante, tenhamos um pouco mais de respeito para com a saúde da nossa gente pobre, gritando bem alto que nosso Hospital não está “falido”. Está, apenas, inadimplente como inadimplente estão todos os Hospitais Filantrópicos do Brasil. De Leopoldina, Muriaé, Ubá, Juiz de Fora, Belo Horizonte, Londrina, Manaus, todos, todos, todos, com raríssimas exceções as quais, aliás, desconhecemos.

- Por quê? Porque são necessários 30% de pacientes particulares (contra 70% de pacientes de SUS) para equilibrar as contas de um Hospital. Trata-se de cálculo comprovado há muito tempo, feito que foi pela Fundação Getúlio Vargas e pelo Ministério da Saúde.

Ora, a CCL chega a trabalhar com 90% de atendimentos pelo SUS! Ninguém tem culpa disto. A Constituição de 88 determina que todos têm direito à saúde e o Estado o dever de provê-la. O problema que estoura nas pontas (os Hospitais ficam na ponta do problema) é quem pagará a conta.

Subentende-se que seriam os cidadãos com seus impostos.
- Mas haverá impostos – e quem os pague – suficientes para dar saúde de boa qualidade a quase 200 milhões de brasileiros?

Aí, não vale o argumento simplório de que há roubos, furtos, etc. Desvios existem, sim, mas são gota d’água no que falta para dar saúde aos brasileiros. Todas as soluções que se preconizam são de longo prazo.

O que nós precisamos é viver em paz em nossa cidade e tentar, de uma forma ou de outra, tapar esse furo constante nas contas do Hospital com nossa solidariedade e nossa boa-fé. Sem dúvida, tem faltado boa-fé. Tem faltado lealdade política com a Casa de Caridade.
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(Publicado no jornal LEOPOLDINENSE de junho de 2008)

Intervenção no Hospital - Entrevista

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Outubro, 2003

GAZETA DE LEOPOLDINA - ENTREVISTA COM CONSELHEIRO DA C.C.L. JOSÉ DO CARMO SOBRE O DESATE DA PENDÊNCIA JUDICIAL, HOSPITAL / PREFEITURA, QUE TERMINOU COM A DESTITUIÇÃO DO PROVEDOR.

Gazeta - José do Carmo, o Prefeito de Leopoldina requereu ao Judiciário a destituição do Provedor da CCL. Sabemos que você, logo em seguida, se demitiu do Supremo Conselho do Hospital. Sua atitude decorre de discordância com a administração que entra.

JCR - Jamais. Minha atitude foi apenas de coerência e manutenção de um ponto de vista do que considero ser o melhor para a CCL: a Prefeitura na condução da CCL. Desde a gestão anterior, da qual tive a honra de estar à frente, o Hospital vem tentando, administrativamente e via judicial, devolver o Pronto Socorro à Prefeitura, para que ela assuma sua responsabilidade legal de dar atendimento condigno à população. Há quase três anos vimos buscando isto, sem sucesso. De repente é a Prefeitura que vai ao Judiciário e solicita tutela jurisdicional no sentido de destituir o Provedor e obter a indicação de outro, da confiança do Prefeito. O judiciário defere o pedido! A partir de então, já não é apenas o Pronto Socorro que passa à responsabilidade do Sr. Prefeito; é todo o Hospital! Acho bom. Nós vínhamos pedindo isto. Falta apenas consumar a pacífica transição administrativa à Prefeitura, mediante afastamento do Conselho. Fiz minha parte.
- O episódio só me entristece sob o ponto de vista do José Valverde, um homem honestíssimo, dedicadíssimo ao Hospital, que há ano e meio vinha dando, inteiramente de graça e por puro diletantismo, sua alma, sua paz, sua vida e até sua saúde que não é boa, em prol de uma causa justa, e se vê, de uma hora para outra, deixando o posto em circunstâncias tão imerecidas.
Gazeta - Você vê, então, a Administração Pública Municipal como boa gestora do Hospital?

JCR - Nem tanto. Sempre há o critério populista, nunca meritocrático inclusive porque o político sempre teme ser tachado de elitista. Privilegia o IBOPE escalando segundo time. Mas a verdade é que o atual modelo administrativo do Hospital tem 109 anos e ficou inteiramente anacrônico. Abandoná-lo agora, no meu modo de ver, pode ser o mal menor.

Gazeta - Como assim?

JCR - Os Conselheiros, que vinham escolhendo o Provedor, equivalem a “substitutos” dos fundadores do Hospital, ou seja, daqueles senhores que, um dia, puderam construir e manter a Casa de Caridade. A diferença é que esses substitutos, de hoje, não dispõem de meios para atender à enorme demanda de recursos que o funcionamento de um Hospital como o nosso exige. - Quem dispõe desses recursos? A Prefeitura, que é a quem a lei atribui função de gestora dos recursos públicos destinados à Saúde. Portanto, mudaram-se as circunstâncias, mudou a realidade. Um Hospital, como este de Leopoldina, que atende a mais de 90% de Segurados do SUS, tornou-se, diante dos fatos e do direito, uma “Instituição de Interesse Público”, sob fiscalização do Ministério Público e sob provimento da Municipalidade.
Deixou de ser particular. Saiu da esfera do Direito Privado. Tentar negar essa realidade é perpetuar o clima de animosidade – do qual a população não agüenta mais nem ouvir falar – entre Prefeitos e Provedores, ou seja, entre o Responsável que deve pagar a conta e quem está administrador por equívoco.

Gazeta - Mas você que deu tanto ao Hospital e foi tão entusiasmado por ele, agora fica fora?

JCR - Nunca. Como Leopoldinense, como ex-Provedor e como quem aprendeu a amar nossa centenária Instituição de Caridade, estarei sempre disponível para as pessoas honestas que realmente fazem a diferença ali dentro do Hospital, fazendo tudo que estiver ao meu alcance para que ele melhore cada dia mais. No que, aliás, não sou diferente de ninguém. A CCL é a menina dos olhos de todos os leopoldinenses.
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(Entrevista publicada na Gazeta de Leopoldina de outubro de 2003)

Rotary e a Poliomielite

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Junho, 2002

A um ouvinte menos avisado poderá parecer frívola a afirmativa de que Leopoldina tenha importância na erradicação mundial da pólio. Mas é verdade. Vinte leopoldinenses, operários do bem-estar social, trabalham para que em 2005 a Poliomielite esteja erradicada do Planeta Terra. São eles os vinte rotarianos da cidade.

Vem, pois, muito a propósito a notícia de que a Fundação Rotária do Rotary Internacional foi escolhida para receber o “Prêmio Gates de Saúde Global – 2002” conferido pela FUNDAÇÃO BILL & MELINDA GATES, no valor de US$1 milhão de dólares, em reconhecimento à extraordinária atuação de Rotary na área da saúde pública, mais especificamente pelos esforços envidados no programa rotário de erradicação da poliomielite.

Rotary Clube Internacional, do qual o Rotary Clube de Leopoldina é membro, já contribuiu com cerca de US$462 milhões para combate a essa terrível moléstia e mais de um milhão de rotarianos no mundo todo prestaram, e prestam, serviços voluntários empenhando recursos para imunizar cerca de dois bilhões de crianças em 122 países. Na América, a doença está vencida. Infelizmente, ainda incide em alguns países da África mas, decorridos os próximos três anos, não haverá criança sofrendo contágio em qualquer país do globo.

O prêmio da Fundação Gates não apenas reconhece esta nobre cruzada de Rotary contra a pólio, como também consagra outros projetos comunitários do Clube, empreendidos para a melhoria da vida e da saúde de pessoas em todos os países, sobretudo países pobres, seja apoiando programa de empréstimo rotativo a mulheres de Uganda; seja viabilizando projeto para diagnóstico e tratamento da tuberculose nas Filipinas; ou patrocinando o fornecimento de água potável em El Salvador.

Os sócios de Rotary recebem esse prêmio com grande humildade, mas orgulhosos do que ele representa em reconhecimento da importância crucial do Clube em ações de saúde pública em áreas carentes do mundo. Com muita honra para eles, o prêmio lhes foi entregue por William H. Gates (Bill Gates), no último dia 30 de maio, durante a 29ª Conferência Internacional, organizada pelo Global Health Council, em Washington, DC.

O que encanta em Rotary é que ninguém precisa possuir recursos materiais abundantes para entrar no Clube. Existem muitas formas de ajudar nossos semelhantes. No ano rotário 2001/2002, os sócios do Clube proclamam que “a humanidade é a nossa missão”, transmitindo encanto humanístico a todos aqueles que pensam um dia transformar suas vidas distribuindo o bem.

Dizem os rotarianos esperar que as pessoas de bem se acheguem a Rotary para que jamais se frustrem por ações humanitárias não concretizadas.
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(Publicada sob o título “Leopoldinenses Extirpam a Pólio no Mundo” no jornal LEOPOLDINENSE de 30.06.2002)

sábado, 18 de setembro de 2010

Um dado da fé

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Setembro, 2010

Percebe-se na imprensa, ultimamente, um clima meio borocochô em relação ao momento político. Aliás, não apenas na imprensa. Sem que se possa falar exatamente numa atmosfera de velório, o certo é que pra todo lado as pessoas estão, no mínimo, dando farol baixo. O instante é de apreensão.

Dilma como fato consumado para os próximos quatro anos é névoa seca que ofusca o ambiente. Sente-se uma irritação subterrânea com o eleitorado “zé mané”. A palavra não é decepção, é irritação mesmo, porque ninguém se decepciona com cincada previsível. Podia dar nisto e parece que vai dar.

Na verdade as pessoas até aprovam o governo do Lula e não negam a ele o direito de ter sua candidata. Difícil é entender a mágica avassaladora com que ele vendeu sua canhestra invenção à massa ignara.

Deus do céu!, ninguém conhece a Dilma! Se era para eleger um clone e seguir manobrando na sombra, porque não alguém com alguma disponibilidade empática? Dilma não é comunicativa, pisa duro, tem “gênio difícil” e fala muito mal. É desprovida de experiência política e não consta possuir flexibilidade para negociar. (Precisaria orientações minhas, mas eu não pretendo abandonar o Blog da Maria Helena…rá, rá, rá…)

A única virtude que não se negava a ela, para o exercício do cargo, que seria a austeridade, ficou arranhada a partir desse episódio Erenice.
É claro que mãe ministra sabe quando o filho pratica tráfico de influência no âmbito de sua jurisdição. E não menos claro que a chefe dessa mãe, amiga íntima trabalhando na mesma sala, também sabe. Uma sem-cerimônia alegar distância do que fez “o filho da amiga”… Ora, ora!

Ninguém está aqui para defender superioridade pessoal no candidato do PSDB, nem Serra é a ameaça da vez. Quem ameaça ser nossa presidente é Dilma. Portanto é nela que recaem os cuidados do eleitor consciente.
-Quem é dona Dilma? A propaganda omite, contorna, não esclarece.

Temos o direito de saber. Nascemos e nos criamos no país que Lula está “endossando no verso” para ela contabilizar. Não é que uma mulher não possa pilotar um Jumbo. Até que pode. Mas sem experiência mínima de duas horas de voo!

Não se trata também de insegurança fundada no passado dela, em suas escolhas de jovem militante. Pessoas destemidas são admiráveis. Ela colocava a vida em risco na mesma época em que nós, muitos de seus contemporâneos, defecávamos para uma ditadura militar impostora e comprávamos, a prestações, fuscas de calotas cromadas para impressionar garotas com o mesmo charme que ela perdia encafuada nos aparelhos.

O problema não é este. O problema é com a respeitável senhora Dilma de hoje, esta candidata cuja personalidade e preparo não se abrem com clareza em suas mensagens e exteriorizações. Como eleitores, ficamos à mingua de dados que nos permitam avaliá-la.

Dilma vem sendo assimilada pelos brasileiros como um dado da fé, a fé dogmática que seguramente só é professada por uma pessoa neste país: o presidente Lula. Ele fez o PT engolir Dilma goela abaixo e caminha para conseguir o mesmo dos brasileiros. Vamos precisar de sorte.
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Publ. em 16.09.2010, em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/mariahelena/